Kilian
12 Kilian
Aquele planeta era diferente de tudo que Kilian imaginara. Ele estava acostumado com locais em crise, guerras civis e destruição. Não uma verdadeira floresta com vida de verdade. Com animais selvagens, plantas selvagens, espécimes desconhecidas e selvagens.
Selvagens era uma boa palavra para definir o que via.
Seu bo bateu na lateral da cabeça daquele animal enorme. Ele parecia uma mistura de lobo com leão e dentes de tubarão. Uma coisa que ele nunca imaginara ver fora da própria imaginação. Concentrou a energia de seu Condutor de Pulso Elétrico e transformou-o em eletricidade. E a mesma foi disparada pela extensão de seu bo até atingir o animal que, em poucos suspiros, desmaiou, contorcendo-se. Ele próprio estava exausto. Perdera-se de sua equipe há alguns minutos e lutara contra a fera sem a intenção de matá-la, apesar de o outro querer estraçalhá-lo.
E aproveitou aqueles poucos segundos para se apoiar contra uma árvore, respirando fundo. Olhar para cima não lhe dava nenhum sentido de localização e ele não sabia direito de onde viera. Seu SIAA estava com interferência e ele não conseguia acessar alguns elementos.
Nunca sentiu tanta raiva de sua dependência por um eletrônico.
A mata fechada começava a escurecer, o que anunciava que já devia estar anoitecendo. Kilian forçou-se a andar, tentando passar por algum ponto que lhe fosse conhecido para retornar a nave. Tinha que consertar seu SIAA o mais rápido possível. As funções básicas funcionavam, mas nada que fosse em rede era acessível.
Pelo menos ainda podia usar sua visão de calor.
Com a noite se aproximando, Kilian reparou que o frio se apossava do local, mesmo que seu uniforme fosse térmico. O vento uivava entre as folhas e ele podia ouvir os animais noturnos se agitarem, enquanto os diurnos se escondiam.
Kilian deveria se esconder também.
Mas ele estava mais focado em sua tarefa de encontrar seus companheiros. Apesar disso, ele não tentava berrar, ou chamá-los. Ele tinha outra estratégia. E dessa estratégia ele retirou do pescoço o pingente que ganhara de Sumir. Aprendera a utilizá-lo, mesmo que a tecnologia perdida ainda o surpreende-se.
Aquela sensação quente aqueceu-o por dentro enquanto ele fechava os olhos, para voltar a abri-los. A floresta tinha uma cor diferente, um brilho especial, e ele podia enxergar. Não somente ver claramente a forma física, mas todos aqueles pontos coloridos e invisíveis aos olhos comuns. E os fios da vida.
Seus olhos vasculharam o local, seu próprio corpo, atrás dos fios vermelhos. Nunca vira tanto colorido quanto aquela mata lhe proporcionava. Era mais cores que os próprios terráqueos. Uma diversidade de cores, pontos coloridos e linhas que ele quase sentia-se em um arco-íris.
E encontrar o vermelho característico de Sumir e Pierail não foi difícil. Ele segurou o fio entre os dedos, tentando sentir se estavam bem. E nada fora do normal foi sentido. Isso aliviou-o de uma forma estranha. Ainda, entrelaçado em seu corpo, podia sentir os fios de Jora e Ana. Ana tinha um cinzento misturado com um verde doentio, mas também azul forte, enquanto Jora era de um marrom escuro misturado com o vermelho bordo de seus olhos. Ambos encontravam-se bem também.
Então ele reparou em mais um fio que se interligara a ele e nem mesmo sabia de quem era. Com o cenho franzido, hesitou em tocar. Ainda não era uma sensação física, mas Kilian aprendera a assimilar a informação que os fios passavam para sua pele assim que a arrepiava com um carinho gostoso.
E ele tocou.
Sentiu um impacto forte contra seu corpo e então ele perdera contato com aquele universo paralelo. Kilian imediatamente ativou seu escudo, mesmo que a dor daquele ataque se fizesse presente em seu ombro. Ele sangrava, seu uniforme destruído na região. A dor quase o fizera cair de joelhos.
E ele estava de cara com uma fera que nunca imaginara encontrar, tendo sorte de não ter morrido imediatamente.
