Fim de Jogo

JUVIA ABRIU OS olhos com dificuldade, tentando se acostumar com a iluminação improvisada do ambiente em que se encontrava. Sua cabeça doía como se tivesse tomado uma surra, e além disso, parecia que vomitaria a qualquer momento. Sentia sua garganta secar. Um líquido molhou sua face. Foi quando a garota recobrou sua consciência.

— Onde... estou? – disse com um pouco de dificuldade. – Que merda é essa? – percebeu que seus braços estavam amarrados. Ela estava presa à uma cadeira. Fechou os olhos tentando se lembrar da última coisa que lhe tinha acontecido.

— Oh, vejo que acordou, Juvia-chan. – ouviu uma voz delicada. Ela usava um tom quase que amigável.

— Sherry. – Juvia concluiu. Era óbvio, a rosada havia colocado algo em sua bebida e lhe sequestrado. Mordeu os lábios se culpando por ser tão ingênua.

— Não vai me perguntar o que aconteceu? – a rosada riu.

— Eu acho que o que aconteceu aqui foi bem óbvio, não acha? – disse com sarcasmo. – Não preciso pensar muito pra concluir de que você foi a culpada de tudo. Da fotografia, da tentativa de afogar o Gray... Nunca pensei que fosse tão baixa.

— Cale-se! – gritou jogando um copo de água na cara da azulada. – Pra uma prisioneira você tá me saindo bem debochada, não acha?

— Vai se danar! Eu acreditei em você, sua filha da...

— Poupe suas palavras, Lockser. Antes, deixe-me lhe apresentar meu próximo convidado. Tragam-no! – sinalizou para um de seus capangas.

Juvia apertou os olhos pra poder enxergar com clareza quem estava chegando.

— Gray! – gritou assim que avistou o garoto cheio de hematomas ser lançado ao chão. – O que fizeram com você?

— Ju..Juvia! – desesperou-se. – N-Não se preocupe!

— Eu vou te tirar dessa, tudo bem? – a garota dizia. – Eu vou tirar a gente daqui.

— Awn, que linda a ceninha de vocês. Pena que me dá ansia. – a expressão de Sherry era de puro ódio. – Não sinto nada em informar que vocês dois não vão ter seu final feliz maravilhoso.

— Cala a boca e diz logo por que estamos aqui, droga! – Juvia se debateu na cadeira. – Não aguento mais tanto papo e pouca ação. Você é uma vilã ou não é? – soltou uma risada.

— Até eu seria um vilão melhor. – Gray riu, mesmo que doesse. Se esse era o jogo que Juvia queria jogar, ele iria entrar totalmente. – Maldita hora em que parei de fazer o cartão FF, hein? Seria legal para uma hora dessas.

— Eu nunca achei que concordaria com isso um dia, mas acho totalmente válido. Devíamos jogar trigo no rosto dela?

— Com um pouco de ketchup ou corante pra combinar com a expressão dela agora há pouco. Você ouviu o "cale-se" que ela disse? Nem gente do ginásio fala assim.

— Não se fazem mais vilões como antes. – nossa protagonista soltou uma risada irônica.

— CALEM-SE OS DOIS! EU QUE MANDO AQUI, PORRA! – chutou a cadeira que a azulada estava, fazendo o assento ir um pouco pra trás. – Não se esqueçam que a vidinha medíocre de vocês depende DE MIM! – sua face beirava o ódio e loucura. Suas veias da testa estavam dilatadas. – Você fez um trabalho muito bem em esquecer de mim, não é, Lockser?

— De que porra você tá falando desde hoje? De onde eu te conheço?

— Claro. – Sherry riu sem graça. – É óbvio que a popular líder do Element Four da escola Phantom Lord não se lembraria de uma simples aluna de um colégio adversário. Não se lembra de mim, Demônio Azul? Nem se eu falar da partida da Phantom contra a Lamia Scale? Da garotinha chorando no final?

A expressão de Juvia congelou.

