Karma

4 Questione tudo o que você conhece.


Notas iniciais
Da última vez que estivemos com Henry, ele teve que lutar pela própria vida e também encarar uma batalha perdida. O que acontecerá agora? Ô, e venho até com uma surpresa, Karma ganhou um "trailer", haha. Se eu fosse vocês, assistiria com atenção, talvez sejam capazes de encontrar algumas referências ao futuro da história! https://www.youtube.com/watch?v=VknPj8Ap-Tk

Com os joelhos flexionados no chão e a cabeça abaixada, Henry não o vê, mas sente o golpe que o atinge num dos lados da face. O punho pesado o acerta na maçã do rosto e o faz tombar de lado, caindo no gramado diante do estábulo. O príncipe está consciente de que mesmo sendo em seu rosto que se distribui a sensação dolorosa daquele soco, a intenção do carrasco é ferir toda a nobreza do reino e não apenas ele, Henry só foi alcançado pela infelicidade de ser a representação mais fiel que eles têm para descontar suas frustrações.

As coisas que acontecem a seguir são tumultuadas. Assim que ele cai, a pequena multidão de rebeldes que assiste brada em tons festivos. Percebe pela visão periférica quando o líder de elmo se afasta, enquanto um homem de cabelos cor de areia permanece, mas não pertencem a ele as mãos que o juntam do chão como se fosse apenas um animal do mato e vestem o capaz sobre seu rosto. Ferir sua dignidade não é suficiente para seus captores, uma vez que ele é vilipendiado por dedos invasivos. Espinho é levada para longe dele e embora não esteja trajando nenhuma das opulentas vestes que costumava exibir na corte real, os panos que protegem seu corpo são rasgados até que partes se tornem tiras inúteis, apenas farrapos.

Ele é jogado num lugar frio e após alguns minutos de inspeção cautelosas com o tato percebe ser um cubículo feito de barras de metal, exceto pelo piso que se trata de uma faixa inteira. O som das vozes, que o acompanha por todo o percurso até ali, continua. Vez ou outra, sente algo espeta-lo nas costelas e sua reação assustada gera uma onda de risos como se tratasse de um animal em exposição. Nas primeiras oportunidades, Henry tenta engolir seus protestos devido a posição desfavorável, mas esses acabam escapando em meio a rosnados através dos dentes. Ao encolher-se num canto da cela, ele torna-se uma diversão desinteressante e é deixado em paz.

É com surpresa que ele percebe o momento que é colocado em movimento e os sons de vários cascos soando em uníssono é uma sinfonia que o acompanha ao longo das próximas horas. Aquela posição torna-se desconfortável e cada solavanco que faz seu corpo chocar-se com as barras arranca esgares dos lábios feridos. Julga que o dia chega ao fim quando as temperaturas baixam e a brisa traz um frescor natural das noites daquela estação. Ele é capaz de acompanhar a movimentação dos rebeldes através das sombras que se formam a partir das chamas bruxuleantes das várias fogueiras que são acesas. Os homens que montam guardam em frente a sua diminuta prisão são denunciados apenas pelos sons ruidosos de suas vozes numa conversa baixa. O príncipe tenta aguçar sua audição para compreender o conteúdo do seu diálogo, mas os guardas parecem interessados em ocultar dele sua interação. De repente, há silêncio e Henry desconfia de que algo acontece, alarmando-se. Ouve passadas aproximando-se deles, mas não são incautas como a dos brutamontes, são pés cuidadosos e que quase escapam da sua percepção, revelando um andar de um cavaleiro treinado para aproximar-se de seus inimigos sem ser percebido até que tenham uma lâmina em suas gargantas.

— Senhor. — Os guardas se aprumam em posturas respeitosas para receber aquele que se aproxima.

— Água e comida para o nosso convidado. — O outro responde e sua voz soa familiar aos ouvidos de Henry.

Com um ranger metálico, a porta da cela é aberta e o nobre é segurado pelos ombros ao ser levado para frente até a abertura. O capuz que cobre seu rosto é retirado sem qualquer delicadeza e só então Henry percebe a respiração sufocante a qual estava condicionado até segundos trás. Seus pulmões agradecem ao ter acesso a uma quantidade digna de ar, aproveitando para encher o peito. Ele percebe que a análise anterior está correta. Já é noite e ao que parece os rebeldes pararam para descansar. Não imagina que aquele seja o seu destino final, porque não há nada ao seu redor, apenas uma campina extensa tomada pela penumbra da noite que é ferida pelas fogueiras.

