Kilian lembrava-se da sensação que fora viajar para Saurwo. Mas o planeta de sua mãe era mais distante, e a tecnologia para viajar era outra, que o dava sensações de enjoo constantes. Uma vez lhe falaram que barcos faziam isso também. É porque essas pessoas não tinham viajado nos famosos Buracos de Minhoca. Talvez tivesse até alguma lógica... Que Kilian não tinha paciência o suficiente para elaborar, de qualquer forma.

Mas pisar em solo Autaríano foi completamente diferente de pisar em Saurwo. Kilian não sabia se era o fato de ser a terra natal da mãe, mas ele sentira uma amargura que estava se tornando uma conhecida sua.

A mãe iria chorar com o estado em que sua terra natal se encontrava.

Autares já não possuía seu glamour de antigamente. A guerra civil que se instaurara no planeta, ainda quando a mãe era uma criança, destruíra-o completamente. O solo já não era mais fértil e Kilian podia reparar em toda a estrutura que uma vez formava casas, prédios, cidades, estados, países... abandonado.

Era o que ele aprendera que os Exploradores chamavam de Planeta Fantasma. Ele existia, a vida ainda existia, mas era somente um reflexo obscuro do que já fora um dia.

Da nave mesmo, Kilian sentiu algo que não soube definir bem. Fez com que se arrepiasse diante da visão de uma cidade destruída. Ativando seu controle central, descobriu ser Amorita, a cidade Central de Autares. Ou, pelo menos, o que era a cidade Central de Autares.

Não pode deixar de pensar que aquilo parecia um filme pós-apocalíptico de seu planeta natal.

Kilian preparou-se para a descida. Com a missão focada em mente, deixara os arquivos do irmão de lado temporariamente. A nave estava com o sistema de camuflagem ativado, assim como o sistema de segurança. Também estava logada em rede, para caso precisasse de ajuda urgente da Base. Coisa que ele queria evitar a qualquer custo. Mas ele sabia que sua missão era perigosa.

Seu uniforme, no início, era bem desconfortável. Kilian sentia-se quase vulnerável naquela roupa, até receber o primeiro Tiro de Energia, também chamado de feixe de partículas, em meio a um treinamento e sair inteiro da experiência. Então ele se forçara a adaptar-se a ela. Era ajustada ao corpo, com placas extremamente finas de um metal encontrado somente no planeta Querniac. Flexível e modelável a vontade. Extremamente resistente a altas temperaturas e uma proteção fundamental para os Exploradores. Em compensação era relativamente frágil a armas do estilo perfurante, principalmente as biológicas. As luvas eram forjadas para similar o toque humano. Era um tocar sem tocar. E finalmente o capacete. O capacete acoplava os óculos SIAA, chamados ironicamente de Capacete, e, além de proteger a cabeça, tinha a função de similar o Oxigênio em planetas que não o possuíam, ou o tinham em quantidades ínfimas, ou ainda possuíam mas também tinha gases tóxicos juntos... Enfim, para qualquer adversidade que dificultasse a respiração. E isso incluía nadar embaixo d’água ou enfrentar incêndios. A arma era especificamente com Tiros de Energia, que podia funcionar como um tiro fatal, ou ainda um tranquilizante, que afetava o sistema elétrico do ser vivo, paralisando-o.

Kilian odiava aquela arma.

Apesar de utilizá-la e ser bom com ela, nas poucas missões em que fora descobrira que não servia para aquele negócio enorme. Ela pesava em mãos, e limitava seus movimentos de forma a quase sentir-se desprotegido. Sua saída fora adaptar suas limitações a uma arma que se encaixasse com ele. Apesar da EnRos ser a arma padrão dos Exploradores, a base tinha uma infinidade de escolhas.

E Kilian gostava do Bo. Leve, adaptável, flexível, desmontável, encolhível, fatal. O Bo não passava de um bastão longo de metal Querniac, com umas modificações que ele mesmo fizera, com a ajuda dos pais quando fora para casa, melhorando-o absurdamente.

Ele não era mais um simples Bo. Era o seu Bo. Como Dilian diria, agora ele era o Bo do Kilian, sendo parte do próprio, carregando suas características e seus dados tecnológicos. Fazia parte de si.

E ele gostava dessa arma.

Adaptara-a para corresponder ao seu sistema interno. O Bo carregava nanochips que conectavam-se aos seus próprios assim que estava em contato com o metal. A ligação entre esses chips possibilitava que Kilian repassasse sua energia interna para o metal, carregando-o de eletricidade própria.

Kilian buscou os bastões de esgrima estrategicamente acoplados em suas costas. Ele chamava de Bo porque os bastões se uniam formando uma única haste, como o Bo. Ajeitou as luvas e iniciou seu SIAA, sentindo-se melhor pela tecnologia lhe dar uma boa vantagem sobre qualquer aproximação estranha.

Ele praticamente decorara os arquivos que lhe foram passados. Sua missão era relativamente simples, apesar de complexa. Tinha de resgatar os sobreviventes que estavam em cativeiro. O pedido de ajuda chegara há pouco tempo na base, e eles lhe enviaram para averiguar a situação e resgatar aqueles autaríanos, de preferência sem causar mortes.

O incrível, a guerra civil ainda não acabara. Enquanto saía de sua nave e caminhava sorrateiramente entre os destroços da antiga cidade, Kilian repassava a história que sua mãe já lhe contara diversas vezes sobre sua terra natal.

Eles eram como os humanos. Passaram os anos se adaptando as mais diversas situações, desenvolvendo tecnologias, subjugando outros planetas. Guerreando entre eles próprios.

Mas, diferente dos humanos, Autares abrigava duas raças distintas. Uma se autodominava Autaríanos Superiores, a raça da mãe e a segunda eram os Autaríanos Indistintos. Essa segunda, por sua vez, eram a minoria do planeta, sendo eles completamente diferentes dos Autaríanos Superiores e, consequentemente, excluídos como tais.

A raça humana nem mesmo tinha diferenças de raça, e mesmo assim eram tão ignorantes quanto o povo da mãe. Ou, pelo menos, foram, no passado. Apesar de Kilian ainda sentir receio de toda a cagada que os terrestres conseguiram realizar ao longo dos milênios.

Os Autaríanos Indistintos se organizaram durante décadas e juntaram uma força armada forte o suficiente para combater os Autaríanos Superiores. Então a Guerra Civil começou. A raça da mãe, por estar despreparada, foi subjugada logo no primeiro momento. As mortes foram incontáveis e os capturados tornaram-se escravos. O planeta entrou em catástrofe e então a guerra civil destruiu com a energia, com o solo, com as cidades, com a vida em si.

Poucos autaríanos conseguiram fugir daquele cenário, espalhando-se pela galáxia. Apesar disso, eram considerados uma raça em extinção. E eles ainda se encontravam em guerra. Uma guerra agora que se tornara primitiva.

O cenário ao seu redor era uma prova de tudo que a mãe lhe contara durante sua vida.

...

— A sensação que aquela destruição toda me dava era inconfundível. Eu estava no meio dos destroços de uma cidade Central, como acontecera em Saurwo. Era um cenário que se repetia em minha mente. Mas eu tinha que encontrar aqueles sobreviventes. — Kilian assumira uma expressão determinada, como se ele ainda se encontrasse na missão. O barulho da água e dos animais contradiziam com toda a história que Emir estava ouvindo.

— Você conseguiu encontrá-los? — A curiosidade passava a consumir Emir. Ele não sabia como Kilian conseguia fazer aquele suspense todo, mas também não reclamava. Estava conhecendo o garoto cada vez mais, graças a aquilo.

— Sim e não.