Keep moving slow
15 Porque amar você é tão difícil?
Notas iniciais
"There are two ways of spreading light: to be the candle or the mirror that reflects it." — Edith Wharton
A água gelada caia sobre a cabeleira loira, grudando os fios a testa e fazendo a tinta preta desprender-se do rosto. A roupa dele estava encharcada, colada ao corpo, pequenos tremores movimentavam seus ombros. Mantinha os olhos fechados, esperando a tinta sair definitivamente do rosto parcialmente machucado.
Ela também estava molhada, o pijama encharcado lhe grudando na barriga e pernas. A água do chuveiro escorria nele e respingava sobre ela. A mão se mantinha presa ao guiso com força. Estava tremando e não queria que ele notasse isso.
Mantinha a cabeça baixa, deixando a água molhar sua franja.
Respirava com dificuldades.
Todo esse tempo era ele. Mexia com ela de noite só para depois brincar com ela durante o dia. Gostava de Adrien e de Chat Noir também. Estava a apaixonada pelo garoto que mais admirava naquele lugar. Ele era doce, gentil, carinhoso...
Mas também conseguia virar seu ser de ponta cabeça. Acabava com a sua concentração, a fazia agir por impulso, seu corpo todo formigava e se aquecia na presença dele.
Saber que são a mesma pessoa deveria facilitar as coisas, deixa-la menos dividida. Mas não era o que estava acontecendo. Bom em partes até que sim. Sua paixão antes dividida agora se concentrava em um lugar só.
Nele.
Mas ela estava magoada.
Ele mentiu para ela... A fez de boba esse tempo todo.
Lagrimas de frustração começaram a escorrer pelo seu rosto, misturando-se com a água. Como poder ter sido tão burra?
Como não percebeu antes, todas aquelas semelhanças que agora pareciam tão claras?
A água corrente já estava lhe causando calafrios. Marinette desligou o registro e abriu a porta do box sem falar nada. O loiro continuava de cabeça baixa. Ela foi até o final do corredor dos chuveiros, onde havia um pequeno armário com toalhas de emergência, retirou duas. Enrolou-se em uma e voltou até o garoto, atirando a outra sobre sua cabeça.
— Melhor se secar. – Falou e virou-se de costas para ele. A mestiça se sentou em um banco próximo a saída da ária dos chuveiros, jogando a toalha sobre a própria cabeça. Respirava fundo, enchendo totalmente os pulmões até as costelas se abrirem, para depois expirar lentamente. Precisava manter-se calma e com a mente limpa. Pensar sobre...
— Mari... – A voz dele veio rouca e baixa de trás dela. Ela mordeu o lábio inferior e respirou fundo mais uma vez.
— Vá se trocar e descansar. – Ela levantou do bando, mantendo-se de costas para ele. Queria chorar, mas não faria isso na frente dele. – Depois nós conversamos.
Sem esperar uma resposta, ela deixou o local, indo o mais de pressa possível para seu quarto e fechando a porta. As lagrimas já escorriam pelo rosto sem controle, os soluços, antes presos no peito, agora saiam sem controle pela boca.
Encostou-se na porta e se deixou cair até o chão. Sentia-se magoada, traída, usada. Aquilo fazia seu peito se apertar. Não esperava que algo como aquilo conseguisse lhe causar tanta dor física. Droga, mais um soluço saia.
Seus lábios já estavam vermelhos e inchados, de tanto que os pressionava tentando conter o choro. Ficou ali encostada, encolhida, com a cabeça sobre os joelhos até cair no sono, com os olhos inchados e vermelhos.
O sol estava nascendo no horizonte quando Alya retornou para a academia junto com Nino. A presença da namorada havia conseguido melhorar o humor do rapaz, mas ele ainda se mantinha mais quieto que o normal.
Despediu-se dele na escada e foi para o quarto.
Ao tentar abrir a porta, sentia um peso a impedindo. Com um pouco mais de força, conseguiu fazer a cabeça entrar e logo em seguida o resto do corpo, com certa dificuldade. Olhou para a porta e encontrou a amiga encostada sobre ela, quase no chão. A mestiça estava encolhida, cabeça baixa e cabelo sobre o rosto.