No entanto, o homem parado diante ele recebe a totalidade da sua atenção ao empurrar na sua direção duas tigelas. Na primeira, Henry vê um caldo com pedaços de algo que ele julga ser carne de coelho flutuando e outro repleto de água.

— Espero que esteja do seu agrado, príncipe. — A entonação indiferente usada pelo homem quase mascara a diversão presente em sua frase, deixando-a evidente apensa aos ouvintes mais perspicazes.

Depois de inspecionar sua refeição, Henry ergue os olhos para visualizar o carcereiro. Diferente da grande parte dos rebeldes que usa algo para proteger sua identidade, o homem está com a cara limpa. Os sentidos do rapaz agitam-se para trazer a tona uma memória que se esforça para fazer-se presente e revelar a razão pela qual aquele rosto parece familiar, assim como sua voz.

— Você. — Henry estreita os olhos. Embora sua visão seja dificultada pela escuridão, a claridade que incide das fogueiras, além daquela que é provida pela lua, é suficiente para reconhecer os principais traços. — Você estava na capital no dia do torneio em Homenagem ao Rei, cruzei com você a caminho dos jardins e ouvi enquanto falava sobre a situação do Sul com outro cavaleiro. Foi o que me fez tomar a decisão de partir.

O homem de cabelos cor de areia emite um sorriso curto nos lábios, sem dar-se ao trabalho de negar as afirmações do príncipe. — Você é o único autor de sua sina, meu rapaz.

— Os rebeldes não deviam estar tão próximos da Rohesia. Os portões são vigiados dia e noite para manter subversivos afastados.

— Esse é o problema com a sua gente. — O outro persiste com o sorriso mordaz, enquanto faz os dedos da destra coçarem a têmpora. — Nós não temos um rosto para identificar, nada que possa ser colocado em um cartaz e espalhado aos sete ventos. Os rebeldes estão onde precisam estar, seja ao Sul ou perto da coroa e somos mestres na arte de mascarar. Se o seu pai ainda está no trono é porquê não fizemos nosso primeiro movimento. Cegos por sua soberba, vocês são incapazes de ver uma cobra enrolando-se no seu pescoço até que ela o esteja estrangulando.

Sem que perceba, a mão de Henry fecha-se na grade lateral da cela ao imaginar o pai sendo estrangulado. Os seus olhos permanecem estáticos, presos no homem diante dele. O temor que cresce em seu peito não diz respeito a si, mas as pessoas que ama. Um golpe contra o trono de Ieshia não afeta apenas o rei, mas também sua família. Pensar em tio Olavo sendo levado para a espada não o traz nenhum sentimento, bom ou ruim, mas a imagem de sua irmã mais nova sendo ameaçada o cala.

— Você é só um covarde. — Cospe de súbito. — Esgueirando-se na capital como uma pulga e é muito idiota para vir aqui de rosto limpo, me dando a oportunidade de te reconhecer quando eu voltar para perto do rei.

A cabeça do cavaleiro pende ligeiramente para o lado, intrigado com os pensamentos de Henry.

— Se pensa que colocará seus olhos na capital outra vez, está claro que você não conhece Uthyr. — O príncipe julga que ele se refere a figura que vestia um elmo negro, o possível líder dos rebeldes, no momento da sua captura, o mesmo que produziu a marca púrpura que colore uma das laterais do seu rosto, além do latejar incessante. — Agora coma antes que esfrie, será uma lástima se você morrer antes da hora. Aproveite e reze aos seus deuses.

Quando esse se afasta, os dois guardas retornam para junto da cela, cuja a saída é fechada. As mãos algemadas atrapalham na hora de comer, mas ele consegue terminar a refeição (um preparo agradável, mas forte em temperos para o seu paladar) arrastando as correntes no piso da gaiola. Quando as duas tigelas estão limpas, os guardas vestem o capuz sobre sua cabeça outra vez para que não seja capaz de identificar os caminhos utilizados pelos rebeldes para manter-se longe da estrada principal e consequentemente, dos olhos da lei.

