Kidou Senshi VP Gundam - Os Vigilantes
2 Watchtower
Os membros do topo do prédio Watchtower tomavam o café da manhã enquanto assistiam as notícias na televisão.
— Aqui é Carlotta Kane na TV Orwell, falando da colônia 42 de Side 9, a colônia universitária de Arcadia! Aqui estão os jovens que são o futuro da Terra e das colônias, construindo um mundo melhor para todos! Estas são duas estudantes do curso de Medicina, Zaina Addill e Rebecca House. Rebecca é especialista em ferimentos e injúrias de guerra, enquanto Zaina está se especializando em Infectologia. O curso é patrocinado pelos laboratórios Garden, e pela sua CEO, Sama Garden. Mais adiante, vemos a mais recente e incrível criação da Anaheim Electronics, a célebre fabricante dos Gundams: a nova versão do simulador de batalhas de Mobile Suits! Agora, os Newtypes poderão usar o controle manual de Funnels até aprenderem a usar sua mente, e os usuários de Mobile Fighters treinam suas habilidades de artes marciais, sincronizando-as com o movimento de seus robôs! Aqui vemos os dois promissores piloros de Mobile Fighters, Geisha Uraki e Ilya Wolf!, mostrando todo o seu talento!
— Rebecca... — suspirou Estel, sonhadoramente.
— Que bom que eu só apareci rapidamente – comentou Zaina, envergonhada.
— Eu NÃO CREIO que essa tonta errou meu nome em uma transmissão ao vivo. Eu me chamo Keisha, KEI-SHA! — suspirou Uraki, diminuindo o volume.
— Ela acha que, por ser a dona da TV, pode aparecer toda hora, sendo que nem deve ter feito aula de oratória e dicção – desabafou Nix.
— Aaah, claro, o macho alfa não pode ser chamado de “Geisha” em rede mundial, pois terá o seu precioso ego masculino ferido – comentou Christine Gato, mordazmente.
— É, cara, pare de se “Keishar” — brincou Ilya. — Há, há, há, gostou dessa? Keishar!
— Boa, Ilya – exclamou Christine, batendo sua mão aberta com a de Ilya.
— Por que você me odeia tanto? — questionou Keisha, gesticulando.
— É esse seu jeito calminho – respondeu a garota ruiva de cabelo curto. — É tão irritante... parece que você não se importa com absolutamente nada do que está ao seu redor.
— Mas... mas... o que você quer que eu faça?
— Não briguem, crianças – ralhou Karma.
— Dá pra vocês ficarem QUIETOS? — exclamou Estel, vendo que em seguida passariam notícias sobre a Terra. — Quero ver essa notícia!
— Como maneira de recuperar os prejuízos da última guerra, a exploração dos recursos naturais da Terra está sendo caótica e desordenada; algumas epidemias de doenças começam a ser registradas – continuou Carlotta. — Como a gerência da extinta Federação da Terra agora pertence à organização Illuminati, com sua sede em Gaea, Side 4, alguns grupos protestam, pedindo intervenção militar para retomar a ordem...
— Só por cima do meu cadáver – resmungou Estel. — Isso só vai piorar as coisas!
— Muitas famílias ainda estão endividadas e com bens penhorados no Banco Lynx, sendo forçadas a isso no passado como medida de sobrevivência – prosseguiu o noticiário. — Outro grupo de manifestantes pede o ressurgimento da Federação, e a independência da Terra em relação às colônias. Ainda não se sabe se há envolvimento dos recém separados República de Axis e do Reino de Neo Zeon na situação, e se os governos locais tomarão alguma atitude.
— Foi isso o que aconteceu com a família do Siren, não foi? — comentou Kouga Zechs, outro membro da Watchtower, que parecia estar dormindo e alheio a tudo. — Ele está aqui em Arcadia trabalhando pra pagar as dívidas da família dele...
— Não só isso – complementou Karma. — O objetivo principal dele é tentar tornar-se um Newtype, vivendo em uma colônia. Ele ganharia mais dinheiro se trabalhasse na Terra, ainda mais com tanta sucata que existe lá... só está aqui para tentar acordar possíveis habilidades.
