Kilian

18 Posfácio


A primeira mudança que Kara sentiu foi que seu corpo estava livre. Era algo que, mesmo com a defesa que seu marido criara, era novo. Uma sensação libertadora de sentimentos. Ela foi a primeira a sair na rua, e ver que todos seus vizinhos estavam abismados. A tela central do prédio a frente mostrava uma notícia de última hora. A Base fora destruída.

O que Kara estava sentindo, todos os humanos, todos os que se tornaram terráqueos estavam sentindo. Era o gosto da liberdade. A verdadeira liberdade. Não eram mais vigiados e seus corpos não eram mais controlados. Seus hormônios eram seus. Assim como seus movimentos.

A primeira coisa que fez foi arranhar-se, até ver o sangue escorrer. Ela nunca faria isso se tivesse controlada. Ela nunca poderia machucar seu próprio corpo, porque a tecnologia dentro dela a impedia, protegendo-a. Ela teria parado no momento que sua pele ficasse sensível, uma toxina que diria para seus neurônios paralisarem.

Ela estava chocada, olhando o sangue escorrer de seu braço causado por ela própria.

Em sua mente, somente Exploradores tinham tal liberdade. A liberdade verdadeira, ainda que controlada.

A segunda coisa que fez foi puxar o marido e beijá-lo, em frente aos vizinhos. Algo que nunca faria antes, por recato. Um beijo digno de um ato sexual.

Ela adorava aquela sensação de liberdade.

E aquela mesma sensação era compartilhada por todos os habitantes terráqueos.

Eles não precisavam de um governo dominando-os. Eles precisavam continuar respeitando ao planeta em que viviam e instaurar a paz entre seu povo, abrindo os braços para os estrangeiros e impedindo que os controlassem novamente, não controlando mais nenhum planeta como acontecera antes da Base cair.

...

Emir demorou um tempo para saber que fora completamente manipulado. As informações, apesar de verdadeiras, foram pintadas como um quadro de uma paisagem qualquer. Era real, mas mostrava somente um ângulo da coisa, uma luz, uma verdade. Kilian soubera disso desde o início, ele sempre soubera que, naquele dia, seria interrogado, que seria Emir e já tinha tudo planejado para sua fuga.

Seu último presente, o SIAA de Dilian.

Uma mensagem escrita era breve, mas com um carinho verdadeiro. Uma verdade. “Transforme-o em um herói”.

Kilian deixara sob responsabilidade de Emir que a história fosse repassada e, assim como ele pintara uma verdade, era a vez do senhor de idade pintar outra, retratar os acontecimentos perante a sua visão e, melhor ainda, misturados as memórias do próprio Dilian e aquelas que Kilian plantara propositalmente no SIAA do irmão.

A História sempre fora manipulada de acordo de quem a escrevia, das suas visões e, principalmente, das visões da época. A Terra precisava de um herói, e Kilian dera um. Os podres poderiam ficar enterrados na história para sempre.

Emir ia providenciar aquele último pedido.

Ele não dera somente um herói para a Terra. Para as galáxias. Ele escreveu e eternizou a história de dois heróis, um amor e um objetivo em comum: A verdade.

...

— Você voltou. — Comentou para o nada, sob as folhas prateadas da árvore da vida. Ele tinha um sorriso discreto nos lábios, acompanhados da dor que sabia, ia vir. — Para onde vai agora? — A pergunta era retórica, sabia que ele não iria ficar.

— Para onde precisam de mim, Ras. — Tão parecido com o irmão mais velho. O apelido fez com que se voltasse para o outro, vendo-o caminhar até si, confiante. Era o mesmo garoto que conhecera. O mesmo prepotente, com ideias malucas de revolução e um sorriso que sempre acompanhava seus lábios. Os cabelos cresceram novamente, e agora eram bicolores, entre o negro e as mechas naturais e vermelhas. Os olhos se tornaram coloridos e ele gostava do que via.

Era mais baixo, mas toda a vida mais dominante.

— Quem mais conhece você como eu? — Suas mãos cobriram a face de Kilian. Eram grandes comparadas ao mestiço, sabia disso. A risada saiu curta, enquanto ele esfregava o rosto contra a palma de sua mão.

— Minha equipe, mas principalmente você. — Lembrou-se da forma como manipulara sua personalidade para Emir, assim como as de seus companheiros. A história precisava de heróis, e não de pessoas humanas. Humanas como eles. Intensas. Verdadeiras em sentimentos. Manipuláveis por eles.

O beijo aconteceu como da primeira vez, daquela forma calma, acompanhada pelos sons da floresta e a brisa refrescante. Era verão. Era agradável aquela noite para tirarem as roupas e se amarem sob a árvore da vida.

Ao amanhecer, Kilian já estava de roupa novamente, beijando o rosto de Ras’Shire.

