Karma

3 Não adianta chorar por isso.


Notas iniciais
Capítulo frexquinhô! Vocês deviam se preparar antes de começar a ler esse, haha. Boa leitura! Alterei os nomes dos capítulos, colocando-os em português para facilitar a compreensão!

Com passar dos dias, Herry se acostuma e começa a compreender a rotina agitada da estalagem dos Afogados. O lugar foi criado pelos avós maternos de Berta, Yulia e Martezel Alfher, e é administrado pela família desde então, sendo passado a frente ao longo das gerações e o seu “legado” regional é facilmente reconhecido pela intimidade que existe entre o casal de proprietários e uma boa parte dos clientes. Além de hospedagem, também oferecem as três principais refeições do dia para qualquer um que pague o preço anunciado por uma placa logo na entrada, não sendo necessário ocupar um dos quartos. Assim, Herry evita permanecer no salão durante os horários de maior movimento, ficando no seu quarto ou escondendo-se na cozinha.

Insatisfeito por não poder pagar em ouro o tratamento dado a ele pela família, uma vez sua “fortuna” agora resume-se a duas moedas, aceita ajudar nos afazeres da estalagem. As tarefas também são uma maneira de ocupar seu tempo, já que foi proibido por Berta de deixar Dea Syria enquanto se recupera. A estalagem não se encontra propriamente na cidade. Para chegar até a povoação é preciso percorrer alguns quilômetros para o sul, cerca dez minutos dependendo do ritmo do galope.

O receio de ter sua identidade descoberta torna-se ínfimo no decorrer da semana. A curiosidades de Reno cessam após o terceiro dia e ele aparenta estar convencido pela mentira de que Herry trabalha nas forjas na parte oeste de Ieshia, contudo o príncipe sente-se afetado por remorso ao considerar que está mentindo para aqueles que o salvaram de morrer como um “joão-ninguém” na estrada. Essa sensação é acentuada a medida que conhece o passado daquela família. Durante as suas tarefas, Reno encarrega-se de contar a Herry sobre como conheceu Berta e apaixonaram-se. Enquanto tratavam dos cavalos deixados nos estábulos, o homem conta sobre o nascimento de Tabatha ali mesmo entre o feno e Herry não pode deixar de perceber como o homem cuida para exaltar cada uma das qualidades da filha, enquanto ele finge não compreender sua intenção.

Berta e Reno conheceram-se numa oportunidade em que o homem passava pelos arredores de Dea Syria e uma tormenta que se aproximava a partir do litoral o obrigou a procurar abrigo na estalagem, que na época era administrada pela viúva de Roul Jackin, Micaela, auxiliada pela única filha do casal, Berta. Ele enamorou-se pela jovem e nunca partiu, casando-se com ela no ano seguinte. Herry, todavia, não pode deixar de notar que Reno evita falar da sua vida antes daqueles dias. Ele relata algumas histórias de sua infância, mas há uma lacuna entre o tempo de criança e o seu casamento. Respeitando o fato de que todos os homens carregam segredos e compreendendo a situação dele, Herry não faz grandes perguntas sobre a adolescência e a juventude do estalajeiro, ainda que o coxear dele atice sua curiosidade.

Uma noite morna instala-se a medida que a luz desaparece e o céu é tomada pela escuridão adornada por pontos cintilantes. Depois de ajudar Berta a limpar a louça suja no jantar e a organizar a cozinha, Herry despede-se e ruma para as escadas. No salão, homens aglomeram-se ao redor de uma das mesas onde é disputada uma partida de Marolua, um jogo de tabuleiro rústico usando dados e miniaturas de personagens. Ao caminhar para os degraus, o príncipe capta um olhar de Reno, que o chama com um aceno curto.

Por educação, aceita o convite do mais velho para beber cevada e acompanhar a partida. Sua atenção, no entanto, é oferecida para Tabatha, que acompanhada de um músico com um instrumento de cordas, canta para entreter alguns dos clientes, rapagões que a assistem num silêncio cortês e encantando. Ao fim da canção, a sonolência o abate e ele decide seguir para o quarto.

O som de urros de comemoração o segue enquanto sobe os degraus que o levam até o segundo piso da construção. O corredor é iluminado por candelabros presos as paredes e as chamas fazem as sombras dançarem no trajeto até o cômodo privado. Ao passar diante de uma das portas, Herry ouve sons estranhos que o fazem crispar os lábios, questionando a habilidade das pessoas de se portarem com descrição. Entrar no quarto faz o cansaço acumulado durante o dia tomar conta do seu corpo, deixando-o ansioso pelas próximas horas de descanso, sendo que o calor o faz almejar um banho frio. Assim que fecha a porta e vira-se para o interior, Herry detêm-se.

O quarto está escuro, exceto pela faixa de luar que entra pela janela aberta. O príncipe inspeciona o cômodo com os olhos, mas são suas narinas que dão a dica, um odor estranho pesa no ar. Um cheiro forte, marcante e desagradável. Os seus sentidos aguçam-se, reascendendo após semanas vivendo alheios. Os poucos móveis não dão margem para muitas opções de esconderijos. De onde está, Herry coloca o corpo para frente e espia debaixo da cama, encontrando apenas o vazio. Se aproxima da janela e enche os pulmões de ar, mas apenas a fragrância do sereno se faz presente ao seu olfato. Ainda incomodado, Herry atravessa a escuridão e para diante do guarda roupa de duas portas postado junto de uma das paredes logo a frente da cama.

