Kidou Senshi VP Gundam - Os Vigilantes
1 Arcadia
(Música – Batalha Comum)
— Karma Von Deikun, Hyaku-Shiki, lançar!
— Estel Fortuna, Qubeley, lançar!
Os dois Mobile Suits se aproximaram. Estel investiu contra o adversário brandindo os dois sabres laser. Karma os segurou com o seu único sabre laser, e usou a outra mão da sua máquina para dar um tiro à queima roupa com o rifle. Acertou de raspão.
— Você teve sorte. Como sempre.
— Bom saber... vamos ver se minha sorte me ajuda agora!
Ativou o sistema de Funnels do Qubeley, que começaram a disparar. Karma destruiu os Funnels um a um atirando neles com seu rifle; usou sua intuição Newtype para sentir onde estavam os alvos. Um dos dispositivos não foi atingido, e atacou o Hyaku-Shiki por trás. No momento exato do impacto, Estel destruiu o rifle do adversário cortando-o com o sabre laser.
— DESGRAÇADO! Tome isso! — exclamou Karma, investindo fortemente com sua espada laser. Começou uma troca frenética de golpes, com o Hyaku-Shiki usando uma arma, e o Qubeley usando duas. O piloto do Mobile Suit dourado conseguiu pressentir uma fraqueza nos movimentos de Estel, e cortou um dos braços do Qubeley, fazendo-o lutar com um sabre apenas.
— É, que bom que você conseguiu me arranhar, pelo menos; senão ficaria chato.
— Respeite-me, eu ainda vou dominar o mundo!
— Dominar o mundo? Que coisa mais clichê... só falta agora dizer que vai jogar uma colônia na Terra pra virar um “vilão malvadão”.
— Se caísse bem na sua cabeça, Sr. Terráqueo, não seria má ideia.
A luta se equilibrou novamente. Karma tentava maximizar sua intuição, para tentar prever as ações do seu adversário. Mas o que pressentia o desanimava: visualizava suas ações não sendo muito efetivas em Estel. Começou a dar golpes a esmo, sem planejamento, devido ao seu nervosismo causado pelos maus pressentimentos. Conseguiu, inclusive, destruir a câmera principal do Qubeley dando um chute físico com seu Mobile Suit. Estel, apesar de não ser Newtype, tinha bons reflexos, e não quis perder tempo estudando a visão de suas outras câmeras para atacar. Confiou em sua sorte, e deu um giro com o sabre às cegas, cortando o Hyaku Shiki ao meio. O Mobile Suit dourado explodiu; a vitória havia sido de Estel e do Qubeley.
O simulador encerrou então a batalha, mostrando na enorme tela o desempenho de cada um dos combatentes. Karma, apesar de ter perdido, ficou com um score muito bom, quase empatado com Estel. Desanimado e exausto, largou-se na cadeira do simulador, esquecendo-se de sair do local. Seu amigo foi chamá-lo:
— Anda, Karma, temos que ir, tem mais gente na fila pra usar o simulador.
— Já vou – respondeu o outro, com voz desanimada. Levantou-se empurrando os braços da cadeira, como se “jogasse” a si mesmo para levantar-se.
Os dois garotos saíram da sala do simulador, andando pelas ruas da colônia.
— Por que você insiste em usar um Qubeley? Você nem Newtype é! Sabe que não conseguiria manipular os Funnels se fosse uma luta de verdade. Os controles manuais que você usa para eles servem apenas para os pilotos aprenderem a direcionar os Funnels no simulador, enquanto não conseguem usar a energia Newtype para fazer isso.
— Ué, e não podem inventar um Qubeley de verdade com controle manual? Gosto muito desse tipo de Mobile Suit; é um pouco frágil, mas é rápido e versátil. “Você nem Newtype é”... graças a Deus! Eu odiaria saber por antecipação o que acontece no futuro. A Esperança é o que eu tenho de mais valioso dentro de mim. Aliás, posso saber por que todo esse mau humor? Tenho certeza de que não foi só por ter perdido.
— Daqui a pouco você vai saber.
Segundos depois, o celular de Karma tocou.
— Olhe, foi mais cedo do que eu esperava – disse ele, com amargura, atendendo. Era seu pai, Julius Von Deikun.
— Então é assim que você honra todo o investimento que eu faço em você? Perdendo para um mero Oldtype? Você é uma vergonha para mim, Karma.
— É, eu sei disso – respondeu o jovem loiro, com ironia na voz.
— “Um mero Oldtype” vírgula – exclamou Estel, tomando o telefone da mão do amigo. — Meu nome é Estel Fortuna, e não sou pior do que ninguém por não conseguir ficar bisbilhotando na mente alheia e não ficar paranoico por prever futuros ruins. Acredito no meu potencial desenvolvido por esforço próprio, e...
