Katekyo Gangue Reborn
11 Paz em Namimori
O som de muitos passos correndo de um lado para o outro era o que mais chamava atenção. O Centro Kokuyo era um verdadeiro pandemônio de pessoas. Paramédicos se misturavam aos membros da Vongola, os que estavam bem e os que se feriram durante a batalha.
Os céus acima já haviam assumido um tom azul escuro e logo se tornaria negro com o cair completo da noite. O ultimo grupo de paramédicos surge de dentro do prédio, carregando Tsuna e Mukuro em macas. Reborn e Chrome vinham logo atrás.
“10º!” Gokudera corre para perto de Tsuna, preocupação visível em seu rosto ao ver o estado de Tsuna.
“Deixe-os, Gokudera.” Diz Reborn.
“Mas, Reborn-san –”
“Ele está exausto por ter lutado com todas suas forças. Só isso.”
Gokudera faz de dizer mais alguma coisa, mas apenas se afasta, deixando que levem Tsuna para a ambulância. Reborn escolta Chrome para fora do Centro.
“Espere, Reborn-san.” Gokudera o chama. “Onde está indo?”
“Levando-a para casa. Já é muito tarde para garotas andarem sozinhas nas ruas.”
Gokudera não diz nada. A verdade é que tinha muitas perguntas a fazer para Chrome. Ele não conhecia a garota, mas sabia que ela estava relacionada a Mukuro de alguma forma, o que não poderia ser uma coisa boa.
Mais cedo, quando ela surgiu no centro, Gokudera tentou arrancar alguma informação útil dela, mas ela apenas gritou que precisava entrar não importava o que. Ele a deixou passar, vendo que não chegaria a lugar algum. A garota estava desarmada, mas isso não o acalmou completamente.
Ainda havia muitas perguntas sem respostas nesse incidente. E Gokudera podia apenas imaginar a verdade por trás dos fatos.
Embora estivessem inconscientes durante toda a luta entre Tsuna e Mukuro, o trio que foi derrotado acordou pouco tempo depois que ela acabou. Com exceção de Yamamoto, Ryohei e Lambo foram dispensados e seguiram seus próprios caminhos.
Lambo conversa brevemente com seus colegas, apanha a moto na qual chegou ao centro e se mandou para casa. Nenhum dos membros da Vongola estava com fôlego para comemorar sua vitoria. A festa ficaria para outra ocasião.
Apesar de estar cansado, Lambo estava contente. Mesmo que ele não tenha ajudado na batalha final, seus objetivos foram cumpridos. Seus colegas estavam fora de perigo. Ele conseguiu. Ele venceu.
Desde que Lambo havia deixado a casa, I-pin não conseguira se concentrar em mais nada, sem saber pra onde ele tinha ido, não teria como segui-lo. Então depois de muita agonia, ela decidira ir pra um lugar que cedo ou tarde ele iria retornar.
O som do portão abrindo. Da garagem se abrindo e da moto parando. Da porta da cozinha sendo aberta. Mesmo sendo uma casa grande, com o silêncio do ambiente todos esses sons eram claramente audíveis.
I-pin estava parada, de braços cruzados e apoiada na parede, começando a fazer uma contagem regressiva.
Lambo entra na sala e encontra I-pin.
“Vencemos.” Ele diz sorrindo.
I-pin ergue a sobrancelha, como se não tivesse ouvido.
“Você está todo machucado”. Diz o encarando.
Lambo da uma risada sem graça. Ela se aproxima em passos largos com uma expressão de poucos amigos.
“Você... Você...” Ela ergue a mão como se fosse bater nele, mas acaba apenas a abaixando e a usando para esconder as lágrimas. “É um grande idiota, estúpido... fazendo uma garota chorar desse jeito”. Ela diz soluçando.
Na verdade ela queria derrubá-lo no chão como na vez em que ele viera pedir ajudar, mas não tinha coragem. Ele estava machucado e ela imensamente feliz por vê-lo.
“Me desculpe.” Ele diz ainda sorrindo. Lambo tira um lenço do bolso e o oferece a I-pin.
Ela toma o lenço e se vira rapidamente, ficando de costas enquanto secava as lágrimas. Lambo tenta pensar em alguma coisa esperta para dizer, mas nada lhe vem a mente. Ao menos nada que não fosse terminar levando um golpe de I-pin.