Nenhum homem largo pode caber ali. Desprovido de armas, Herry aceita que terá que usar as próprias mãos caso encontre um invasor escondido no móvel. Ao abrir uma das portas num movimento brusco vê apenas os seus pertences organizados do jeito que ele os deixou naquela manhã, depois de limpar tudo. Prestes a encerra-los na escuridão outra vez, ele percebe a posição inadequada da capa preta que usava no dia que foi encontrado. A peça está largada num monte sobre a bolsa de couro, quando deveria estar servindo de bainha ao envolver sua espada.

A descrença toma conta dele, que começa a revirar o interior do guarda-roupa em busca da arma. O quarto todo é revistado na procura pela espada, mesmo os menores espaços, naqueles que seria impossível escondê-la. Revive em sua mente os seus passos durante aquele dia para tentar lembrar se a levou para outro lugar, mas está certo de que não a tirou do quarto desde que a chegou até a estalagem. A preocupação o faz andar de um lado para o outro, pesquisando por soluções para o sumiço.

Entre as piores possibilidades decide apegar-se a mais positiva. A de que Berna e Reno decidiram mantê-la num lugar seguro ao supor seu valor. Herry receia que arma traga a tona perguntas sobre sua origem, uma vez que trata-se de item faustoso que dificilmente estaria nas mãos de alguém como um auxiliar de ferreiro. Remexendo as mãos de um jeito nervoso, o príncipe retorna para as escadas esperando que Berta ainda esteja na cozinha para que possa questiona-la. Ultrapassa o salão sem dar atenção a balburdia de homens, adentrando o cômodo anexo, que ainda está abafado por conta das temperaturas usadas para cozinhar o jantar, mas vazio, não há sinal de Berta ou Tabatha, que também não está no salão. Sua última esperança reside em Reno e ele retorna ao salão, procurando entre os homens que se avultam ao redor da dupla que joga no tabuleiro.

Apreensivo, verifica cada um dos rostos. O seu coração acelera e ele dá um salto para o lado quando um dos espectadores se exalta, acertando a superfície da mesa com o punho cerrado. Os outros o acompanham em manifestações entusiasmadas.

— Faça uma aposta de homem, Okoro! — Atiçou um.

— Se você não tem nada a oferecer, sai da mesa! — Desafiou outro.

— Aposta o seu pescoço!

Tenta manter-se absorto daquela brincadeira truculenta e finalmente encontra Reno. Está contornando o grupo barulhento para alcança-lo, quando um novo brado se ergue. Algo parece alvoroçar aqueles homens, porque há novas batidas contra a mesa e frases exaltadas. Obrigando-se a penetrar o amontoado da plateia para chegar até o estalajeiro, Herry finalmente vê quem está na partida. Ele não conhece um deles, embora o tenha visto todos os dias durante as refeições, mas seu oponente é familiar. O adversário, que atende pelo nome Okoro, é o brutamontes com quem esbarrou ao pé da escada no seu primeiro dia ali.

— Peter! Decidiu se juntar a nós, pega uma caneca de cevada e manda pra dentro! — Reno diz com animação ao vê-lo ali.

Todavia, um reluzir o faz esquecer de seu objetivo, o som de metal acertando a madeira da mesa. O motivo da exaltação de todos está bem diante dos seus olhos. Espinheira, a espada larga de prata polida com dois gumes afiados, a guarda esculpida no formato de hastes com espinhos e o copo nos contornos flor que simboliza a família real, cravejado com rubis cintilantes. A sua espada. Okoro a deixa sobre a mesa, apostando-a naquela partida. Herry sente o arrebatamento furioso crescer dentro dele ao conhecer o destino de sua arma, roubada pelas mãos sujas do brutamontes e emulada como uma prostituta.

— Você não pode apostar isso. — A sentença é proferida com firmeza e num tom moderado, forte o suficiente para que seja ouvida pelos mais próximos e fazer cessar a algazarra. O que estão mais distantes calam-se ao perceber que algo está acontecendo.

Os jogadores viram-se para e a expressão de Okoro altera-se ao vislumbrar as feições de Herry.

— O que você disse, garotinha?

— Eu disse que você não pode apostar essa espada. — O príncipe repete sem afastar os olhos do brutamontes. — Ela não pertence a você.

— Está dizendo que eu roubei?

— Preciso repetir?

A expressão do adversário não revela grande preocupação, a entonação de sua voz e os traços do rosto são preenchidos por divertimento, aquele embate não é nada mais que um passatempo para ele e a postura severa de Herry aumenta seu prazer. Todavia, os que assistem acuam-se diante da manifestação do grandalhão.

— A garotinha pode provar que eu roubei? — A troça de Okoro é acompanhada por risadas truculentas.

— Ela me pertence, Reno pode testemunhar. — O nobre volta-se na direção do estalajeiro procurando por seu apoio. Ele já está de pé, a sua caneca de cevada está abandonada sobre a mesa e ele está sério. O brilho de sua íris clara emite um alerta ao amigo e indicam as escadas. Herry meneia a cabeça negativamente.

— Senhores, receio que possamos resolver isso como cavalheiros. — Reno tenta abrir caminho para alcançar o príncipe, empurrando homens para o lado, todos estáticos observando o embate.

— Para ser um cavalheiro é preciso ter honra, imagino que Okoro sequer conheça o significado da palavra, quiça tê-la. — Herry atiça.