Julius desligou o telefone na cara do rapaz. Karma olhou para o amigo com cara de “entendeu agora?”.
— Cara... é sério isso? Seu pai fica te monitorando através da intuição Newtype?
— Fica – suspirou Karma. — Ele pressente que eu darei prejuízos e decepção para ele. Desde que me conheço por gente ele me diz que “eu só trarei desgraças”. Por isso, fica o tempo todo sentindo o que eu faço, para tentar “não perder o investimento financeiro”.
Estel olha profundamente nos olhos dele, suspira e coloca a mão no seu ombro, em sinal de solidariedade, como se dissesse “não queria estar na sua pele”. Os dois ficam alguns segundos assim. Karma quebra o silêncio virando a cabeça para o lado, pressentindo algo.
(Tema de Arcadia)
— Olhe só, minha moto acabou de ficar pronta. Vou pegá-la na oficina. Passear um pouco de moto quase sempre melhora o meu humor.
— Vou com você. Assim eu aproveito e digo um “oi” para o Siren.
Arcadia era uma colônia estudantil, construída especialmente para abrigar campi universitários e seus estudantes, considerados a futura “elite” da sociedade. Possuía vários e belíssimos prédios de aula, construídos ao estilo clássico, ginásios de esporte, jardins e bosques para lazer e estudo da natureza, museus com réplicas de obras de arte dos mais diversos tipos, anfiteatros onde ocorriam diversos tipos de aulas e apresentações artísticas, oficinas de arquitetura e engenharia (principalmente engenharia de Mobile Suits), videotecas onde se tinha acesso a praticamente todos os filmes já feitos, inúmeros prédios de repúblicas estudantis. Dois lugares se destacavam na colônia: a enorme e belíssima biblioteca Nea Alexandria, onde se podia ter acesso a quase todo o conhecimento existente na história da Humanidade, e o prédio das salas de simulação de batalhas. Em cada uma das salas, duas ou mais pessoas escolhiam seus Mobile Suits entre todos os tipos já inventados e batalhavam, em um sistema de simulação quase perfeito, muito próximo de batalhas reais. Conseguia-se até simular os efeitos de condições adversas como diferença de gravidade do espaço em relação à Terra, falta de oxigênio ou calor causado pela entrada na atmosfera terrestre. A maioria dos alunos de Arcadia lutavam ali por diversão, mas havia os que treinavam a sério, desenvolvendo suas habilidades de pilotagem; seja por ambicionarem uma entrada no Exército, seja por quererem saber se defender em caso de guerra, seja por quererem melhorar/desenvolver sua intuição Newtype e seus reflexos. A última guerra em larga escala ocorrera pouco mais de uma década antes; esse tempo de paz prolongada favoreceu a criação de um lugar majestoso, belo e pacífico como Arcadia.
Como os Newtypes formavam uma espécie de “elite” na sociedade, os não Newtypes (ou Oldtypes) costumavam ocupar posições subalternas. Arcadia abria bolsas de estudo para os Oldtypes que trabalhassem na colônia; era o caso do jovem Siren Atma, um garoto baixinho, com cabelos pretos ondulados e enormes e expressivos olhos negros. Cuidava de uma oficina mecânica. Naquele momento, seu amigo Nix Cello passara por ali para conversar um pouco com ele. Nix era um talentoso Newtype de uma família militar tradicional do asteróide de Axis – ou o que sobrara dele, orbitando a Terra depois do conflito de Axis Shock. Era alto e possuía longos cabelos negros.
— Foi uma pena que o Projeto Turn A não deu certo. Eu queria tê-lo visto em ação.
— O projeto Turn A foi uma farsa, Siren, você sabe disso. As pesquisas simplesmente sumiram; nenhum Newtype foi capaz de localizá-las intuitivamente. Vários Cyber-Guards foram mobilizados, não só na Lua, local do projeto, mas na Terra e nas colônias também. Ninguém, absolutamente ninguém conseguiu sentir onde estavam os dados. Então, só nos restou acreditar que foi algo inventado, só pra assustar as pessoas.
— Mas imagine só... um Mobile Suit que se regenera por si só, emanando uma cortina de luz iridescente de nanopartículas, desintegrando tudo o que tocasse! Não precisa me olhar com essa cara... a destruição é o único caminho possível para essa humanidade podre. O ser humano não tem conserto.