Ainda há escuridão quando Henry é acordado pela movimentação de rebeldes ao seu redor e seguem-se novas horas de solavancos através de uma estrada pedregosa. Ao abraçar suas pernas, ele tenta imaginar a situação em Rohesia, já que sua visão é impossibilitada pela estopa. A primeira imagem que surge em sua mente, sempre que ele tenha que buscar por ela, é de sua irmã mais nova. Quem estará cuidado de Gabriela? Se preocupam em levar a garota até os jardins do desfiladeiro? Não deixar que ela chegue perto demais da extremidade? Quem terá assumido as lições de equitação? Se tivesse pensado na menor antes de deixar a capital do reino, talvez nunca tivesse cruzado o portão. Os dedos apertam-se contra a perna e o medo de nunca ver Gabriela é maior do que o receio pelo seu futuro. O que terão dito a ela sobre seu desaparecimento? E após sua morte, será contado como um irmão rebelde ou será apagado da história dos Rohese?

Aos poucos, o dia clareia. E seus pais? O que o rei pensa daquilo? Terá sua mente sido envenenada pelo irmão a ponto de considerar aquele ato de Henry como uma traição? As certezas que antes cultuava esvaem-se e dessa vez, é sua mente que começa a enfraquecer-se e não seu corpo. O futuro que “não terá” passa diante dos seus olhos ao tentar decifrar como seguiriam seus dias se tivesse permanecido em casa. Certamente, lhe arranjariam um casamento, afinal já passava da idade de conseguir um compromisso. Também é certo de que dentre todas as moças que estariam a disposição do príncipe de Ieshia seria escolhida aquela que também somasse um maior número de benefícios para a coroa, uma nova aliança para a coroa ou o reforço para algum laço que esteja fraquejando.

Quando as conversas do grupo são abafadas por risos de crianças e gritos de comerciantes, o príncipe julga que está passando por mais uma aldeia. Todavia, o pavimento de pedra faz a cela sacolejar num ritmo distinto. O quebrar das ondas nas rochas torna-se claro denunciando sua proximidade com o litoral e a vivacidade captada pelos ouvidos do rapaz indica que as pessoas ao redor não se sentem intimidadas com a passagem da tropa de rebeldes.

Uma das rodas da cela acerta uma rocha e o movimento do cubículo joga Henry para cima, fazendo-o tombar em seguida, caindo contra o chão de metal. A região acertada para Uthyr dói com o impacto e o capuz que cega o príncipe escorrega para fora do seu rosto. Os guardas que o cercam, no entanto, não se preocupam em vesti-lo outra vez e assim, ele percebe que está errado.

Não se trata de uma aldeia. Ao seu redor, ergue-se uma cidade exuberante em seu caráter exótico. Embora as construções sejam menos graciosas do que as da capital, são agradáveis e feitas de pedra branca. Gaivotas e pássaros-pescadores deslizam através do céu enfeitando a maresia. Henry a "fareja", enquanto os olhos percorrem todo o cenário. Ao lembrar-se de gravuras dos livros apresentados a ele pelo seu tutor reconhece Syrena, uma das maiores cidades do Leste de Ieshia, algumas vezes chamada de capital do mar. A história diz que nasceu de uma pequena vila de pescadores que aos poucos ganhou a atenção e atraiu novos moradores.

É dali que parte o pescado de qualidade que preenche as "melhores" mesas do reino e também a maior parte das lendas envolvendo as criaturas meio-peixe e meio-mulher que supostamente eram vistas nas rochas daquela região antes do lugar ter sido maculado pela presença humana. O porto é movimentado e quase não há espaço para receber as embarcações mercantes que surgem no horizonte, Henry o vê mais abaixo quando grupo faz uma curva num lugar quase completamente livre de construções no topo de um morro.

No meio do sacolejar, Henry nota uma dupla de capas vermelhas flamulando na brisa marítima. Seu coração acelera e aproxima-se da grade para ver os guardas do Vigilante em meio a multidão. Seu peito enche-se de ar, mas o pedido de ajuda é sufocado ao perceber que os rebeldes estão em maior número e não há qualquer chance para os homens do rei. Pelo menos, a presença dos solados alimenta um fiapo de esperança, caso consiga arquitetar um plano que o tire das mãos dos seus captores.