— Chelia? É... É você?

— Você a conhece, Juvia? – Gray estava confuso.

— Eu fui líder do clube de artes marciais da minha escola. Por só haver meninas, por um tempo o clube foi motivo de chacota pelos garotos. A Phantom tinha muito, muito bullying. Os alunos viviam fazendo gato e sapato dos mais novos. Lucy era uma delas. Quando fizemos amizade, decidi que deveria montar um squad. Nós acabaríamos com todo e qualquer tipo de bullying da região. No início, éramos só quatro. Por isso o "Four" depois do "Element". Mas após poucas semanas, tínhamos mais de 50 garotas. Chegávamos a ir pra outras escolas combater o bullying de lá. Foram anos incríveis.

— Sim. – Sherry abriu, pela primeira vez naquele dia, um sorriso verdadeiro. – Você era incrível. No dia da competição entre a Phantom Lord e a Lamia Scale, a Phantom venceu de lavada. Eu era da Lamia, e treinávamos bastante. Nós basicamente não tínhamos descanso. O nosso treinador era meu pai, Deliora. Ele nos fazia treinar incansávelmente até tarde da noite. Sem parar, até minhas pernas sangrarem. Quando vocês venceram, ele me espancou. – parou pra respirar. Sua expressão vacilou por alguns segundos, mas logo se estabilizou. – Foi quando você apareceu. Você gritou com ele. Era uma menina corajosa para alguém que só tinha 12 anos. Você e as outras garotas puxaram ele de cima de mim. Você socou a cara daquele velho e disse que faria ele apodrecer na cadeia. Foi o que aconteceu, e talvez eu devesse te agradecer por isso.

— Essa não é uma maneira muito agradável de agradecer. – disse ríspida.

— Depois que meu pai foi preso, uma tia rica me adotou. Mudei meu nome. De Chelia, eu agora era Sherry. Sherry Blendy. Eu estava rica. – abriu um sorriso. – Assim que entrei na Fairy Tail, esse ser aí! – apontou pro moreno de joelhos no chão. – Ele disse que eu era inútil por estar no caminho dele. Disse-me que eu era feia demais para estar naquele colégio.

— Me perdoe. Eu sei que não é a melhor das circustâncias mas...

— Cale-se! – bradou. – Eu jurei que um dia acabaria com você, jurei que um dia eu teria a mesma coragem que Juvia tem e te socaria a cara. Eu jurei que ia me vingar da pior forma! – berrava. – Quando Juvia chegou na escola, eu a reconheci instantaneamente. Tão poderosa, os cabelos azúis de sempre. Quando você desafiou Gray Fullbuster, eu soube que era você. Decidi que deveria unir forças com você pra acabar com ele. Foi por isso que me coloquei entre vocês. Eu precisava despertar seu ódio, e Gray só ajudava. Pra piorar a relação de vocês, mandei aqueles caras na sala fazerem o que quiser contigo.

— ENTÃO FOI VOCÊ? – Juvia gritou.

— VOCÊ É TÃO SUJA!

— Já não mandei que se calassem? Meu tiro saiu pela culatra. Vocês acabaram ficando próximos. Gray Fullbuster virou a cadelinha de Juvia Lockser. Apaixonadinho, fazendo tudo por ela. Isso me despertou um sentimento forte por você, Gray. – ela sorriu maldosa. – Meu coração palpitava fortemente, como vários socos. Ardia, doía, rasgava. Me fez acha que eu queria ser sua namorada. Então passei a ter algo bem mais forte por Juvia. Achei que fosse o sentimento de traição. Fui traída por você, que tentou roubar Gray. Sentia raiva, ódio, aflição! EU QUERIA MATAR VOCÊ! – gritou.

— Você é DOENTE! – bradou o Fullbuster. – Fez tudo isso, nos sequestrou, quase nos matou, tudo porque você DIZ que tem uma paixãozinha por mim?

