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7 Capítulo 06 - Desordem


Vincent estava no banco da frente de uma viatura. Já havia se passado 20 minutos desde que os reforços chegaram à casa do prefeito. Alguns policiais haviam ficado lá, para protegê-lo e outro dirigia até a cidade para deixar o padre em casa.

– Acha que eles encontrarão a criança? – Ele perguntou.

– Eu não sei, é uma floresta grande – O jovem policial respondeu – Mas tenho esperanças.

– Eu não sei mais em que acreditar.

– Deus está no nosso lado, não é padre?

– Sim, ele está.

Quando passaram por uma entrada com uma caixa de correio vermelha. Vincent disse:

– Pare o carro!

O homem freou bruscamente a viatura. Ficou assustado.

– O que houve?

– Ali era a casa dos Jackson, não é?

– É sim.

– Preciso passar lá.

– Por quê?

– O prefeito disse que a filha deles também enlouqueceu, mas eles a mantém presa.

– Oh meu deus.

– É, e isso pode ser perigoso.

– Vamos até lá?

– Sim.

Os desceram do carro e caminharam até a entrada. O pequeno portão estava aberto e as luzes da casa estavam apagadas.

– Acha que devemos chamar? – O policial perguntou.

– Não, vamos nos aproximar um pouco mais.

Eles caminharam pela pequena entrada e começaram a sentir um cheiro ruim.

– Está sentindo isso? – Vincent perguntou.

– Sim – Ele respondeu, fazendo uma careta – É algo podre.

– Tem alguma coisa em decomposição por aqui.

Vincent bateu na porta uma vez. Ninguém veio atender. Bateu outra vez e novamente ninguém atendeu.

– Vamos entrar.

– O que? – O policial discordou – Eles podem estar dormindo.

– Eu sei que não estão, e o cheiro está aumentando. Tem algo podre dentro da casa.

– Vem desse lado – O oficial disse, andando até a lateral da casa – Está mais forte aqui.

– Vamos olhar no quintal.

– O que você acha que é?

– Eu não sei.

– Deve ser algum esquilo morto, só isso.

– Eu acho que pode ser outra coisa – Ele retrucou, olhando para o chão, pisando cautelosamente em algumas pedras no meio do mato que crescia.

Vincent parou em frente à uma janela.

– O que houve? – O policial perguntou.

– É o quarto do casal. Está vazio.

– O que? – Ele foi olhar.

– Isso não está me cheirando bem.

Continuaram andando até o quintal, onde o cheiro era muito mais forte, quase insuportável.

– Oh meu deus – O policial cobriu o nariz com a mão – Que cheiro terrível.

– Eu acho que vem dali – Vincent apontou para o poço de pedra a alguns metros deles.

– Vamos olhar.

À medida que se aproximavam, o cheiro ficava pior. Definitivamente vinha dali.

O policial chegou primeiro e fez uma cara de horror quando olhou para o interior do poço.

– Oh meu santo deus! – Ele exclamou, com a lanterna apontada para dentro daquele poço.

– O que? O que houve? – Vincent perguntou, mas logo sua pergunta foi respondida quando ele viu o que havia ali dentro. Eram dois corpos em estado de putrefação. O pai e a mãe da tal garotinha.

Ela não estava lá.

– Precisamos chamar reforços!

– Eu sei quem os matou.

– Você acha que foi a filha?

– Se não foi, onde está ela?!

– Eu não sei, eu não sei – Ele olhou novamente o poço. Os corpos estavam inchados e com uma cor escurecida. Também estavam com as bocas abertas e cheias de pequenas larvas brancas. Pareciam minhocas, mas eram larvas de mosca.

– Vamos voltar e chamar os outros policiais – Vincent sugeriu.

– Isso, vamos.

***

Robert Wave estava sentado em uma cadeira branca na varanda de sua casa, sendo confortado por alguns homens fardados, quando a viatura onde Vincent e o outro policial estavam chegou em alta velocidade.

O oficial saiu do carro e caminhou até a varanda.

– Jenkins! – Ele chamou, e Phillip Jenkins veio andando calmamente.

– O que houve?

– Mande alguns homens para a casa dos Jackson. Duplo homicídio.

– Oh deus – Ele segurou o terço que estava em volta de pescoço – O que está acontecendo nessa cidade?

– Eu vou levar o padre em casa e volto para ajudar.

– Pode ir.

***

Minutos depois, a viatura estava parada em frente à igreja. Vincent saía de dentro dela, enquanto ouvia o jovem policial se despedir.

– Tchau, padre, descanse um pouco.

– Pode deixar – Ele respondeu – E fique com Deus, Torrence.

