Keep moving slow
32 A star to call my own
Notas iniciais
“Queria descobrir o que foi que me fez ser assim, ser uma pessoa bondosa com os próximos, e tão cruel comigo mesmo.” — Lucas Ribeiro
Tudo o que ela queria naquele momento era arrumar suas coisas e ir para casa, abraçar seus pais, deixar com que o cheiro de massa, açúcar e canela lhe preenchesse os pulmões. Tinha saudades de seu lar, e agora mais do que nunca. Então porque simplesmente não ia embora?
A resposta era simples. Não queria magoar Tom e Sabine. Eles se esforçaram tanto para vê-la chegar até aqui. Então como ela poderia simplesmente voltar com as mãos vazias? Marinette sentia-se mil vezes pior agora. Ela havia expulsado Adrien de seu quarto aos berros e agora se encontrava sozinha, sentada em sua cama, completamente perdida.
Quando foi que ela deixou sua vida virar de ponta cabeça?
Foi quando ela mudou-se para Paris? Ou quando deixou Alya convence-la de vagar pela noite em busca de diversão? Ou então quando conhecer o loiro de olhos verdes? O príncipe vestido de gato vira lata.
Suspirou cansada. Exausta de tudo, inclusive de chorar.
Culpar os outros não resolveria nada. Afinal, a culpa era só dela, não é mesmo? Então aguentaria aquelas últimas duas semanas com toda força que lhe restava no corpo. E quando tudo acabasse, encontraria algo de útil para fazer com sua vida. Poderia vagar pela cidade ou simplesmente voltar para casa.
Até lá tomaria uma decisão.
— Amiga, você não vai acreditar no que eu... – Alya entrou no quarto sorrindo, mas parou assim que viu a azulada sentada na cama, cabisbaixa. – Mari, o que aconteceu?
Marinette somente levantou a cabeça, os olhos enchendo de lágrimas novamente. Era só sua memória retornar para alguns momentos atrás que seus olhos já à traiam.
— Alya... – Sua voz saiu chorosa. Esse pequeno chiado foi o que bastou para a avermelhada se jogar ao seu lado e abraça-la.
Marinette mantinha-se calada durante o café-da-manhã naquela segunda-feira. Seus amigos estavam sentados a mesa, todos conversando animadamente, ansiosos com o espetáculo que estava se aproximando. Alya mantinha-se sentada ao seu lado e se não fosse pela insistência da amiga, a mestiça se quer teria descido para comer. Ela não queria encontrar o loiro.
Para sua sorte, o mesmo não estava no refeitório quando chegou. Um momento de alívio para seu peito dolorido. Nino também não estava presente, imaginou ela, que ele estaria ao lado do amigo. Afinal, eles se conheciam desde o berço.
Mas para o moreno a situação não estava tão clara assim...
— Mas que merda, Adrien. – Nino suspirou pela décima vez naquela manhã, sentando-se em sua cama e encarando o amigo cabisbaixo do outro lado do quarto.
O loiro nada falou. Nada que dissesse mudaria o que aconteceu. O que estava feito, estava feito. Sem voltas.
Adrien não havia voltado para o quarto na última noite. Nino não estranhou de imediato, pensou que ele estivesse com a azulada. Mas naquela manhã, quando retornou para o quarto, completamente arrasado, contou para Nino tudo o que havia acontecido.
— Alya sabe? – O moreno quis saber.
— É provável que a Mari tenha contado... Afinal, elas são amigas.
— Você também me coloca em uma situação difícil, sabia disso? – Nino jogou-se de costas, colando as costas no colchão.
— Sinto muito... – O que mais ele poderia dizer?
Além de ferrar a própria vida, estava colocando o relacionamento do amigo em risco. Era um completo idiota mesmo.
— Bom, é melhor eu ir enfrentar a minha leoa o quanto antes. Prolongar isso não vai me adiantar de nada. – Nino levantou-se e seguiu em direção a porta do quarto. – Você vem?
— Não estou com fome.
