Kilian mal voltara para a tropa quando, finalmente, fora designado para uma missão solo. Ele ainda tinha sentimentos conflitantes sobre seu retorno aos Exploradores, se era o certo a se fazer, se fora o certo abandonar seus pais novamente, sobre seus sentimentos quanto a morte do irmão e principalmente sobre Ana. Ele não tinha mais a visto, mas Jora fazia questão de mantê-lo atualizado sobre como a mulher estava.

Ele fingia não importar-se, mas há muito ele perdera para si mesmo. Se preocupava com a mulher e, apesar de ela esconder coisas dele, ainda tinha aquele sentimento intenso que desenvolvera por ela ao longo do relacionamento de ambos.

Mas não fora visitá-la, não quando obteve os detalhes de sua própria missão.

— Senhor, posso fazer uma pergunta? — Ele normalmente não se dirigia aos seus superiores por simplesmente não ter vontade. Tinha mais coisas que fazer do que ficar conversando com os outros, ainda mais outros que o mantinham sob vigilância constante. Apesar do mais velho franzir o cenho em estranhamento, ele assentiu, curioso pelo interesse de Kilian. — Muitos Exploradores estão há mais tempo na tropa que eu, porque fui designado para uma missão desse nível?

A sua própria curiosidade era latente. Ele ainda tinha os documentos abertos a sua frente em sua tela transparente aberta pelo Sistema de Inteligência Artificial Auxiliar acoplado em seu Capacete, que, desde que entrara para os Exploradores, adquirira a tecnologia por ser de grande ajuda. Na verdade, o Capacete não passava de um óculos, mais como uma viseira, que podia ser acoplado ao real capacete, que tinha o dever de protegê-los em missão. Os documentos abertos eram todo o relato minucioso que lhe passava uma sensação de vigilância constante, a mesma vigilância que sentia ao estar dentro daquelas paredes.

— Algumas coisas, Explorador Luren, são escolhidas pela intuição. — A surpresa foi visível em sua expressão. Ele não esperava esse tipo de resposta. O velho homem sorriu, calmamente, para o garoto. Ele se levantou, mostrando sua fragilidade humana, que ainda impressionava Kilian. Era um dos poucos que se negara a ter a vida facilitada pela tecnologia, permitindo-se envelhecer naturalmente e passar pelos sinais da velhice. Sinais esses que se caracterizavam pelo óculos que usava para enxergar de perto, pela bengala que o ajudava a caminhar, apoiando-se nela pelo seu leve encurvar, as rugas e a pela flácida, assim como os cabelos grisalhos. Kilian aprendeu a reparar que os Exploradores tinham essa tendência de querer envelhecer, o contato com a verdadeira natureza. — Eu tinha essa mesma sensação com seu irmão. Sei que ainda vai nos impressionar, Kilian. — O senhor pegou um suporte fotográfico. Ele digitalizava imagens, passando-as como filmagens ou fotos. Entregou-o para Kilian, que ficou alguns segundos encarando a tábua sem entender. — Está dispensado, Explorador.

Kilian bateu a continência no automático, ainda encarando o suporte em suas mãos. Era um suporte antigo, quase que em desuso atualmente. A surpresa ainda estava estampada em sua face, mas ele tentou se recuperar e voltou-se para a porta, quase de saída.

Ele não soube o que o fez parar naquele momento, mas sabia que era a única oportunidade de fazer aquela pergunta.

— Senhor...? — Ele nem mesmo chegou a pedir autorização quando um leve “hmm?” pode ser ouvido, autorizando-o a continuar. — Sobre a última missão do Dilian...? — Ele virou-se para encarar o outro, que agora estava em uma posição tensa. Kilian sentiu seu coração apertar novamente, mas não sentiu aquela raiva explosiva de quando descobrira que Ana sabia de algo e nunca lhe contara.

— Algumas coisas devem ser deixadas como estão, Explorador Luren. — O silêncio se instaurou entre eles, e somente depois de alguns longos segundos Kilian pode ver novamente a cor castanha dos olhos do senhor de idade. — Mas algumas coisas são simplesmente impossíveis de serem esquecidas. Meu conselho é para que tomes cuidado, rapaz.

