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3 Capítulo 02 - A Jornalista, Parte I


Vincent estava parado em frente ao carro no meio da floresta. Ele rezava quando um homem tocou seu ombro.

– Não encontramos nada – Ele disse.

– Vamos voltar à cidade e chamar as autoridades, – O padre falou – Eles encontrarão a garota.

– Tá bom.

***

Durante a viagem de volta para a cidade, Vincent só conseguia pensar na cena horrenda que havia visto minutos antes e na impossibilidade de aquilo ter sido feito por uma pequena garotinha.

– Algo não está certo – Ele disse, sem tirar os olhos da floresta que passava rápido por eles.

– O que disse, padre? – O homem que estava dirigindo perguntou.

– Como uma garotinha daquele tamanho conseguiu pendurar aquele homem no ventilador de teto? – O padre olhou para ele, e para os outros passageiros do carro.

Os homens ficaram em silêncio e Vincent voltou a olhar a floresta.

***

No centro da cidade, as pessoas tentavam se recuperar do choque. Quando o carro preto cheio de homens estacionou em frente à padaria, as pessoas se aproximaram. Queriam saber se haviam conseguido fazer alguma coisa.

Um homem se aproximou do motorista que descia e perguntou:

– Pegaram a garota?

– Não – O motorista respondeu – Ela fugiu, foi para o mato, e a mãe não foi sua única vítima.

Um dos homens, um jovem, foi falar com o padre, que estava na calçada, com os olhos fixos no sangue que ainda sujava a rua.

– Padre? – O homem perguntou, deveria ter uns 25 anos e era loiro.

– Oh, sim, George – Ele desviou o olhar do líquido vermelho no meio da rua.

– As autoridades já chegaram, você vai para a igreja?

– Sim, eu preciso descansar um pouco, o choque foi muito grande.

– Se precisar de algo, já sabe onde me encontrar.

– Obrigado.

O padre despediu-se de alguns pessoas com um aceno ou um balançar de cabeça e foi embora em direção à igreja, enquanto as pessoas praticamente amontoavam-se para ouvir os homens contarem o que haviam visto.

***

Algumas horas depois.

Já estava anoitecendo. Vincent estava deitado no sofá, tentando entender a situação. Naquele momento, várias perguntas passavam por sua cabeça, a principal delas queria descobrir o porquê de uma atitude tão violenta por parte de uma garotaque ele conhecia há muito tempo.

A campainha tocou repentinamente, tirando sua concentração em seus pensamentos. Quem será? Como entrou, se não há ninguém na igreja?

Quando atendeu, encontrou uma jovem mulher parada na porta de frente. Tinha cabelos castanhos e um olhar simpático. Estava usando um vestido florido que terminava na altura do joelho.

– Posso ajudá-la? – Perguntou Vincent.

– Sim – A moça respondeu, sorridente – Sou India Stark, da Gazeta de Catville

– Catville? – Ele ficou espantado, pois era longe dali – Você dirigiu muito até aqui.

– Pois é – Ela sorriu.

– Em que posso ajudá-la? – O padre perguntou, mas já sabia a resposta.

– Quero falar sobre o assassinato de Amy, Merrin e Althea Paulson.

– Como você entrou na igreja?

– O zelador me atendeu.

John! Vincent havia esquecido dele completamente, esqueceu-se de que ele trabalhava hoje.

– Oh... – Ele pensou um pouco – Entre, por favor.

– Obrigada.

India entrou na casa.

– Sua casa até que é bem organizada para um homem que mora sozinho – Ela falou, olhando todos os objetos religiosos espalhados pela sala. Crucifixos, estatuetas de santos, velas etc.

– Obrigado – Ele agradeceu e apontou para o sofá – Sente-se, por favor.

Quando sentaram-se, ele prontamente perguntou:

– Por que veio falar comigo?

– Eu precisava falar com alguém que soubesse me contar o que houve sem ficar nervoso e gritar – Ela sorriu, arrancando uma leve risada do padre.

– E achou que eu seria a pessoa certa?

– Você não é?

Ele ficou calado.

– O que aconteceu realmente? – Ela pegou um bloco de anotações e uma caneta.

Vincent ficou um pouco nervoso.

– Eu não me sinto bem falando sobre isso.

– Eu sei, eu sei, mas você precisa.

– Como assim eu preciso?

– A igreja foi o último lugar onde a garota esteve antes de esfaquear a mãe.

– E você acha que ela esfaqueou a própria mãe só porque entrou na igreja?

– Eu não preciso achar nada – India declarou. Parecia ser uma mulher intimidadora – O padeiro viu a garota e ela parecia estar feliz, mas depois que saiu da igreja, parecia estar com raiva e depois... – Ela fez uma pausa – Bem, ela assassinou a própria mãe.

– Eu estou tão chocado quanto você, na verdade, acho que estou ainda mais, – Ele disse – Pois conheço aquela família há muito tempo e Sophie sempre foi uma menina de ouro.

– Se isso é tão estranho para você, por que não me conta?

Ele ficou calado por alguns segundos e India entendeu a mensagem. Guardou seu bloco de notas na bolsa e levantou-se do sofá.

– Você prefere falar com as autoridades? – Ela perguntou.

– As autoridades?

– Eles querem conversar sobre o que aconteceu dentro da igreja, por isso eu prefiro que você fale comigo – Ela voltou a sentar no sofá – Eu estou trabalhando com as autoridades, e só estou aqui porque me ofereci. Achei que a minha visita seria bem mais agradável do que a deles.

– Não aconteceu nada, ela apenas entrou e ficou me olhando, depois saiu – Ele não podia revelar a uma jornalista o que havia ouvido. Precisava falar diretamente com a polícia. Não confiava em jornais.

– Está bem – Ela pegou sua bolsa e levantou-se – Eu sei que não está falando tudo o que sabe, então, se estiver disposto a me contar alguma coisa, estarei hospedada no hotel da esquina. Quarto 14.

Ele deu um sorriso fraco.

– Eu acho a saída – India disse e foi embora, antes que Vincent pudesse se levantar e levá-la até a porta.

***

Já era tarde da noite. Vincent estava deitado em de bruços em sua cama. O abajur desligado. Não conseguia pensar em mais nada a não ser na garota. Na verdade, conseguia sim pensar em algo mais, no Sr. Boo. Precisava descobrir a identidade de tal homem, pois ele parecia ser a chave do mistério. Mas não poderia fazer isso sozinho, precisava de ajuda. De repente, pensou em correr para o hotel e conversar com India, contar tudo o que a garota disse, mas não confiava nela.

Alguma coisa na sua cabeça gritava o contrário. Ele precisava falar com alguém e contar o que havia ouvido. Era inacreditável.

Vincent pegou seu terço, colocou em volta do pescoço. Depois vestiu sua bata e saiu de casa, em direção ao hotel da esquina.