É quando ele se da conta que ela estava em sua casa. Era de fato estranho não ter prestado atenção antes. Afinal quando foi a ultima vez que ela esteve em sua casa? Ele não se lembrava.
“Eu... fiz você esperar muito?” Ele pergunta meio sem graça.
Ela balança a cabeça positivamente. Embora não conseguisse se lembrar a quanto tempo estava lá, mas não importava, Lambo era culpado por tê-la feito se preocupar tanto, mesmo que ela não estivesse lá há tanto tempo, ela passara o tempo todo pensando nele.
“Bom... me deixe compensá-la. Eu ouvirei um pedido egoísta seu.”
“Mesmo?” Ela pergunta virando um pouco o rosto.
“Hm.” Lambo assente.
“Nesse caso...” Ela se vira, voltando a ficar de frente para ele. “Eu...” Ela o encara por alguns segundos e então passa a olhar para o chão.
Certamente aquela frase deveria ser proibida.
Ela que gostava dele. Ela que sempre gostara dele. Mas ainda que fosse egoísta, ela não gostaria de ter o pedido atendido só por causa daquilo. Ela não era aquele tipo de pessoa.
Ah como era difícil, estar apaixonada pelo melhor amigo.
Ela suspira e novamente se vira. “Que você vai se cuidar e vai parar de aparecer todo machucado na minha frente”. Diz se lembrando de quando ele chegara todo machucado no colégio e inventara que havia caído da escada.
Lambo já previra que acabaria sendo algo desse tipo, embora ele tivesse preferido ouvir um pedido de tipo diferente. Um garoto sempre pode sonhar, certo?
Ele sabia que era uma posição delicada. Um pedido que ele não poderia cumprir. Que cedo ou tarde ele se machucaria de novo. Mas ele não daria pra trás. Não com ela. Não com a garota que ele mais gostava, mesmo que ela o visse apenas como o amigo bobo.
Ah como era difícil, estar apaixonado pela melhor amiga.
“Seu desejo é uma ordem.” Ele diz fazendo uma reverência.
-x-
Os olhos de Tsuna se abrem lentamente, mas ele não se acostuma com a luz e o branco e os fecha novamente.
Ele tenta repetir o processo, mas não consegue nada. Ele vira o pescoço para o lado, mas sente o corpo doer ao fazer isso. Com os olhos bem comprimidos ele faz a primeira visualização do ambiente.
Branco excessivo, cheiro peculiar. A cortina voava deixando que luz demais entrasse. E então o coração de Tsuna dispara. Como assim já era manhã? Ele se senta na cama e logo se arrepende.
O corpo dói tanto e tão imediatamente, que ele se encolhe todo.
A porta do quarto se abre e entra uma enfermeira.
“Ah, Sawada-san. Desculpe o incômodo, mas recebemos instruções para dar alta assim que o senhor recobrasse a consciência.”
“O que?” Ele murmura ainda abraçando o próprio corpo.
“Me desculpe, mas foram as ordens. Suas coisas estão ali.” Ela aponta para um gabinete próximo. “Me chame quando estiver pronto.” Ela se curva e deixa o quarto.
“Isso é impossível, completamente impossível!” Grita olhando para o estado em que se encontrava.
Mas impossível ou não, ele sabia que não adiantaria discutir, nem se lembrava como havia chegado lá. Ele coloca um pé pra fora da cama e assim que se coloca de pé ele caí no chão automaticamente.
“Eu disse que era impossível...” Murmura com lágrimas nos olhos enquanto massageava a perna que ele mal sentia.
Tsuna gira os olhos pelo quarto e percebe uma cadeira de rodas do outro lado da cama. Choramingando ele segue pra lá engatinhando, sabia que se tentasse se levantar de novo o resultado poderia ser pior.
“Nunca tive que usar uma coisa dessas...” Diz ao empurrar a cadeira para frente. Ele começa a olhar para os pertences. “O amuleto da Kyoko-chan...” Tsuna toca no tecido meio gasto e sujo.
Ele se lembra de quando havia visto o amuleto durante a luta. Tinha certeza que havia o colocado dentro do casaco, provavelmente tinha caído assim que a luta começara.
Decidido a não pensar muito no assunto ele chama a enfermeira. Ele não conseguia acreditar que sua mãe o tiraria do hospital naquele estado, mas não conseguia pensar em mais ninguém que fosse desalmado o bastante.
