Kilian
17 Kilian
Emir despertou antes que o previsto. Ele fora expulso da mente do outro tão rapidamente quanto tivera a permissão de invadi-la. Encarou o rosto que antes estivera entorpecido, para encarar os olhos bicolores o encarando. Ele finalmente reparara na unicidade que era aquela cor.
Uma garota alta, musculosa, de olhos escuros e cabelos loiros amarrados no topo da cabeça segurava uma seringa sem nenhum conteúdo dentro com um rosto entediado.
— Vocês demoraram. — A voz de Kilian era diferente na vida real. Ele passava perigo, como sempre passara, ao mesmo tempo firmeza. Era mais grossa, com um tom divertido. Não tinha aquilo de memória e Emir reparou que fora manipulado até aquele momento.
— Desculpe, vossa majestade. Suas memórias eram importantes demais para serem interrompidas. Foram essas as suas ordens. — E ele podia ver a insanidade de Ana, mesclada nos olhos e no sorriso, assim como no jeito agitado. Ela afastou-se e caminhou até a parede, instalando dispositivos detonadores. Kilian acariciava os pulsos não mais presos.
— Não lhe contei o que aconteceu depois, certo, Emir? Pode viver os últimos anos da sua vida sem saber o final da história, ou vir conosco. — Ele já se levantava, esticando o corpo, ouvindo-o estalar. — Conseguiram tudo que pedi, Ana? — A mulher apenas assentiu, afastando-se da parede. Ao contrário do que esperava, a explosão não acontecera, e Emir viu pela primeira vez uma parede simplesmente desaparecer em frente aos seus olhos.
Emir encarou a porta atrás de si, seu movimento sendo acompanhado pelos olhos de Kilian. Eles tinham uma sintonia depois de tanto tempo juntos dentro de sua mente, e sentia certa empatia pelo senhor de idade.
— A nave nos espera, Kili. — Ela já estava no buraco da parede. Não sabia dizer quantos metros estavam acima do solo, mas a loira simplesmente pulou.
— Quantos anos tem, Emir? — O homem sussurrou: “— Muitos”, enquanto encarava o lugar onde a loira sumira. — Então sabe que sua carreira está acabada depois disso tudo. Venha comigo. — Não era uma ordem. Era um pedido.
E Emir negou.
— Eu vou saber sua história, Kilian. Eu sei que ainda vou ouvir falar de você.
Kilian sorriu, levemente, assentindo. Caminhou em direção ao buraco, encarando o céu acima de si.
— É. Mais breve do que pensa, Emir. — E pulou. Simples assim.
Antes que pudesse pensar sobre mais alguma coisa, a porta foi aberta bruscamente e ele viu seu jovem parceiro aparecer afoito a sua frente, lhe falando diversas coisas que não entraram em sua cabeça. Ele só conseguia pensar naquele garoto desaparecendo e em todas as memórias manipuladas que adquirira. Em como ele próprio fora usado como cobaia, ao mesmo tempo em que testava o outro.
Tudo passou devagar a sua frente, vendo finalmente o sorriso do garoto. Era isso que importava. Não viu que rira de forma anasalada, mas seu parceiro achara tudo isso estranho.
...
Kilian observava o prédio afastar-se rapidamente. Ele tinha boas memórias do senhor que estava lá, parado, esperando. Sabia que ele ia se livrar das acusações, mas não conseguia deixar de estar preocupado. Era isso que acontecia passar muito tempo com uma pessoa em sua mente. Empatia. Conhecimento. Ele conhecera mais sobre Emir que Emir sobre si próprio.
Sua própria história não terminara, ainda.
Ele não contara para Emir, mas a despedida com Ras’Shire não fora fácil. Ele descobrira outra forma de amor. Uma mais pura da que sentia pela própria família, mais pura da que sentia por Ana.
Suas memórias voltaram para Ras’Shire antes mesmo que percebesse.
— Passou muito tempo chapado. Aceita? — Pierail brotou ao seu lado, oferecendo aquela coisa fedorenta. Negou, com um menear de cabeça, apoiando-se na janela da sala de convivência, que era logo após a sala de controle.
— Sabíamos que iria ocorrer. — Ele tinha os olhos ainda voltados para o céu, com uma impressão de que não via o azul há muito tempo. Talvez fosse verdade.
— Sim, sabíamos. Pronto para a parte final do plano?
Antes que pudesse responder, estava imerso em seus pensamentos de novo. A mensagem final de Dilian não passava de um código. Um maldito código em que ele passara os últimos sete anos atrás dele. O código de SIAA de seu irmão.
Assim que retornaram a Base, foram abordados com a burocracia de papeladas e toda a putaria que envolvia uma missão. Daquela vez fora mais complicado. Forjaram uma história que era em parte verídica, em parte invenção. Mas, no final, estavam liberados. Depois dos mais diversos exames, testes e assinaturas, Kilian finalmente pode visitar seus pais.
Suas mudanças físicas foram questionadas minuciosamente, assim como uma bateria de exames tivera de ser realizada. Uma que também já tinha sido feita na Base, por conta de seu relato e de suas mudanças. O pai reconstruíra seu Condutor de Pulso Elétrico e ambos os pais ficavam em cima dele sempre.
Foi com eles que destravou a mensagem de Dilian e, finalmente, o SIAA.
Talvez tenha sido um baque muito forte para a mãe, mas a primeira coisa que saltou do SIAA destravado era o rosto sorridente de Dilian. Ele parabenizava o irmão por ter ido tão longe, dizia que sempre acreditara nele, e então falava aos pais o quanto os amava, mas que a partir dali a mensagem pertencia a Kilian, e somente a Kilian.
E ela continuou quando estava sozinho.
Dilian contou sobre Ras’Shire, sobre como sabia que iria morrer e tudo que fizera para deixar todos a salvo.
Sua mensagem final era para que Kilian recomeçasse a Terra.
Após a mensagem finalizar, com o rosto de Dilian parado, como uma imagem atemporal, Kilian se permitiu chorar. Ainda mais ao tentar tocar no irmão e sua mão transpassar o holograma. Ele tinha saudades do outro. Ele tinha tantas saudades que só agora reparava nela.
Então teve acesso a todas as memórias dele e a tudo que acontecera.
Gravou rostos, nomes, ocasiões. Gravou a mensagem de Dilian e tudo que ele queria que fizesse. Ele ia finalizar o plano do irmão e tinha condições para fazê-lo.
Ele só tinha que destruir o governo central e a tropa de Exploradores. Ele tinha que destruir a Base, o centro de tudo.
Foi abandonando a Base que fora considerado um criminoso. Ao matar o Capitão da Base, um traidor de alto nível, e assim foi preso.
E solto.
— Tudo já está preparado? — Kilian voltou seu olhar para Pierail. Ele assentiu. — Então detone.
Ao longe, Kilian viu a Base explodir. Fogos, brilhantes. Ela detonava, seus pedaços caindo sobre a cidade central. O que seria da Terra sem o governo que se instalara sem que seus moradores percebessem? O que seria a Terra agora, sem a tropa de Exploração? O que seria dos outros planetas agora que estavam livres?
Era um erro os humanos terem tudo registrado em um só local. Todas as autoridades em um só local. Toda a central de controle dos nanochips em um só local. Era um erro que Dilian descobrira e que instruíra Kilian a exterminar. Um erro que Kilian agradecia por existir.
Kilian não ficou na Terra para saber o que iria acontecer a ela agora.
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