Alya arregalou os olhos e se abaixou ficando ao lado da garota.
— Mari... Mari. – Chamava aflita a garota. Tirou-lhe os cabelos do rosto e colocou a mão sobre a testa. Ela estava febril. – Mari, acorde, por favor. – Apoio a cabeça da azulada sobre os braços e forçou-a a se levantar.
Marinette sentia seu corpo se mover, sentia seu corpo fraco, dolorido, estava com frio também. Abriu os olhos com dificuldade e encontrou Alya a encarando preocupada.
— Alya o qu-
Sua garganta doía. Com a ajuda da avermelhada, Marinette deitou-se em sua cama, buscando pelas suas cobertas.
— Mas está calor Mari...
— Estou com frio. – Um arrepio lhe correu pela espinha. Alya foi até o baú aos pés da cama da garota e pegou uma coberta grande e quentinha e jogou sobre a amiga. A azulada se envolveu no tecido encolhendo o corpo.
Alya aproximou-se dela e sentou na beirada da cama.
— O que foi que aconteceu com você? – Passava a mão sobre os cabelos da garota. Marinette pressionou os lábios, tentando conter um soluço.
— O Chat... Ele... O Adrien. – As lagrimas queriam voltar, mas ela tentava conter.
— O que têm eles? – Continuava a acariciar os cabelos da amiga tentando acalma-la.
— Eles são a mesma pessoa Alya... Esse tempo todo brincando comigo... – Pressionou mias os lábios. O peito doía. – Ele apareceu aqui ontem a noite. – Respirava fundo. – Eu fui ao banheiro de madrugada e ele apareceu lá. Tinha... Machucados pelo corpo, o rosto estava inchado... Na hora eu não conseguia pensar, eu só o empurrei para debaixo do chuveiro para que a tinta saísse.
Alya deitou ao lado da amiga e a abraçou com força.
Continuou ali com ela até que os tremores parassem e a azulada dormisse.
Quando a avermelhada notou que ela estava apagada pelo cansaço, a cobriu bem, pegou seus pertences e uma muda de roupa limpa e foi tomar um banho. Estava bem cedo ainda, ninguém estava acordado.
Antes de sair mandou uma mensagem para Nino e pediu para encontrar com ela no jardim dali uma hora.
Tinha que esclarecer algumas coisas. Não deixaria a amiga ficar assim.
A expressão de sono presente na face do rapaz era perceptível a quilômetros de distancia. Soltou mais um bocejo alto, esticando braços e pernas no banco sobre o sol. O calor lhe aquecia o corpo, dormiria ali mesmo se a garota não tivesse chegado.
Alya se aproximava com a expressão séria. Sentou-se ao lado do moreno, suspirou pesado e o encarou.
— Você sempre soube não é?
— Sobre o que exatamente estou sendo acusado?
— Chat e Adrien...
— Ah isso. – Suspirou. – Pois é. Sabia sim.
— E por que nunca me contou? – Virou o corpo na direção dele. Os dois estavam cansados. Não haviam dormido nada. Tinham olheiras profundas e avermelhadas.
— Pelo mesmo motivo que nunca contei a ele sobre você. O segredo não é meu... – Virou-se para ela também. – Mas por que isso agora? E a essa hora?
— A Mari descobriu ontem... Ele foi encontrar com ela e acho que acabaram brigando. Ela estava dormindo encostada na porta quando eu cheguei. Estava chorando e com febre.
Nino chacoalhou a cabeça, suspirou e baixou o olhar.
— É por isso então que ele não apareceu ontem e estava tão quieto agora...
— Como assim?
— Ele não falou nada quando eu cheguei. Eu o cumprimentei, mas ele só resmungou e ficou embaixo das cobertas.
Os dois ficaram em silencio, vendo o dia amanhecer por completo.
— Ela está magoada. Acha que é tudo não passava de uma brincadeira dele. – Voltou a encarar o moreno.
— Eu avisei ele que isso não ia dar certo, que ele tinha que ter contado para ela de uma vez... – Aproximou-se da garota e passou o braço sobre o ombro, deixando-a se aconchegar. – Mas ele gosta dela. De verdade.
