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9 Capítulo 08 - Purificação
Vincent estava deitado sobre o chão altar da igreja. Ele e India havia dormido ali dentro.
O sol já entrava pelas janelas quebradas, iluminando o interior da igreja.
Ele abriu os olhos. India jazia desacordada a alguns metros dali, perto dos bancos. Levantou-se e esfregou os olhos. Olhou para os lados, procurando algum sinal daquelas criaturas. Não havia nada. Elas não conseguiram entrar.
– India – Ele chamou de longe, mas ela não acordou.
Vincent caminhou até ela e sussurrou seu nome no ouvido.
– India.
Depois de mais duas tentativas, ela acordou. Olhou para os lados e depois para ele. Não disse nada.
– Temos que sair daqui – Ele disse.
– Como faremos isso?
– Eu não sei, mas acho que eles não estão lá fora. Deixe-me ver.
Vincent caminhou até as grandes portas da igreja e olhou pela fechadura. Tomou um susto, afastando-se imediatamente. As crianças estavam paradas em frente à porta da igreja, com seus olhos bem abertos, olhando para frente sem expressão alguma no rosto. Parecia que haviam ficado ali a noite inteira.
Ao perceber que ele estava olhando pelo buraco, todas elas direcionaram seu rosto para Vincent e permaneceram paradas, apenas observando, enquanto um homem alto e vestido elegantemente, surgia no meio deles.
A criatura, com seus olhos vermelhos, aproximou-se da porta e Vincent se afastou, com medo.
Viu a maçaneta girar lentamente e percebeu que ela estava tentando abrir a porta. Neste momento, o céu começou a se fechar, as luzes acenderam com tanta intensidade que acabaram explodindo, jogando os estilhaços em cima deles.
– Oh meu deus! – Ele correu até o altar com India. Sabia que ele não poderia entrar ali dentro, na casa de Deus.
– Ele vai entrar – India dizia, envolta nos braços dele. Ele terminou de girar a maçaneta e a porta se abriu.
– Ele não pode – O padre estava atento, estava com medo, mas tinha fé de que eles se salvariam. A porta foi sendo aberta muito lentamente.
Vincent sentiu algo líquido pingando em seu rosto, passou a mão e viu que era sangue. Olhou para cima, percebendo que as estátuas dos santos estavam cheias de sangue. Parecia que estavam chorando o líquido vermelho, exceto a de Jesus, que sangrava pelas mãos e pés também, nos locais onde havia sido crucificado.
– Eu estou com medo – India disse, estava começando a chorar.
Ele não respondeu nada. Também estava.
Os fracos raios de luz entravam pela brecha na porta. Era possível ver a sombra de algumas das crianças.
A porta foi se abrindo, até ficar totalmente aberta, revelando as criaturas por trás dela.
Lúcifer e seu exército de crianças permaneciam parados.
– Não podem entrar, não podem entrar, não podem entrar – Vincent falava para si mesmo, tentando acreditar.
India estava deitada em seu peito, com os olhos fechados. Estava como se esperasse o pior.
Quando a criatura colocou seu pé direito dentro da igreja, Vincent sentiu um calafrio. Ele podia entrar.
– Oh meu deus – Ele sussurrou.
Quando o diabo entrou, a porta se fechou, deixando as crianças do lado de fora.
Vincent se levantou e agarrou seu terço. Lúcifer estava rindo.
– Quem é você pra tentar me parar? Um mísero e corrupto padre?
– Eu ordeno que vá embora, em nome de Deus, deixe essas crianças em paz! Você está na casa de Deus!
– Padre, nenhum de nós está em posição de usar o nome de Deus aqui. Você o traiu!
India estava sentada no chão. Seus olhos estavam fechados.
– Por que aqui? Por que as crianças? – Vincent perguntou.
– Eu gosto de crianças, gosto de almas puras, são mais saborosas, somente isso – Ele respondeu, em um tom de ironia – Já o motivo... É você, padre.
Vincent ficou calado, tentando entender o que aquela criatura havia dito.
– Tudo o que eu fiz aqui nesta cidade foi testar a sua fé, seu maldito! – Ele vociferou e o brilho vermelho nos seus olhos ficou mais intenso – Eu faço isso há muito tempo, coloco em prova a fé das pessoas, na verdade, de pessoas como você, que se dizem puras e castas, mas na verdade são apenas mais um animal dessa raça suja e imperfeita, os humanos. Você viu a rua, o desespero das pessoas enquanto seus próprios filhos as traíam, assim como você fez! Isso é culpa de pessoas como você!
