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4 Capítulo 03 - A Jornalista, Parte II
O padre caminhava pela calçada em meio à fraca neblina que cobria a cidade. Estava frio e já era tarde, a rua era iluminada apenas pelos postes de luz incandescente distribuídos pela rua.
Vincent estava a uns 30 metros da porta de entrada do hotel, quando ouviu um som que fez sua espinha gelar. Era uma risada de criança. Uma risada sapeca, como de uma garotinha que havia pregado uma brincadeira em seu amiguinho.
– Você gostou do que eu fiz, padre? – Ela perguntou, com sua voz doce e ele prontamente identificou a voz. Era a garota que havia assassinado a própria mãe. A que havia ido até a igreja para confessar o crime.
Ele não respondeu nada, apenas olhou para os lados e não viu nada, apenas uma névoa que ficava cada vez mais densa.
– Você gostou do que eu fiz? – Ela voltou a perguntar – Gostou da minha arte?
Agora, Vincent via uma silhueta pequena aparecendo em meio à neblina. Segundos depois, ele percebeu que a garota não estava sozinha. Atrás dela se aproximava uma silhueta masculina. O homem era alto e muito magro, mas não era possível ver seu rosto, apenas a silhueta negra no meio da névoa.
– Você me perguntou quem era o Sr. Boo, não? – Ela perguntou, com um tom alegre – Então, ele quer te conhecer.
A garotinha parou e o homem caminhou mais um pouco até sair da névoa e revelar um rosto pálido e enrugado, com olhos negros e sem expressão. Ele usava um terno preto e estava com as mãos para trás.
Ao vê-lo, Vincent percebeu que Sr. Boo não parecia nada amigável e então começou a correr em direção ao hotel.
– Aonde você vai? – A coisa disse, com uma voz calma e perturbadora – Nós ainda nem nos conhecemos.
Ao chegar ao hotel, ele entrou e fechou a porta atrás de si. Olhou pelo vidro da janela e percebeu que não havia nada na rua além dos postes. Nada na neblina.
– Padre, o que houve? – O homem careca da recepção perguntou, assustado.
– Nada – Ele respondeu, quase sem fôlego – Não foi nada, apenas me assustei.
– Você veio ver a jornalista não é?
– Sim.
– Ela me avisou sobre a sua visita.
– A senhorita está no quarto 14, acho que ainda está acordada.
– Obrigado Eustace.
– Por nada, padre.
Vincent subiu as escadas e andou pelo corredor bem iluminado do humilde hotel, até achar o número 14 escrito com um metal dourado em uma das portas. Prontamente, pôs-se a bater na porta. Ainda estava com o coração palpitando fortemente por conta do que havia presenciado na rua. Era real, era muito real.
– Senhorita Stark – Ele chamou.
– Pode entrar – Ela gritou, de dentro do quarto.
Ele abriu a porta e deparou-se com um pequeno, porém confortável quarto. Na cama, sentada, India vestia sua simples roupa de dormir, um vestido branco e fino. Vincent chegou a tempo de ver, por pouco, as belas curvas dela.
– Oh, desculpe – Ele disse, virando-se – Você já ia dormir?
– Ah, não se preocupe – Ela sorriu – Eu estou sem sono.
Ele parecia um pouco desconfortável.
– Você está muito pálido – Ela disse – E está suando – E tocou a testa de Vincent, que se afastou.
– Não foi nada – Disse ele – Eu só me assustei com uma coisa que vi.
– O que você viu?
– Não foi nada – Ele sacudiu a cabeça em negação.
– Você veio me contar alguma coisa?
Ele demorou a responder, mas enfim disse:
– Sim.
– Então sente-se – Ela convidou, gentilmente e sentou na cama.
Vincent arrastou uma cadeira que havia no canto do quarto para perto da cama e sentou. Ficou calado por alguns segundos, parecia estar pensando em algo, talvez estivesse pensando se deveria contar o que sabia.
– Você não me disse seu nome – India quebrou o gelo.
– Vincent – Ele respondeu timidamente. Normalmente ele era bem simpático e muito conversador, mas perto dela, ficava tímido.
– Então, Vincent, o que quer me contar?
– A garota... Ela me disse algo, antes de... de...
– O que ela disse?
– Ela me contou o que iria fazer... Quando entrou na igreja, eu estava no confessionário, pois havia acabado de ouvir a Sra. Jackson, então ela me perguntou se podia se confessar e eu respondi que ela era muito nova... Mas ela insistiu tanto que eu acabei escutando, como uma brincadeira, aí ela contou que iria assassinar o pai, a mãe e a irmã, Althea.
Ele abaixou a cabeça.
– Eu poderia ter impedido.
– Você acha que a culpa é sua?
– É claro, eu poderia ter evitado – Ele levantou a cabeça, revelando brilhantes olhos azuis lacrimejando.
– Não foi sua culpa.
– Tem mais uma coisa – Ele continuou, mas não queria. Não sabia se deveria contar o que havia visto lá fora, mas não podia guardar para si, iria enlouquecer.
– O que?
– Eu... Eu vi algo... Lá fora.
– Vincent, o que você viu?
– A garota.
– Você a viu?! – Ela ficou assustada.
– Sim... Também! Quero dizer... Ela não estava sozinha.
– Como assim, havia alguém com ela?
– Quando ela se confessou, contou que havia um homem, Sr. Boo, que a chamava para brincar todas as noites e que foi ele quem a mandou fazer aquilo.
– Oh meu deus. Você acha que viu esse homem?
– Sim, eu tenho certeza.
– Nós precisamos achá-los – Disse India.
– E como vamos fazer isso? Eles são perigosos. Precisamos de ajuda das autoridades, amanhã eles continuarão a busca.
– Mas eles estão à solta na cidade, e se fizerem uma nova vítima?
– Nós não podemos fazer nada sozinhos.
O silêncio prevaleceu por alguns instantes.
– Eu preciso ir – Disse Vincent, levantando-se da cadeira.
– Não vá agora – India pediu.
Ele olhou surpreso.
– O que?
– Quer dizer... – Ela ficou sem jeito – Você não tem mais nada para me contar?
– Não – Ele sorriu.
– Você não quer que eu vá com você?
– Como assim?
– Eu posso dormir na sua casa, só pra fazer companhia, eu durmo no sofá.
Ele sorriu e ficou sem graça.
– Não precisa.
– Você é um homem muito sozinho – Ela sorriu e então deitou na cama.
Ele sorriu e foi até a porta, onde parou e virou-se para India.
– Eu quero.
– O que?
– Quero que você venha comigo, será bom ter companhia.
Ela sorriu.
– Deixe-me trocar de roupa. Vire-se.
Ele se virou e esperou.
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