— Será que a gente não pode fazer nada? – Encosta a cabeça sobre o ombro dele. – Ela é minha amiga, não quero a ver assim.
— Eu não sei... Também não quero ver ele assim... – Apoiou a própria cabeça sobre a dela. – Estou aceitando ideias.
Com o sol marcando o inicio de mais uma manhã de sábado os dois ficaram no jardim, abraçados, cansados e preocupados com os amigos.
— Você vai comigo sim. Não vou te deixar sozinha aqui de novo e ainda mais nessa “depre” toda. – Alya puxava as cobertas da amiga com força.
A avermelhada havia conseguido descansar um pouco durante a amanhã, e resolveu que iria para casa naquele final de semana, decidiu ainda, que Marinette iria com ela. Tinha medo de deixar a amiga sozinha naquele estado.
— Vai você Alya, que quero ficar aqui. – Puxava a coberta de volta, se cobrindo até a cabeça.
— Mas não vai mesmo. – Puxou a coberta com força dessa vez, fazendo com que a mestiça caísse da cama.
— Caramba Alya. – Berrou brava. – Me deixa!
— Pra que? – Gritou de volta. – Para você ficar ai, de baixo das cobertas chorando e martirizando? Não comigo aqui... Porque você não vai simplesmente falar com ele?
— Não! – Gritou e saiu sentada na cama. – Ele podia ter me contado, mas não... Preferiu ficar brincando comigo, me deixando confusa...
— Então grite com ele, brigue... Mas faça alguma coisa. – Sentou-se ao lado da azulada. – Eu não vou deixar você ficar assim, está me entendendo... Agora arrume suas coisas que você vai comigo e não, você não tem escolha quanto a isso.
Depois de assinar a papelada, avisando a sua saída na academia durante o final de semana, as duas amigas seguiram pelas ruas de Paris. Era de tarde, o céu estava claro, sem nuvens e o sol brilhava forte. O óculos-de-sol ajudava a azulada a esconder os olhos ainda inchados.
Sentia-se péssima. Alya havia a feito passar na enfermaria para tomar algo para baixar a febre, mas sua cabeça ainda doía. Efeito colateral da noite mal dormida.
O passeio de metro nunca pareceu demorar tanto. Aquele monte de gente e o barulho constante tornava tudo ainda pior. Queria arrancar seus tímpanos fora.
De graças quando chegaram à estação em que finalmente desceriam. Com a mochila nas costas as duas caminhavam em direção à casa da avermelhada.
— Seus pais não vão ficar incomodados de eu esta lá?
— Claro que não. – Negou. – Alias, nem em casa eles estão... Estão viajando.
— Quer dizer que vamos ficar só nos duas?
— Pois é, mas não se preocupe, a geladeira está cheia. – As duas riram.
Chegando a casa da avermelhada, a primeira coisa que fez foi se jogar no grande sofá que existia na sala. Sua cabeça estava incomodando e ainda estava cansada. Tinha que se lembrar de tomar algum remédio para isso depois.
— Vem... Vamos deixar as bolsas lá em cima. – Alya chamou a mestiça e as duas seguiram para o quarto da amiga.
— Minha cabeça não para de latejar. – Reclamou, deixando a sua mochila em um canto e sentando-se na cama.
— Eu devo ter alguma coisa para dor na caixa de remédios lá na cozinha. – Lembrou-se. – Faz assim, vai tomar um banho que eu vou lá buscar. Depois pedimos uma pizza e eu fico de “bode” com você hoje.
— De “bode”? – Riu a azulada.
— É, você sabe. – Gesticulou. – No chororó, debre, rua da amargura... Enfim.
— Ok, ok entendi. – Riu novamente. Pegou uma muda de roupa e seguiu para o banheiro da suíte da avermelhada.
— Tem tolhas no armário. – Avisou. – Já volto.
— Está bem.
Alya desceu as escadas, indo até a cozinha em busca da caixa com os remédios. Deveria ter algo lá que a ajudasse.
Enquanto procurava, pegou o celular e discou para um número já conhecido. Chamou duas vezes e alguém atendeu.