Os Cyber-Guards eram policiais Cyber-Newtypes, que existiam em todos os lugares habitados. Tornar-se um era uma das únicas formas de ascensão social de um Oldtype. O candidato ingressava em um laboratório, e programado para usar a intuição focando em detectar mentiras, problemas, crimes e conspirações. Com eles, a sociedade era relativamente segura, com exceção das várias guerras e de alguns grupos terroristas que apareciam ocasionalmente, sendo logo detectados e extintos.
— É, continue pensando assim, qualquer hora um Cyber-Guard detecta as intenções destrutivas na sua mente, e te leva preso.
Nisso, Karma e Estel chegaram à oficina.
— Vocês demoraram – exclamou o rapaz baixinho – geralmente Karma detecta rápido quando eu termino os consertos, e vem imediatamente.
— É que nós nos perdemos – explicou Estel. — E olhe só, o Playboy de Axis também está aqui!
— Boa tarde, Terráqueo – cumprimentou Nix, em tom divertido. — Eu senti mesmo que vocês tomaram uma direção oposta quando estavam vindo. Por quê?
— Eu estava seguindo ele – explicou Karma, apontando para o amigo – e quando me dei conta ele estava indo para o lugar errado.
— Já falei mais de mil vezes – retrucou Estel, com certa dose de impaciência na voz – quando formos a algum lugar, não me sigam, eu sou “terráqueo”! Não conheço as colônias bem o suficiente para me locomover nelas.
— Chegamos aqui praticamente juntos – disse Karma, mordazmente – e eu consigo me localizar aqui facilmente. Sem usar intuição.
— É que a configuração urbana das colônias é totalmente diferente da da Terra. E por acaso a sua intuição toda-poderosa não poderia ter detectado que eu estava indo para a direção errada??
— Foi o que aconteceu, depois de um tempo. Mas eu já te expliquei, problemas emocionais, dispersão e distração afeta a nossa percepção psíquica dos acontecimentos.
— Seu pai de novo? — perguntou Nix, sentindo o problema na mente de Karma. O rapaz loiro concordou, acenando afirmativamente.
— Agora vocês me deem licença, preciso andar um pouco sozinho por aí. Vejo vocês depois na Watchtower.
— Ué, não vai tentar sentir se a moto está em ordem? — perguntou Siren.
— Não será preciso; não sinto nada de errado vindo dela. Além do mais, você é a única pessoa em quem eu confio pra consertar minha moto. É bem mais talentoso do que muitos mecânicos Newtypes que conheço. Sei que você deseja muito tornar-se um, e espera conseguir isso vindo para o espaço, mas... não precisaria. Sério.
— Você sabe que tenho meus motivos, Karma.
Estel bateu a mão carinhosamente nas costas do amigo, que já subia na moto.
— Cuide-se. Não vá bater a moto por estar pensando no idiota do seu pai.
— Obrigado. Voltarei assim que estiver melhor.
( Música – Char's Counterattack Track 13 – Destiny)
A família de Karma von Deikun era descendente direta do quase lendário piloto Char Aznable (cujo nome verdadeiro era Casval Rem Deikun), que desaparecera em combate há pouco mais de um século e meio atrás. JUlius von Deikun sentia muito orgulho deste fato, e queria que seus filhos, Karma e Belle, honrassem seu nome e tivessem um desempenho no mínimo exemplar em tudo o que faziam. As cobranças eram constantes; qualquer falha e desvio era punido com abusos emocionais e chantagens. Parecia que Julius tivera filhos mais para alimentar sua vaidade do que por outro motivo. Rodando com a moto por Arcadia, Karma recordava a maioria dos episódios desagradáveis que tivera com seu pai. Deixava os fatos martelarem sua cabeça até à exaustão, para enfim sumirem. Quando estava começando a se sentir melhor, despertou de seus devaneios por sentir suas costas molhadas. Olhou para o céu e viu que chovia.
— Ah, que ótimo – resmungou ele – esqueci de verificar a programação do tempo da colônia. E como estava pensando no meu pai, não pressenti a chuva.
Tentou, por intuição, localizar um lugar para se abrigar, enquanto a chuva não parava de cair (sentia que ela iria demorar um pouco para cessar). Sentiu que o lugar mais próximo era uma bela galeria de lojas que tinha um chafariz cujos jatos formavam vários arcos de água, por baixo dos quais se podia passar. Ficou abrigado debaixo da marquise, olhando a chuva, como se ela ajudasse a “lavar” seus sentimentos ruins. Olhando o pouco movimento da rua, notou que uma garota de cabelos castanho-claros, presos em um coque, andava para lá e para cá com uma bandeja de comida. Prestando atenção, viu que ela era uma vendedora ambulante, oferecendo pedaços de bolo de chocolate para os poucos que passavam. A grande maioria sequer olhava para ela, desprezando-a. A moça estava ensopada, pois dava prioridade em proteger sua mercadoria com o guarda-chuva. Mas estava lá, incansável, tentando vender seu bolo. Depois de quase uma hora tentando sentir se ela precisava de ajuda (não sentira nenhum sinal disso com as habilidades Newtype), Karma foi até a vendedora, mostrando dinheiro a ela.