— Preciso ir. — Ele sabia que o outro não ficaria. — Não vou voltar.

Suas mãos se entrelaçaram e havia tristeza nos olhares.

Era necessário.

Kilian tinha que desaparecer, para sempre, dos planetas que o conheciam, dos próximos ao que sabiam seu nome, sua aparência. Tinha de ir para o mais longe possível. Não podia, nunca mais, estabilizar-se em lugar nenhum.

Ele era um herói para alguns, um anti-herói para outros e um demônio para a maioria. Era inatingível, principalmente. Era uma sombra e tinha que sumir, protegê-los de sua própria existência.

— Se chegarem até esse planeta, proteja-o com todas as forças que ele possuí. Faça valer o título de inabitável. — O pingente que ganhara de Sumir agora estava no pescoço de Ras’Shire.

Um último beijo.

A nave estava no local de sempre, e Kilian encontrou Ana parada sobre a porta. Ela adquirira o vicio de Pierail, como se sua insanidade não fosse suficiente, e esperava seu retorno tranquilamente.

— Partimos? — Ele olhava para trás, tentando identificar onde abandonara aquele ser único no universo. A memória o acompanharia pela vida curta que ainda teria, e que não tinha conhecimento disso.

— Partimos. — Jora apareceu sob o arco de entrada, apoiando-se ali.

— Para onde vamos? — O silêncio instaurou-se por alguns segundos, enquanto Kilian desistia de encontrar o que nunca poderia ter. Era a resposta mais sensata.

— Para longe de tudo isso. Um novo planeta, talvez. Nunca visitamos a décima quinta galáxia. — Ana soltou uma risada anasalada, jogando o negócio no chão antes de pisar sobre ele e ter certeza que estava apagado. Jora deu de ombros, entrando.

Era somente eles três dali para a frente. E eles desapareceram para sempre.

...

Quem contava a história era uma mulher de idade, com cabelos vermelhos perderam a vivacidade. Já não possuía o vigor de antigamente e também não tinha a beleza da juventude. Não era mais uma Exploradora. Não tinha mais um título no governo, porque não existia mais um governo.

Nem mesmo se chamava Sumir.

— Vovó, como Kilian simplesmente desapareceu? — Um garotinho, de olhos dourados e cabelos vermelhos, estava sentado sobre a perna de seu pai, que praticamente dormia ouvindo aquela história pela milésima vez.

— Talvez destruir algum governo por aí. A Terra estava melhor antes, mãe, pare de contar essas besteiras para Jade. — Ele nem mesmo viu o tapa vir em sua direção. Atrás de si, seu pai, com um cigarro entre os lábios, tão velho como sua esposa e irmã.

— Não fale besteiras, garoto. Você não viveu aquele tempo. Agora somos nós mesmos, vivemos nosso planeta como antes não acontecia. — O menino, porque ele sempre se sentia um menino perto dos pais, tocou a cabeça, com uma cara rabugenta.

— Vocês falam como dois velhos. — Cruzou o braço, sentindo outro tapa na cabeça, antes de soltar um: “— Ai”. Sua própria mulher riu de si, enquanto o filho ia dar boa noite para a avó. — Dilian, me ajuda aqui.

Seu irmão mais velho apenas riu, enquanto pegava o sobrinho nos braços e beijava-o na testa, desejando-lhe boa noite.

O ambiente familiar era agradável quando estavam todos reunidos, apesar daquela desagradável seção de memórias que sempre irritavam Kilian.

— Não seja idiota. É bom vermos a posição de nossos pais durante a Queda da Base. É histórico. — Bufou novamente, revirando os olhos para o irmão certinho. Outro tapa. Levantou-se irritado, afastando-se do pai, com as mãos acima da cabeça.

— Cansei, vou dormir. Boa noite.

Sumir e Pierail encararam-se, com um sorriso nos lábios. O garoto nem sabia o quão parecido com o primo perdido era. E nunca iria saber. Dilian encarava o irmão desaparecer em sentido aos quartos com um sorriso. Aquele garoto nunca iria mudar.

Não importava.

As histórias eram o que importavam.

E a História era manipulável, como todos eles naquele recinto.

Notas finais
Como o prometido, todos os capítulos de uma só vez. Assim ninguém vai sofrer de ansiedade esperando o próximo. Talvez seja meio chato para a leitura, talvez eu devesse ter feito uma postagem diária, mas eu tinha medo de me perder no enredo e deixar coisas falhando. Assim eu pude revisar tudo antes e ainda assim coisas podem estar incoerentes. Para quem leu até aqui, grata pela atenção. E eu ainda peço desculpas pela fanfic simples, mas, como já dito, é a primeira vez que escrevo algo do gênero. Espero que esteja do agrado de todos. Erros, reclamações, sugestões... me procurem. Beijos
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!