— Ok. – O moreno deixou o quarto depois disso, deixando Adrien sozinho. Mas não completamente, afinal a culpa sempre seria sua companheira.
Adrien havia passado a última noite em claro, sentado em banco qualquer no jardim do terraço, deixando que o vento e a neve fria, lhe trouxesse algum tipo de clareza. Ficou lá até o amanhecer, suas roupas estavam molhadas graças a neve acumulada, seu corpo tinha pequenos espasmos devido a sua baixa temperatura, mas isso não o incomodava.
Sem vontade nenhuma, levantou-se da cama e buscou por uma muda de roupas secas em sua cômoda. Esperava que com um banho quente, obtivesse resultados melhores do que os que teve com o frio do inverno parisiense.
Depois do banho a última coisa que queria era voltar para o quarto, então rumou para um dos estúdios de ensaio menores. Se mantivesse as luzes apagadas e a porta fechada, ninguém o encontraria ali.
Grande engano.
— Temos um gatinho perdido aqui? – Aquela maldita voz era a última coisa que ele queria ouvir. Preferia escutar o diabo o chamando para o inferno do que a voz melosa daquela mulher, então se manteve em silêncio total. – Sem respostas? Nem mesmo um palavrão, uma ameaça?
Ele suspirou pesadamente e a encarou. Lila estava em pé, próxima a barra de exercícios presa ao espelho, enquanto ele estava sentado no chão frio do outro lado da sala.
— E o que você espera que eu diga? – Ele a olhou diretamente. – “Parabéns, você finalmente conseguiu.”?
— Ora, Adrien. Não vamos ser tão amargos... – Ela o encarava através do reflexo do espelho.
— “Amargos” é? – Ele riu sem humor e respirou fundo novamente. – E eu que pensava que você cumpria seus acordos...
— E eu cumpro... E como você pode ver, sua amada namoradinha não está mais no espetáculo final.
— Só que isso não era para ter acontecido... Ela não tinha nada a ver com isso. – Bravejou. – O cargo de diretora. Não era isso que você queria? Então por que não me deu tempo de consegui-lo?
— Tempo? Ah, meu querido. – Ela riu e caminhou em direção a ele. – Com duas semanas para a apresentação, você achou mesmo que eu iria deixar tudo como estava e simplesmente confiar em você? – Lila abaixou-se em frente a ele o encarando seriamente. – Ah, por favor, você não pode realmente acreditar que eu sou tão burra assim...
“Achou mesmo que iria cair nesse seu plano de criança. – Ela sorriu sarcasticamente. – Vamos supor que eu tivesse caído na sua, o que aconteceria comigo? Seria enrolada e feita de idiota até depois da competição; sua namoradinha e amigos estariam longe e eu ficaria com as mãos abanando... – Ela balançava a cabeça negativamente. – Não tente trapacear um trapaceiro, quando você não sabe as regras do jogo.”
Adrien a encarava seriamente.
— Então sim, a cabeça da Marinette foi a prêmio... Uma prova que eu não estava brincando. – Lila mantinha a voz baixa e sombria. – Eu nunca brinco. Nem mesmo agora que não preciso mais de você...
— O que? – Ele a encarou confuso.
— Eu não te contei as boas novas? – Ela falava alegre, mas no fundo queria gargalhar do olhar perdido do loiro. – Fui chamada para fazer parte do Ballet Russo. Vou para bem longe daqui...
Ele estava chocado. Quando foi que isso havia acontecido.
— Então porquê? – Ele levantou em um pulo. – Porque você fez tudo isso com a Mari se vai embora?
Levantando lentamente, ela sorriu para ele, os caninos a mostra. Uma predadora.
— Uma pequena lição por ter tentado trapacear... – Lila se afastou dele, caminhando até a porta. Tudo que era possível ouvir, eram seus passos sobre o assoalho de madeira. – Bom, agora eu tenho que arrumar minhas malas. Os russos não gostam de atrasos. – Mas antes de finalmente deixá-lo sozinho novamente, ela voltou a cabeça em direção ao loiro. – Adrien... Quebre a perna.