Tsuna é levado até a entrada do hospital. Sentado em um banco estava Reborn com uma lata de café nas mãos.
“Hm. Isso foi rápido.”
“Ah, eu devia ter imaginado”. Diz fazendo um carão.
“Vamos indo. Sua mãe está esperando.” Diz se levantando.
“Eh? Reborn o que você disse a ela?!” Gritou já entrando em pânico.
“Que você perdeu a hora.” Diz assumindo a cadeira e levando Tsuna para fora. “Ela acha que você passou a noite toda estudando.”
“Estudando? Reborn olha pra mim! Não da nem pra fingir que eu caí!” Continuou gritando.
“Quanto a isso... eu penso em algo na hora.” Diz de forma despreocupada.
“Na hora?” Tsuna queria sair da cadeira e bater em Reborn. Como ele podia ser tão irresponsável? Eles não estavam tentando enganar uma criança.
“Deixe isso comigo. Ao invés de esquentar a cabeça com detalhes você deveria pensar na Vongola.”
Tsuna tenta se virar e olhar para Reborn, mas por causa da dor ele decidiu permanecer olhando para frente.
“Como estão todos?” Pergunta olhando para as próprias mãos.
“Melhores do que você. Acho que isso já diz muito.”
“Ah, ainda bem”. Tsuna respira aliviado. “Eles estão no hospital?”
“Yamamoto foi o único que foi pro hospital, mas ele já saiu.”
Tsuna se lembra de ver os amigos, naquela hora ele não tivera nem noção de quão machucados eles podiam estar, mas o fato de estarem inconscientes havia o feito agir irracionalmente, atacando Mukuro...
“E o Mukuro?” Pergunta preocupado.
“Não vai acordar tão cedo. A habilidade que ele usou exige demais de seu corpo. Eu disse que iria te treinar por quatro dias porque esse era o tempo que ele levaria para se recuperar. Ele agiu cedo demais. Você pode dizer que a estupidez de Gokudera te deu uma vantagem.”
Tsuna sorriu com aquilo. Ainda que Mukuro não fosse acordar tão cedo ele estava bem. Os amigos estavam bem.
“Ah Reborn, as luvas voltaram a serem de lã, será que elas quebraram?” Perguntou enquanto as colocava sobre o colo.
“Dificilmente. Algo criado por aquele homem não quebraria tão facilmente.”
“Aquele homem?” Repetiu franzindo o cenho.
“Elas devem funcionar se você tentar novamente.” Diz ignorando a pergunta.
“Não obrigado”. Diz fazendo uma careta. “Acho que eu realmente morri daquela vez...”
Logo a dupla chega à casa de Tsuna. Reborn pára a cadeira atrás do muro.
“Levante-se. Você não quer deixar sua mãe mais preocupada do que ela já vai ficar.”
Tsuna podia até concordar com Reborn, mas ele não conseguia ficar de pé. Na verdade toda vez que parava pra pensar nisso ele se lembrava de ter a perna perfurada. Ele saiu da cadeira e se pendurou na parede.
Reborn ampara Tsuna o ajudando a ficar de pé.
“Nem fingir você consegue. Ainda falta muito pra você aprender, Dame-Tsuna.” Diz com seu sorriso debochado.
“De quem você acha que é culpa por eu estar assim?” Tsuna da uma risada forçada enquanto seguia com Reborn para casa.
Os dois seguem até a porta. Reborn toca a campainha.
“Hai?” O sorriso de Nana desaparece assim que olha para Tsuna. “Tsu-kun! O que aconteceu com você?” Ela pergunta tocando no filho que ainda estava com o rosto machucado, sem falar no resto.
“O-oi mãe”. Ele disse dando um sorriso sem graça.
“Bom dia, Sawada-san.” Diz Reborn com uma expressão grave e preocupada. Ele já havia começado seu teatro.
“Reborn-san, o que aconteceu com o meu filho?” Ela pergunta com uma mão sobre a boca.
Reborn segura a respiração antes de falar.
“Um grupo de arruaceiros.”
Tsuna olha pra Reborn com uma careta, mas Nana estava preocupada demais. Ela abraçou o filho que se esforçou pra não chorar de dor.
“Tsu-kun!” Ela o apertou. “Oh me desculpe”. Ela se afastou. “V-vamos entrar, ne?” E da passagem para os dois.
“Com licença.”
“Será que é melhor você ir direto para o quarto?” Nana pergunta enquanto olhava para as escadas.