Após alguns minutos, eles atravessam a cidade e se afastam dela, descendo na direção do mar, mas sem nunca chegar a tocar a faixa de areia que o antecede. Os cavalos, homens a pé e a cela que carrega o prisioneiro começam a contornar uma rocha através de um caminho estreito, cujo um dos lados se abre num penhasco letal. Acostumado a visitar o Jardim do Desfiladeiro em Rohesia, Henry espia a altitude, segurando-se nas barras. A visão o deixa com náuseas, sem curiosidade para conseguir fitar as ondas que açoitam o fundo do penhasco.

Ele vê um grupo de adolescentes que saltita pela estrada apertada, sem intimidar-se com o perigo ao lado.

— Devíamos fazer o príncipe conhecer o canto da sereia! — Uma das mulheres grita e sua sugestão recebe a aprovação de vários.

Henry aperta os dedos ao redor da grande, receando por sua vida, mas Uthyr não dá nenhuma atenção aquilo. O homem vestindo o elmo negro avança a frente do grupamento, trocando palavras com o homem de cabelos cor de areia e um segundo de fios escuros, que vez ou outra desvia o olhar para ver o que se passa atrás deles.

De repente, tornam a andar numa superfície plana e a estrada torna-se larga outra vez. Ao cruzar um arco, ele lê as inscrições numa língua estranha que recepcionam os que chegam. Ele não conhece os hieróglifos, mas de alguma forma, sabe o que está escrito neles. "Lyra". O príncipe franze o cenho e levanta para vislumbrar a cidade que se ergue a beira-mar, encrustada na rocha e seguindo para o interior da enorme pedra. Até aquele momento, ele julgava que a vila fosse apenas uma das lendas de Ieshia, mas as histórias tomavam forma diante dele. Construída pelos fiéis da deusa que vive no mar, é protegida por ela e não há nenhum registro de qualquer invasão arquitetada contra ela que tenha sido bem sucedida. Nem mesmo durante a Guerra da Rosa.

Diferente de Syrena, não há qualquer sinal da justiça do rei e Henry logo percebe que todos ali são partidários causa rebelde. A medida que avançam, o grupo que os acompanha se reduz. Uma vez que seu objetivo de capturar e trazer o príncipe foi cumprido, eles podem retornar a sua rotina. No entanto, os guardas de sua cela seguem, assim como Uthyr e uma meia dúzia de desconhecidos.

— O levaremos para a Torre, ele ficará nas celas até que a assembleia aconteça. — A voz do líder soa decidida e ouvem-se apenas manifestações de concordância. Quando a cela avança, vê que Uthyr e seus companheiros ficam para trás, enquanto Henry é conduzido por dois guardas.

Através das grades do teto, o príncipe vê que no alto que a rocha abre-se em um círculo amplo e quase perfeito, expondo o céu do meio dia. Ao atravessar as ruelas, o cubículo de metal chama a atenção de moradores, que viram-se apressados para ver o herdeiro do trono de Ieshia acorrentado como um animal passando diante das portas de suas casas.

Henry tenta manter os olhos baixos, mas a curiosidade para ver a lendária Lyra não o permite ignorar o cenário. Ele suspeita ter chego a prisão quando a movimentação diminui e vê-se mais rebeldes "uniformizados" carregando armas e as conversas são proferidas em entonações moderadas. Quando estacionam, a porta da cela é aberta e Henry aguarda.

— Pode fazer isso de um jeito digno ou podemos te arrastar até seu novo aposento, príncipe. — Um dos guardas diz com rudez.

O nobre inspira e escorrega para fora do cubículo através da abertura, embora sinta os efeitos da viagem nos pontos doloridos do corpo. É guiado através de uma construção de pedra clara, recebendo olhares hostis, mas nenhuma palavra é cuspida contra ele. Eles descem através de galerias e o som das ondas torna-se mais alto, embora Henry não consegue dizer de qual lado está o mar. Alcançam um corredor que termina numa ponte elevadiça incompleta. Numa ilhota do outro lado, o restante dela é descido em simultâneo para formar o caminho que os permite avançar para uma pequena muralha que os recebe e após ela uma torre também branca, cujo os degraus Henry sobe.