Era grande, pelo menos um bom metro maior que ele. Sua cabeça de dragão abria em um gemido silencioso, mostrando a língua bifurcada e os dentes afiados. Ele estava apoiado com as quatro patas no chão, com longas garras, movendo-se silenciosamente em círculos ao redor de Kilian, cercando-o com seu longo corpo. E a calda. Uma longa calda, grossa, que afinava na ponta como uma lança.
Aquilo que ferira Kilian. Sentia o sangue escorrer entre seus dedos, que seguravam o ombro machucado, e a tontura apossar-se de seu corpo. Olhava ao redor desesperado, procurando uma fuga entre as árvores. Um impacto contra seu escudo trouxe sua atenção de volta ao monstro. Era agradável e assustador pensar naquela espécime como monstruosa. A calda viera novamente em sua direção, e, mesmo que não escapasse, seu escudo de energia absorvia a maior parte do impacto, mesmo que ainda fosse doloroso e sabia estar ficando com marcas arroxeadas onde era atingido.
Quando o bichano atacou-o com a boca, Kilian rolou para o lado. A tontura o fez atrasar alguns segundos para conseguir pôr-se em pé. E, no momento que o conseguiu, saiu em disparada para a frente, sentindo que a adrenalina em seu corpo fugia de si, não sendo transformada em energia para seu Condutor de Pulso Elétrico como normalmente acontecia.
Era culpa de seu descontrole mental. Culpa daquele ferimento. E, provavelmente, de alguma toxina em seu corpo que o estava deixando grogue.
Ativou seu SIAA novamente, não tendo tempo para procurar a função por conta própria. Pulou para trás de uma árvore no exato momento que a cauda vinha em sua direção, e ouviu o impacto contra a mesma. Então, ela começava a cair, exatamente na direção que Kilian corria.
Para sua sorte, ela não era grande, mas seu impacto com o chão, além de machucar outras plantas, também fizera rolar pedras e alguns outros objetos, batendo contra o corpo de Kilian e jogando-o para frente. Conseguiu equilibrar-se e continuar sua corrida, desviando dos objetos a sua frente enquanto lembrava-se do comando.
— SIAA, ativar protocolo médico. Examinar ferimento, toxinas sanguíneas e a estabilidade das células nanochips. — Kilian berrara contra os ventos, ainda correndo. Ele sentia que estava em uma decida, e a cada passo aproximava-se de alguma coisa com água corrente. Ouvia o barulho tornar-se mais alto e forte, e não sabia se aquilo era bom ou ruim.
— Procedimento iniciado. — A voz mecânica e masculina vibrou em seus ouvidos. Virou para a esquerda, continuando sua corrida, até ter de parar violentamente. Olhou para baixo, avistando o tal rio que ouvira. A um bom metro e meio de barranco. Olhou para trás, vendo que o outro se aproximava-se rapidamente, não sabendo como não tinha sido pego ainda.
Então se arriscou. A decida era íngreme e ele acabou por escorregar ainda no início, indo de bunda contra o barranco de terra molhada e pedregulhos afiados. Por alguns segundos, ele permaneceu apenas sentado, mas assim que tentou levantar-se para continuar a descida, escorregou-o, rolando o resto do percurso.
Doloroso era a definição daquilo. Sentia medo, também. O escudo estraçalhou-se e ele logo sentiu seu corpo bater contra a água e a correnteza forte levá-lo.
Por segundos, nada além da dor e da escuridão se fez presente, até ele sentir falta de ar e engolir água. De alguma forma conseguira chegar a superfície e respirar fundo, o desespero quase nublando seus pensamentos. Agia por instinto. E então todo seu corpo bateu contra uma enorme rocha e ele soltou um gemido doloroso, ficando alguns segundos contra a pedra, sentindo a água bater fortemente contra seu corpo, amortecendo-o em pura dor e agonia.
Ele não soube como subiu a rocha, e nem o que acontecera depois, porque tudo simplesmente ficara preto.
...
— Depois de muito tempo eu tive contato com meu SIAA novamente e vi que a toxina em meu corpo era um relaxante muscular potente, além de um inibidor das atividades cerebrais. Eu tive sorte de ter controle do meu corpo por tanto tempo. O resto estava normal e não demandava tanta atenção, exceto o corpo que precisava de alguns pontos.
— Como você sobreviveu? — Kilian tinha sua velha expressão de volta ao rosto. Aquela calma, que não deixava transparecer suas verdadeiras emoções.
— Me encontraram.
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