“N-não se preocupe, eu posso subir depois”. Disse tentando convencer que estava bem.
Eles se acomodam na sala, Nana serviu chá para todos.
“Então... Reborn-san encontrou o meu Tsu-kun?” Ela perguntou encarando o homem. Sendo mãe, ela só queria respostas.
“Exato.” Responde Reborn tirando o chapéu e o deixando ao seu lado. “Eu sinto muito Sawada-san. Fui eu que insisti que Tsunayoshi-kun estudasse até tarde.” Ele diz se levantando e se curvando.
“Não, eu fico feliz que você o tenha encontrado e o socorrido”. Ela seca as lágrimas. “Reborn-san está sempre cuidando do Tsu-kun”.
Tsuna se mexeu desconfortavelmente.
“Sawada-san é muito generosa.” Diz Reborn se mantendo naquela posição por mais alguns segundos antes de se sentar novamente.
“Eu sempre soube que Namimori estava se tornando uma cidade perigosa, eu só não imaginava que isso pudesse acontecer na minha família”. Diz com a voz meio chorosa.
“É de fato um problema.” A forma como Reborn conseguia agir como se não tivesse nada a ver com o assunto era assombrosa. De fato, digna de um ator profissional.
“Pelo menos ele está em casa”. Ela passou a mão sobre os olhos. “Como eu sou boba”.
“Não, é um sentimento natural. Uma coisa nobre.” Diz Reborn, com um leve sorriso.
“C-com licença”. Tsuna se levantou e seguiu se apoiando pelas paredes enquanto tentava seguir para fora da sala.
“Tsu-kun?” Nana ficou o olhando, mas o garoto não se virou.
“E-eu vou para o meu quarto”. Disse ainda de costas.
O som da campainha tocando é ouvido pela casa.
“Reborn-san, você pode levar o Tsu-kun lá pra cima?” Nana perguntou já se colocando de pé. “Eu atendo a porta”. E passa rapidamente por Tsuna que aproveita a ausência da mãe no cômodo para secar as lágrimas.
Na porta havia quatro figuras. Gokudera, Ryohei, Yamamoto e Lambo.
“O Tsuna está?” Pergunta Yamamoto.
“Idiota!” Gokudera da uma cotovelada em Yamamoto. “Bom dia, Sawada-san.”
“Bom dia. Visita pro Tsu-kun logo tão cedo, ele vai ficar feliz”. Nana fica um tempo admirando os rapazes até que da passagem a eles. “O quarto fica no segundo andar”. Diz já sorrindo.
Os quatro seguem para o cômodo indicado.
“Yo, Sawada!” Cumprimenta Ryohei virando a porta. Os outros entram sob o som dos insultos de Gokudera.
“Onii-san! Yamamoto, Gokudera-kun, Lambo! Vocês estão bem!” Tsuna já estava com os olhos úmidos, quase voltou a chorar ao vê-los.
“Algo assim.” Diz Lambo.
“É bom vê-lo de pé novamente, 10º.”
“Ah eu nem posso acreditar que nós conseguimos e que isso finalmente acabou”. Tsuna suspirou completamente aliviado.
“E você tinha alguma dúvida?” Pergunta Ryohei.
Reborn, que estava encostado na parede deixa o quarto.
“Ah sim, eu trouxe isso aqui. Não é muito, mas da pra começar uma festinha de vitoria.” Diz Yamamoto erguendo algumas caixas de obento.
Tsuna da uma risada sem graça, nem querendo imaginar o que eles pensariam se soubessem de todas as coisas negativas que havia passado por sua cabeça.
“Nós finalmente vamos poder comemorar” Tsuna da um largo sorriso.
Era quinta-feira o sinal do intervalo tinha acabado de bater e aos poucos o pátio ficava mais cheio do que o normal. Hibari estava deitado no sofá tentando pegar no sono quando a porta fora arrastada com força.
“Kyo-san”.
“O que você quer? Kusakabe Tetsuya”.
Kusakabe se arrependeu ao ver Hibari se sentando, provavelmente tinha o acordado novamente. E também já podia imaginar as conseqüências.
“A Vongola...” Ele respirou fundo, parecia que tinha vindo correndo. “A Vongola derrotou Rokudo Mukuro”. Kusakabe estava quase sorrindo.
“E onde está essa Vongola agora?” Hibari perguntou parecendo desinteressado.
“E-estão ausentes”.