***

Atravessou a igreja e andou até sua casa. Ao chegar na sala, deparou-se com India sentada no sofá, roendo suas unhas.

– Ah, finalmente! – Ela exclamou, com uma expressão de medo do rosto – Onde você estava?

– Houveram mais assassinatos.

– O que?

– A primeira dama.

– Oh meu deus – Ela levou a mão à boca – Pegaram a garota?

– Não, não foi ela, foi o próprio filho do prefeito.

– Oh deus, mais uma criança.

– E ainda tem mais.

– O que mais?

– Mais duas pessoas, os Jackson. Encontramos os corpos do casal dentro do poço da casa deles.

– Deixe-me adivinhar, eles têm uma filha?

– Sim.

– Onde ela está?

– Não foi encontrada.

– Você acha que foi ela quem os matou?

– Sim, eu tenho certeza.

– Oh meu deus, isso é muito pior do que eu imaginava. Deve ser uma doença, algo está afetando o psicológico das crianças.

– Eu não sei.

– Elas têm ligação?

– As crianças? Acho que não.

– Tem que ter mais alguma coisa, não pode ser coincidência.

– Definitivamente não é coincidência.

India parou e ficou pensando, mas seus pensamentos foram interrompidos por um barulho alto acima deles.

– O que foi isso? – Ela perguntou.

– Eu não sei – Vincent respondeu – É algo em cima da casa.

Parecia alguém caminhando. Ele podia ouvir os passos que se afastavam lentamente, iam em direção à parte da frente da casa. Em questão de segundos, foi possível ver um vulto preto passando pela janela da frente. Algo caiu do telhado.

– Acho que é um gato – Vincent concluiu.

Mais passos começaram a aparecer no telhado. Não era apenas uma coisa, eram várias. Vinham de todos os lados.

– É, se forem gatos, são vários.

– Eu vou lá fora dar uma olhada – Ele disse.

Ao chegar em frente à porta da frente, ele parou. Na janela da frente havia uma criança os observando. Depois surgiu outra, e mais outra, e mais outra. De repente, eram dezenas de crianças. Todas começaram a bater nas janelas.

– Abra a porta, padre – Uma delas disse, fazendo-os gelar a espinha.

– Vão embora! – India gritou.

– Não vai funcionar – Vincent avisou.

– Deixe-nos entrar, padre.

– É melhor você abrir a porta ou nós vamos entrar à força, você deseja isso?

– Temos que sair daqui!

As crianças começaram a correr em volta da casa, gritavam euforicamente.

– Precisamos chegar à igreja.

– Rápido, pegue uma faca! – India exclamou.

– O que? Quer matá-las?

– Não, mas elas querem nos matar, acho melhor ter algo com o que se defender!

Vincent foi até a cozinha e pegou duas facas. Olhou pela janela e viu uma criança, a garotinha que havia assassinado a mãe em público. Ela sorriu maliciosamente e ele pôde ver que atrás dela, não muito longe, um homem observava. O mesmo que ele havia visto horas antes, quando ia até o hotel. Rosto pálido e enrugado, olhos negros e um leve sorriso no rosto. Ele vestia um terno preto e fumava um cigarro.

O padre voltou às pressas para a sala e entregou uma faca à India.

– Ótimo – Ela disse – Agora vamos correr, depressa.

– Não sei se conseguiremos.

– Nós conseguiremos, vamos!

Eles caminharam até a porta e observaram a parte de fora da casa. As crianças corriam rapidamente, desordenadas.

– É a nossa chance – Ela disse e tocou a maçaneta – Eu vou contar até três.

– Ok.

– Um...

Vincent estava com medo, mas não queria demonstrar, pois India parecia incrivelmente calma.

– Dois...

Havia deixado os preceitos cristãos de lado, estava com uma faca na mão e prestes a usá-la.

– Três! – Ela terminou de contar e abriu a porta bruscamente. Os dois começaram a correr em direção à pequena porta dos fundos da igreja e as crianças o seguiram. Gritando como se fosse uma guerra.

– Não adianta fugir, padre, nós vamos te pegar – Um menino, de aparentemente seis anos, gritou.

– E ninguém poderá te ajudar – Outra garotinha gritou – Nem mesmo Deus pode te ajudar, padre!!!

Ao chegar à porta de ferro, ele abriu rapidamente e os dois entraram na igreja. Logo em seguida, Vincent a fechou e ficou encostado, segurando, mas era muito difícil segurar uma porta com dezenas de crianças empurrando, ainda mais aquelas crianças. Ele pensava no que iria fazer agora? Pensava que nem a polícia poderia ajudá-los mais.