Silêncio. Tudo o que havia agora era o mais puro e vasto silêncio.
Nem mesmo sua respiração fazia barulho. Aliás, não sabia dizer nem se estava respirando afinal de contas.
Quando foi que as coisas saíram tanto do controle?
Varrendo os dedos longos pelas paredes, caminhou lentamente até a porta. Com a mão livre, pegou o celular que estava no bolso, discando para um número conhecido, mas não muito utilizado.
Dois toques foram o suficiente para soar uma voz do outro lado da linha.
— Eu sabia que mais cedo ou mais tarde você iria me ligar. – A voz era calma e contida. Fria.
Adrien suspirou pesadamente.
— Eu quero negociar. – Falou firme.
— Estou ouvindo...
Faltava agora menos de uma semana para a apresentação. Os nervos de todos estavam a flor da pele, ainda mais com a saída repentina de Lila da academia, obrigando que a Senhora Bustier voltasse com antecedência de sua licença maternidade, e já sentindo as dores de cabeça que os últimos acontecimentos acarretaram no espetáculo. Chloè insistia que ela merecia o papel de protagonista, já que Marinette agora se encontrava afastada.
Infelizmente essas mudanças não estavam nos planos da professora. Como arrumar tudo em tão pouco tempo. Todos os bailarinos estavam ensaiando incansavelmente. Mas não somente eles, a equipe de artes corria para terminar os cenários a tempo, assim como os músicos ensaiavam a todo vapor. Sábado já estava batendo a suas portas.
— Mais uma vez do inicio, por favor. – Pediu a Senhora Bustier. – Vocês estão indo muito bem, vamos manter assim então.
Alya sentia-se esgotada. Qual foi a última vez que ela teve oito horas de sono mesmo? Não conseguia se lembrar. Aliás, nos últimos dias ela não se lembrava de muitas coisas. Quando foi que riu, falou com Nino, nem Marinette ela via direito... A última vez que comeu. Tudo em branco.
— Mais energia, bailarinos. Você são índios agora. Pulem como um. – A professora continuava a instruir.
Quanto mais pulava, mais cansada sentia-se. Seus pés estavam dormentes e o formigar parecia estar se espalhando para o restante de suas pernas. Subindo e afogando-a como areia movediça. Sua visão estava ficando embasada e quanto mais tentava pular, seus pulmões doíam e a visão tornava-se nublada.
Até que escureceu por completo.
— Alyaaaa...
Alguém gritou quando ela veio ao chão, desacordada.
Sentia seu corpo pesado. Não conseguia abrir os olhos ou mexer as pernas, sua boca estava seca e a garganta ardia ao tentar engolir a saliva acumulada na boca. Com calma, passou a mexer os dedos das mãos e dos pés. Ok, todas as extremidades estão funcionando.
Fazendo um pouco de força, conseguiu abrir os olhos, mas a luz ofuscante a forçou a fechá-los rapidamente.
— Alguém apaga o sol. – Falou rouca.
— Alya... – O tom de alívio era claro. Sentando ao lado da avermelhada, mãos geladas pegaram as suas. – Como você se sente?
Abrindo os olhos com mais cuidado agora, Alya conseguiu identificar a pessoa ao seu lado. Marinette.
— Estou bem, eu acho. – Respirou fundo mais uma vez. Seu peito não doía mais agora.
— Você quase me matou de susto sabia... – Marinette deu-lhe um sorriso fraco. – Você desmaiou no meio do ensaio, então te trouxeram para a enfermaria.
— Bom, isso explica esse excesso de branco... – Riu fracamente.
— Agora não é hora para piadinhas, Alya. – Marinette advertiu. – Isso é sério. Você desmaiou, não está se cuidando, eu não vejo você comendo ou dormindo direito nos últimos dias. Isso não é bom...
— Foi mal... Eu ando meio distraída. – Suspirou pesadamente. – É o espetáculo... E meus pais.
Os pais de Alya. E o sonho deles de que a filha se tornasse uma grande bailarina.
