Kilian
5 Kilian
A primeira vez que tivera permissão para visitar seus pais, só fora possível um ano após entrar na tropa. Ele tinha duas teorias principais para isso. A primeira envolvia seu irmão. Ele não era tão bom quanto o mais velho, não atingida as expectativas que seus superiores tinham para ele e não merecera ter seus caprichos realizados. Essa era sua teoria pessimista de vida, sempre se rebaixando em comparação ao mais velho. A segunda também envolvia seu irmão, mas em uma perspectiva de controle. Ele desconfiava que fora mantido mais tempo perto, para que assim seus superiores soubessem se ele desconfiava de algo, se sabia de algo e, ainda, se era confiável.
Kilian não tinha exatamente uma resposta do porque fora impedido até aquele momento de rever sua família, mas era uma pergunta que estava constantemente irritando-o.
Ele falhara com seus pais, de qualquer maneira. Desde que o irmão morrera, Kilian deixara seus pais de lado para contemplar unicamente sua dor. Em sua concentração de chegar a perfeição para a tropa, antes mesmo de estar nela, fez com que abandonasse completamente a tradição das Três Perguntas. Esqueceu-se que agora era o único filho e que seus pais precisavam dele. E, pior de tudo, diferente de Dilian que procurava mandar mensagens todos os dias, Kilian evitara completamente o hábito do irmão. Suas mensagens não eram tão periódicas e, normalmente, eram respostas a alguma mensagem de seus progenitores.
Sua falha não tinha perdão, mas ele tentou justificar-se por muito tempo com desculpas. Ele tentara diversas vezes mandar uma mensagem aos pais por vontade própria, mas todas elas eram impedidas pela sombra de Dilian... E ele estava tão errado que chegava a ser constrangedor lembrar-se disso. Envolvia a imagem de tentar ser como o irmão, de repetir os atos dele, de lembrar aos pais do mais velho. Ele sofrera com a ideia de que não deveria ser comparado a Dilian, por ser inferior.
E utilizar-se de um hábito que o mais velho desenvolvera antes, criara em sua mente uma falsa ideia de tentar substitui-lo, roubar seu lugar. Isso, agora via, fez com que se afastasse mais ainda dos pais, que certamente precisavam dele.
Assim como ele precisava deles.
Sua volta não foi avisada. Ele não teve coragem o suficiente para fazê-la. Talvez fosse a culpa o assolando, ou até mesmo o medo da reação dos pais, mas não avisou.
E programou sua chegada para a hora do jantar.
Ele se lembrava da última vez que sua mãe fizera as três perguntas. Ele nunca as respondera. E elas não eram nada científicas, eram perguntas de mãe. Uma mãe preocupada com o filho que se afastava cada dia mais.
A porta foi atendida pela mãe. Kara estava usando óculos, coisa que nunca precisara antes. Seus cabelos vermelhos continuavam vibrantes, mas ela nunca parecera tão velha aos olhos do mais novo. E a cara de surpresa trouxe um sorriso ao seu rosto e um gosto amargo a boca.
— Eu sinto muito pelo que aconteceu ao Dilian, e eu sinto muitas saudades do meu irmão. — Primeira pergunta: Como estava lidando com tudo isso. — Eu gostaria de saber o que aconteceu naquele dia, e em um ano eu avancei muito pouco dentro da tropa de Exploração, nesse quesito, mas eu descobri coisas que um sentimento chamado vingança me impedia de ver. Eu descobri a importância de ter minha família e de confiar nas pessoas. — Segunda pergunta: O que realmente importava. — Eu amo vocês, eu fui um idiota. — Terceira pergunta: Por que Kilian se afastara tanto.
A mãe não segurou as lágrimas. Mais do que uma emoção muito forte, Kara estava finalmente aliviada. Kilian juntou-se a ela no abraço, chorando igualmente. Chorando o que não se permitira chorar desde que explodira a primeira vez sobre o corpo de Dilian, desde que chegara a conclusão funesta do que realmente acontecera ao irmão e desde quando se encontrara a primeira vez com Ana.
A única mochila que trouxera junto foi abandonada na sala, e a mãe o levou, segurando sua mão, para a cozinha, onde o pai estava a por a mesa. Ele não pareceu surpreso com seu regresso, porque provavelmente estava de olho nos dois, e apenas abraçou o filho de forma apertada, segurando-o por longos segundos antes de finalmente soltá-lo. Não chorara, mas Kilian conseguia ver como estava emocionado e as poucas lágrimas que se formavam nos olhos, que foram rapidamente secadas pela mão grande do cientista.
Kilian sentou-se a mesa com os pais, como não fazia há muito tempo, e mais sorriu naquela noite, olhando-os, do que comeu. Os dois se tornaram ainda mais íntimos com todos os acontecimentos passados, mas ainda conseguia ver claramente como Kara era o centro daquela relação.
Como conseguira ficar tanto tempo longe dos pais, isso não conseguia entender.
Quando já estava deitado em sua cama, a mãe apareceu no quarto. Ela estava com as roupas largas do pai, que ficavam curtas em seu corpo por ser maior que ele, e sentou-se em um canto na cama, acariciando seus cabelos. As palavras não se faziam necessárias, porque nenhum dos dois queria dizê-las. Eles estavam juntos novamente, isso que importava. Kilian abriu as cobertas e a mãe deitou-se com ele, abraçando-o.
Ele sentiu falta daquele contato. Sentira falta da família. E ele sabia que seus pais sentiram o mesmo.
Quando acordou, a mãe já não estava mais ao seu lado, e soube o motivo assim que encarou o horário. Os dois já deviam ter saído para trabalhar há pelo menos umas três horas. Estava tão cansado que apagara completamente. E não era exatamente um cansaço físico.
Levantou-se e encarou a cama do irmão. O quarto era exatamente o mesmo. Os dois nunca quiseram ter um quarto próprio, como os pais propuseram diversas vezes. Kilian se sentira muito solitário quando o irmão passara a viver com os Exploradores.
Com calma, acessou o código que abria os armários em seu quarto. Gavetas e portas embutidas na parede, dando a sensação de que o cômodo era maior. Os pais não se desfizeram de absolutamente nada daquele lugar.
Suspirou, com um curto sorriso, e puxou o capacete do irmão, que ele incluíra seu SIAA pessoal. Com um ano de experiência com os Exploradores, ele pensara que talvez fosse encontrar o código para acessar aquele aparelho.
E, novamente, nada.
Os pais voltaram mais cedo para casa naquele dia, com a intenção de aproveitar o filho que estivera tanto tempo ausente. Kilian ficou com eles, feliz de estar junto aos mais velhos novamente, mas com aquela maldita preocupação que o envolvia desde que Dilian morrera.
...
O silêncio prolongou-se desde que Kilian perdeu-se em seus próprios pensamentos. Sua expressão mudara durante o relato, sendo possível para Emir ver a tristeza e o arrependimento no garoto. Ele pensou em diversas formas de consolá-lo, mas, por algum motivo, mantivera-se quieto, ouvindo o relato do mais novo.
Até o momento, aquele fora o menos problemático.
— Podemos só mudar de assunto, se preferirdes. — Emir era um homem velho, ele entendia que algumas coisas eram difíceis de serem pronunciadas.
O menino voltou sua atenção para ele e sorriu. Emir não tinha o visto sorrir para ele até o momento.
— Obrigado, Emir.
Fale com o autor