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8 Capítulo 07 - Caos


Vincent e India estavam apavorados de verdade. Continuavam segurando a porta de ferro para impedir que aquelas criaturas entrassem.

– Abra essa porta, padre!

– Vão embora, em nome de Deus, eu ordeno que vão embora!

– Sua palavra não vale mais de nada, seu pecador sujo!!!

– Em nome de Deus, vão embora!

– Você não pode nos deter, você não pode detê-lo!

– Vamos chamar a polícia, rápido!

– Não vai adiantar!

– Sr. Boo está ficando estressado! – Uma voz dócil e feminina cantarolou.

– Eu ordeno que ele apareça!

– Ele já está aqui, bobinho.

India estava aterrorizada. Nunca havia visto nada parecido.

– Quem é você?! Quem é você?! Eu ordeno que me fale seu nome!

Subitamente as batidas na porta pararam. Tudo o que se ouvia era um ruído de unhas arranhando o ferro da porta.

Ego sum tenebris, devoratrix animas, Lucifer est nomen meum. – Disse uma voz masculina. Era um homem adulto.

– O que ele disse? – India perguntou.

– Eu sou a escuridão, devorador de almas, Lúcifer é o meu nome – Vincent repetiu o que o homem falou.

– Oh meu deus – Ela ficou apavorada. Um dia antes, não acreditaria em nada daquilo, mas as coisas haviam mudado. Ela havia visto coisas que qualquer ser humano duvidaria.

– Precisamos sair logo aqui! – Ele trancou a porta e saiu correndo para o portão da frente da igreja, que trancou-se sozinho quando eles se aproximaram.

– Oh meu deus – Ela levou a mão a boca e se afastou do portão – Você viu o que acabou de acontecer?! – Ela não queria acreditar naquilo.

As luzes da começaram a piscar e as batidas na porta eram mais fortes.

– Aqui... Aqui...Aquilo é um demônio? – Ela própria ficou surpresa por usar aquelas palavras. Nunca pensou que iria usá-las.

– Temo que seja algo muito maior.

– Algo maior? – Ela não conseguia pensar em algo pior.

– Acho que estamos lidando com algo muito além, talvez até... – Ele não terminou a frase. Parecia que não queria dizer.

– Talvez até o que?

– O próprio diabo.

As janelas da igreja explodiram ao mesmo tempo, espalhando pedaços de vidro multicolorido pelo piso.

– Vamos, temos que sair daqui! – Vincent exclamou, puxando India pelo braço. Eles saíram pelo buraco onde ficava a janela e agora estavam na calçada. A rua estava deserta.

Eles ouviram um alto baque que vinha de dentro da igreja e concluíram que as crianças haviam derrubado a porta.

– Temos que ir! – Ele disse.

– Para onde?

– Eu não sei, procuramos um carro e vamos até a próxima cidade.

– Precisamos avisar às pessoas, para que elas fujam.

– Como faremos isso?!

India olhou ao redor até encontrar o carro do prefeito em frente à delegacia. Estava com a porta do motorista aberta.

– Ali! – Ela apontou para o carro e eles correram. Ao chegar ao automóvel, India entrou e deu partida. A chave estava na ignição.

– Como vamos avisar à tantas pessoas usando um carro?

– Entre no carro!

Vincent entrou no automóvel e ela preparou-se para arrancar, quando ouviu vários e longínquos gritos de desesperos.

– O que é isso? – Ela perguntou.

– Está vindo das casas!

– São as crianças!

As pessoas saíam correndo de suas casas, fugindo de seus próprios filhos. Era um caos. As que tinham carros, davam partida e dirigiam rapidamente, enquanto outras ficavam para morrer.

A cena era chocante. As pessoas correndo euforicamente pelas ruas, enquanto as crianças os atacavam. Com facas, machados, lanças e outros tipos de armas. Vincent e India estavam paralisados de medo, ouvindo as pessoas gritarem de desespero. No meio da multidão desesperada, havia um homem. Usava terno preto e tinha a pele pálida e enrugada, mas desta vez, seus olhos estavam diferentes, não eram mais negros, agora tinham um brilho vermelho. Ele sorria enquanto o caos se instalava ao seu redor.

