Kenyako: Amor Inocente
7 Bolo de chocolate
Notas iniciais
Após assistirem um jogo de basquete de Takeru, os digiescolhidos se dirigiram até a saída do colégio.
—Você foi muito bom hoje Takeru-san.- Iori deu um pequeno sorriso enquanto carregava sua espada de kendo.
—Obrigado.- O loiro sorriu de volta.
—É sério Takeru-kun, você nunca pensou em ser um jogador profissional algum dia?- Perguntou Miyako.
—Acho que não, o basquete é só um hobby pra mim.- Ele deu de ombros.
—Hobby ou não, você continua sendo um ótimo jogador.- Hikari falou e Takeru corou.
—Ei, não é justo! Eu também estava jogando, não vai falar algo de mim?- Daisuke implorou para a castanha.
—Só se for o fato de você não ter feito nenhuma cesta.- Inoue riu da cara do ruivo.
—Sua...
—Ei o que é aquilo?- Takaishi apontou para uma pequena multidão que havia do outro lado da rua, as crianças se entreolharam e correram em direção daquelas pessoas.
—Com licença! Saiam da frente!- Motomiya gritou enquanto empurrava alguns estranhos, e quando todos abriram passagem os garotos permaneceram com uma gotinha na cabeça. -Então é só isso?- Havia um rapaz ajoelhado diante de uma jovem oferecendo um pequeno embrulho com um laço vermelho.
—Aceite isso como prova do meu amor Natsume-san!- O rapaz falou fechando os olhos temendo a resposta enquanto a moça abria o presente.
—Oh Akira-kun, você comprou isso para mim?- A jovem retirou um chocolate em forma de coração da caixa e todos ao redor ficaram surpresos.
—Na verdade, eu sei que você adora doces então eu tentei fazer alguns para você. Parece idiotice mas...
—Essa é a coisa mais fofa que alguém já fez por mim!
—E-Então... V-Você aceita ser minha namorada?- Todos ficaram em silêncio.
—... Sim! Mas é claro que sim!- Ela disse, e quando o rapaz se levantou, pulou em cima dele e o encheu de beijos. Ao redor dos dois todos aplaudiam.
—Que lindo!!!- Yagami e Inoue disseram ao mesmo tempo.
—Eca! Que nojo isso sim!- Daisuke falou mostrando a língua.
—Você que é um nojo...- A garota de cabelos lilases sussurrou para si mesma.
—Disse alguma coisa?
—O que? Não, você está ouvindo coisas.- Takeru interferiu evitando outra briga.
Mais tarde, já em sua casa, Ichijouji Ken olhava pensativo para o prato em sua frente apenas remexendo a comida, "Aquele rapaz foi bastante corajoso se declarando na frente de todos... Gostaria de ser como ele, e talvez algum dia Miyako-san e eu...", seu rosto corou por completo só em imaginar, mas seus pensamentos foram interrompidos por sua mãe.
—Ken, você está vermelho, aconteceu alguma coisa?- A Sra. Ichijouji perguntou preocupada com o filho.
—Hã? N-Não, e-eu só estou...
—Você anda meio diferente dês de que começou as aulas, está sorrindo mais, falando mais, e eu podia jurar que semana passada ouvi você cantarolar no chuveiro. Não que isso seja ruim mas, se tiver algo para dizer, você sabe que pode confiar em nós.- Sr. Ichijouji completou.
—E-E-Eu s-sei... M-Mas...
—Mas?- Eles lançaram um olhar interrogatório para o filho, que permaneceu em um silêncio desesperador por um tempo, olhou bem para o relógio e disse a primeira coisa que veio em sua mente.
—Ah, olha a hora!- Ele fingiu um bocejo. -Acho melhor eu ir para a cama não é mesmo? Boa noite!
—Boa...- Sra. Ichijouji iria continuar, mas o ex gênio já havia corrido para seu quarto. -... Noite.
—Há algo de errado com ele.
—Hmmm, e eu estou tendo um pressentimento de que logo irei descobrir.- Ela sorriu tendo uma pequena ideia do que seria.