— É verdade, é o contato com o espaço que acorda as habilidades Newtype, não é? Já reparei que as habilidades de alguns começaram a despertar aqui em Arcadia.
— Exatamente, Zaina – respondeu Keisha. — Foi uma maneira de, evolutivamente, a humanidade se adaptar às distâncias maiores que agora separam as pessoas. Alguns sempre moraram na Terra, mas agora que vieram para cá conseguiram se desenvolver.
Christine fechou o punho e esmurrou a parede.
— Você... PRECISA jogar isso na minha cara, não é Keisha?
— Ué, mas... o que aconteceu? Por que você ficou tão... ah, agora eu entendi.
Keisha, usando sua percepção Newtype, conseguiu detectar que Christine estava se lembrando do seu passado. O pai dela, o industrial Solomon Gato, intuiu que sua filha mais nova seria um problema para os seus negócios. Por isso, não a enviou para o espaço para desenvolver-se, como havia feito com seus dois filhos mais velhos. Ela foi educada no laboratório Murasame, e tornou-se uma Cyber-Newtype (o processo de se tornar um não é muito agradável, o sofrimento físico e psicológico é grande), para que assim fosse mais fácil de ser controlada. Lembrou-se em seguida de quando, sendo guiada pela lavagem cerebral do Psycommu de um Mobile Suit da empresa do seu pai, foi forçada a lutar em uma difícil batalha que ocorrera dois anos antes, quando os estudantes de Arcadia tiveram que defender a colônia, enfrentar quatro poderosos mercenários armados de Gundams Deathscythe que tentaram invadir o local, chamados de Cavaleiros do Apocalipse.
(Música – Cinderella Four)
— Aquele... idiota... do meu pai – resmungava Christine, cerrando os punhos e os dentes – me fez entrar naquela coisa que me possuiu... só pra fazer propaganda dos Mobile Suits da empresa dele, fazendo frente aos da Anaheim Electronics. Eu não queria lutar, EU NÃO QUERIA! E depois... ele ainda se sentiu no direito de fazer críticas à minha performance!
— Então é isso que faz um Psycommu... é uma ferramenta que conecta a psique do piloto ao Mobile Suit, fazendo com que um “chame” pelo outro, não é?
— É um pouco pior do que isso na verdade, Zaina – ressaltou Keisha. — É como se o seu psicológico fosse “engolido” pela máquina, e você virasse uma máquina de matar, só pensasse em destruição. Melhora o desempenho do piloto e facilita a recepção de ordens, mas... não deve ser algo nada agradável. Costuma ser usado por Cyber-Guards em missões especiais.
Christine deu um tapa em Keisha.
— PRECISA... DIZER... COM TANTOS... DETALHES? SEU INSENSÍVEL!
— Mas veja pelo lado bom, Christine – comentou Kouga – foi por causa dessa batalha que nós estamos aqui, juntos, nessa república. Sem ela, não estaríamos aqui reunidos. Fora que lá, pela primeira vez, pilotei um Epyon de verdade. Nem acreditei, foi realmente emocionante.
— Ui, a primeira vez dele foi usando um chicotinho — brincou Ilya, fazendo uma piada com a arma característica do rubro Gundam Epyon. — Foi bom para você?
— Ilya, menos, BEM menos — resmungou Keisha. — Hoje você está mais engraçadinho que o normal. Isso vai ter troco na próxima vez em que nos enfrentarmos no simulador.
— Vem pro X1 então, vem! — retrucou zombeteiramente Ilya, cerrando os punhos e fazendo uma pose de kung fu.
— Sim, foi da Batalha dos Cavaleiros que nasceu a Watchtower – falou Nix, voltando ao assunto principal. — Os pilotos com melhor desempenho nessa batalha, nós estando entre eles, foram “premiados” com algumas regalias, como este apartamento de cobertura. Então, nos mudamos para cá.
— Nix, você foi um dos que segurou o líder, William Maxwell, não é? — perguntou Ilya.
— Sim, isso mesmo. E foi um páreo BEM duro.
— Mas o mais complicado de tudo foi enfrentar o Wario Ivanovitch – comentou Karma, pesaroso. — Ele era um grande amigo meu e de Estel. E virou um assassino mercenário.
