Ketsueki No Omoide - Kaen No Rei
10 Especial - A Princesa e o Barqueiro
Notas iniciais
Eis que, um dia, quatrocentos anos atrás, Nanami, ou a Kyuubi no Youko, tirou uma caneta e um papel das sacas, e olhando para o mar, pos-se a escrever. Os tempos passaram, Nanami se tornou Chihiro, e Chihiro se tornou Naruto, e essa Fábula ainda era lida em todos os continentes elementais.
(http://www.youtube.com/watch?v=rDv2CzEI1N8&feature=relmfu — música tema da história, coloquem pra tocar enquanto leem, da um belo fundo)
A PRINCESA E O BARQUEIRO
Eis que, num final de dia, com o sol já baixo nas costas do mar, um soldado da guarda real com sua armadura reluzente veio bater à porta do Barqueiro. Resmungando, o barqueiro a abriu minimamente, mantendo um olhos vivo no rosto por trás dela, e ao notar a figura brilhante de cabelos e barba brancas, a abriu completmente.
Com voz de trovão, o soldado disse:
-É tu o homem que leva as pessoas e as traz de volta para o continente?
O Barqueiro concordou. Sendo moço novo, ele respondeu com a gentileza e o respeito que dispensaria para um homem mais velho que si, e um homem acima de si, somadas:
-Chaman-me de Barqueiro.
-Condizes com tua ocupação.
-E a vossa?
-Trata-me por soldado, e venho aqui sob ordens de Sua Majestade, a Princesa, és tudo que precisa saber, agora, deixa-me entrar.
O Barqueiro se afastou da porta, adentrando para o interior da cabana, e puxando a única cadeira da casa para que o soldado se sentasse. Os bons costumes ditavam que ele deveria oferecer chá pras suas visitas, mas não dispondo de nenhum, encheu uma xicará de asa quebrada com aguardente, e a estendeu ao soldado, que aceitou com um bufo agradecido, mas não a levou aos lábios.
-Dizes que veio sob ordens da Princesa — o Barqueiro disse — Que poderia ela querer de mim?
-Não me compete conhecer os desejos de Nossa Majestade, mas cabe a ti realizar qualquer coisa que ela te pediris. Acompanha-me.
O Barqueiro acenou nervosamente, e correndo atrás do soldado, deixou sua cabana pra trás. Ao chegarem ao castelo no alto da colina, o soldado tirou um manto das sacas do cavalo e atirou-o ao barqueiro, ordenando que as vestisse e ficasse calado.
E assim, fingindo-se de prisioneiro para os guardas do portão, o Barqueiro adentrou o castelo, quase arrastado pelo velho soldado. Protegido pelo manto e pelas palavras do Soldado, o jovem passou desinteressado para as sentinelas que percorriam os corredores, até que chegaram na porta do quarto mais alto, da torre mais alta do castelo. O Soldado bateu continência para um sentinela, que respondeu apressadamente.
-Venho trazer um pobre diabo que será executado amanhã — O Barqueiro arquejou de medo, mas o Soldado lhe pisou forte no pé — E ele deseja pedir sua redenção para a misericórdia da Princesa. Deixa-me passar.
O Sentinela estreitou os olhos, tentando enchergar dentro do manto, mas por fim concordou e bateu na porta três vezes, se afastando logo em seguida.
-Vossa Majestade, o Soldado traz-lhe o prisioneiro para que lhe de sua benção...
-Deixa-os entrar Sentinela.
E ambos entraram, fechando a porta atrás de si. O Soldado virou-se e se ajoelhou, e o Barqueiro agora Prisioneiro se apressou a fazer o mesmo.
-Trago-vos o Barqueiro da vila, como me pediste Senhora...
-Obrigado Soldado, deixa-nos a sós...
-Mas Senhora...
-És uma ordem Soldado.
-Sim Senhora.
Assim que o velho soldado saiu, o Barqueiro ousou levantar os olhos, e o que viu quase lhe fez gritar de susto. A princesa, dobrando as barras do vestido e descalçando os sapatos, ajoelhava-se e curvava-se diante dele.
-És o Barqueiro, que leva as pessoas pra longe dos olhos do Rei — ela disse — Peço-te que faças algo por mim.