No outro dia, as crianças escolhidas estavam sentadas na mesa do refeitório. Daisuke e Takeru falavam de esportes e Iori prestava atenção neles. Ao lado do garoto, Hikari e Miyako conversavam entre sussurros, aquilo chamava a atenção do moreno, sobre o que elas estavam conversando? O que ela está pensando? Do que ela gosta? Ele queria saber mais sobre a garota, então moveu a cabeça devagar e parou para ouvir a conversa das duas discretamente.
—Aquilo ontem pareceu uma cena de filme, quem poderia imaginar que ele mesmo fez aqueles doces.- Disse Yagami.
—Pois é, esses garotos de hoje em dia são todos uns ogros insensíveis sem coração.- Disse Miyako.
"Insensíveis? Sem coração?...", Ichijouji sentiu um aperto em seu peito.
—Ah, nem todos são assim.- A castanha deu uma risadinha.
—Quem me dera se alguém fizesse algo para mim dessa maneira.- "Algo dessa maneira?...", o garoto iria escutar o resto da conversa, mas seu melhor amigo o impediu.
—Ei Ichijouji, cê tá bem cara?- Daisuke perguntou.
—E-Eu estou ótimo.
—Ok você que sabe. Continuando... Quem é melhor no baquete, eu ou o Takeru?- O herdeiro da coragem sorriu orgulhoso.
—Acho que...
—Ichijouji-senpai!!!- Um grito foi ouvido de longe. Era uma garota que veio correndo até ele, quando chegou na mesa ela entregou uma pequena caixa cor-de-rosa com vários corações para o ex gênio. -Por favor aceite!
—Err, claro.- Ele pegou a caixa e a garota saiu correndo envergonhada. Daisuke olhou maliciosamente para o amigo.
—E então "senpai"? Não vai abrir o seu presentinho?- O ruivo sorriu e ele obedeceu. Ao abrir, viu que havia alguns chocolates e um bilhete.
—Aceite isto como prova do meu amor.- O moreno leu em voz não muito alta, mas o suficiente para que seus amigos o ouvissem.
—Uau, você arrasa corações mesmo hein!- Motomiya aplaudiu.
—Vai retribuir?- Takeru perguntou.
—Retribuir?
—É, geralmente você retribui a pessoa dando algum presente a ela quando sente o mesmo.- Hikari deu um leve sorriso.
—Acho que não.
—Mas você ainda vai querer esses chocolates?- Perguntou Daisuke com um brilho de esperança nos olhos.
—Podem ficar com eles.- Ele empurrou a pequena caixa até o meio da mesa e todos se serviram, a não ser pela garota de cabelos lilases ao seu lado. Havia uma expressão de frustração no rosto dela, "Será que eu fiz algo de errado?", pensou, Ichijouji pegou um chocolate e cutucou o ombro de Inoue, que virou-se meio assustada.
—Quer um?
Eles permaneceram calados por um bom tempo enquanto Miyako olhava para o garoto com uma expressão de repugnância, "Por que ela está me olhando assim?! Será que ela me acha insensível?!".
—Não, obrigada.- Ela virou o rosto para o lado contrário esmagando o coração dele como uma formiguinha, "ELA ME ODEIA!", ele chorou por dentro.
No fim do dia, as seis crianças iam em direção de suas respectivas casas, Daisuke dava em cima de Hikari, Takeru o pedia para parar de perturbá-la e Iori conversava com Miyako. O ex gênio olhou para a herdeira dos brasões do Amor e da Sinceridade e ela fez o mesmo, mas logo desviou o olhar e em seguida voltou sua conversa com Hida com a mesma expressão de antes, "O que eu fiz de errado?", ele estendeu a mão até o ombro dela para tentar perguntar o que houve.
—Inoue-san!!!- Foi interrompido novamente, dessa vez por um completo estranho que pulou em cima da garota, a fazendo cair no chão e atraindo olhares de todos ao redor, principalmente de Ken.
—Yoshida-kun! Você está me esmagando!- Ela falou sufocada. "Pois é, quer sair de cima dela?!... Espera, por que eu disse isso?".
—Desculpe.- Os dois se levantaram. — É que eu não consegui agradecer corretamente durante a aula.- "AGRADECER?!". -Muito obrigado por não me dedurar!
—Yoshida!!!
—Ah, deve ser o treinador querendo falar comigo. Enfim, até amanhã Inoue-san, fico te devendo uma.- Ele deu uma piscadela acompanhada de outro abraço apertado na garota e foi embora.