— Ele... era... meu amigo de infância! — berrou o rapaz da Terra. — Eu até hoje não consigo acreditar que alguém de quem eu gostava como um irmão virou um canalha...
— E é por isso – exclamou Christine, visivelmente exaltada – que eu ODEIO TODOS VOCÊS! Toda vez que eu olho para as caras de vocês... eu me lembro daquela maldita batalha... Eu nunca me senti parte deste grupo idiota, NUNCA!
Saiu correndo, descendo a pé as várias escadas do edifício chamado Watchtower. Keisha fez menção de ir atrás dela, mas Karma colocou uma mão em seu ombro, como se dissesse “melhor deixá-la sozinha”. No jardim do prédio, a garota de cabelos ruivos e curtos esmurrava a parede, chorava e gritava. Quando se cansou e se acalmou um pouco, sentou-se encostada no muro, e lembrou-se da única amiga que tivera no laboratório Murasame: Jane, uma menina muito parecida com Elpeo Puru, a piloto de Axis que lutara na época de Haman Karn.
FLASHBACK
— Como é seu nome? — perguntou uma Christine em seus nove ou dez anos.
— Eu... não quero dizer meu nome – choramingou a outra menina. — Não gosto do jeito como me chamam.
— Então vou te dar um nome novo. Posso?
— Pode sim! Como vou me chamar a partir de agora?
— Deixe-me ver... vou te chamar de... Jane.
A outra menina iluminou-se num sorriso: parecia ter gostado do seu nome, e abraçou Christine. A memória seguinte era de Jane sendo levada para outro lugar. A garota de cabelos curtos pressentira isso, e tentou impedir, mas não conseguiu. Chorou muito depois. Foram-lhe dadas, forçadamente, algumas pílulas calmantes.
— Jane... minha única amiga de verdade – murmurou Christine, voltando seu foco para o tempo presente. — Será que algum dia eu vou te encontrar de novo?
(Música: O esplendor do espaço)
Uma pequena nave de viagem, que comporta apenas uma pessoa, cruzava o espaço. Nela estava Edward Oleg, um rapaz de cabelos alaranjados originário da colônia de Shangri-La (Side 1), que cursava Administração à distância em Arcadia. Não podia fazer curso presencial porque trabalhava fazendo “bicos” e vendendo coisas aqui e ali. Também era um morador da Watchtower; dirigia-se à colônia porque era época de provas, e estas eram feitas apenas presencialmente. Prolongou um pouco sua rota de viagem para passar perto de Side 3, o Reino de Neo Zeon. Edward fitava a colônia sonhadoramente, lembrando-se da bela princesa herdeira do reino, Arturia Nero Zabi, uma garota de 17 anos que tinha cabelos louros e curtos, presos num coque envolto por uma trança. Usava um belo vestido vermelho com libré e o emblema de Neo Zeon no peito. Após diminuir a velocidade e passar por Side 3, suspirou, acelerou bruscamente e tomou o rumo de Arcadia.
(Música – Corte de Neo Zeon — Arturia)
Neo Zeon era uma colônia próspera; apesar das várias guerras que a assolaram, sua economia crescia muito, e a qualidade de vida de seus cidadãos era excelente. A população não via a hora da adorada princesa regente atingir a maioridade e ser coroada rainha aos 21 anos.
No palácio real dos Zabi, Solomon Gato entrava no majestoso salão do trono. Havia um Cyber-Guard de cada lado da porta, na parte interna do salão. Este possuía um estandarte que continua o emblema de Neo Zeon em preto e dourado, um desenho estilizado da Laplace's Box e um retrato grande da princesa Mineva com seu marido, Banagher Links, ancestrais de Arturia.
— Mandou me chamar, Majestade?
— Só quero deixar bem claro – exclamou a jovem, enérgica – que não quero que nenhuma guerra ocorra. Os cidadãos estão prosperando, estão em paz. Quero resolver esta crise com Axis diplomaticamente. Sei que sua empresa lucra em tempos de guerra, vendendo Mobile Suits... mas consigo sentir que você é leal a mim. Gostaria de lhe pedir que permaneça assim, e será bem recompensado. Seus engenheiros poderão produzir máquinas para auxiliar a população em tempos de paz; a população tendo bom poder de compra manterá o seu negócio de pé. Eu lhe garanto o monopólio em meus territórios; a Anaheim Electronics não entrará em Side 3.