Kilian assentiu, e deixou aquela sala rapidamente. Ele tinha muita coisa em mente e sentia seu corpo formigar com a súbita descarga de adrenalina que sentira naquele ambiente. Ao chegar em seu alojamento, ele jogou-se em sua cama, passando a ler os arquivos que lhe foram entregue sobre a sua missão, esquecendo o aparelho que o outro lhe entregara ao seu lado.

Foi somente depois do jantar, depois de conversar com Jora e retornar para seu alojamento que ele lembrou-se do aparelho largado sobre sua cama. O aparelho recebeu energia suficiente para ser ligado, e Kilian não tardou a fazê-lo, sentindo a curiosidade impulsionando-o a seguir em frente.

E, se não estivesse sentado em sua cama, tinha certeza de que teria caído.

O aparelho em suas mãos era o aparelho de Dilian. Um velho suporte fotográfico que o mais velho modificara ainda quando os dois eram crianças. Kilian deveria ter reconhecido. A vida de Dilian estava naquele aparelho.

O coração apertou assim como um nó formou-se na garganta. Teve a certeza de trancar a porta antes de acessar seu SIAA, abrindo a tela transparente na função invisível. Ele digitalizou todas as informações do aparelho do irmão para dentro do seu computador portátil e salvou-os com senha, mesmo tendo a certeza que ninguém nunca conseguiria invadi-lo. Segurança naquele momento nunca era demais.

E então ele travou. Ele sabia o que deveria fazer. Ele sabia que deveria formatar o aparelho, reiniciá-lo as funções padrões e talvez destruir seu chip de memória. Mas aquilo era parte de Dilian.

Alguém bateu na porta de seu alojamento e Kilian se viu confirmando a exclusão de todos os arquivos, jogando o aparelho para de baixo de seu travesseiro antes de abrir a porta. Ele ainda tinha que reconfigurar as funções do aparelho e até fazê-lo, os arquivos ainda poderiam ser recuperados.

Deu de cara com Ana em sua porta. Mas não era mais a Ana que conhecera. Seu olhar perdera aquela característica sua tão irritantemente respondona. Ela agora estava ferina. Era quase uma assassina.

— Eu não sei o que aconteceu com Dilian, não exatamente, mas sei que foi a mais pura traição. Eu estou com você para descobrir os motivos de sua morte. — Kilian não soube exatamente o que responder. Ele ainda estava levemente abismado, encarando a loira com uma preocupação visível. Antes mesmo que pudesse ter uma reação, Ana o beijava, daquela sua forma selvagem, meio animal, e dominadora.

E ele se viu correspondendo.

Na manhã seguinte, quando levantou-se, Kilian reparou no corpo de Ana. A perna robótica era bruta, exatamente como a personalidade da mulher. Nada de parecer humana. Ela queria que fosse o mais natural possível, quanto mais metal, melhor. E mesmo assim, ainda parecia uma perna. Kilian se viu acariciando o metal com crescente curiosidade. Ele nunca entender a biotecnologia, mas ela era incrível de perto. A outra perna, que era somente do joelho para baixo, era tão impressionante quanto. Ana conseguira se adaptar bem àquele equipamento em menos de seis meses. Não completamente, como veria futuramente, ela ainda tinha muito para se adaptar com o equipamento, mas na época já caminhava razoavelmente bem e não sentia tanta dor.

Kilian abandonou a parceira em seu sono, não sem antes beijar a nova cicatriz da companheira. O símbolo da toxina que tirara parte de sua sanidade. Uma forma de arranhão em toda lateral esquerda, da coluna a barriga, largo e extenso.

...

— Em uma semana eu parti para o lugar em que minha mãe nascera, e que já não tinha nada de sua glória do passado. Minha primeira missão solo. — O garoto soltou um suspiro alto e longo. Parecia cansado, passando a massagear a lateral da cabeça com as duas mãos. Gesto que Emir descobriria ser característico do garoto.

— O que aconteceu com o aparelho? — Kilian voltou a encarar o homem, soltando outro suspiro.

— Eu o destruí. Depois de reconfigurá-lo eu levei comigo para a missão, e joguei-o em uma cratera. Uma das últimas mensagens que Dilian me deixara. — O homem se perguntou o que aquela frase significava, e então os olhos bicolores se voltaram para ele, prendendo-o. Sua expressão trazia uma indiferença que era enganada pela mágoa em sua voz. — Ele sabia que iria morrer naquela missão, Emir.