—Caramba, você conhece Yoshida Yuhei?- Takeru falou surpreso.
—Quem é Yoshida Yuhei?- O moreno perguntou.
—O capitão exibido do time de basquete.- Daisuke revirou os olhos.
—Vocês são... Amigos?
—Não. Ele estava dormindo durante a aula e eu só dei cobertura, então como amanhã é meu dia de limpar a sala, ele disse que iria no meu lugar. Mas isso importa?- Miyako olhou fundo nos olhos de Ichijouji e o garoto sentiu um arrepio correr pela espinha.
—N-N-Não... Quero dizer...- Ele mal conseguiu formular uma frase, mas já era tarde, ela deu as costas e marchou até sua casa. Takeru e Iori olharam para a garota de cabelos lilases sem saber o que fazer, até que a mesma se virou para os dois.
—Vocês vem ou não?
—C-Claro. Até amanhã pessoal!- O loiro acenou e o mais novo do grupo apenas se curvou, ambos foram até a amiga.
Depois de levarem Hikari até a residência dos Yagami, Daisuke acompanhou Ichijouji Ken até a estação de metrô. O ex gênio não entendia mais nada, por que ela estava daquele jeito? Será que alguém fez algo para ela? Será que ele fez algo para ela? E por que sentiu tanta raiva daquele garoto que a abraçou? "O que significa tudo isso que eu estou sentindo agora? Eu preciso de respostas...", ele permaneceu mergulhado em seus pensamentos por mais um tempo, mas como de costume, alguém sempre o interrompia.
—Ichijouji? Ichijouji?- Daisuke estalava os dedos na frente do rosto do moreno.
—Hã? O que? Oi?
—Cara, cê anda muito avoado ultimamente, se não fosse por mim você teria batido a testa no meio de um poste alguns segundos atrás.
—Desculpe, eu só estava... Pensando.
—Ah, ok...- Eles continuaram em silêncio mais um pouco. -Ei!
—Hum?
—O que houve com a Miyako?- O ruivo tirou as palavras da boca do garoto.
—Não sei, ela nem falou comigo hoje.
—Você fez algo ruim pra ela?
—Não, e esse é o mais estranho de todos. Por que ela estaria com raiva de mim se eu não fiz nada para ela?
—As garotas são confusas, principalmente quando se trata da Miyako.- Motomiya colocou a mão no ombro do parceiro de Jogress. -Mas, o meu pai me disse que as vezes nós não devemos discutir com as mulheres, mesmo que estejamos certos. Então acho melhor você pedir desculpas.
—Mas isso não faz sentido!
—E quem disse que é pra ter sentido?- O ruivo deu de ombros. Eles já estavam de frente ao metrô, então o ex gênio apenas entrou no vagão, acenou se despedindo do amigo e foi embora.
Ichijouji Ken abriu a porta de seu apartamento e como de costume, o silêncio pairava sobre a casa e apenas o barulho da televisão da sala de estar era ouvido. Ele deixou os sapatos na entrada e fechou a porta.
—Mãezinha? Cheguei.- Ele foi até a sala e viu um pequeno digimon esverdeado dormindo como um recém-nascido sobre o sofá. O garoto se agachou perto dele e alisou levemente seu rosto com o indicador e o mesmo começou a abrir os olhos devagar.
—Ken-chan?- O digimon perguntou ainda meio sonolento.
—Você dormiu o dia inteiro ontem e ainda está com sono?- O moreno sorriu e Wormmon deu uma risadinha. -Eu já disse para não dormir aqui no sofá se não vai ficar com as costas doendo.- Ele disse enquanto levava seu parceiro até o quarto.
—Desculpe.
—Não precisa se desculpar.- Ken colocou o digimon em cima da cama e o cobriu. — Aonde foi minha mãe?
—Fazer compras.
—Hmm, entendo. Durma bem Wormmon, boa noite.
—Boa noite Ken-chan.- O pequeno inseto sussurrou a ultima frase e seu parceiro saiu.