A prisão de Lyra ergue-se na direção do céu, ferindo o firmamento claro como uma grande agulha de base larga e cume estreito, e as celas estão dispostas em vários níveis. Pela escada circular, o príncipe não é capaz de dizer quantos vivem ali, embora ouça os sons de suas lamúrias e movimentações. Encaminhado pelos guardas, ele é deixado no último nível. As celas dispõem-se em círculos e o centro, onde abre-se a passagem para a escada, é livre. Ao atravessar uma porta de metal, ela é fechada as suas costas, Henry ouve o som das trancas com infelicidade e os guardas o libertam de suas algemas antes de partir. Esfregando os punhos feridos, ele observa o que há ao seu redor. Não há parede aos fundos, apenas barras de metal que o impedem de cair no mar. Dali, devido a altura, é possível observar a movimentação nas partes da vila, que é separada da ilhota da prisão por um braço d’água.

— Bonito, não é? — Ouve uma voz próxima que o faz virar-se.

As outras três paredes da cela quadrada são feitas de metal retorcido até tomar a forma de arabescos, uma idealização artística e bela para um lugar onde homens jazem aprisionados. Entre as curvas de metal há espaço suficiente para visualizar sem dificuldades o rosto de uma pessoa, assim como trocar objetos, mas essa possibilidade parece não preocupar os construtores.

— Sim. — Henry responde ao vislumbrar a face do prisioneiro que ocupa a cela ao lado da sua. Ele aproxima-se da parede ao fundo e coloca as mãos na barra, forçando-a para frente. — Mas quem coloca ferro para proteger uma prisão a beira-mar? Um cárcere só precisa esperar até a maresia corroer as beiradas das barras para escapar.

O príncipe acalenta que aquela seja sua possibilidade de fuga se viver por tempo suficiente para que a maresia cumpra sua parte no plano.

Do outro lado do gradeado, sem pudor, o prisioneiro solta uma risada divertida e cheia de zombaria.

— Você não conhece muito sobre Lyra, não é? — Pergunta, apoiando os braços nos arabescos e depois o rosto. — O povo daqui consegue faz seu próprio ferro, tira-o da rocha. O material é diferente, não sofre com a maresia. Dizem que foi a própria deusa marítima que os ensinou a forjar. — Emite um suspiro curto, deixando implícito que também já considerou aquela hipótese de fuga. — E de que adianta? Mesmo que consiga passar pelas grades, será para ter uma morte no mar. — Henry olha para baixo e vê as ondas que acertam a torre da prisão, não havendo entre elas e a construção nenhum espaço para a aterrisagem de um salto. A altura também é desencorajadora. — A pedra da torre é úmida da água e escorregadia pelo sal e pelo musgo, não há como descer. — O desconhecido segue narrando os pontos falhos do frágil plano arquitetado pelo Rohese em seu momento de desespero. — A torre dos vigias é logo ali... — Ergue a destra para apontar para frente, indicando um ponto da muralha exterior. — Você seria derrubado por um arqueiro antes de conseguir colocar o corpo todo para fora da cela. — Diz, encerrando com um sorriso infeliz.

— Você teve bastante tempo para fazer essas considerações. — Henry retorque com um olhar mal humorado, afastando-se da grade para não ser obrigado a fitar o insucesso de seu planejamento lambendo a torre com dedos de água salgada. — Está aqui há quanto tempo?

— Cinco dias.

— Foi preso sob qual acusação? — Pergunta interessado em saber do que o seu vizinho é capaz.

— Ladroagem. — Não há culpa em sua voz. — Cyrus. — Através dos espaços, a mão é estendida na direção do príncipe.

Henry estuda aquele gesto com cautela, mas o retribui, sentindo o aperto firme dos dedos ao redor da sua mão.

— Sou Henry.

— Eu sei quem você é, príncipe. O alerta sobre sua presença na região interrompeu a assembleia do meu julgamento. — Cyrus recolhe a mão e produz uma reverência ao curvar o corpo para frente. — Obrigado, nesse caso.

Ao retomar a sua postura, um sorriso irônico brinca nos lábios. Os cabelos escuros são da mesma tonalidade da barba que segue as arestas do maxilar das feições triangulares. Os olhos espertos combinam perfeitamente com os contornos dos lábios que se projetam num sorriso matreiro. Cyrus é alguns centímetros mais alto do que Henry e mais corpulento, não gordo, fazendo o príncipe refletir sobre sua força física.

Quando o vizinho tamborila os dedos dos braços cruzados, o nobre percebe as inscrições tatuadas na pele das falanges proximais. Os desenhos são uma identificação do grupo ao qual o rapaz pertence, Cyrus é um "mão de vento", famoso grupo de contrabandistas do reino de Ieshia e das Terras Além do Mar. Seus navios dominam as porções de água entre os dois continentes. Costumam dar trabalho as forças reais, uma vez que são versados na arte do escapismo e sendo assim, as péssimas considerações de Cyrus sobre as chances de fuga tornam-se ainda mais relevantes a Henry.