— Minha lealdade a você é inabalável, Princesa – respondeu Gato suavemente, colocando as duas mãos nos ombros da moça, por trás – e é por essa mesma razão que eu, como um homem experiente, devo lhe aconselhar. É claro que será maravilhoso se pudermos continuar em paz. Mas, às vezes, temos que tomar algumas atitudes de que não gostamos... em nome do que é melhor e mais correto. Conforme você for se envolvendo cada vez mais em seus deveres reais, irá entender o que digo. Vossa Majestade já deve estar ciente de que os pedidos pelo surgimento da Federação da Terra estão sendo conduzidos por líderes do asteroide de Axis. Se Axis Zeon assumir o controle da Terra... estaremos em enorme desvantagem se uma guerra ocorrer. Os próprios cidadãos do Reino que você tanto ama estarão em risco, pois estarão vulneráveis.
Arturia fechou os olhos para refletir e tentar sentir algo, usando sua intuição Newtype para tentar tomar uma decisão. Depois de alguns instantes, abriu os olhos e disse:
— Peça para prepararem minha nave de viagem. Irei à Terra, e conversarei com os manifestantes. Oferecerei a ajuda de Neo Zeon para o povo, observar de perto as ações de Axis na Terra, para saber com certeza se temos algo a temer ou não.
— Pois não, Majestade – disse Solomon Gato, fazendo uma reverência, afastando-se m pouco, e erguendo o braço – será conforme Seus desíngios. Sieg Zeon!
— Sieg Zeon – respondeu a princesa, também erguendo o braço em saudação.
(Música – Tema de Arcadia)
Daiya já estava com sua bandeja de bolos, procurando Karma no campus de Humanidades, no horário de almoço. Não o encontrava; começou a ficar preocupada com o fato dele achar que ela não veio, e ficar chateado por ter que procurá-la com a intuição Newtype. Começava a andar sem rumo, em círculos, pois já o tinha procurado por todos os lugares.
— Ei, moça!, Você, com o bolo de chocolate! — chamou um Cyber-Guard de cabelo rosado.
“Descobriram-me”, pensou Daiya apavorada, “ele vai confiscar meus bolos!”
— Não precisa se encolher e ficar com medo – comentou o guarda magricela – não vou fazer nada contigo. Não detectei nenhuma ação errada ou criminosa em sua mente. É que um amigo meu estava te procurando, e pediu para eu te avisar que ele te odeia e que ele foi para a biblioteca de Nea Alexandria. Não sei bem o que ele quis dizer com a primeira colocação, mas... é o Karma. Releve. Ele é maluco, mas é gente boa.
— Obrigada – gaguejou a garota, virando-se rapidamente para ir embora.
— Por favor... não me olhe desse jeito – pediu o rapaz de cabelos rosados, parecendo realmente triste. — Cada vez que eu vejo alguém me olhando com medo ou hostilidade, sinto vontade de morrer. Se pudesse, não seguiria esta profissão, ainda mais com o pavor de rejeição que possuo. É que sou órfã, fui criada em um laboratório Newtype... e não tive outra escolha. Mas já que sou um Cyber-Guard, pelo menos quero ser um decente, que não seja estúpido ou truculento. Seu nome é Daiya, não é? O meu é Phillip... embora eu não goste muito do meu nome.
— Não gosta do seu nome? Por quê?
— Não sei explicar. É como... se não fosse eu. Como se eu fosse outra pessoa e tivesse outro nome verdadeiro. Aliás, sinto-me estranho... eu vejo compaixão em seus olhos, mas não consigo senti-la em você. Enfim: vá para a Biblioteca, Karma parecia querer falar contigo com urgência.
— Irei – respondeu Daiya, apreensiva por recear que seu novo amigo estivesse bravo por não tê-la encontrado. — Muito obrigada, Phillip.