O ex gênio foi até a varanda e ficou observando a paisagem. Diferente de Odaiba, Tamachi era bem mais tranquila, ele olhou para as pessoas lá em baixo e viu vários casais passeando, se abraçando, conversando... Se beijando. Um rubor surgiu nas bochechas do moreno, que voltou até a sala o mais rápido que pôde. Ele se sentou no sofá e ligou a televisão, começou a passar os canais procurando algo de seu interesse, mas tudo que havia eram programas de romance, filmes de romance, séries de romance, até mesmo desenhos animados de romance. O que era isso? Por acaso o universo estava querendo que ele não parasse de pensar em Miyako? Se sim, teve sucesso. Então tudo que o garoto podia fazer agora era desligar a televisão. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e o rosto nas mãos, se lembrou da conversa entre ela e Hikari, o que ele havia ouvido mesmo? Sim! Quem me dera se alguém fizesse algo para mim dessa maneira, foi isso o que ele ouviu, mas, o que significava aquele algo? Olhou para a esquerda e viu a cozinha, "Será que cozinhar é muito difícil?", perguntou para si mesmo, "Mas o que eu poderia fazer?", o garoto foi até o armário e pegou um velho livro de receitas de sua mãe, colocou o mesmo livro na bancada e o abriu, começou a folhear as páginas e haviam várias receitas ótimas, mas qual escolher? Até que finalmente achou algo perfeito, um belo, mas simples, bolo de chocolate, ele não era muito fã desse sabor, mas talvez aquela garota não pensasse o mesmo, então ele decidiu arriscar e pegou todos os ingredientes da lista.
Da primeira vez o bolo ficou queimado, da segunda o ex gênio esqueceu de colocar fermento, da terceira o chocolate e na quarta o bolo explodiu sujando todo o forno. A cozinha estava um caos, além de vários ingredientes espalhados de um canto para o outro, o chão foi coberto por farinha e sem falar no próprio Ichijouji, cujo as roupas estavam tão sujas quanto o local, com uma mistura de chocolate, leite e algumas cascas de ovo em cima da cabeça. Ken se sentou no chão e apoiou as costas no armário inferior.
—Eu sou um fracasso...
—Ken?! Mas o que é que houve aqui?! Que bagunça é essa?!- Sra. Ichijouji perguntou tão surpresa que derrubou todas as sacolas de compras no chão.
—M-Mãe? E-Eu...
—A minha cozinha! E, oh, meu filho, olhe o estado de suas roupas!- Ela suspirou. -É bom ter uma boa explicação para tudo isso, ouviu?!
—Sim mãezinha.
—Mas antes de tudo, vá tomar um banho.
—Sim mãezinha.- O moreno se levantou e foi para o banheiro.
De banho já tomado, Ichijouji Ken voltou à sala e encontrou novamente sua mãe, a cozinha já estava limpa e arrumada e a mulher dava leves tapinhas no sofá indicando para seu filho sentar-se ao seu lado, que foi o que ele fez.
—Então, quer me dizer qual foi o motivo de toda aquela sujeira?- Ela perguntou mas o moreno permaneceu em silêncio de cabeça abaixada. O que ele diria para ela? Na verdade, nem ele mesmo sabia o que dizer, aquele sentimento era novo para o garoto, nunca havia sentido aquilo antes e não saberia explicar para sua mãe que decidiu cozinhar do nada só porque uma garota havia dito que adoraria se alguém fizesse aquilo para ela. O ex gênio respirou fundo, mas continuou de cabeça abaixada para esconder a enorme vermelhidão em seu rosto.
—Mãe... Lembra do que eu te falei um tempo atrás? Sobre o Wormmon, sobre os digimons e sobre o Digital World?- Ele perguntou.
—Sim, eu lembro.- A Sra. Ichijouji entristeceu ao se lembrar do que havia ouvido sobre seu filho ser o Kaiser.
—Bem... Lembra daqueles amigos que eu trouxe aqui no natal passado e que eu disse que eles também tem digimons?
—Sim.
Enquanto isso, no corredor, Wormmon havia acabado de acordar, quando chegou na sala escutou a conversa entre a mãe e seu parceiro e decidiu se esconder para ouvir tudo sem ser percebido.
—Então... Se lembra da Miyako-san não é?
—Aquela garota de cabelo castanho curto?
—Não, a outra.
—Ah, sim! Aquela que dava um grito a cada vez que perdia no jogo de cartas?