— Por você? – Sherry cuspiu num canto qualquer do galpão. – O que eu sentia por você era forte, sim. Ardia dentro de mim. Mas logo eu descobri que não eram seus braços que eu queria sobre mim. Não era a sua voz que eu queria ouvir sussurrando palavras de amor no meu ouvido. Tudo o que eu sentia por você era ódio, inveja. A mais pura das invejas. A pessoa que eu realmente queria os lábios contra os meus era outra.

— Quem dia... – Lockser começou a falar mas foi interrompida pelo selar de Sherry.

— Meu verdadeiro amor. A pessoa que eu realmente amava era você. – sorriu. – Eu te amo tanto que eu tenho ódio. Eu odeio vocês dois juntos, odeio a forma como se comportam juntos, quando saem, quando se falam, quando se beijam. Eu odeio tudo sobre vocês dois juntos. E isso é maior que meu amor por você, Lockser. É por isso que eu quero que você aceite, por bem ou por mal, ser minha namorada.

— Você por acaso é louca? Você me sequestra, quase me mata e ainda espera que eu te NAMORE? Eu não me importo em namorar uma mulher, um homem, ou seja lá como a pessoa se identifique, mas namorar uma PSICOPATA LOUCA com certeza não está na minha lista! – recebeu um tapa na cara. – VOCÊ É LOUCA!

— CALE-SE!!! HOMENS, VENHAM AQUI! – gritou e seu capanga apareceu. – ACABE COM A VIDA DOS DOIS. Dou cinco minutos antes de eu voltar aqui e dar meu veredito final. Comecem pelo moreno.

(* ̄(エ) ̄*)

Reunidos na casa dos Fullbuster, todos estavam desesperados: Lucy chorava sem cessar, Erza tentava rastrear o telefone do seu irmão e de Juvia, porém ambos estavam sem sinal. Jellal e Natsu estavam com os detetives particulares da família procurando vestígios do sequestro que seus amigos sofreram.

— Precisamos avisar a família da Juvia. – Lucy disse. – Eles precisam saber.

— Não, vamos esperar mais um pouco. Ele é meu irmão, é minha responsabilidade trazê-lo de volta. Juvia também é minha amiga, vou trazê-la de volta também. Você vai ver. – disse com firmeza. Estava preocupada, andava de um lado para o outro. Seu pai estava na empresa, ordenando mais carros de buscas. Ela já havia acionado a polícia militar. Gray era filho dos donos da maior empresa do país, afinal. A polícia toda iria se mover para achá-lo.

Erza estava desesperada, precisava achar alguma outra solução. Batucava os dedos sobre o telefone. Só tinha uma opção.

"Não", cogitou. Mas entendeu que talvez fosse sua única saída. Pegou seu celular e digitou, desesperada, o número de quem mais gostaria de evitar no mundo.

— Alô? – a voz firme do outro lado atendeu.

— Mãe, é a Erza. Sei que faz tempo que não nos falamos e nem sei se você se importa, mas eu sei que você deve sentir algo pelo meu irmão. Não sei se o pai te avisou, mas Gray foi sequestrado. Já fizemos de tudo e não o encontramos de jeito algum. – respirou fundo antes de continuar. – Se houver aí dentro de você algum mínimo sentimento por ele, e se você souber de algum jeito de salvá-lo, nos ajude. É o mínimo que você pode fazer depois de todos esses anos.

Desligou a ligação, com raiva. Ela precisava achar seu irmão.

(* ̄(エ) ̄*)

Juvia esperou Sherry fechar a porta pra pôr seu plano em ação. Já havia visto muitos filmes de ação e a rosada não parecia ser muito inteligente. Desamarrou uma das mãos e fez parecer que a outra estava presa na cadeira.

— ME SOLTEM DAQUI! – ela gritou, quando o cara deu o primeiro soco no rosto do Fullbuster amarrado. Aproveitou o momento de distração do cara e bateu com a cadeira em cima dele.

O rosto ensanguentado de Gray ganhou um sorriso.