“Eles perturbam a paz de Namimori, talvez eu deva mordê-los até a morte”. Hibari sorriu enquanto puxava uma tonfa.
“Kyoya, não seja tão duro”. Dino entrou no cômodo. “Afinal eles se livraram de um grande problema para Namimori”.
“Herbívoros são sempre herbívoros”. Disse como se isso explicasse tudo.
“Eu disse que você podia confiar neles”. Dino apenas sorriu.
“Você é o único interessado”.
“É verdade, por isso, é uma pena que eles tenham faltado. Eu gostaria de conversar com o Tsu--” Dino joga o corpo para trás se esquivando de uma tonfa que é arremessada e encrava na parede. “Kyoya!”
“Vocês dois estão me fazendo perder tempo”. Hibari volta a se deitar no sofá.
Kusakabe e Dino trocam um rápido olhar e saem da sala.
“Eu estou um pouco preocupado com a movimentação no sul de Namimori”. Kusakabe diz com uma expressão séria.
“Não é só no sul, toda a região leste”.
“A área Sul está no controle de uma nova gangue, deve ser a mesma, provavelmente se expandido por todo o Leste de Namimori. Eu tinha esperanças da Vongola começar a se expandir e não a deixar buracos, está difícil controlar a nossa própria área”. Diz dando um suspiro cansado.
“Parece que o comitê está tendo muitos problemas”. Dino deu um sorriso sem graça.
“Desde que a Vongola começou a agir com a derrubada do Queijao, a região comercial passou a ser bastante disputada, quando Mukuro começou a atacar houve uma diminuição nas lutas, mas logo que todos entenderam que apenas os grandes estavam caindo, gangues menores começaram a surgir. Nós do Comitê somos um número limitado”.
“Sei o que quer dizer. Eu mesmo tinha planos pra ficar com todo o Norte”. Diz meio que num tom de piada. “Com a luta na ponte e a Vongola basicamente como meus vizinhos eu achei melhor deixar pra lá”. E coçou a nuca meio sem graça.
“Dino-san, você--”
“Eu acredito neles”. Diz de repente num tom sério. “Quando conheci o Tsuna eu vi um garoto assustado, quando soube que ele havia virado chefe da Vongola eu pensei que ele mais do que ninguém gostaria de trazer paz para Namimori, acho que o Kyoya também pensa assim”.
“Mas nós não podemos ficar parados”.
“Não, não podemos. Com a Vongola debilitada e esse tumulto em Namimori é provável que as coisas fiquem ainda piores do que com Mukuro, mas nós precisamos de cautela e tempo... Embora, talvez nós não consigamos nenhum dos dois”.
Ainda que a pequena festa no quarto de Tsuna tivesse passado, ainda havia a necessidade de comemorar a vitória entre a Vongola. Assim foi organizada outra festa da vitória no fim de semana, essa maior e com todo o corpo da gangue, reunidos no velho galpão.
“Gokudera-kun”. Tsuna se aproxima meio pensativo. “A área comercial de Namimori, o que aconteceu com ela?”
Tsuna ainda podia ouvir a voz de Mukuro e todas as acusações.
“A área comercial? Ela está sob nosso comando. Por quê?”
Tsuna piscou os olhos seguidamente, definitivamente não era a resposta que ele esperava ouvir. Mukuro teria só o enganado? Mas Mukuro parecia confiante demais em si mesmo para precisar de um truque desses.
“Toda a área comercial?” Perguntou visivelmente preocupado.
“Sim, foi logo depois da luta contra o Queijão. Embora...” Gokudera se interrompe. Ele tinha uma idéia de onde aquela conversa iria parar.
“Embora?” Tsuna mordia o lábio inferior com força.
“... Essa tenha sido a única parte do território dele que pegamos...” Diz sem olhar Tsuna nos olhos.
“Eh!?” Tsuna quase caiu duro. E o fato de sua cabeça estar gritando ‘Mukuro tinha razão’ só o deixava ainda mais nervoso.
Por que ele nunca percebera isso? Se não fosse tão medroso, tão preocupado em voltar pra casa em segurança, tão preocupado com a própria segurança...
Ele que só queria uma Namimori mais pacífica, quando foi que ele havia parado de visar aquilo? A força repentina que havia ganhado; os amigos e então Namimori havia ficado pra lá. Uma Namimori onde as pessoas tinham medo, onde sua querida Kyoko não podia fazer compras em segurança, onde Haru fora obrigada a presenciar o que era uma gangue, onde Chrome tinha medo, onde sua mãe...