—Err, essa mesmo.- Ele ficou com uma gotinha na cabeça. -Enfim, eu não te contei mas... Da ultima vez que eu fui no Digital World, fiquei preso em uma caverna com a Miyako-san por quase duas horas.- A mulher olhou para o filho preocupada. -Calma, eu fiquei bem.- Ela suspirou novamente. -Como eu ia dizendo... Enquanto estávamos presos, ela começou a entrar em pânico e a se desesperar. Eu tentei acalmá-la, e quando finalmente consegui, ela olhou fundo nos meus olhos e eu senti como se estivesse nas nuvens. Ela é engraçada, confiante, alegre, forte, sincera e... Ela é... É... É Linda...- Ele sorriu e corou mais ainda.
Novamente no corredor, o digimon inseto sentiu seu coração se partir ao meio, como ele não havia percebido aquilo? Era por isso que Ken estava tão estranho ultimamente? E se ele se esquecer de Wormmon? Ou pior, e se Miyako roubar seu parceiro? O que ele faria?, o digimon ponderou. Já ao lado do ex gênio, sua mãe se enchia em lágrimas.
—Mãezinha?
—Ah querido, eu estou tão feliz por você!- Sra. Ichijouji abraçou fortemente o filho.
—Mãezinha... V-Você está me sufocando...
—Oh.- Ela separou o abraço e enxugou as lágrimas. -Desculpa Ken, é que eu mal posso acreditar que você já está tão crescido, que até gosta de alguém agora! Então foi por isso que você fez toda aquela bagunça?
—Sim... Ela disse que gostaria que alguém fizesse algo assim para ela.- Ele abaixou a cabeça novamente.- Mas mãe, eu posso fazer uma pergunta?
—Claro meu filho.
—... Toda vez que eu estou com a Miyako-san eu sinto algo estranho... Uma dor no peito, um frio na barriga, uma sensação... O que significa tudo isso?
—Ah Ken, você está apaixonado! Isso se chama amor!- Sra. Ichijouji deu um sorriso sereno.
—A-A-AMOR?- O moreno levantou a cabeça com o rosto tão vermelho como um tomate retirando alguns risos de sua mãe. No corredor, Wormmon já não sabia o que pensar mais, ele apenas voltou triste para o quarto para tentar esquecer aquilo.
—Sim, agora vamos terminar o que você começou!- Ela caminhou até a cozinha.
—Terminar?
—É. Venha, eu vou te ajudar a cozinhar.
—Obrigado mãezinha.- O garoto foi até a mãe e a abraçou, a mesma logo correspondeu.
—Tudo pelo meu filho. Agora rápido! Aquele bolo não vai se fazer sozinho não é mesmo?- A Sra. Ichijouji disse enquanto ele pegava os ingredientes.
Alguns minutos depois o bolo já estava feito, era simples, mas para Ichijouji Ken parecia uma verdadeira obra de arte. Com a ajuda de sua mãe ele cortou dois pequenos pedaços, os colocou em uma caixinha e em seguida embrulhou a mesma, olhou por mais um tempo até que alguém surgiu na cozinha.
—Hmm, que cheiro bom! Oh, esse bolo é pra mim?- Perguntou o Sr. Ichijouji enquanto deu um leve beijo em sua esposa.
—Não, é para a amiguinha do Ken, a Miyako.- Sra. Ichijouji deu uma risadinha.
—O-O que?! E-Eu não...
—Hmm, Miyako né? Ela é bonita?- O homem olhou maliciosamente para o filho, que voltou a ter o rosto vermelho por completo.
—NÃO! Q-Q-QUERO DIZER...
—De acordo com o Ken ela é linda!
—Ah, esse é o meu garoto!- O moreno não podia falar mais nada pois já estava morto de vergonha.
Mais tarde em seu quarto, Ken não conseguia dormir, estava muito nervoso e ao mesmo tempo ansioso para entregar aquele presente, o que ela diria? Ele ficou imaginando as possibilidades...
Primeira:
—Miyako-san, aceite por favor!
—Eu tenho cara de quem ta passando fome?
Segunda:
—Miyako-san, fiz especialmente pra você!
—Ah é ? E que intimidade você tem comigo para me fazer alguma coisa?
Terceira:
—Miyako-san, eu gostaria muito que você aceitasse!