— Usa palavras bonitas como uma moça que guerreia com a língua. Vá para a cama chorar e eu posso mostrar alguma piedade. — Considerando ter vencido, Okoro retorna a posição original, virando o corpo para o tabuleiro afim de retomar a partida.

— A única coisa que você pode me ensinar a fazer é como chafurdar num lamaçal, porque é isso que você deve fazer desde que foi cuspido pela sua mãe.

A expressão do brutamontes se retorce e Herry fica satisfeito ao ver que o acertou em algum lugar. Reno está ao seu lado e coloca uma das mãos em seu ombro, mas não o olha, atentando-se ao algoz. Okoro troca a espada de lado na mesa, deixando-a entre ele e o príncipe, tornando a ajeitar suas miniaturas no tabuleiro. Um silêncio sepulcral emenda-se nos segundos seguintes. Herry avalia toda a situação e por fim, afasta-se de Reno para recuperar seu pertence. Pares de olho atentos acompanham seus movimentos, enquanto estende a destra para tocar o punho da espada.

Há um borrão que risca o ar e o príncipe sente o rosto ser atingido com força. O nariz produz um “crack” agourento e ele cambaleia para trás, sem conseguir apoiar-se na mesa. Mãos o aparam, mas apenas para lançar seu corpo na direção de Okoro outra vez. Ouve a voz de Reno ao fundo, mas na confusão ela é abafada.

O cheiro de ferro domina seu olfato, além de dificultar a respiração. O fluído rubro e quente pinga, manchando suas roupas e deixando uma trilha pelo piso de pedra. Ao tatear o nariz, uma sensação dolorosa se faz presente.

— Vou ensinar a não questionar minha honra me chamando de ladrão, moleque. — Um novo golpe e Herry é lançado contra uma das colunas que sustenta o piso superior, escorregando para o chão em seguida. O frio do piso entra em contraste com o calor do seu corpo. A algazarra retorna, mas dessa vez é instigada por uma nova diversão: Uma briga.

Ciente de que foi longe demais para desistir, Herry levanta. Okoro faz o mesmo, empurrando a mesa com ambas as mãos e o peso considerável da madeira parece não ser nada diante da sua força. Com as mãos limpas de qualquer arma, ele move os olhos ao redor em busca de qualquer coisa que sirva como tal. Uma garrafa meio vazia é a opção mais promissora e assim é eleita por ele. A toma pelo gargalo, acertando o vidro contra uma das mesas para quebrar o fundo e criar dentes afiados.

O adversário avança contra ele brandindo Espinheira e cortando o ar. Os espectadores se afastam diante dos golpes ousados, mas não cessam os gritos de incentivo, todos feitos em nome do maior, coisa que não o surpreende. Reno é o único a clamar por ele, embora não faça em torcida. O estalajeiro tenta conter a confusão, sem entender que já está fora do seu alcance. Em Ieshia, é considerado transgressão manejar a espada de um cavalheiro contra o próprio, mas Okoro ignora essa lei ao conduzir a lâmina contra Herry.

O príncipe esquiva, abaixando-se ao colocar o corpo para o lado. A espada larga acerta a pilastra atrás dele e fica presa ao abrir um talho na madeira. Enquanto Okoro está ocupado tentando retirar a arma do lugar, o nobre aproveita a oportunidade para acertar o plexo solar com o cotovelo. Ainda que o golpe seja eficiente na maioria das vezes, o inimigo limita-se a soltar um esgar, agarrando Herry pelas vestes. A cabeça ossuda de Okoro é movida para frente e acerta a fronte do outro, atordoando-o. Uma dor aguda se dissemina por todo o crânio e Herry cambaleia para trás outra vez.

A forma de lutar do brutamontes o pega de surpresa. Acostumado aos combates na capital e com os modos de batalhas dos cavaleiros, está desprevenido diante do uso que ele faz do próprio corpo, não dependendo de sua arma. A falta de uma armadura também atrapalha Herry, que se sente desprotegido e vulnerável de todos os lados. Ainda que tenha participado de torneios ao lado da vida, é sabido que nenhum combatente nunca ousaria ferir um dos filhos do rei, assim nunca teve um duelo justo, suas lições de luta corporal e espadachim nunca foram colocados a prova até aquele dia.

Recuperando sua arma improvisada, Herry ajeita sua guarda e quando Okoro avança outra vez com Espinheira desferindo outro golpe, o rapaz abaixa-se, deixando que a lâmina de prata passe sobre ele. Julgando que Herry fosse pular outra vez para o lado para fugir de seu corte, Okoro erra sua investida, mas não seu adversário. Herry golpeia um dos joelhos do outro e uma onda de prazer o enche ao ouvir um guinchar genuíno de dor. A aglomeração de homens ignora seu efeito, porque não mudam de lado na torcida.

Herry estuda seu adversário, vendo-o testar o próprio joelho. Uma vez que seu golpe contra o tronco do inimigo não surtiu efeitos relevantes, ele concentra-se em procurar por pontos fracos.

— Pensei que você fosse me ensinar algo, palerma! — Ele provoca.

O grandalhão rosna e arremessa uma banqueta na direção dele. É rápido ao desviar e o objeto passa por ele, mas os que estão atrás não são furtivos o suficiente. O som de alguém sendo acertado e do banco se quebrando chama sua atenção, porque receia pela integridade física de Reno, mas ele não está em nenhum lugar por ali, desapareceu.