Era quase como dizer que Mukuro não estava errado.
“Então só precisamos assumir controle desses territórios, certo?” Diz Yamamoto se aproximando da dupla. “Foi mal, eu ouvi a conversa.”
“Na luta contra o Mukuro ele disse que o território estava sendo disputado...” Tsuna diz cabisbaixo. “Mas se nós fizermos como você disse, então... então com certeza os moradores poderão ficar em paz, ne?” Pergunta com os olhos brilhando esperançosos.
“Evidentemente, se não houver disputas pela região tudo ficará calmo... espere 10º, você disse o que?” Pergunta Gokudera se virando repentinamente para Tsuna.
“Que a região estava sendo disputada.” Diz encolhendo um pouco os ombros. “Mukuro disse isso”.
“Não, sobre os moradores... isso é sério?”
Tsuna concorda hesitantemente.
“10º... Que pensamento nobre! Que altruísmo! Este Gokudera Hayato está comovido!” Diz Gokudera com lágrimas nos olhos.
Tsuna apenas da um sorriso torto.
“Hahaha, foi mais ou menos quando você foi internado que esse pensamento surgiu, né?” Pergunta Yamamoto.
“É verdade que Namimori me assusta...”
“Eu sempre soube que Namimori estava se tornando uma cidade perigosa...”
“Com todas essas coisas estranhas que tem acontecido eu também fico preocupada...”
“Não na verdade...” “Nos seus companheiros, o que você vê? O que você provoca neles, Tsuna?” “Você irá lutar pela sua Família.” Ele conseguia ouvir tão claramente todos os esporros que havia recebido e também do medo que sentia quando voltava sozinho. Mas ele não estava mais sozinho. “Nós devemos proteger Namimori, essa cidade é a nossa casa... E-embora nem todos tenhamos sido criados aqui desde pequenos, Namimori... é aqui que a Vongola está, aqui que a nossa família está reunida”. Ele sente as bochechas corarem ao dizer todas aquelas coisas. “T-todos esses conflitos, se nós pudermos dar um fim nisso, se nós cuidamos direitinho da nossa cidade, então... Ninguém precisará ficar mais com medo”.
Dessa vez até Yamamoto estava surpreso.
“Vamos dar o nosso melhor.” Yamamoto assente.
“A Vongola não ira parar até realizar esse objetivo.” Diz Gokudera.
“Hai”. Tsuna concorda com um leve sorriso.
“Mas, depois disso a gente ainda pode se considerar uma gangue?” Pergunta Yamamoto. “Não ta mais pra Defensores da Justiça?”
“Hehehe”. Tsuna olha para baixo e coça o rosto meio sem jeito. “A idéia de uma gangue sempre me pareceu meio... fora da lei”. Ele se lembra do dia em que fizera a pesquisa na internet.
“Defensores da Justiça... que coisa mais infantil.” Diz Gokudera fazendo uma careta de desagrado. “Gangues são para homens de verdade, pegue seus pensamentos do primário e de o fora daqui!” Grita apontando a saída com o dedo. Yamamoto apenas ri.
“Gomen...” Tsuna se encolhe ainda com o rosto corado. “Se a idéia parece infantil...”
“Ah não, não, não foi o que eu quis dizer!” Gokudera começa a balançar as mãos freneticamente.
E assim segue a festa no galpão.
Mesmo com a batalha terminando no meio da semana, a Vongola só retorna para o colégio mesmo na semana seguinte. Todos os alunos que estiveram ausentes durante a semana anterior retornaram, alguns ainda trazendo sinais da batalha.
Gokudera, que não tinha o habito de chegar cedo por natureza, acaba atrasado como de costume. Isso impede que uma certa pessoa pudesse falar com ele. Pelo menos até a hora do intervalo.
Quando toca o sinal, indicando a pausa para o almoço, Gokudera se levanta. Mas antes que ele pudesse sair da classe uma voz o chama.
“Gokudera-san.”
Ele se vira. A pessoa que o chamou, ele leva alguns segundos para se recordar, foi a garota que estava em seu quarto quando ele recobrou a consciência. Mais tarde naquele dia, Lambo lhe contou que foi ela que o encontrou e chamou a ambulância.
“Miura Haru.”