—E o que você quer em troca, posso saber?
Quarta:
—Miyako-san, eu tenho algo para te dar!
—Desculpe Ken, mas o meu coração já pertence a alguém!
—Quem?
—Yoshida-kun!- Ela pulou nos braços do atleta.
—Vamos Inoue-san, estamos atrasados para o nosso casamento!- E de repente eles já estavam vestidos à calhar. -Ichijouji, segura ai!- O jogador jogou uma bola de basquete na cara do moreno, fazendo-o despertar de seus pensamentos.
—Droga! Eu não posso entregar!- Ele se sentou na cama. -Mas a mãezinha teve tanto trabalho para limpar a cozinha e para me ajudar com o bolo.- Se deitou mais uma vez. -O que eu faço? O que eu faço?- O garoto levou as mãos para o rosto e começou a rolar de um lado para o outro, levando a empurrar Wormmon contra a parede uma vez ou outra sem que percebesse.
—Maldita Miyako-san...- O digimon sussurrou irritado ainda sendo empurrado.
—Hã? Wormmon, você está acordado? Disse alguma coisa amigo?
—Não.- O inseto voltou a dormir. Ichijouji olhou para o relógio de parede e quando percebeu o quão tarde já era fez o mesmo que seu parceiro.
Já era manhã do outro dia e o ex gênio corria pelos corredores da escola, por conta do horário que dormiu ontem não conseguiu acordar tão cedo. Quando ele finalmente chegou na sala, todos olharam para o garoto, e claro, para a pequena caixa em suas mãos, o professor parou de escrever no quadro e lhe lançou um olhar de repreensão.
—Ichijouji Ken, se você acha que aparecer na televisão e em todos os jornais vai te salvar de um atraso, está muito enganado. Só porque você já foi uma celebridade não significa que possa chegar a essa hora, então já deve saber quais são as consequências.
—Ei! Isso não é justo! Aposto que a culpa não foi dele!- Um ruivo no fundo da sala protestou gritando e levantando-se da cadeira.
—Motomiya! Abaixe seu tom ao falar comigo!- O professor disse firme e o mesmo obedeceu e voltou para o seu lugar. -Bem Ichijouji, retire-se da sala por favor.
—Sim senhor.- Ele saiu. Assim que a porta se fechou, outra discussão era ouvida.
—Mas professor...
—Sem mas Inoue! Essa já é a terceira vez que você atrasa à minha aula! Se isso acontecer novamente você levará uma advertência! Agora vá, e só volte quando o sinal tocar.- Outro professor gritou e a aluna foi embora, quando a porta da sala se fechou, ela percebeu quem estava logo a frente.
Os dois ficaram se encarando por um bom tempo, a garota também segurava uma pequena caixa, e então o moreno se lembrou de Yoshida Yuhei, estaria ela indo presentear o capitão do time de basquete? E se ele sentir o mesmo e retribuir? A garota de cabelos lilases já não tinha mais um olhar de repugnância, e sim um olhar meio triste. "Hã? Será que eu fiz algo de errado outra vez?", mas de uma coisa ele sabia, ele não gostava de vê-la daquele jeito, queria poder abraçá-la e dizer que estava tudo bem, que ele estava ali com ela e que não deixaria que mais nada a fizesse triste novamente. Mas não podia, afinal, ele ainda devia pedir desculpas, mesmo não sabendo o que havia feito, mas aquilo não importava para Ichijouji, tudo o que ele queria era poder vê-la dando um enorme e maravilhoso sorriso como sempre fazia.
—Bom-dia Miyako-san.
—Bom-dia Ken-kun.- Os dois permaneceram calados por mais alguns segundos.
—Você fez isso para alguém?- Eles disseram ao mesmo tempo, ambos se impressionaram. -Sim!- De novo, dessa vez com os rostos meio corados, "Droga, eu não consigo dizer... Pense! Pense!". -E-Eu trouxe para todos!- Ao mesmo tempo novamente, mas agora eles riram juntos, aquele som era música para os ouvidos do garoto. Havia um pequeno banco entre as duas salas, eles se sentaram ali, lado a lado, apenas esperando a próxima aula. "É agora..."
—Miyako-san, eu gostaria de me desculpar com você.