Sua distração é uma falha e cobra o seu preço. Okoro corre em sua direção, erguendo a lâmina para o alto para desce-la quando Herry está sob o alcance do seu fio. O príncipe foge do lance, mas não em sua totalidade. Espinho o fere sem gentileza, rompendo sua camisa e lacerando a pele do ombro. Ele pressiona os dentes contra os lábios sentindo os efeitos do golpe, mas é rápido. Gira o braço que sustenta a garrafa quebrada e direciona até a mão de Okoro que segura a espada larga, enterrando os dentes do vidro na carne. O sangue verte dos pontos perfurados e um novo guincho surge da boca do adversário, que puxa a mão com um solavanco, liberando o punho da espada.

Espinho acerta o chão com um som estridente do metal acertando a pedra e a multidão que se aglomera receia, sem acreditar na possível mudança do desfecho do embate. Enquanto Okoro puxa a garrafa da mão lesada, Herry avança até a arma de prata, empunhando-a. O sangue escorre do ponto latejando onde a cabeça do outro acertou a sua. Os gritos são convertidos em cochichos baixos fazendo parecer que dezenas de abelhas os cercam. Okoro lança um olhar irritado para um grupo de homens que assiste, que se mobilizam rapidamente meio zonzos com o peso do olhar dele, avançando na direção do príncipe.

Herry faz a arma dançar no ar diante dele, meneando-a com habilidade. O trio hesita em seu caminho, distribuindo-se até cercar o príncipe tornando aquele um combate injusto em números. Ao preparar-se, esperando qual deles irá atacar primeiro, ele o vê chegar. Reno reaparece e está ao seu lado. Os olhos dele direcionam-se para aquilo que o estalajeiro traz consigo, uma espada de duas lâminas. Antes de questionar a habilidade do homem com aquela arma, percebe pelos seus trejeitos que ele sabe o que está fazendo. Trocam um olhar e Herry compreende a sugestão, aceitando-a com uma confirmação do rosto.

Reno manca, mas avança com firmeza e sua posse exibe-se mortal. Os seis homens bailam nomeio de uma batalha narrada pelo som de metal contra metal. Okoro consegue uma espada para si, mantendo a garrafa na mão suja de sangue e os três ao seu comando também estão armados. O estalajeiro ocupa-se com dois, enquanto Herry foca no brutamontes e naquela que resta. O príncipe coloca os pés adiante e recua na mesma velocidade, tendo que ser rápido para escapar dos golpes que passam perto do seu abdômen. Ele repete o seu feito anterior desarmando capanga com um golpe certeiro na mão que sustenta a espada bastarda, chutando para debaixo de uma das mesas, longo do alcance do seu portador.

Okoro bufa diante da derrota do outro e se lança, abandonando a espada, para Herry como um touro raivoso, agarrando-o pela lateral do corpo para chocar-se com um balcão. O príncipe usa o copo da espada para acertar a nuca do ladrão em golpes consecutivos. Desfere uma outra investida contra o joelho avariado no começo da luta e o grandalhão cede, insistindo em uma última tentativa com a garrafa. O golpe é aparado pelo nobre, estilhaçando o vidro e já colocando a ponta de sua prata contra a garganta do adversário, espetando a veia que se sobressalta contra a pele.

— Posso fazer seu sangue lavar esse chão, se eu quiser. — Herry anuncia arfando. — Mas vou mostrar alguma piedade, se você se render e deixar esse lugar para nunca retornar. — Com os olhos presos a face daquele que subjuga ele mostra-se resoluto. A língua de Okoro dança por seus dentes, atiçando pragas contra Herry, mas os riscos para sua vida as detêm. O príncipe lê a aceitação da derrota na face dele, ciente de que ele se recusará a proferir qualquer palavra que a confirme.

O nobre se afasta, sem baixar a espada e aponta a saída com o rosto. Não desviando o olhar assassino, Okoro se retira acompanhado do único capanga que ainda é capaz de andar, os outros dois jazem desacordados aos pés de Reno. Perplexa, a multidão se desfaz, arrastando os inconscientes com ele, deixando-os sozinhos. O estalajeiro faz o corpo cair sobre um dos bancos, depositando a espada de lâmina dupla sobre a mesa ao seu lado. Um riso cheio de prazer escapa da sua boca, embora a fadiga esteja evidente.

— Isso foi ótimo. — Exclama ele, colocando os cabelos castanhos para trás. — Ia gostar de ter um filho como você, sempre quis um garoto brigão. — Comenta com um riso. — Você foi louco comprando essa briga.

— Eu arrisquei. — Herry assume. — Imaginei que Okoro não iria saber manjar uma espada larga do jeito certo e ele não soube, o que me deu vantagem.

Agora que pode relaxar, Herry começa a tomar consciência do que presenciou a pouco, a cena de Reno brandindo sua espada com precisão ao combater uma dupla de adversários. Caminha até o mesmo banco em que ele está e ocupa um espaço ao lado.

— Eu não sabia que você lutava assim. — O príncipe exclama numa entonação surpresa e recebe apenas um arquear de sobrancelhas como resposta.