— Que bom que acordou Senhorita Césaira. – A enfermeira entrou calmamente, aproximando-se da cama onde Alya estava deitada. – Como se sente?
— Melhor.
— Fico feliz em ouvir isso. – Sorriu. – Fizemos alguns exames de sangue enquanto a senhorita estava dormindo. Peço desculpas por isso. – Lamentou sinceramente. – Preferia que estivesse acordada, mas como você demorou um pouco para acordar, nós não podíamos esperar. Mas o bom é que já estou com os resultados.
— Está tudo bem... – Alya sorriu fraco. – E então, quando vou morrer?
— Alya! – Marinette brigou com ela. Mas a avermelhada somente riu.
— Pelo visto, a melhora é realmente boa, mas não o suficiente. – A enfermeira se aproximou, ficando em pé em frente aos pés da cama. – Você esta com forte anemia, principalmente de ferro e vitamina C.
— Forte quanto? – A mestiça perguntou. Estava preocupada com a amiga.
— Não se preocupe Senhorita Dupain. Ela vai sobreviver. – Disse entrando na brincadeira da avermelhada. – Ela precisa de um bom descanso, além de um suplemento de vitaminas e uma dieta bem rica em nutrientes.
— E quanto ao espetáculo? – Agora foi à vez de Alya perguntar.
— Se você obedecer e comer direito, assim como tomar suas vitaminas, acredito que até sexta-feira já estará melhor. – Sorriu e logo em seguida já estava lhe entregando as primeiras vitaminas do dia.
Depois de deixar Alya descansando na enfermaria, Marinette caminhava pelos corredores da academia. O lugar parecia uma zona de guerra com as pessoas correndo para cima e para baixo, preocupadas com o espetáculo, todos com um papel importante. Menos ela.
Nunca se sentiu tão deslocada.
Caminhando sem destino pela academia, acabou se vendo enfrente ao estúdio de dança mais distante. Abrindo a porta, um tsunami de lembranças a atingiu. Era aqui que ela costumava ensaiar durante as madrugadas, quando era uma novata totalmente perdida naquela cidade enorme.
Aquele pequeno cômodo, com o piso de madeira escuro, os espelhos na parede junto a barra de alongamento, a pequena janela que deixava o sol de inverno iluminar o ambiente. Dava para ver pelo reflexo no chão os pequenos e tímidos flocos de neve flutuando calmo e delicadamente até o chão.
Foi naquela sala, que ela dançou tão ternamente com Adrien. Também foi onde Chat Noir apareceu para “raptá-la” depois do incidente da escada. Tantas lembranças. E parede que foram a tanto tempo. Um borrão distante em sua mente.
Marinette não havia visto mais o loiro desde aquele dia. Ele parecia estar a evitando tanto quanto ela se esforçava para fazer o mesmo.
Por mais que ela ache que as coisas estão melhores assim, com cada um indo para lados diferentes. No fundo ela se sentia mal. No seu âmago, ela desejava que ele voltasse a procurá-la, que pedisse desculpas, a abraça-se e dissesse que tudo iria ficar bem.
Sem que notasse, seus olhos já estavam lacrimejando.
Mas assim que as lágrimas se arrastaram por suas bochechas, despertou e tratou de limpa-las.
“Pare com isso, Marinette.” Brigava consigo mesma. “Do que te adianta chorar agora? Não vai ganhar nada com isso. Só uma dor de cabeça e um rosto inchado.”
Passou o dedo pela janela, criando um caminho fino por onde seu calor passou e minimizou o frio do vidro congelado. Continuou a contornar o vidro, deixando no chão a sombra do desenho que criara na janela.
— Porque será que não me surpreendo em encontrá-la sozinha no estúdio?
Marinette se assustou com aquela voz grave que quebrou o seu silêncio. Virou-se rapidamente em direção ao intruso, prendendo a respiração no pulmão assim que identificou o dono daquela voz.