Arrasta os pés pela palha que forra o piso frio, aproximando-se da parte dianteira de cela. Ele inspeciona o gradeado, tentando encontrar o lugar onde estão as dobradiças que sustentam a porta e perde alguns minutos naquela tentativa, mas seu esforço é em vão. As técnicas utilizadas ali destoam do restante do reino e seus conhecimentos sobre o trabalho de um ferreiro é diminuto demais para que possa avaliar com maior precisão.

O som de grilhões sendo arrastados pelos degraus de pedra da escada circular chamam sua atenção. Espiando através dos arabescos, Henry vê um quarteto de guardas surgir do espaço aberto no chão onde emerge a escadaria e junto deles uma figura "desfigurada". Seu rosto é escondido sob uma máscara de ferro enegrecido. As mãos estão envoltas por "luvas" redondas feitas do mesmo metal e unidas por correntes, similares aquelas que se prendem aos tornozelos do prisioneiro e produzem o barulho identificado pelo príncipe a pouco.

Quem quer que seja, parece moribundo e uma dupla de guardas é obrigada a arrastar a figura por todo o nível até uma cela que é aberta para recebê-lo. Os homens o deixam sob a cama de palha e partem amaldiçoando-o. O gradeado e a distância o impedem de visualizar o recém-chegado com precisão. O que ele teria feito para receber tratamento tão extremo?

O seu olhar volta-se para Cyrus, que também encara o outro prisioneiro com uma expressão pouco amistosa.

— Quem é? — Henry questiona.

— Eu não sei.

— Por que ele usa aquela máscara?

O contrabandista crispa os lábios.

— É um Arcano. — Responde com uma entonação ácida. — A máscara serve para que ele não possa falar, as luvas pra que não use as mãos. Os guardas o mantêm o tempo todo com Essência de Dandelion para que nunca fique completamente consciente, é mais seguro para todos nós assim. — O bom humor de Cyrus parece desaparecer com a chegada do outro, deixando-o com um gosto amargo na boca como se ele tivesse provado da Essência.

— Um arcano? Em Ieshia? — Henry esboça descrença.

— Deve ter atravessado o mar, os rebeldes o encontraram na praia semi-morto. — Cyrus rola os olhos, afastando-se da grade, para ele seria lucro se o prisioneiro tivesse morrido.

Os arcanos desapareceram de Ieshia antes de Henry nascer, expulsos do continente pelos mesmos conflitos, a Guerra da Rosa, que colocou sua família no trono. Segundo o tutor, arcanos são figuras malignas, devotos dos deuses antigos, capazes de nutrir-se de suas divindades e usar a magia ao seu bel prazer para dominar os povos ou dizimar aqueles que se recusam a curvar-se a eles. O poder de um arcano é uma herança que se estende por seus filhos e assim segue as gerações das famílias. Após a guerra, foram exilados nas Terras Além do Mar e proibidos de pisar nos territórios da Coroa outra vez sob pena de execução pela espada.

A julgar pelo tratamento oferecidos pelos rebeldes ao arcano, Henry começa a pensar que a crueldade daquele povo seja real. Se os relatos sob seus feitos mágicos são reais, os grilhões impedem o prisioneiro de colocar toda a Torre a baixo. Contudo, as "verdades" contadas a ele pelo seu tutor ou pelo povo da capital começam a ruir e serem questionados pelo príncipe, o descaso e as mentiras sobre o Sul foram o estopim daquele processo que agora ganha força no espírito dele. Também havia Lyra, que deveria ser apenas um mito e agora ergue-se majestosa diante de seus olhos.

Quanto ainda há pra descobrir?

Notas finais
Esse capítulo de Karma demorou, porque eu me envolvi em outro projeto (que não envolve o Nyah, nem outra fic, mas é de alguma forma semelhante ao que eu faço por aqui contando histórias) e também precisei cuidar das assuntos da minha formatura, mas agora eu tô de volta e Henry também. Continuem comigo se querem descobrir o que aguarda o príncipe de Ieshia! Espero seus comentários, não seja tímidos. Só posso dizer que eu estava ansioso para chegar nesse ponto da história!