O coxear abafa qualquer possibilidade de imaginar o homem como um hábil espadachim, mas debilidade física mostra não ser um obstáculo para ele. Descobrir sobre aquela habilidade de Reno faz Herry questionar-se sobre a lacuna de tempo deixada pelo dono da estalagem durante seus relatos sobre o passado. Ao reavaliar a estrutura corporal do outro, percebe que ele pode ter sido um cavalheiro, mas por qual motivo esconderia tal informação?

Em Ieshia, os homens são consagrados cavaleiros pela própria coroa e assim passam a integrar a Ordem da Rosa. Muitas qualidades são observadas naquelas que anseiam por tal título, mas a honra é a principal delas. Durante a vida permanecem a serviço da coroa, embora não tenham obrigações como a Patrulha do Rei ou a Guarda dos Vigilantes. Ao serem consagrados, recebem porções de Terra, além do título com o qual permanecem até a sua morte, exceto em caso de banimento da Ordem. Poucos foram os homens expulsos e os motivos para tal sempre incluem crimes graves contra a coroa, principalmente aqueles que podem ser vistos como atos de traição.

Herry começa a considerar a possibilidade de Reno ter sido proscrito da Ordem, mas o motivo para tal é difícil de supor a julgar pelo caráter direito que ele demonstrou, até agora, ter.

— Você também manuseia a espada bem. — Sem perceber, ao examinar Reno tornou-se alvo das especulações dele. O homem fita-o com um olhar intrigado, avaliando suas feições. — Bem demais para um simplório auxiliar de ferreiro.

Tem a sensação de que a verdade será arrancada dele mesmo sem as palavras confirmatórias. O sentimento de culpa por ocultar daquela família sua verdadeira história o consome, enquanto devolve o olhar que Reno oferece a ele.

— Eu não... — Herry hesita. — Eu quero me tornar um cavalheiro um dia. O mestre de armas das forjas tem me treinado desde cedo.

Um dos cantos dos lábios de Reno se contrai.

— E por que alimenta esse sonho?

— Ajudar Ieshia, não é isso que eles fazem?

O estalajeiro emite um risco curto e sem humor, um som floreado por acidez.

— Há muito mais por trás da Ordem da Rosa, eles...

São interrompidos por som de passos vindo das escadas, Berta e Tabatha surgem ali. As duas demonstram assombro ao vislumbrar a bagunça do salão, que inclui alguns bancos estilhaçados, cacos e uma das mesas partidas ao meio. A mulher negra esboça uma expressão que mistura irritação e preocupação ao encarar Reno e Herry sentados no meio da desordem. Eles relatam para ambas o ocorrido. O príncipe explica tudo a partir do momento em que notou o desaparecimento da espada do seu quarto e o homem assume a narrativa do ponto em que Herry foi pego pelo primeiro soco de Okoro, já que dali em diante tudo tornou-se um borrão rápido aos olhos do rapaz.

— Isso é péssimo. — Berta alerta, enquanto ocupa-se cuidando das escoriações que o marido arranjou durante a luta. — Okoro não é qualquer briguento estúpido de Dea Syria. As pessoas têm medo dele e com razão.

Qualquer que seja o histórico do brutamontes que ele deva temer, Herry não está preocupado naquele momento. Assim que a adrenalina começou a baixar, a perna ferida pela víbora começa a latejar e com mais intensidade do que nos últimos dias. Sentado numa das banquetas, seu tronco está despido. O sangue que escorreu da laceração no ombro pelo tórax foi limpo e um curativo é feito pelas cuidadosas mãos de Tabatha. Segundo a mãe da jovem, o nariz é uma causa perdida. Ela pode coloca-lo no lugar, mas a cicatrização irá deixar vestígios daquela noite.

— Obrigado. — Herry agradece com um sorriso quando a jovem anuncia ter terminado. Levanta e caminha com lentidão pare recuperar a camisa, mas é detido por dedos que tocam suas costas sem qualquer cuidado.

— Desde quando você tem isso? — Reno questiona, inspecionando algo na pele do príncipe. A julgar pela localização do toque, ele já imagina do que o outro está falando. Uma marca desbotada gravada em sua pele desde o seu nascimento, cujo formato lembra um cristal de neve. Há algo na voz do homem que instiga o príncipe.

— É de nascença. — Ele responde.

— Eu conheci alguém que carregava uma marca parecida. — Ligeiramente perturbado, Reno recolhe a mão e balança a cabeça para afastar quaisquer lembranças que tenham o alcançado.

Sem entender, Herry e veste a camisa. Definitivamente, há muito no passado de Reno Proudfoot a ser explorado.

Na manhã seguinte a briga no salão é que o seu corpo manifesta os reflexos da sua façanha. Não só o corte no ombro que reclama através de uma ardência constante, outros pontos também estão doloridos. Ao deixar seu quarto antes mesmo de clarear, Herry providencia um novo esconderijo para sua espada, embora a derrota de Okoro no dia anterior fosse um fator desmotivador para qualquer ladrão em potencial. Como de costume, ajuda os Proudfoot a organizar o salão para receber os clientes para a primeira refeição do dia, enquanto seu desjejum é engolido rapidamente antes de ir alimentar os animais, sendo eles algumas cabras, um pequeno rebanho de vacas de leite e os cavalos, na companhia de Tabatha.

A garota mostra-se interessada no combate que aconteceu debaixo de seu próprio nariz e que ela reclamou mais de uma vez não ter assistido. Herry a presenteia com uma nova narrativa do modo como ele e o Reno derrotaram aqueles homens, educadamente apegando-se aos detalhes. Ele a vê retorcer a face quando descreve o momento em que teve a pele ferida pela lâmina de prata. O príncipe fica feliz por poder compartilhar uma história real sobre ele com a jovem, já que as últimas foram fruto de sua imaginação.