A garota assente. De fato esse era uma das pendências que ele tinha que resolver, ainda que não fosse nada demais. Gokudera era o tipo de pessoa que detestava deixar coisas para amanhã ou dever favores.
“Eu fiquei sabendo que foi você que me ajudou. Muito obrigado.” Diz Gokudera, se lembrando dos bons modos e se curvando.
“Não foi nada. Mas, Gokudera-san você está bem mesmo?” Pergunta Haru com um olhar preocupado.
“Sim. Estou bem.” Ele diz, sincero.
“Mas você ficou desacordado por cinco dias.”
A respiração de Gokudera trava por um instante. Não era algo que ele podia se orgulhar, de fato era algo ridículo que ele preferia não ter que ouvir novamente.
“É, não foi nada demais.” Ele diz sem olhar nos olhos da garota.
Haru não estava satisfeita com aquela resposta. Embora ele não aparentasse mais estar fisicamente ferido, esse não era o único tipo de ferida que um incidente como aquele poderia causar. Ela sabia disso de primeira mão.
Se a experiência tinha sido assustadora para ela, imagina para ele que foi a vítima direta. Não tem como ele estar bem depois de algo assim, é o que pensava Haru.
Para Gokudera a presença da garota começa a lhe incomodar. Ele já não agradecera? Ela já não perguntou o que queria? Então o que mais ela queria? Se ela iria cobrar algum favor, ele preferia que ela fosse direto ao ponto.
“O que você quer?” Ele pergunta, já perdendo a paciência.
“Ah sim.” Diz Haru se iluminando. Ela apanha uma caixa embrulhada de dentro da mochila e se aproxima de Gokudera. “Aqui.” Diz oferecendo o embrulho.
“O que é isso?” Gokudera observa o objeto com suspeita.
“Gokudera-san não me parece o tipo de pessoa que se alimenta direito então eu fiz um almoço balanceado e saudável. Uma pessoa que acabou de sair do hospital precisa se alimentar direitinho.” Diz Haru sorrindo.
“O q- Quem você está pensando que eu sou?! Eu não sou nenhuma criança mimada! Minha alimentação é saudável!” Berra Gokudera, mandando os bons modos passear.
“Não diga isso. Senão suas feridas não vão se curar.” Diz Haru, visivelmente contrariada com a explosão de Gokudera.
“Eu já disse que estou bem!”
“Não estou falando do seu corpo, estou falando daqui.” Diz tocando com o indicador o peito de Gokudera. “Não tem como você estar bem depois do que aconteceu.”
“O que...”
“Se não se cuidar, Gokudera-san, não vai se curar.” Diz Haru empurrando o bento nas mãos de Gokudera e deixando a sala apressadamente.
Gokudera fica apenas encarando o nada. Sua mente repetindo as palavras de Haru.
“Então aquele boato era verdadeiro?” Pergunta um dos membros da Vongola que também pertencia a classe.
“Qual, aquele que dizia que ela era amante do Capitão?” Responde o outro.
“Isso, esse mesmo.”
“Ah que inveja do Capitão. Ter uma bela namorada se preocupando.”
“Um bento feito a mão.”
“Nós soldados rasos nunca temos nada...”
“O que é que vocês estão resmungando aí atrás?” Pergunta Gokudera se virando para os dois com um olhar nada amigável.
Os dois fogem da sala rapidamente.
“Gokudera-kun está saindo com a Haru...” Tsuna diz para ninguém. “Ah Kyoko-chan, será que algum dia eu também vou ganhar obentos?”
Tsuna não estava muito disposto a deixar a sala para ir almoçar, mas ao mesmo tempo ele queria procurar Chrome, saber como todos estavam e principalmente se Mukuro estava mesmo bem.
Ele havia conseguido um tempo para si e andava arrastando o pé, mas graças aos remédios e todas as vitaminas que fora obrigado a tomar, as dores estavam diminuindo.
“Tsuna-kun”.
Tsuna se virou surpreso, o mesmo garoto que apanhara seu teste com uma nota vergonhosa. Não era somente surpresa por vê-lo, mas também por estarem conversando novamente.
“Dino-san”. Ele sorriu ao vê-lo.
“Parece que você ainda não se recuperou completamente”. Diz olhando-o de cima abaixo.
“Ah eu...” Tsuna olhou para os lados e percebeu que não tinha ninguém da Vongola para ajudá-lo.