Vincent fechou os olhos e agarrou o terço. Em um momento de desespero, rezou para que seu senhor aparecesse ali naquele momento, mas nada aconteceu.
– A única pergunta que eu te faço é a seguinte... – O diabo fez uma pausa – Por que seu Deus deixou que tudo isso acontecesse sem mover um dedo sequer para mudar alguma coisa? Ele não pode te ajudar!!!
– Cale a boca, imundo, cale sua maldita boca, em nome de Deus!!! – Ele segurou o terço com mais força e fechou os olhos. O diabo é um mentiroso, o diabo é um mentiroso, ele pensava.
– Ele não pode te ajudar!
– É mentira! Você é um mentiroso, um renegado!!!
– Eu não estou mentindo – Lúcifer abaixou o tom de voz, era quase um sussurro – Ele não pode te ajudar, porque está morto.
Aquelas palavras, de algum modo, o fizeram estremecer por dentro. É mentira! Ele insistia em sua mente.
– Deus está morto há muito tempo! O céu está um caos e o inferno será trazido para a Terra!
– Imundo! – Vincent vociferava. Seus olhos ainda estavam fechados.
– Você caiu como um pato na minha armadilha.
Armadilha. Vincent soltou o terço. O que ele queria dizer com essa palavra?
– Armadilha? – Vincent perguntou, desconfiado. Estava chorando.
– Você foi testado, padre, e falhou!
– O que você quer dizer?
– No inferno existem sete demônios que se alimentam dos pecados dos seres humanos... – Ele fez uma pausa, olhou para o padre e sorriu – Mas apenas seis deles estão lá embaixo agora.
– O que?
– Asmodeus, o demônio da luxúria. Ele pode assumir a forma humana e usar seu charme para seduzir qualquer um, é difícil alguém resistir. Ele está mais perto do que você imagina.
Vincent estava perplexo. Aquelas palavras o atingiram como uma pedra. O inimigo esteve sempre ao seu lado. India. Ela o levou à trair Deus e a igreja. Maldita!
Ele virou-se, esperando encontrá-la sorrindo maliciosamente, zombando dele por ter sido fraco e ter caído na armadilha e foi isso o que encontrou. India estava parada bem atrás dele, com um sorriso no rosto. Seus olhos agora possuíam um brilho vermelho tenebroso.
– Maldita! – Foi o que ele disse, antes de ser arremessado por ela com toda a força contra a parede.
– Fraco, imundo, nojento, desprezível! – Ela vociferava, enquanto o arremessava de um lado para o outro sem ao menos tocá-lo.
– Asmodeus! – Lúcifer exclamou – Já chega!
O demônio obedeceu e parou, logo após caminhou até ele e ficou ao seu lado, como uma prostituta com seu cafetão.
– De pessoas como você, padre, o inferno está cheio. Prometem ser fiéis, mas depois se tornam sujos e desonestos.
Vincent nada disse, tudo o que conseguia fazer era cuspir sangue e gemer de dor. O diabo continuou falando:
– Em breve você vai sentir o que é o inferno.
– Você vai sentir na pele e na alma, o desespero e o medo. Na verdade, acho que vai gostar – Asmodeus anunciou.
Lúcifer se aproximou mais um pouco do padre jogado no chão e disse:
– Sua alma vai arder no inferno, para sempre, mas não se preocupe, se seu Deus realmente ainda estiver de pé, ele vai vir te salvar.
***
Os gritos de Vincent enquanto morria dariam para ser ouvidos a muitos metros de distâncias, se houvesse alguém para ouví-los. Eram gritos de dor e desespero.
***
A rua estava vazia. Os cadáveres das pessoas já haviam sumido e as crianças também. Tudo o que sobrara eram as casas e os estabelecimentos destruídos pelo fogo. No meio do cenário apocalíptico, Lúcifer e Asmodeus andavam de mãos dadas, rumo a outro lugar para purificar através da dor.
Enquanto isso, o corpo sem vida de um padre jazia crucificado em uma cruz de madeira acima do altar da igreja da cidade.
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