Na última noite, ele demorou para dormir. Passou um bocado de tempo encarando o teto sobre a cama ao refletir sobre a hipótese de ser sincero com a família que o acolhe, desfazendo-se de todas as mentiras que usa para proteger sua identidade. Os prós e contras daquela ideia foram minuciosamente destrinchados, não chegando a nenhuma conclusão. Com sua perna melhorando a cada dia e tendo se recuperado da moléstia que o derrubou na estrada, está ciente de que logo partirá. Se o desejo de seguir para o sul desapareceu nos primeiros dias na estalagem, ele torna a ganhar força em oposição a possibilidade de retornar para Rohesia.

Depois de cuidar dos animais da propriedade, ocupam-se lavando as roupas de cama trocadas naquela manhã. Na casa dos dezoito anos, Herry sente-se estúpido por precisar de instrução detalhadas para o mais simples dos trabalhos domésticos e justifica-se dizendo que nas forjas para lá do Mar de Fogo as coisas são feitas “de qualquer jeito”. Um sentimento cômico o invade ao pensar na reação dos moradores da região ao descobrirem que ele os está difamando para conseguir um pretexto para suas atitudes.

O preparo da refeição do meio dia ficou ao encargo de Berta auxiliada pela sua costumeira dupla de ajudantes, mulheres que Dea Syria que apoiam na cozinha da estalagem no horário do almoço para conseguir algum dinheiro para sustentar suas famílias, deixando para Herry e Tabatha apenas o dever de ajudar a servir. Assim, antes retornarem ao salão, ambos vão aos estábulos para cuidar das montarias dos primeiros clientes a chegar. A negra ocupa-se com a escova nos pelos dos cavalos, enquanto o príncipe transporta um balde para encher os coxos de água.

Ele tenta colocar um tom desinteressado em sua voz ao desviar a conversa sobre a companhia de artista que estava se apresentando na cidade para algo mais interessante.

— E os boatos sobre o príncipe? Mais alguma coisa? — Interroga com casualidade.

A jovem concentra-se em ajeitar os fios das crinas de um cavalo árabe, olhando-o por cima do dorso do animal ao ser questionada.

— O Vigilante está quieto. — Começa a falar ao contornar a criatura. — Mas estão dizendo na cidade que o príncipe está sendo acusado de traição na capital.

— Traição?

— De que veio para o sul juntar-se aos rebeldes para tirar o pai do trono.

Os dedos do rapaz apertam-se ao redor da alça metálica do balde. Seus lábios se separam, mas não diz coisa alguma. A informação o acerta como uma clave ou novo soco de Okoro em seu rosto.

— Você tem certeza disso? — Caminha na direção dela com uma expressão séria.

— Não, ninguém pode dar certeza de nada. — Tabatha afirma com serenidade. — São apenas especulações. As pessoas ouvem aquilo que querem e passam para frente aquilo que lhes dá prazer. — Ela estreita os olhos, encarando-o com confusão. — Você ficou perturbado com isso.

— Não é nada. — Herry retruca, arrastando a destra pelo rosto ao conter-se.

— Certeza? — Tabatha toca o ombro dele em sinal de apoio e a pressão feita por ela o faz soltar um esgar de dor. — Ah, me desculpe! Eu esqueci do seu ombro!

O príncipe massageia a área dolorida, virando-se para absolve-la de qualquer culpa. Eles estão próximos e o cabelo volumoso dela tem um odor agradável, daquela distância sua íris parece preenchida pelas águas do mar que açoitam as rochas do litoral de Ieshia. Sem conseguir compreender ou explicar o ímpeto que o toma, Herry ergue uma das mãos, tocando a garota sob o queixo e coloca o rosto adiante.

Tabatha não recusa sua aproximação e o corresponde. Por instinto, o príncipe fecha os olhos ao sentir o toque macio dos lábios grossos da jovem nos seus. A destra se apossa da lateral do rosto delicado, enquanto o braço aposto envolve-a pela cintura, apertando a constituição graciosa contra ele. Os braços da negra acabam ao redor do seu pescoço, os dedos entremeando-se nos fios escuros dos seus cabelos. A ardência do ombro não o impele, não o faz parar, pelo contrário, atiça-o a provar com maior avidez do sabor agridoce dos lábios da jovem.

Trazendo-a consigo até encontrar apoio numa das paredes do estábulo, ele deixa a boca percorrer as arestas do rosto da Proudfoot, enquanto os dedos finos dela exploram o interior de sua camisa. No entanto, o relinchar de um cavalo chama a atenção dos dois. Tabatha afasta-se com pulo, lançando os olhos para a entrada do estábulo. No primeiro momento, a atenção de Herry se divide entre a moça e depois segue no mesmo rumo que o olhar dela. Não há ninguém na porta, mas dali é possível ver a entrada da estalagem onde alguns cavalos estão parados. Não é costume que os clientes desmontem lá e aquelas montarias trazem selas que não remetem proprietários ordinários.