– Vamos embora daqui! – Vincent exclamou e India pisou no acelerador, partindo rumo a qualquer lugar que não fosse ali.

– Para onde vamos? – Ela perguntou.

– Vamos para a casa do prefeito, apenas siga em frente e eu vou te guiando – Ele respondeu, olhando pelo retrovisor a cena de violência se afastar cada vez mais.

***

Minutos depois, eles estavam na pequena estrada de terra que levava à uma zona mais pacata da cidade onde ficava a casa do prefeito. No caminho, passaram pela casa dos Jackson e viram que não havia nenhuma viatura parada em frente.

– Continue seguindo, é um pouco mais à frente.

Minutos depois, eles avistaram a casa do prefeito. Enorme e luxuosa. Ao se aproximarem mais, porém, perceberam que haviam corpos no jardim. Eram os corpos dos policiais. Oito.

– Oh meu deus – Vincent disse quando India parou o carro.

Eles desceram do veículo e se aproximaram mais um pouco. A cena era chocante.

Os corpos dos oito policiais estavam jogados na grama. Aqueles homens haviam sido violentamente assassinatos. Alguns possuíam a garganta cortada, como a mulher do prefeito. Havia um corpo sem cabeça, outro sem braços e pernas. Vísceras espalhadas pela grama. O contraste entre verde e vermelho. Torrence, o jovem policial que havia ajudado Vincent, estava deitado sobre algumas pedras brancas da grama. Sua cabeça havia sido totalmente esmagada por uma pedra. Os miolos do cérebro sobre as plantas. Só era possível reconhecê-lo pelo crachá de oficial.

India estava a poucos metros dali, vomitando.

– Precisamos voltar imediatamente – Ele avisou, voltando para o carro. Ela o seguiu.

***

Dirigiram de volta. Ao chegar próximo à entrada da cidade, avistaram fumaça e uma luz alaranjada no céu.

– O que é isso? – India perguntou.

– É fogo.

Eles dirigiram mais um pouco até finalmente terem uma ideia do tamanho do desastre causado pelas crianças. As casas estavam em chamas. Todos os estabelecimentos, delegacia, padaria, confeitaria, estava tudo em chamas. Exceto a igreja.

– Precisamos de gasolina – India avisou.

– Não, precisamos ir até outra cidade!

– Com o combustível que temos, não chegaremos nem até a metade.

– Vamos até o posto!

Eles dirigiram até o posto de combustível, mas ele estava em chamas. Na verdade, havia explodido.

– Que droga! – Ela exclamou – Existe outro posto nesta cidade?

– Não.

– O que vamos fazer?!

– Eu não sei.

– Vamos pra igreja – Ela sugeriu.

– O que?

– É o único lugar que não foi destruído. Talvez eles não possam entrar lá.

Neste momento, Vincent percebeu. Eles não podem entrar na igreja, não podem entrar na casa de Deus. Por isso não abriram a porta quando ele estava lá, eles eram muitos, conseguiriam derrubar uma porta de ferro facilmente, mas não derrubaram. Porque não podem entrar lá.

– Oh meu deus, você tem razão! – Ele sorriu – Vamos para a igreja!

India queimou pneu no asfalto e acelerou, dirigindo rumo à igreja.

***

Eles já estavam dentro da igreja, quando India sentiu-se fraca e desmaiou.

***

Minutos depois, sentiu-se nos braços dele. Acordando lentamente.

– Onde estão eles? – Ela perguntou.

– Estão lá fora, não podem entrar aqui, estamos salvos.

Ela sorriu e encontrou forças para se levantar.

– Quer um copo de água?

– Não precisa, estou bem.

Vincent levantou-se do chão e andou até o altar. Sentou-se na escadaria.

– O que faremos agora? – Ela perguntou.

– Eu não sei – Ele respondeu, suspirando.

– Apague as luzes, eles não podem nos ver.

Vincent obedeceu e apagou. Agora estavam no escuro. Esperavam o dia amanhecer. Vincent, sentado no altar e India, deitada no carpete vermelho do chão da igreja.

– Amanhã procuraremos ajuda – Ele disse.