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1 Prólogo
Notas iniciais
Divirtam-se!
Sete e vinte e cinco da manhã. O centro da cidade inglesa de Vermont estava praticamente vazio. Apenas algumas poucas pessoas andavam pela rua, iam comprar frutas ou leite nas mercearias. Entre essas pessoas, havia Amy, uma mulher loira usando um longo vestido, e sua pequena filha, Sophie. Estavam andando de mãos dadas e a filha parecia feliz.
***
Neste mesmo momento, Vincent, o padre da cidade, fazia sua barba em frente ao espelho de seu banheiro. Era jovem para um padre, tinha apenas 26 anos e, com a barba feita, parecia ter uns 22. Ele sabia que era cortejado por algumas mulheres da cidade por conta de sua beleza humilde e jovial, mas não dava importância, afinal, apenas Deus pode julgar.
Quando terminou de fazer a barba, ele colocou sua batina. Saiu do quarto, passou pela sala e colocou seu crucifixo em volta do pescoço. Em seguida saiu de casa. Não precisou de mais de quinze passos para chegar até a porta dos fundos da igreja. Morava praticamente dela. Na verdade, sua casa ficava atrás da imensa catedral, como se fosse num quintal, o que facilitava muito o deslocamento.
***
Ao entrar na igreja, o que qualquer pessoa estrangeira faria seria olhar para o teto e ficar boquiaberta com tantos detalhes e desenhos frutos de uma herança barroca, mas ele já estava acostumado com a beleza do local, então apenas continuou andando, até encontrar uma bela mulher, em pé, olhando para cima. Seus cabelos possuíam um tom dourado incrível.
- Sra. Jackson – Vincent sorriu – Em que posso ajudá-la?
- Eu quero me confessar, padre – A mulher respondeu.
- Pois não – Ele a acompanhou até o confessionário. Ela ficou do lado de fora, sentada, enquanto ele entrou no pequeno cubículo. Do lado de dentro, só era possível ver a sombra da mulher, que entrava pelos pequenos buracos. – Estou te ouvindo.
***
Fora da igreja, na rua, o movimento já estava aumentando. Amy Paulson andava pela calçada acompanhada de sua pequena filha, Sophie, de apenas nove anos.
- Onde nós estamos indo agora mamãe? – A garotinha perguntou com um grande sorriso no rosto.
- Aonde – A mãe corrigiu.
- Eu que perguntei – Ela perguntou inocentemente.
A mãe caiu na gargalhada e ela achou estranho.
- Você entendeu errado, querida, eu quis dizer que aonde é a palavra correta.
- Ah, sim – Ela parou e pensou um pouco, estava absorvendo a informação – Então aonde nós vamos? – Perguntou novamente, sorrindo de um jeito sapeca.
- Vamos comprar leite e frutas frescas para o seu pai, ele volta do trabalho em poucas horas.
- Eu quero ir pra casa – Sophie reclamou, puxando a mão de Amy.
- Sua irmã está trabalhando, você queria ficar sozinha?
Sophie não tinha mais nada para falar, então apenas continuou andando, segurando a mão de sua mãe enquanto observava o movimento da rua. As pessoas andavam para lá e para cá sem pressa alguma. Sophie não conhecia muito a cidade grande, nasceu e viveu na pequena Vermont.
Depois de alguns minutos, elas estavam em frente a uma pequena quitanda. A mãe, sorridente, pegava algumas frutas e verificava se estavam boas, enquanto a garota estava sentada em dois caixotes empilhados ali ao lado. Seus olhos estavam fixos em um lugar num beco entre algumas casas. Havia um homem pálido vestido de terno olhando para ela. Sophie deu um sorriso para ele e por um momento, o brilho nos seus olhos se tornou perturbador.
***
- Você se sente melhor agora? – Vincent perguntava à mulher do outro lado do confessionário.
- Sim – Ela respondeu, satisfeita – Me sinto muito melhor, obrigada padre.
- Por nada, e que Deus lhe abençoe.
A mulher foi embora. Ele percebeu pela sombra dela que se afastava cada vez mais.
O jovem padre preparava-se para sair do confessionário e ir organizar o lugar para a missa que ocorreria mais tarde, quando viu uma sombra se aproximando do confessionário. A pessoa era pequena, era só o que ele conseguia ver pelas pequenas brechas.
- Padre? – A voz doce disse. Ele percebeu que era uma garotinha.
- Sou eu mesmo, em que posso ajudá-la.
- Eu posso me confessar? – Ela perguntou.
- Você já fez a primeira eucaristia?
- Não.
- Então eu sinto muito, mas ainda não pode – Ele tentou falar da maneira mais simpática possível.
- Por favor, por favor, por favor – Ela implorou, como toda criança – Eu quero contar uma coisa.
Vincent pensou um pouco e sorriu consigo mesmo. Afinal, ouvir as confissões de uma criança seria divertido. Uma brincadeira.
- Tá, você pode me contar – Ele disse, sabendo que aquelas confissões não seriam de verdade.
- Tá bom – Ela ficou animada.
- Mas...
- Mas o que?
- Você vai me contar como se eu fosse um amigo, tá ok? Não é uma confissão de verdade – Ele estava se divertindo.
- Tá certo.
- Pode começar.
- Ah... – Ela estava pensando em como começar – Na escola, eu briguei com o meu amigo, o Nathan.
- Sim.
- E eu desobedeci a meu pai.
- Como assim?
- Ele me disse para não brincar fora de casa à noite, mas o Sr. Boo me chamou e eu fui.
- Sr. Boo? Quem é ele?
- É um homem, ele me visita às vezes para brincar e conversar, ele disse que a minha mãe era uma vadia.
- O que? – Ele ficou surpreso com o que a garota havia dito. Não era vocabulário para uma criança – Ele disse o quê?
- Disse que a minha mãe é uma vadia e me mandou matá-la hoje.
- Qual o seu nome? – Vincent estava começando a ficar assustado.
- É Sophie.
- Sophie, você sabe onde o Sr. Boo mora?
- Ele disse que mora embaixo da terra, lá embaixo mesmo.
- É? E o que mais ele disse?
- Ele me mandou matar meus pais e minha irmã Althea, e eu vou fazer – A voz dela ficou diferente, mais séria e fria.
- O que?
- Eu vou cortar a minha mãe até sentir os ossos dela e depois eu vou arrancar seu coração e nós vamos matar todos os adultos – Ela falou com uma voz perturbadora e depois começou a dar risadinhas alegres.
O padre saiu do confessionário para ver quem era aquela garotinha, mas ela já havia sumido. Correu para o portão da igreja e olhou para a rua. Havia muitas pessoas e crianças, não conseguia identificá-la.
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