— A muito tempo atrás, eu conhecia alguém, que assim como você, gostava do aconchego de um estúdio. – A pessoa caminhava tranquilamente pelo local. O olhar nostálgico, a fala mansa. – O silêncio e a pouca luz, tornavam lugares como esse, quase sagrados. Eram inspiradores.
Marinette ouvia todo aquele discurso em choque. Aquele era um ótimo momento para que alguém lhe explicasse o que estava acontecendo.
— Sabe criança... Eu realmente não gosto de perder. – Suspirou. – Mas o que gosto ainda menos é estar enganado.
— Sr. Agreste, desculpe, mas eu não estou entendendo. – A mestiça estava completamente perdida. O que ele fazia ali? Conversando com ela?
Ok. Estava mais para um monólogo. Mas mesmo assim.
— Pois bem... – Ele a encarou diretamente desta vez. – Senhorita, você é jovem e talentosa. Tem perseverança, força e eu gosto dessas características. – Ele caminhava em direção dela. – Então, eu apostei minhas fichas em você garota; e fui contrariado. Coisa que eu não gosto.
Gabriel Agreste estava bem em sua frente. Aquele homem sempre sério e imponente. Suas emoções nunca vacilavam, assim como sua postura. Sempre bem arrumado, o corpo reto de movimentos firmes.
Colocando a mão dentro do paletó branco, Gabriel puxou um envelope de dentro e estendeu para ela com aqueles dedos longos e pálidos.
Com as mãos tremendo, Marintte pegou o objeto. Era um envelope simples e branco, mas o que o diferenciava de tantos outros era aquele selo de cera roxo, com um grande “A” desenhado em letras elegantes.
— Não me faça estar errado, Senhorita Dupain-Cheng. – Foi a última coisa que disse antes de sair da sala, deixando a azulada novamente sozinha.
Ela não conseguia de deixar de encarar o envelope em suas mãos. Ainda estava em choque, tentando absorver aquelas informações. Gabriel Agreste veio até ela e a elogiou. Disse que apostou nela e mesmo não entendendo o que exatamente isso significava, ficou nervosa.
Com os dedos trêmulos, abriu o envelope, soltando o selo de cera que o mantinha fechado. Dentro havia uma folha de papel dobrada cuidadosamente. Pegou o papel e o desdobrou com cuidado, varrendo os olhos pelas letras, lendo cuidadosamente seu conteúdo, só para depois fazer isso de novo e de novo, tentando acreditar no que estava vendo.
Ela estava de volta ao espetáculo.
Naquela noite, o grande teatro estava completamente lotado; haviam pessoas conversando, rindo e bebendo por todo canto, todos elegantes e bem vestidos para aquele dia tão especial.
Luzes fracas iluminavam o ambiente enquanto o palco ainda se mantinha no escuro, o ambiente tinha um ar de sofisticação, mas não podia se esperar menos da grande apresentação anual realizada pelo respeitado Françoise-Dupont Art Académie.
Estavam presentes naquela noite, pais, professores, sócios, ex-alunos e principalmente olheiros dos mais diversos e renomados institutos e conservatórios de artes de toda a Europa. Aquela noite era a grande chance de muitos alunos; por isso todos queriam dar o seu melhor.
Com os músicos já posicionados logo abaixo do palco, um grande holofote foi ligado, apontando em direção ao centro do palco, onde se encontrava o diretor da academia, Mr. Damocles. As luzes no local foram reduzindo, o público sentando em suas poltronas e fazendo silêncio.
— Boa noite, Mesdames e Messieurs. Sejam bem-vindos a essa noite mágica. – O Diretor falava animado com o microfone em mãos. – Todos os anos, nós da Françoise-Dupont, temos o prazer de organizar esta noite magnifica, aonde nossos alunos, nossos formandos, vão apresentar para o público todo o talento que existe em si.
“Aqui, buscamos extrair o melhor de cada um. Lapidando e transformando diamantes brutos em belas joias. – O público ouvia tudo atentamente, enquanto nas coxias, os bailarinos se preparavam para finalmente entrar em palco. – Esta noite, eu espero que consigam despertar a criança que existe em cada um; e que possam sentir e se encantar com a magia. Um bom espetáculo a todos.”