— Quero todo o resto desse bolo. Não, não precisa se preocupar com troco – disse o rapaz, quando viu que a moça mexia em uma bolsinha de dinheiro.
— Tem certeza? — questionou a moça, timidamente.
— Absoluta. Bom, eu vou comer ali embaixo, na marquise da entrada da galeria. Seria bom você vir também, não vai ser bom continuar se molhando.
— O... obrigada – agradeceu a vendedora, um tanto constrangida; não estava acostumada a receber ajuda, ainda mais em um dia chuvoso como aquele.
Karma sentou-se em um dos bancos da marquise, e experimentou o bolo. Não pressentiu nada em relação ao doce antes de experimentar: nem que era ruim, nem que era bom. Começou mastigando rápido, pois estava com fome. Depois comia mais devagar, saboreando melhor. Terminou o primeiro pedaço (eram quatro), olhou profundamente para a moça e disse:
— Eu não te conheço direito... mas te odeio.
— P... por quê? — perguntou ela, visivelmente embaraçada. — D... desculpe, eu não queria fazer nada de errado...
— Ah, então quer saber o porquê? Por que você está me coagindo.
A moça fitava o rapaz, repleta de sentimento de culpa, sem entender nada.
— Você está praticamente me obrigando a voltar aqui e comer isso mais uma vez. É o melhor bolo de chocolate que já comi em toda a minha vida.
Ela arregalou os olhos, ainda surpresa com a reação peculiar, mas satisfeita por ter recebido o “elogio”.
Na Watchtower (nome dado por Nix à república onde ele, Estel e outros estudantes moravam) , os jovens começavam a dar pela falta de Karma.
— Está tudo bem com ele – comentou Keisha Uraki, Newtype estudante de engenharia de Mobile Suits e aprendiz de piloto de Mobile Fighter. — Ele só está se abrigando da chuva.
— É, só que ele está isolado e sem nada para distrai-lo – ressalvou Nix — e não estou sentindo ninguém com ele, deve estar entediado.
(Música – Tema gentil de Daiya)
Os dois ficaram sentados ali, conversando assuntos aleatórios intercalados por períodos de silêncio, até a chuva passar.
— Hm... desculpe, mas... qual é seu nome mesmo?
Procurava por alguma “dica” sobre o nome da garota na mente dela, mas não conseguia nenhuma.
— Daiya. Daiya Winter. E o seu é... Karma, não é?
— Karma von Deikun. Sim, antes que você pergunte, é o mesmo sobrenome do nome real de Char Aznable. Aliás... venda ambulante, que eu saiba, é uma atividade proibida... por causa da guerra, muitas pessoas começaram a fazer isso por conta própria. você não tem medo de ser presa?
— Até tenho, mas preciso sobreviver. Nasci na Lua, e fugi de casa quando tinha 11 anos de idade, então nunca pude me situar bem profissionalmente. Até agora eu tenho tido sorte... nenhum Cyber-Guard me detectou. Talvez até tenha detectado, mas me deixou em paz, pois viu que eu não estou fazendo nada de errado, não sou contrabandista, saqueadora ou espiã, só quero viver honestamente. Olhe, parece que a chuva está parando.
— Tenho que ir, já anoiteceu... tenho uma prova bem complicada sobre Direito Universal amanhã. Tenho que analisar os impactos da Cláusula 9 da carta da Laplace's Box na legislação atual. Se puder, venda seu bolo na entrada do campus de Humanidades amanhã; vou precisar dele na saída da prova, para recuperar as energias.
(Tema alegre de Daiya)
— Está certo então... estarei lá. Foi bom você me avisar, nunca fico no mesmo lugar para vender, por segurança.
— Eu até poderia dar um jeito de te achar intuitivamente... mas não vou estar com energia pra isso. Bom – disse o rapaz loiro, montando em sua moto e colocando o capacete – até amanhã. Vá logo pra casa e troque de roupa... não quero saber de você não fazendo meu bolo porque ficou doente.
— Farei isso – sorriu Daiya. — E... obrigada por tudo o que fez por mim hoje. Pela sua compra e pela companhia.
— Não, não me agradeça. E tire esse sorrisinho do rosto. Lembre-se, eu te odeio – retrucou ele, em tom aparentemente sério, com seu tique de balançar o dedo enquanto falava. Colocou seu capacete, acenou e deu partida na moto, voltando para a Watchtower.
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