Enquanto ela se dirigia à belíssima e enorme Nea Alexandria, Edward Oleg já havia chegado em Arcadia, passando na oficina mecânica de Siren para revisar sua nave. Quando viu o amigo, o jovem mecânico deu um soco furioso na parede.
— Droga! DROGA! Eu sou um inútil mesmo, eu NÃO CONSIGO!
— Calma, cara, o que aconteceu?
— Seria melhor perguntar o que NÃO aconteceu – esbravejava Siren. — Eu não consegui sentir você chegando. E isso quer dizer que... nada de habilidades Newtype se desenvolvendo. Nenhum progresso. Em quase dois anos aqui, NENHUM PROGRESSO.
— Bom, nem todo mundo consegue... mesmo pessoas que viveram a vida toda nas colônias muitas vezes não tem habilidades Newtype despertadas. Como eu, por exemplo.
— Mas para mim isso é algo sumamente vergonhoso – resmungou Siren. — Minha mãe fica me pressionando para que eu herde pelo menos um pouco do talento do nosso ancestral.
— E posso saber quem é?
O rapaz baixinho de cabelos pretos hesitou. Por fim, respirou fundo e falou:
— Só prometa que não vai fazer a cara idiota de surpresa que todos fazem. É Amuro Ray.
— É... ser pressionado a ser como ele deve ser bem estressante – comentou Edward. — Mas olhe só: eu também sou descendente de dois herois de guerra, Beecha Oleg e Elle vianno. Não sou Newtype e minha vida é toda ferrada, quase como a sua. E poxa: dizem que Amuro Ray, além de piloto, era um excelente engenheiro e mecânico... mesmo antes de se tornar um Newtype.
— Diga isso para os seguidores cegos da Cláusula Nove da Laplace's Box., que consideram a “nova raça evoluída no espaço” uma “elite”, e pagam salários bem maiores a Newtypes. Bom, acho que vou dar uma olhada na sua nave agora... afinal foi para isso que você veio aqui. A engenharia mecânica é como uma terapia para mim, toda a raiva e angústia vão embora.
— Já que sua mãe quer tanto que você chegue pelo menos perto do nível de Amuro Ray... por que você não constrói um robô Haro em forma de dragão, e programa o robô para ficar perseguindo-a, dando mordidas, e falando com ela sem parar, como o Haro original fazia?
— Não é má ideia – riu Siren. — Vou anotar no meu caderninho.
Daiya chegou à biblioteca. Viu Karma rodeado de alguns livros grossos sentado em uma mesa perto de uma belíssima fonte em estilo grego clássico. Eram livros de História; o rapaz loiro lia avidamente passagens sobre batalhas antigas, de milênios atrás.
“Os troianos, confiantes em suas defesas, foram aniquilados pelo elemento surpresa. Um pequeno número de soldados gregos escondidos em um cavalo de madeira infiltrado destruiu um próspero e poderoso reino. Subitamente, a sombra do Caos desceu sobre Tróia, e quando se deram conta, os cidadãos já estavam com a mão da finitude pesando sobre seus ombros...”
Nesse instante, Daiya colocou a mão no ombro de Karma, e o chamou. Ele levou um susto enorme, dando um grito e quase caindo da cadeira. A moça, preocupada, tentou ajudá-lo, segurando-o e ajudando-o a se sentar novamente.
— Está tudo bem? — perguntou ela, docemernte.
— Quer... me matar... de susto, Daiya Winter? Eu não senti você chegar... deve ser porque eu estava compenetrado na leitura. Aliás... por que a senhorita não apareceu nos arredores do campus no horário em que combinamos? Teve algum problema?
— Eu apareci, mais cedo do que o combinado, e fiquei te procurando, não te encontrei...
“Ela está mentindo”, pensou Karma, pesaroso, “eu não consigo ver isso na mente dela”.
— Não precisa mentir para mim. Se dormiu um pouco mais, demorou para fazer o bolo, pode falar para mim, não irei brigar com você.
(Música – Tema melancólico de Daiya)
— Mas eu não... não estou mentindo – murmurou a moça de cabelos ondulados, baixando cada vez mais a voz ao ver a expressão impassível de Karma, de quem não estava acreditando.