A saída de Mr. Damocles do palco foi saudada com um grande salva de palmas. As luzes foram apagadas e o maestro, já posicionado, começava a agitar seus músicos. Uma grande orquestra, tocando os primeiros acordes daquele grande espetáculo de dança.
Com as luzes do palco acendendo e iluminando o cenário, a música tocando, não havia mais tempo para remorsos ou temores, Marinette sabia disso. Aquela seria possivelmente, a última vez que dividiria o palco com os seus amigos e colegas, que fez ao longo daquele ano.
Seria também, a última vez que dançaria com ele.
Que sentiria o toque de suas mãos em seu corpo, que ficariam tão próximos, sorrindo um para o outro, mesmo aqueles não sendo sorrisos tão felizes e verdadeiros, quanto os que trocaram um dia.
Então, por mais que estivesse se sentindo sozinha e com medo, agora era o momento de olhar para o céu, para o seu futuro. Havia sido dado a si uma segunda chance, e ela a agarraria com toda a força e não soltaria de jeito algum.
Seus pais haviam vindo de longe para assisti-la naquele dia especial e ela queria que eles tivessem orgulho dela, vissem o quanto se esfouçou e que toda a luta e sacrifício que eles fizeram por ela não foi em vão.
Saltava, rodava, sorria, deixando a música cravar as unhas no fundo da sua alma. E quando não estava no palco, assistia aos amigos, torcendo por eles.
Quando a apresentação chegou ao fim, teatro todo se iluminou; e o público aplaudiu de pé todos os bailarinos, músicos e equipe, que com tanto esforço tornaram aquela noite possível e tão especial.
Correndo em direção aos pais, Marinette jogou-se contra eles, sendo recebida por um abraço grande e caloroso. Como ela sentia falta deles, do amor e carinho. Ainda estava vestida e maquiada, e as lágrimas escorriam como cachoeiras por seus olhos, mas naquele momento ela não estava ligando se seu rosto ficaria manchado ou deixaria o figurino sujo.
— Ah minha linda menina, você estava tão linda. – Sabine chorava também, abraçando fortemente a filha. Nem mesmo seu marido, Tom, estava conseguindo conter a emoção. – Estamos tão orgulhosos e felizes por você, querida.
— Obrigada. – Marinette sorria feliz em meio as lágrimas, mantendo-se agarrado aos dois.
Em meio a bagunça da multidão, Marinette apresentou os pais a melhor amiga, Alya, que ficaram muito contentes em conhecê-la e seus pais. Deixando os adultos conversando, as duas amigas se abraçavam com força. As emoções eram tantas que elas nãos sabiam se riam ou choravam.
— Marinette? – O chamado veio de trás de si.
Ela se virou e encarou aqueles olhos brilhantes que conhecia tão bem.
Adrien carregava em seus braços um grande buquê de rosas vermelhas. Com duas espaçadas curtas, aproximou-se dela e lhe estendeu as flores, com um pequeno sorriso lhe desenhando os lábios. Um sorriso triste.
Com as mãos trêmulas, ela aceito o presente. As flores eram tão belas e cheirosas, assim como aquelas que ele havia lhe dado na apresentação de verão, fazendo com as lembranças daquele dia lhe enchessem a cabeça.
O dia que ele a pediu em namoro.
— Bem... Acho que agora eu só posso te desejar todo o sucesso do mundo. — Ele segurou sua mão livre e a leva até os lábios. Depositando um beijo calmo e cálido. Permitindo-se sentir pela última vez, o toque da pele dela junto a sua. — Dividir o palco com você, foi a melhor coisa que já me aconteceu na vida. Obrigado.
Ele sorriu e uma lágrima solitária lhe escorreu pela bochecha.
Na mesma noite, Marinette recebeu o convite para se juntar ao Ballet Europeu, em Londres.
E foi naquela noite que ele a viu partir.
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