Sem trocar palavras ou voltar a tocar-se, os dois retornam a passos rápidos para a construção, adentrando pela porta dos fundos, ultrapassam a cozinha e chegam ao salão. Como é de costume, um número significante de homens ocupa as mesas para aproveitar o almoço, mas o que chama a atenção de Herry é outra coisa. Ele os vê, um pequeno grupo de homens parados próximos da entrada trocando palavras com Reno. Vestem armaduras polidas que trazem no peto a imagem de uma torre solitária. As capas presas pelos ombros, por presilhas em formato de rosa, descem por suas costas e tocam o chão, elas são vermelhas e frondosas.

Guardas do Vigilante do Leste, a Torre mais próxima do Dea Syria.

Dada a sua função com o reino, aqueles homens não deslocam-se para longe de seu posto sem um motivo específico e a razão para sua presença já é claro, tornando-se ainda mais evidente quando eles percebem sua presença na passagem entre o salão e a cozinha, virando-se para vê-lo. Reno faz o mesmo e o chama com um aceno do rosto.

A distância que os separa não é grande e o durante o trajeto seus pensamentos formam um turbilhão, tendo seu olhar preso ao rosto do estalajeiro a todo o tempo.

— Esse é o garoto do qual falei e que vocês procuram. — O Proudfoot coloca o braço ao redor de seu ombro. — Eu disse, ele não é o príncipe. Quem quer que o tenha vendido por nobre tentou engana-los. Diga para eles, Peter. — Reno o estimula.

Ele tenda manter os olhos baixos, embora sinta-os examinando seu rosto. Serão eles capazes de reconhecer um dos filhos do rei apenas pelos retratos que existem pelo reino? Umedece os lábios com a língua, sentindo-se colocado diante de uma decisão importante, aquela que o tirou o sono e que precisa ser tomada nesse momento.

Gritos arruaceiros enchem a estrada diante da estalagem, somados ao som de cascos avançando velozmente.

— Senhor. — Um guarda entra alarmado e dirige-se aquele que parece ser o de posto mais alto entre todos. — São os rebeldes!

Poucos segundos depois que ele profere aquelas palavras, a frente da estalagem está tomada por homens e mulheres vestindo roupas escuras e os rostos protegidos por capuzes, retalhos ou qualquer coisa que possa ser usada para preservar sua identidade. Palavras de ordem são dadas de ambos os lados, e enquanto os rebeldes saltam de seus cavalos, os guardas puxam suas espadas. Uma flecha passa zunindo e acerta a parte desprotegida da armadura de um oficial, derrubando-o no mesmo instante.

Aos olhos do príncipe, a parcela de oficiais enviada pelo Vigilante é menor do que o grupo de inimigos. Aqueles que comem no salão se alvoroçam e levantam ao procurar entender o que está acontecendo. Reno e Herry recuam ao mesmo tempo.

— Okoro? — O rapaz questiona o homem ao tentar entender se aquela é uma retaliação do brutamontes pela vergonha causada derrota da noite anterior.

Reno nega com a cabeça. — Nunca soube dele andando com os rebeldes. De qualquer forma, isso é ruim. — Ele observa. — Eu não quero brigas na minha estalagem, façam isso lá fora! — Grita com firmeza sem surtir efeito. Algumas das figuras trajadas de negro avançam sobre os guardas e combates passam a ser travados pelo salão. Em fuga, incapaz de entender a situação que se desenrola ali, Herry é pego de surpresa por uma mão que se prende na sua camisa.

— Olá, principezinho. — Seu atacante, um rebelde, o cumprimenta com um sorriso pervertido.

Reno acerta um soco na mão que prende Herry e o outro guincha ao libera-lo. Quando gira o corpo para fugir numa corrida, a conclusão o alcança-la: Todos, guardas e rebeldes, estão ali por ele, mas o segundo grupo não aparenta disposição para um diálogo diplomático.

Herry corre para a cozinha e vai direto para o abrigo que encontrou para sua espada naquela manhã. Ele a recupera e parte para o salão, encontrando com Reno que surge das escadas com sua espada de lâminas duplas. Homem e rapaz combinam suas forças as dos oficiais para combater a invasão dos arruaceiros, todavia a diferença numérica permanece. O som do metal substituiu o barulho das conversas.

A arma de prata do príncipe derruba dois rebeldes e depois parte para o auxílio de Reno que está cercado por um quarteto, defendendo-se deles com algum sucesso. Herry salta para o meio do círculo e faz dois deles recuarem.

— Eles são muitos. — O mais jovem alerta o companheiro da batalha.

— Vamos pensar nisso depois. — Reno replica. — Temos que sair do salão ou ficaremos encurralados, abra caminho até os fundos e sairemos por lá!

Ele assente e faz o que o estalajeiro sugere. Estoca com firmeza, colocando o corpo para frente ao intimidar os adversários e recuando quando alguma das armas passa perto. Quando a dupla consegue alcançar a cozinha ela está vazia, embora ainda tenha comida no fogo. Deixam o prédio pela porta dos fundos, fugindo das lutas que prosseguem no salão. Herry olha para os lados, enquanto decide o que fazer em seguida.

— Pai! — A voz de Tabatha chama por Reno. A garota está parada na porta dos estábulos ao lado da mãe, que a envolve em um abraço protetor.

Eles correm até lá e o homem o faz já ditando coordenadas. — Peguem cavalos e vão para a cidade.

— O que os rebeldes querem? Por que a guarda do Vigilante estava aqui? — Berta levanta as questões com uma expressão séria.