— Precisa de ajuda? – ela sorriu, desamarrando o garoto e o ajudando a levantar. – Eles já te bateram antes? – ele fez que sim com a cabeça.

— Precisamos arranjar um jeito de sair daqui. – disse o moreno. – Urgentemente.

Antes que pudessem concluir seus pensamentos, outros capangas apareceram e atacaram os dois. Mesmo machucado, Gray batia em todos como se sua vida dependesse tudo (e de fato dependia). Descontava toda raiva e frustração naquelas pessoas, que caiam uma após uma. Juvia não estava muito diferente. Não estava tão machucada quanto o rapaz ao seu lado, por isso podia usar toda sua força. Não tivera sido fundadora do Element Four por nada.

— MAS QUE DIABOS? – Sherry entrou na sala, possessa.– Quando isso se tornou uma bagunça?

— Desiste, Sherry! Nós estamos juntos e vamos acabar com você. Nos deixe ir. – Gray falou.

— NÃO! – a rosada puxou uma arma e apontou pros dois, com as mãos trêmulas. – NINGUÉM SAI DAQUI! NINGUÉM! NINGUÉM, PORRA!

— Sherry, baixa essa arma. – Juvia pediu. – Podemos resolver isso pacificamente, abaixa essa arma, por favor.

— NÃO! VOCÊS DOIS NÃO MERECEM TER UM FINAL FELIZ! – arregalou os olhos e abriu um sorriso. – EU VOU MATÁ-LOS!

Se preparou para atirar, porém no exato momento, as portas do galpão se abriram e a polícia entrou. Lyon entrou no local correndo. Os dois sequestrados mal tiveram tempo de raciocinar que o amigo estava de volta, pois logo um dos policiais gritou:

— VOCÊ ESTÁ PRESA, SHERRY BLENDY! Acabou pra você!

Os oficiais prenderam a garota, que gritava enlouquecidamente.

— EU ODEIO VOCÊS!

(* ̄(エ) ̄*)

Gray e Juvia já haviam recebido alta do hospital, porém o moreno, que estava mais debilitado, estava de repouso em casa. Ficar deitado o dia todo podia ser entendiante, mas a companhia de Juvia era reconfortante.

— Eu nem acredito que isso aconteceu de verdade. – dizia o moreno, que ainda tinha algumas cicatrizes no rosto.

— Ainda bem que não durou nem um dia. – ela sorriu. – Você foi bom surrando aqueles caras... para um riquinho.

Gray soltou uma risadinha e sentiu seus ossos doerem. Estava sentado na cama, mas ainda assim sentia seu corpo todo latejar.

— E você... – buscou palavras para debochar da garota, mas acabou perdendo-se nos olhos de cor azul dela. Se perguntou mais uma vez o porquê dela ser tão adorável. A cada dia que se passava ela tornava-se mais bela. Céus, aquela beleza era tão avassaladora na visão do moreno. Não conseguia ficar mais de cinco minutos sem pensar no quanto a amava, no quanto a admirava, no quanto ela mexia com cada estrutura de seu corpo. No quanto ele queria beijá-la agora. Então o fez.

Juvia nem reagiu, apenas fechou os olhos e permitiu que aquele momento acontecesse. Era um beijo casto, talvez até um pouco doloroso para o Fullbuster, que tinha um pequeno corte nos lábios. Mais uma vez, sentia-se em outro mundo. O moreno fazia carinho nas bochechas da garota e ambos abriram um sorriso, mas antes que qualquer um dos dois fizesse outro movimento, a porta foi aberta. Os dois se separaram rapidamente, totalmente vermelhos. Era Lyon.

— Hã, espero não estar atrapalhando nada. – disse sarcástico.

— Não, só estávamos conversando, apenas isso. – Juvia disse rapidamente.

— Ok. Enfim, Gray. Ela voltou. Sua mãe está ai e quer falar com você.

Gray olhou perplexo para o amigo. Aquilo não podia estar acontecendo. Mika Fullbuster havia voltado?