—Desculpar? Pelo que?
—Eu não sei. Ontem você parecia brava comigo, mesmo não sabendo o motivo, eu gostaria de me desculpar.
—Ken-kun... Na verdade eu que devo pedir desculpas, eu não estava brava com você, eu só... Só estava com raiva do meu irmão, ele vive me perturbando.- Ela deu uma risadinha. -Acho que não percebi e terminei descontando isso em você. Espero que me perdoe.
—Não se preocupe. Deve ser legal ter um irmão como o seu, sabe, divertido e alegre. Osamu não fazia muitas dessas coisas comigo, ele passava maior parte do tempo estudando.
—Foi mal, eu não queria fazer você se lembrar dele.
—Tudo bem, a culpa não é sua.
—Mas, por que está me contando isso?
—Por que eu sinto que posso confiar em você.- Ele sorriu com o rosto levemente corado e ela sorriu de volta. -Acho que te entendo um pouco, do jeito que você fala do seu irmão, ele deve ser parecido com o Motomiya-kun.
—Ah, nem me lembre desse outro idiota.- Ambos riram juntos mais uma vez e depois ficaram em silêncio por mais um tempo.
—Miyako-san... Posso te fazer uma pergunta?
—Hum? Claro.
—Você me acha... Insensível e sem coração?
—Hã? Ken-kun, mas que pergunta é essa? Você é totalmente o oposto disso!
—Você acha?
—Sim, você é diferente dos outros garotos. Tipo, você acha que o Daisuke ou o Takeru, talvez o Iori eu acho, fariam algo assim?
—Cozinhar?
—Não, é bem mais que só cozinhar. Outros garotos que eu conheço não teriam o trabalho de fazer isso por alguém, no máximo comprariam uma caixa de chocolates barata. Quero dizer, você ama tanto seus amigos que não se importaria se isso parece idiotice ou se tomaria todo o seu precioso tempo!- ''Amo?...'' -Eu admiro muito a sua bondade.
—A-Adimira é?
—Sim! Por isso que você é tão legal!- Miyako deu um enorme sorriso.
"E-Ela me acha legal?", ele abaixou a cabeça disfarçando o rubor e a expressão de felicidade em seu rosto. E de repente, o ex gênio sentiu um estranho calor em seu peito, aquela sensação, aquele sentimento, ele se lembrou das palavras de sua mãe, "Amor é?...", seu sorriso aumentou mais ainda. E então o sinal para a segunda aula tocou.
—Até depois Miyako-san!
—Até depois Ken-kun!- Ambos foram para suas respectivas salas.
Durante o intervalo, os dois foram juntos sorridentes até os outros digiescolhidos, que estavam sentados na mesa do refeitório.
—O que é isso? É aniversário de alguém?- Daisuke perguntou.
—Não babaca, a gente fez algo pra vocês.- Inoue bufou.
—Sério? o que tem ai?- Iori disse curioso.
—Bem... Eu fiz um bolo de chocolate.
—E eu fiz cookies, espero que gostem!
—Podemos provar?- Hikari sorriu gentilmente.
—Claro.- Eles disseram ao mesmo tempo mais uma vez e todos na mesa riram, em seguida provaram o que os dois haviam trazido.
—Nossa, está uma delicia!- Takeru falou enquanto bebia um refrigerante.
—Takeru-kun... Seu rosto está sujo de chocolate.- A castanha deu uma risadinha e o loiro fez o mesmo.
Depois de um tempo, Miyako voltou a conversar entre sussurros com Yagami, Ken a observava. Agora ele tinha certeza, ele não gostava dela, ele a amava, amava seu sorriso, sua risada, seus olhos, seu cabelo, sua voz, amava aquele jeito sincero e alegre, amava aquele jeito Miyako de ser. A garota percebeu que o moreno estava a olhando, mas o mesmo não teve vergonha, ele apenas sorriu e ela sorriu de volta.
—Vocês fizeram as pazes?- Motomiya falou devorando alguns cookies. Mas o ex gênio parecia não ter ouvido, apenas continuou a sorrir. -Ken? Ken? Ichijouji? Ah, tá no mundo da lua de novo cara?- O ruivo balançava mão na frente do rosto do amigo, que apenas suspirou alegre.
Fale com o autor