— Já com saudades? – Atendeu o rapaz do outro lado da linha.
— Não exagera. – Riu. – Estamos aqui em casa. Quando é que vocês vêm?
— Bem...
— Nem me venha com esse “bem”. – Reclamou. – A Mari está no banho e é melhor vocês chegarem logo. Falou com ele?
— Eu bem que estou tentando, mas o infeliz não quer atender o celular... – Os dois suspiraram.
— Bom, eu vou enrolar as coisas aqui. Me manda uma mensagem me avisando de como vão as coisas está bem... Eles vão ter que conversar mais cedo ou mais tarde... E é melhor que seja mais cedo!
— Você que manda. – Riu e despediu-se da namorada.
— Alya, encontrou alguma coisa? – Marinette apareceu na porta da cozinha vestindo uma calça de moletom e uma camiseta. Os cabelos estavam úmidos.
— Aqui. – Estendeu uma cartela com analgésicos para a dor. – Acho que vai ajudar.
— Obrigada. – Pegou um comprimido e o engoliu com a ajuda de um copo de água.
Com a noite caindo, as duas pediram uma pizza e ficaram de bobeira no sofá zapeando entre os canais de TV. Menos de vinte minutos depois a campainha tocou, chamando a atenção das duas garotas.
— Que rápido...
— Pois é... Pega os pratos lá na cozinha que eu vou atender a porta. – Alya pediu e foi em direção à porta enquanto a mestiça iria procurar os pratos na cozinha.
Alya abriu a porta e duas caixas de pizza surgiram na sua frente.
— Alguém pediu uma pizza de calabresa? – Nino sorria encostado no batente da porta.
— Olha... Eu pedi, mas adoraria ficar com o entregador também. – Sorriu e piscou para o namorado.
— Ah, por favor... Me poupem desse roteiro mal feito de filme pornô. – Exclamou o loiro atrás do amigo. O casal riu.
— Que bom que vieram. – Abriu espaço para que os dois entrassem e depois fechou a porta. – Venham, vamos para a sala.
Os três se encaminhavam para a sala quando um barulho alto estridente veio do cômodo ao lado. Parecia que alguma coisa havia caído no chão.
— É a Mari? – Adrien perguntou e Alya arqueou a sobrancelha. – O Nino me falou que ela ia está aqui, por isso eu vim. Eu preciso conversar com ela.
— Estou sabendo. – Frisou a avermelhada. – Vai lá ajudar ela... Só não se matem tentem não quebrar nada está bem.
— Não prometo nada.
O garoto se dirigiu para a cozinha deixando o casal para trás na sala de estar.
Ao entrar no cômodo viu a azulada agachada no chão, ao lado de um armário, guardando algumas panelas. Ele foi se aproximando devagar. Não queria assusta-la.
Marinette escutou os passos e imaginou que fosse a amiga com a comida.
—Alya você não me visou onde ficavam os pratos. – Ela tinha a cabeça escondida pela porta do armário.
— Olha da ultima vez que eu vim aqui, ficavam nos armários de cima...
Aquela voz. Não era a Alya.
Olhou por cima da porta e encontrou com um par de olhos verdes a encarando. O susto foi tanto que chegou a bater com a cabeça no armário.
— Ai, droga. – Colocou a mão sobre o topo da cabeça. – Se já não bastasse a dor de cabeça, agora mais isso... – Resmungou baixinho.
Não estava preparada para falar com ele ainda. Não agora. Queria um tempo para pensar e assimilar tudo primeiro. Mas aparentemente o universo não concordava com ela.
— Deixa que eu te ajudo. – O loiro se aproximou e com uma mão sobre seu cotovelo, a ajudou a levantar.
— Não precisa. – Afastou-se dele.
Aquilo o magoou, por mais que soubesse que merecia. Baixou um pouco a cabeça, mirando o olhar para o chão.
O silencio poderia ser constrangedor. Se a situação não estivesse bem pior do que isso. Ela evitava olhar para ele, por mais que estivesse preocupada com os machucados presentes no corpo do garoto. Ainda estava magoada.