— Eu não sei o que os rebeldes querem. — Reno assume. — A guarda estava procurando pelo príncipe. Alguém foi até a Torre durante a madrugada e disse que ele estava aqui, o descreveu como sendo o Peter.

A mulher negra meneia a cabeça perplexa. — Achei que os rebeldes não atacassem os lugares do povo, achei que seu foco fossem os nobres e a coroa.

— Parece que eles mudaram de opinião. Façam o que eu falei! — O homem ordena pela segunda vez.

Cada um deles move-se com rapidez para os cavalos que estão ali e a maior parte dos animais já está com a sela sobre o dorso permitindo-os montar. No entanto, o som dos combates torna-se mais próximo. Não há o barulho do metal, apenas de vozes agitadas e ordens são gritadas. Quando o primeiro dos rebeldes surge na porta dos estábulos, Herry abandona as rédeas do cavalo-árabe que guiava até a saída e o combate. A expressão do adversário rasga-se num sorriso homicida ao avançar contra o príncipe brandindo sua espada, ele por sua vez está sério.

O inimigo tem golpes rápidos e ousados. Ao aparar um lance lateral da lâmina adversária, ele tem uma chance e espeta a coxa do rebelde com firmeza. O homem cai urrando, enquanto Herry chuta a arma dele para longe. Só então o nobre nota que o bailar de espadas é assistido por vários olhos, todos eles vestidos de negro. Os olhos dele esquadrinham o âmbito, notando que o estábulo está cercado por todos os lados. Na entrada dos fundos, alguns homens avançam, encurralando-os.

Seu pai lhe ensinou que a Voz da Guerra, nome dado ao comandante de um exército, sempre deve compreender e aceitar quando uma batalha está perdida. Mesmo que lute com todas suas forças nunca será capaz de derrubar todos aqueles, por mais que seu orgulho o mande tentar ou morrer tentando.

Com a respiração descompassada, Herry aperta os dedos ao redor do punho da espada. Estático, ele observa quando um dos rebeldes avança, o único que traz um elmo negro sobre a cabeça. O líder dos arruaceiros destina seu olhar ao jovem parado na porta do estábulo e há uma compreensão mútua. Um outro homem o acompanha em sua caminhada e o rosto desse é familiar ao príncipe, que não consegue recordar-se de onde o viu pela primeira vez.

O homem trajando elmo posta-se no meio do caminho entre seus aliados e o príncipe. Herry recua para o interior do estábulo, sem deixar o campo de visão daquela figura, aproximando-se de Reno.

— Fique aqui. — Diz com solidez ao estalajeiro. — Não coloque sua família em perigo por minha causa.

— O que você está dizendo, garoto?

— Eles estão aqui por mim. — Herry assume, ciente de que é chegada a hora de macular o teatro criado por ele nos últimos dias e encarar suas consequências. — Tabatha estava certa desde o princípio. — Por um momento, os olhos dele dirigissem a jovem, que desmonta do cavalo escolhido por ela para a fuga e aproxima-se. Berta faz o mesmo. — Eu sou o príncipe. — Para surpresa de Herry, libertar a verdade é mais fácil do que parece.

— Mas... — Reno balbucia confuso.

— Eu fugi de Rohesia durante o baile prestado em homenagem ao meu pai. Ouvia boatos sobre a situação do Sul e decidi ver com meus próprios olhos. — Ele narra através de uma expressão fechada.

Reno desvia os olhos na direção da espada mantida na destra do rapaz. — O copo de sua espada. Uma rosa. — O homem arfa ao ser abraçado pela compreensão. — Como eu não percebi... O símbolo da coroa. Você é um espadachim habilidoso demais para alguém que teve lições informais nas forjas... — O desprezo forma-se na expressão dele a medida que as palavras deixam sua boca e ao devolver seu olhar ao rosto de Herry há repulsa. — Você é um mentiroso como o resto da sua família.

O desdém daquele homem fere o príncipe de uma maneira que nem mil espadas seriam capazes de conseguir.

— Eu te salvei da morte e você me pagou com mentiras. — Reno retoma sua fala e ao finda-lo, escarra contra o chão. — Que Ele o perturbe, príncipe.

Conformado de que não pode prestar justificativas e desculpas suficientes para que o homem o perdoe, tão pouco há tempo para tal, Herry dedica um último olhar ferido ao rosto daquele que aceitou como amigo na última semana, então gira o corpo. Avança para fora do estábulo, deixando a parca proteção da construção de madeira e caminha até ficar a poucos metros do rebelde que veste o elmo.

Seus movimentos são acompanhados por todos aquelas que o cercam.

— Eu, Heinrich Peter Rohese, da linhagem da Rosa, príncipe de Ieshia, em nome das três faces da Deusa, anuncio minha rendição. — Profere com solenidade.

Os dedos da destra se abrem e a lâmina de prata vai ao chão, acertando a relva com um baque surdo. Herry a acompanha e cai de joelhos diante daquele que o subjuga, fazendo aqueles que o assistem rugirem em comemoração. Ele mantém os olhos no chão, amargando sua derrota em silêncio.

— Morte aos tiranos de Ieshia! — Alguém grita com fervor.

Notas finais
O que eu falei sobre se prepararem antes de ler? O que será que vai acontecer daqui pra frente com o príncipe? Sim, o nome dele é Heinrich, Herry é uma contração usada na narração para tirar o peso e a formalidade do nome. Vocês tem críticas? Sugestões? Deixem nos comentários!