Completamente assustado, o Barqueiro só pode concordar.
-Ordene minha Senhora, eu o farei.
-Meu Pai, o Rei — ela começou, com a voz embargada e lágrimas nos olhos — Deseja que me case com o Príncipe vindo do continente, e o sirva para firmar aliança com seu país. Não tenho amor a esse príncipe, e desejo que me leves pra longe, longe o bastante pra que nunca poderão me encontrar.
O Barqueiro estava em falta de palavras, então se limitou a concordar.
-Salva minha vida fazendo isso — disse a princesa, com um sorriso — Terás todo o ouro que desejar, todas as jóias e todos os presentes com que já fui agraciada, se prometer me esperar amanhã para que partimos.
-Eu esperarei minha Senhora.
O Barqueiro, como prometido, esperou na hora exata no porto, com seu barco pronto para partir a qualquer momento. Não tardou, e ele reconheceu o vulto da Princesa vindo a cavalo, com um manto comprido que não conseguia esconder a beleza do seu corpo, nem os cabelos dourados que lhe escapavam e agitavam ao vento.
-Me esperastes como combinado – ela sorriu para o barqueiro – Eu estou feliz.
-Prometi que esperaria – O Barqueiro respondeu sem jeito – Devemos partir imediatamente?
-Sim, não há o que esperar – ela se voltou ao cavalo, lhe afagando a crina comprida e branca – Neve, volte ao palácio, ou corra livre entre os campos, não existe mais a necessidade de me levar onde queira ir...
A cavalo relinchou num tom que pareceu quase triste, mas ficou quieto quando a Princesa lhe abraçou o pescoço forte. Em seguida, com lágrimas nos olhos, ela deu um tapa em suas ancas, e o cavalo empinou, correndo pra longe com as rédeas balançando.
O Barqueiro cuidou dos últimos preparativos antes de zarpar, mas o tempo todo observou a Princesa na proa, que tinha os olhos pregados no horizonte azul do oceano. Quando começaram a navegar, ela não segurou uma risada alegre.
Ambos navegaram durante dias, tentando encontrar um lugar onde a Princesa poderia viver longe dos olhos do seu pai. Não o encontraram. O horizonte era a única coisa que sempre permanecia a frente deles, enquanto tudo o resto era deixado pra trás.
-Barqueiro...?
-Sim, minha Princesa?
-Existe algum lugar além daquele? – ela apontou a reta final do mundo, agora tingida de vermelho e laranja, onde o sol descansava – Tem como irmos pra junto do sol?! O lugar onde ele se deita deve ser além dos olhos de todos os homens, algum lugar onde mesmo os Reis não podem chegar...
-Se existe tal lugar, deve ser além do alcance de um pobre barqueiro minha Princesa...
-Não! – ela vociferou, assustando o jovem – Não existe lugar na terra onde não possas alcançar, tu que velejas sobre o leito do mar e traz as pessoas os lugares onde elas devem estar. Você é o único que pode chegar lá, então me leve...
A Princesa, olhando fundo nos seus olhos, disse com voz suave.
-Me leve até o horizonte, e eu serei sua... Me leve até junto do sol, e passaremos nossos dias juntos com ele, longe da terra dos homens...
O Barqueiro assentiu, e com um sorriso, ela o beijou. Foi como se o mundo parasse pra ambos, enquanto seus lábios estavam juntos, foi como se já estivessem lá, nada parecia faltar na vida de ambos.
Eles continuaram velejando, observando o sol durante o dia e se amando a noite, sob o olhar da Lua, que parecia gentil ao iluminar tão suavemente as águas apenas para os dois. Por mais que navegassem, o horizonte nunca parecia chegar até eles, era uma meta além das capacidades de um simples humano, mas nenhum deles desistiu. O Barqueiro soltava as velas todas as manhãs e as aduchava a noite, e logo os mantimentos para a viagem foram rareando. A Princesa não queria descer para terra firme, depois de tanto tempo, ela se tornara um espírito do mar, e o solo de pedras não a atraía mais.