— A gente precisa conversar você sabe disso, não é? – A voz dele surgiu baixa.
Ela suspirou e voltou a olhar para ele.
— Eu sei. Só não esperava que fosse agora...
— E o que você pretendia? Ficar fugindo de mim? – Ele a encarou.
— Eu não diria fugindo... – Murmurou virando um pouco o rosto.
— Olha Mari... – Ele deu um passo em direção dela. – Eu sei que está brava comigo, e eu entendo...
— Eu não estou brava com você... Estou magoada, chateada... É diferente. – Continuava com a cabeça virada para o lado. Não conseguia encara-lo. Sentia que poderia chorar ou ceder se fizesse isso.
— Me desculpa... Eu não queria que as coisas ficassem assim...
— Se não queria então porque fez isso? – Suspirou alto e olhou para ele. O roxo ao redor do olho ainda estava bem presente, estava somente um pouco menos inchado do que no dia anterior. – Mas que droga Adrien... Qual era a sua ideia? Ficar me fazendo de idiota por ai? Ficar brincando comigo até cansar e depois o que?
O tom de voz dela estava alterado. Estava se controlando para não gritar com ele e principalmente para não chorar na frente dele.
— Eu nunca faria isso. Eu gosto de você, sabe disso? – Ele deu mais um passo na direção dela.
— Você é um idiota. – Gritou e pegou a maça que estava na cesta de fruta e jogou nele. Adrien conseguiu desviar, mas logo em seguida uma laranja veio voando e o atingiu na cabeça.
— Mas que merda Mari! – Exclamou bravo. — Vai ficar me atacando agora? – Ele se abaixava e desviava de tudo que ela jogava. Torcia para que ela ficasse longe da gaveta das facas.
— Idiota, babaca, gato vira-lata. – Ele ia se aproximando e ela dando um passo para trás, tentando atingi-lo com qualquer coisa que visse na frente. As costas da azulada atingiram o balcão, ela não tinha mais para onde andar.
Adrien notou que por mais que ela se esforçasse, as lágrimas já escorriam pelas bochechas. Ele continuou a se aproximar, ela já havia jogado tudo o que encontrou próximo a si contra ela. Não tinha mais nada ali que impedisse ele de se aproximar.
Mais um passo.
E outro.
Ela estava acuada contra o balcão, olhando a procura de algo para jogar ou um jeito de fugir. As lagrimas já estavam embasando a sua visão.
Outro passo.
— Fique ai!
— Não vou ficar. – Ele aproximou-se mais e ela começou a dar tapas em seus ombros peitos com toda força que tinha. Adrien buscou se defender levantando os braços. – Para! Isso machuca sabia...
Ele a segurou pelo pulso e a puxou para si, passando o braço dela, fazendo com que o rosto úmido ficasse enterrado contra seu peito. Com a outra mão ela começava a distribuir novos tapas, que foram perdendo a força conforme o choro aumentava.
Quando viu que ela já não queria mais o atingir, soltou a mão que estava atada ao pulso da garota, passando o outro braço também ao redor dela, em um abraço apertado. Os ombros dela tremiam com pequenos soluços, as mãos agarravam com força a camisa já ensopada. Ele apoiava o queixo sobre o topo da cabeça dela e respirava lenta e profundamente.
Estava se sentindo horrível. Vê-la chorar acabava com ele, ainda mais sabendo que o culpado por aquilo era ele.
Ela tinha razão, ele era um idiota. Não merecia alguém como ela.
Mas ele também era um egoísta filha da puta.
A queria para si e não abriria mão disso.
— Me desculpa ta... Você tem razão, eu sou um idiota, imbecil... E você tem toda razão em estar magoada comigo. – Apertou mais os braços ao redor dela. – Eu sei que deveria ter te contado assim que eu soube que era você. Mas fiquei com medo... O que sou eu no fim das contas, além de um gato vira-lata?
