Kilian

13 Kilian e Ras'Shire


Demorou eras para que conseguisse abrir os olhos. Eles doíam, assim como todo seu corpo. A luz contra eles impedia que visse perfeitamente, mas com o tempo acostumou-se. Um longo tempo, anormal. E assim que o fez, processando a imagem do local que estava, imediatamente tentou levantar-se. Apoiar-se no braço direito o fez cair de volta para a cama, o ombro ardendo em brasa tamanha a dor. Engoliu um gemido sentindo um desconforto no estômago por diversos motivos.

Sua mente recuperou aos poucos a memória do que acontecera e ele logo passou a morder o lábio, tentando, em vão, focar sua mente em algo além da dor. Depois de diversos minutos parado, conseguiu respirar normalmente, sem soltar nenhum gemido. Levantou-se sobre o braço esquerdo, impedindo o máximo que conseguia de mover o outro braço.

O mínimo movimento queimava-o de uma forma que fazia com que desejasse permanecer imóvel na cama.

Ao sentar-se completamente, já estava encharcado de suor. Seus olhos fecharam-se por um momento e ele se concentrou em sua própria respiração, tentando recuperar o fôlego e um pouco do autocontrole. Seu corpo mostrava a fraqueza daquela batalha perdida e sua mente demorou a alertá-lo de que estava em perigo.

E o alerta foi ignorado, porque ele não podia fazer nada. Fora despido completamente, seus itens não se encontravam no quarto minúsculo e ele sentia o vento gelado invadir o ambiente iluminado pelo sol.

Conseguiu levantar-se, segurando o braço direito contra a barriga, impedindo que ele se movimentasse. Rodou os olhos pelo local, não reconhecendo a arquitetura. Era de madeira maciça, mas como se estivesse dentro de uma única estrutura, porque não haviam frestas. A sua esquerda, uma janela coberta por uma cortina que permitia entrar alguns raios, que batiam diretamente onde estava deitado anteriormente. Uma mesa de canto e uma bacia com água. Ele imediatamente andou até a água, encarando-a com sério interesse, ao mesmo tempo que tinha uma desconfiança terrível.

— É bebível. — A voz o surpreendeu. Ele virou-se tão rápido para encarar o dono da voz rouca que esqueceu-se de seu braço, sentindo a fisgada insuportável do movimento queimar seu ombro direito novamente. Em dois passos o homem estava a sua frente, segurando-o pelo ombro esquerdo, apoiando-o. Seus olhos fechados e sua expressão deviam declarar o nível de sua dor. — É normal. A toxina causa isso depois da sensação relaxante.

Viu quando o outro levou a tigela em direção a sua boca. A primeira coisa que reparou eram as mãos. Grandes, compridas e finas. Logo os olhos subiram pelo antebraço e o braço. Os músculos eram definidos, apesar de não grandes, e a cor era uma mistura entre o dourado e o alaranjado. E, subindo o olhar, ele reparou que o outro era alto. Tinha plena certeza que tinha mais de dois metros. O corpo seguia a definição dos braços, bem torneado e esguio e, apesar da altura, equilibrado.

Então a água tocou seus lábios impedindo-o de analisar por mais tempo aquele ser, bebendo-a avidamente. Sentia sede. Maior que a dor era a sede. Em um longo suspiro ele voltou a encarar o outro, deparando-se com olhos felinos. O verde brilhante da íris dominava todo o olho, deixando somente uma mínima parte da esclera visível, tendo a pupila alongada no centro do verde.

Aquilo assustou-o mais uma vez e ele quase deixou a vasilha cair, se não fosse o outro quem realmente a estava segurando.

— Desculpe. — Sua voz saiu rouca. As feições dele eram harmoniosas. O rosto comprido tinha lábios finos, um nariz alongado e arrebitado e as maças do rosto proeminentes. Os olhos eram grandes e esticados, que pareciam fechar-se quando estavam comprimidos, como naquele momento, deixando somente uma fina camada de verde a vista.

E um sorriso.

— Teve sorte de não morrer. — Ele tinha se afastado, pedindo delicadamente que Kilian se sentasse novamente sobre a cama, que não passava de uma estrutura de madeira com peles de animais. Obedeceu, sabendo que não tinha chance de fugir.

Seu olhar vagava pelo corpo do outro, sendo impedido apenas pela roupa de baixo, que protegia boa parte de suas pernas.

Assim que sentou-se, ele passou a tirar aquela espécime de curativo de seu ombro, analisando-o. Aproveitou a oportunidade de olhar para o ferimento, sentindo vontade de vomitar. Estava com uma aparência horrível, profundo e com veias negras. Analisando bem, seu corpo todo tinha marcas arroxeadas.