“Lutou contra Rokudo Mukuro e venceu”. Dino sorriu despretensiosamente e viu claramente os olhos de Tsuna se arregalarem. “Não precisa me olhar assim, é normal que eu saiba, afinal eu também sou chefe de uma gangue”. Diz segurando a vontade de rir.
“Eh? Dino-san também?” Bom, com aquelas tatuagens, Tsuna sempre achara que ele fazia parte de alguma, mas líder?
“Por isso, tem alguns assuntos que eu quero tratar com o Chefe da Vongola”. Diz tão sério que Tsuna se via completamente obrigado a concordar.
Os dois seguiram em silêncio, Tsuna olhava o tempo todo para o chão, Dino caminhava com as mãos atrás da cabeça.
“Não sei se é do conhecimento da Vongola, ou do seu conhecimento, mas tem uma nova gangue no leste de Namimori e ela está se apoderando de todas as áreas. Sei que a Vongola não tem territórios por lá, mas veja bem, logo eles estarão se aproximando dessa região e também do meu território, por isso, eu estou um pouco preocupado”.
Tsuna concordou lentamente.
Ele pouco entendia de áreas e nada sabia sobre área de outras gangues. Assim como na vez em que Mukuro o alertara da confusão que estavam fazendo, ele se via novamente pego desprevenido.
Quão ignorante ele realmente era?
“Vocês foram capazes de derrubar o Mukuro e são a gangue mais promissora de Namimori, eu gostaria de tê-los como aliados, também porque nossos territórios são próximos”. Diz com divertimento.
“Seu território?”
“Sim, no Norte de Namimori, do outro lado do rio”. Diz com um largo sorriso. Provavelmente orgulhoso do próprio território.
“Ah, é mesmo perto”. Diz se lembrando do galpão que também ficava do outro lado do rio.
“Pois é. Eu sei que isso não é um encontro formal”. Tsuna fez uma careta não querendo nem imaginar o que seria um encontro formal entre gangues. “Mas acredito que logo a Cavallone vai estar um pouco ocupada e também a Vongola...”
Tsuna não queria nem pensar na possibilidade de estar colocando todos novamente em lutas absurdas. Embora não acreditasse que alguém poderia ser pior ou com os mesmo poderes que Mukuro.
“N-não, eu fico feliz por termos um aliado”. Tsuna sorriu meio sem jeito. Nem sabia quais ligações a Vongola tinha. Começou a tomar notas mentais de perguntar tudo para Gokudera assim que tivesse a oportunidade.
“Você está mesmo me aceitando como aliado?” Dino pareceu incrivelmente aliviado e surpreso. “Fico muito feliz por isso Tsuna-kun”.
“Dino-san... P-por que você tem uma gangue?” Perguntou se sentindo ligeiramente ridículo por estar fazendo aquela pergunta, mas depois de Mukuro, ele sentia que precisava saber mais sobre os outros.
“Bom... Namimori não é incrível? Eu sempre gostei muito do Japão. Ah puxa, acho que isso não responde a sua pergunta...” Dino coçou a nuca meio sem jeito.
“Não, está tudo bem”. Tsuna sorriu contente com a resposta que recebera.
“Você deve estar ocupado agora, mas--”
“Eu vou falar com todos”. Diz olhando diretamente para Dino.
“Por favor. Bom... você estava indo pra algum lugar e eu te atrapalhei, vou deixá-lo em paz agora”. Dino pegou o casaco que vinha carregando sobre o ombro e começou a seguir para fora da sala vazia.
“Dino-san”. Tsuna o chamou dando um passo a frente.
“Sim?”
“Como está a situação na região?”
O sorriso de Dino simplesmente desaparecera.
“Perigoso, não recomendo que ande por lá sozinho, ou melhor, recomendo que não ande por lá, ao menos até termos certeza quem está fazendo isso. Você pode me prometer isso?”
“S-sim”.
“Muito bem então”. Dino sorriu e saiu da sala.
Tsuna ficou se perguntando se Dino achava que ele era irresponsável a ponto de ir atrás de uma gangue desconhecida. Bom, ele fora ao concordar em derrotar Mukuro sem falar com ninguém, ainda que todos estivessem ao seu lado.
E agora, novamente ele estava tomando decisões sozinho, e quanto a essa nova gangue... era apenas um pressentimento mas...
“Ah Reborn...” Tsuna bagunçou os próprios cabelos.
Continua...
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