Apesar disso, ela acabou concordando, e na manhã seguinte, ambos trajaram seus mantos compridos e desceram para a cidade do porto. Nenhum deles imaginava que estavam sendo seguidos por soldados de terra firme, e antes que pudessem escapar, foram presos.
Aos choros, a princesa foi levada de volta para o Rei, que a abraçou alegre, ignorando as palavras dela. Soldado estava ali também, amarrado a uma haste sem sua armadura, com marcas de chicote nas costas.
-Perdoe-me princesa – ele disse – Eu...
Mas antes que pudesse terminar, o Rei tirou uma chibata das vestes e acertou o soldado, o fazendo gritar pelos cortes abertos.
-Cale-se, você conspira pra sequestrar minha filha, e ainda pede clemência a ela?! Nenhuma clemência é dada para aqueles que conspiram contra o Rei! – ele ordenou que levasse o Soldado, e com voz de ferro, disse – Tragam-me o Barqueiro!
A Princesa chorou e implorou aos pés de seu pai, mas o Rei era uma pessoa de coração duro, e seus olhos se mantiveram no jovem que foi arrastado, preso a grilhões, e soltado aos seus pés. A Princesa correu pra ajuda-lo, mas foi impedida por um tapa do Rei, que a atirou ao chão.
-Ousa manipular a mente de minha Filha, tua Princesa?! – gritou o Rei, ignorando as súplicas dela – Tu não verás o sol baixar mais nessas terras, mas como sou um Rei bondoso, lhe concedo um último pedido.
O Barqueiro, levantando os olhos, disse:
-Peço a oportunidade de me desculpar com vossa filha – ele notou a carranca do Rei – Não temas, acorrentado, não posso fazer-lhe mal, meu coração pesa com a culpa pela minha traição, e meu último desejo antes de morrer é saber que minhas faltas estão perdoadas por aquela a quem ofendi...
-Muito bem, darei privacidade a ambos...
O Barqueiro curvou a cabeça, agradecido. Assim que o Rei se retirou, a Princesa atirou-se aos seus pés e tomou-lhe os lábios nos seus, que tinham o gosto do seu pranto.
-Óh Barqueiro, por favor, me perdoe – ela chorou – Eu fui mesquinha e egoísta, agora perderás tua vida por isso, que hei de fazer?!
-Não chores Princesa – O Barqueiro sorriu, erguendo com dificuldade uma mão e lhe afagando o rosto – Lembras do que vosso pai disse?
-Que nunca mais verás o sol baixar sobre essas terras?
-Ele esta errado, não é na terra que o sol se deita, é no mar – ele sorriu – É impossível pra homens, mesmo para barqueiros, chegar até o lar do Sol, mas como alma, que posso ir até lá.
A Princesa derramou mais lágrimas sobre o rosto do Barqueiro, que sorriu com a suavidade dos seus cabelos dourados.
-Eu vou até o horizonte, e vou te esperar lá minha Querida princesa, mas peço-lhe um único pedido...
-Diga, e o que for eu farei.
-Não apresse sua vinda até mim, viva, seja feliz, e alcance a velhice. Quando sua hora chegar, correrás sobre o leito do mar até onde eu a estarei esperando, no horizonte...
A Princesa sorriu, e concordou. Beijando seus lábios uma última vez, ela observou ele ser levado, e observou como sua alma se esvaiu do seu corpo na hora da morte, e pareceu dançar e girar no ar em júbilo, antes de acenar e correr sobre o leito do mar até junto do sol. Pode ser que ninguém mais tenha visto, mas a ele, que sua alma pertencia, ela poderia ver.
Muitos anos se passaram desde então, e a Princesa nunca esqueceu o Barqueiro ou o Sol, ou o mar ou o horizonte. Ela sonhava em correr pra lá, e encontrar seu amado, e não tardou para esse dia chegar. Numa noite chuvosa, já em idade avançada, a Princesa se levantou, e sorriu ao notar seus cabelos dourados novamente, sua pele suave como um lençol de água e suas vestes de cetim. Na cama, seu corpo envelhecido dormia, agora frio, sem serventia. Ela observou a janela, e na linha que liga o céu com o mar, ela pode ver...
-Eu já estou indo Barqueiro...
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