Ele estava acabado e seu treinamento não lhe servira para nada.

— São todos iguais. — A voz do homem soou novamente, com uma espécie de divertimento. — Vocês acham que podem invadir a casa dos outros e que será exatamente igual as experiências anteriores. Somos únicos. — Ele encarou-o seriamente. Aqueles olhos lhe arrepiavam de uma forma diferente, entre o medo e o encantado.

Eram verdes, vários tons de verdes, vibrantes e intensos. Poderia encarar aqueles olhos pro resto da sua vida.

— Sou Ras’Shire, como se chama? — Ele tinha uma voz doce, quase como se Kilian fosse uma criança. Voltou a levantar-se e trouxe para perto da cama diversas ervas, esmagando-as enquanto misturava-as e criava uma pasta.

— Kilian. — Kilian poderia não conhecer como aquele planeta funcionava, mas entendia bem do comportamento humano. Que no geral se repetia, com poucas mudanças. Aquela pequena hesitação significava algo, algo que ele deveria descobrir, agora que suas atividades mentais voltava a quase normalidade. — Obrigado por me salvar.

— Você faria o mesmo, Explorador. — Ele aplicou a pasta gosmenta de um verde nojento sobre o ferimento e Kilian gemeu de dor. Ardia, mas também era refrescante. — A toxina de um Gilorii’ não é fatal, mas pode necrosar um membro se não for tratada corretamente. Ela ficou atuando muito tempo no seu corpo. — Imaginou que aquele nome era como chamavam o monstro que o atacou. Ele preferia chama-lo de Quimera Dragoniana. — Algumas palavras da minha língua não possuem tradução, desculpe.

Mais uma vez Kilian bateu-se mentalmente. Sumir de vez em quando soltava frases em sua língua natal, e Pierail parecia conversar com ele propositalmente nela para lhe irritar. Antes que se esquecesse, formulou a pergunta, sentindo a voz arranhar sua garganta e sair mais rouca que o normal.

— Como aprendeu meu idioma? — Ele parou mais uma vez seu trabalho, retornando-o, dessa vez, de forma mais insegura. — Se não se importa em me contar, claro. — O sorriso calmo ainda adornava os lábios do outro, mas levemente trêmulo. Os olhos se encontraram novamente e ele voltou a baixar a cabeça, pegando o que parecia tecido para por em seu ombro, forjando uma espécie de tala para que não movesse mais o braço.

— Um explorador, há muito tempo, me ensinou. Alguns do meu povo também o sabem, apesar de não ser tão fluentemente. — Quando terminou, Ras’Shire levantou-se, pegando consigo as vasilhas que trouxera, deixando-o sobre uma outra mesa que não reparara antes, perto da entrada que parecia uma porta, coberta por uma grossa cortina. — Vou lhe trazer comida. Por favor, não saía, sua espécie não é bem-vinda.

Com aquelas palavras, Ras’Shire desapareceu da tenda, deixando-o sozinho. Com novas dúvidas, Kilian levantou-se, caminhando até a pequena janela e puxando a cortina. Não tinha a intenção de sair dali e enfrentar um povo desconhecido com o físico abalado como o seu se encontrava.

E sua surpresa foi tanta, que tinha certeza que os olhos estavam arregalados.

...

— Você tinha de ver aquela sociedade, Emir. Eles viviam sobre enormes árvores, com os troncos mais grossos que nossas casas. Em algumas foram criadas cômodos em partes ocas, como o que eu me encontrava, mas em outras criaram plataformas de madeira sobre galhos mais grossos e subiram casas redondas e pequenas de madeira e palha. Animais como o que me atacara, só que com asas, voavam entre as árvores, as vezes com pessoas como Ras’Shire sobre eles, carregando coisas nas patas ou nas bocas. Era incrível.

A voz de Kilian exalava a emoção de reviver aquelas imagens em sua mente e, inconscientemente, Kilian recriou a imagem no ambiente em que estavam. Agora não havia mais água, mas sim árvores e árvores exatamente como Kilian descrevera, com um verde tão intenso como cobertura que o sol passava em raios estratégicos por entre eles. Pontes interligavam as árvores entre si e eles se encontravam sobre uma plataforma redonda e aberta, cercada por uma cerquinha encantadora de algo que lhe lembrava vagamente bambu.

O ambiente era mais encantador do que seu cérebro poderia assimilar.

Emir chegou a conclusão que aquela era uma nova fase na vida de Kilian.