“Você foi a primeira pessoa em muito tempo que me fez sentir bem. Eu podia ser eu com você, e tinha medo que isso mudasse caso você soubesse.” Ele soltou o ar com força pelo nariz e continuou a falar. “Na academia eu sou somente o que meu pai espera de mim, e é isso que todo mundo vê. Uma oportunidade de crescer e se dar bem. Dai apareceu você... Não ligava para isso, para o sucesso e todo o resto. Você dançava por que gostava, por que se sentia bem... E quando eu te vi ali, dançando, tão alegre e espontânea, fiquei tão encantado, que me lembrei do porque eu gostava daquilo também, o por que eu dançava... O motivo que me fazia fugir a noite”.
“Dai eu conheci teu outro lado, e meu mundo virou de ponta cabeça. Simplesmente queria ficar ali com você a noite toda; com você em meus braços, se movendo, me levando para sabe Deus onde, e eu estava pouco me lixando para isso. Só queria ficar com você.”
Ele afastou o corpo do dela delicadamente e levou as mãos ao rosto dela, passando os polegares sobre os olhos, secando as lágrimas.
— Sei que eu devo ser a pior pessoa do mundo para você agora... – Encostou a testa a dela. – Mas não me mande embora, não me mande para longe de você... Por favor.
O nariz tocava gentilmente o dela, a respiração quente vinha ao rosto como uma caricia suave. Sentia o rosto molhado sobre o toque dos dedos, a respiração fraca, mas profunda. Ela tinha poder sobre ele... E saber que ela poderia deixa-lo era o pior de todos. Por que sabia, que se ela pedisse para ele ir embora e nunca mais voltar, assim o faria, por mais lhe doesse.
— Gato idiota... – Ela tinha o lábio inferior preso pelos dentes e a voz engasgada. – Meu gato idiota.
— Eu sei...
Ela roçou lhe o nariz e lhe tocou os lábios finos em um beijo delicado. Como ela. Adrien segurava o rosto da azulada com um pouco de força, a puxando para si, queria mesclar-se a ela de qualquer forma.
As mão dela escorreram pelo peito dele indo em direção a nuca, onde agarrou com força os fios loiros e macios entre os dedos, os puxando certas vezes. Entreabriu os lábios e buscou a língua dela com avidez, queria o gosto doce dela em sua boca. Desceu uma das mãos até a cintura dela e pressionou os dedos com força.
A língua enroscava-se a dele, os lábios se pressionavam com força um contra o outro, movendo-se em sincronia. As costas dela encostavam-se ao balcão. A outra mão do loiro foi também em direção à cintura da mestiça. Separou a boca da dela, respirando fundo. Segurou-a com firmeza e num impulso, a colocou sentada sobre o balcão da cozinha, separando-a as pernas e se colocando entre elas, para logo em seguida voltar a grudar suas bocas.
Acho que balcões de cozinha acabaram de ganhar um novo conceito em sua mente. Um conceito muito bom alias...
As pernas dela lhe laçavam a cintura. Aquela pressão fazia as costelas doerem, mas quem estava ligando para aquilo agora. Ele com toda certeza que não. Poderia ficar assim, preso a ela, mesmo que seus ossos estivessem quebrados. A dor seria seu menor problema.
— Se alguém ainda estiver vivo ai dentro... A pizza está esfriando. – Nino apareceu na porta atrás do casal. Adrien largou-lhe a boca e encostou a cabeça em seu ombro, respirando com dificuldades.
— Você faz isso de propósito não é? – Falou seco. – Me diz a verdade...
— Claro, essa é a função da minha vida... Nunca te contaram?
O moreno deixou a cozinha rindo. Onde uma Marinette extremamente vermelha se encontrava.
Adrien ainda a abraçava pela cintura. Afastou o rosto de seu ombro e mirou profundamente aqueles olhos azuis como o mar revolto, deixando-se ser engolido por eles.
— Eu prometo que nunca mais vou te magoar... Juro por tudo nesse mundo, Bogaboo. – Depositou a mão sobre o rosto dela.
— Podia começar parando de me chamar assim... – Ela sorriu.
— Isso eu não posso prometer. – Ele respondeu e lhe deu um selinho demorado.
— A pizza ta esfriando. – Escutou o grito vindo da sala. O loiro separou os rostos e olhou para cima e gritou.
— JÁ ESCUTEI CARAMBA.
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