— Bom... de qualquer forma, não tem importância. Quero levar o bolo inteiro hoje – disse o garoto, estendendo uma nota de dinheiro. Daiya fez um gesto de recusa com a mão.
— Não precisa pagar. Já que eu te deixei tão aborrecido... e você acha que eu estou mentindo... pode ficar com tudo. Aceite isso como um pedido de desculpas. Afinal, deve ter sido desgastante para você usar suas habilidades para me procurar depois de uma prova difícil...
— Ué... mas você não vive do dinheiro dos seus bolos?
— Vivo sim. Mas prefiro ficar sem dinheiro hoje do que ver você chateado comigo. Além do mais, eu tenho o troco do seu bolo de ontem, que você não me deixou devolver. Não se preocupe.
Karma hesitou. Ela parecia realmente estar sendo sincera e com um enorme remorso por não tê-lo encontrado como combinado, apesar de sua percepção não lhe dizer isso. Sentiu-se um pouco culpado; continuou segurando a nota de dinheiro, dizendo:
— Está bem. Retiro o que eu disse sobre você estar mentindo. Afinal, minha intuição devia estar ruim por causa do desgaste mental da prova, por isso não te achei. Mas só retirarei o que disse se você aceitar meu dinheiro. Sem troco. E sem discussão.
Daiya arregalou os olhos, sendo surpreendida, e pegou a nota, mas não a guardou: ficou remexendo-a enquanto Karma dava uma enorme mordida em um pedaço grande.
— Tem algo diferente nesse bolo hoje – comentou o rapaz. — O que você colocou aqui?
— Baunilha – respondeu a moça. — Acrescentei creme de baunilha ao recheio. Eu já ouvi falar que baunilha é antidepressivo, e ajuda a aumentar os níveis de serotonina do sangue. Achei que seria bom após um evento estressante... desculpe-me se não ficou bom.
— É por isso que eu te odeio – comentou ele, zombeteiramente. — Você coloca um ingrediente a mais no bolo pensando em mim, fica ótimo, mais até do que antes, e ainda pede desculpas por isso, depois de eu ter te chamado de mentirosa indiretamente? Poupe-me, Daiya Winter.
Continuou comendo, sujando as bordas da boca. A moça deu uma espiada sobre o livro aberto na mesa, e comentou:
— Gosta de História?
— Sim, gosto muito. Quando estou estressado, gosto de vir aqui para relaxar um pouco, mergulhando em fatos antigos. Inclusive, eu estava refletindo recentemente sobre o porquê do meu gosto pelo estudo do passado... e agora eu entendo. É como se... eu trouxesse de novo à vida os atos heroicos de todas estas pessoas que já se foram. Como se eu dissesse a elas: “vocês não foram esquecidas. Seus esforços não foram em vão. Continuam vivas, ecoando no presente através destas memórias colocadas em um livro”. Pode parecer um tanto narcisista da minha parte de dizer isso, mas... eu tenho muito medo de ser esquecido. De ver que, com o tempo, ninguém se lembrará mais de mim, e tudo o que sobrou da minha pessoa é uma foto e um nome em uma árvore genealógica. Por isso, eu odeio a Morte, o Vazio, o Caos.
— Meu desejo é exatamente o contrário disso, Karma.
O rapaz loiro arregalou seus olhos verdes.
— C... como assim? Você deseja ser esquecida?
— Sinto como se o peso de existir fosse grande demais para mim. Às vezes sinto que a melhor coisa que poderia me acontecer seria desaparecer sem deixar rastros. Desfazer-me como poeira no vento. Todas as pessoas que conheci se esqueceriam completamente que me conheceram, e nenhum dos lugares que frequentei guardaria qualquer sinal da minha passagem pelo mundo. Como se o meu único lar verdadeiro... fosse o Vazio.
Essas palavras impressionaram Karma profundamente. Daiya dizia tudo aquilo como se fosse normal, como se ela já estivesse absolutamente conformada com esse sentimento. Então, ele começou a se perguntar o que a fez chegar a esse ponto, pelo que ela tinha passado para se sentir dessa forma. Tentou observar algo sobre isso na mente da garota, mas não conseguiu sentir nada. Decidiu perguntar sobre isso em outro momento, quando a conhecesse um pouco melhor.
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