Karma

2 Já engasgado com meu orgulho.


Notas iniciais
Vamos ao segundo capítulo de Karma descobriu se Herry tem sucesso em seu plano de fuga? Particularmente, esse capítulo me agradou mais do que o primeiro e sua construção fluiu muito bem. Nas notas finais há um link um mapa do reino de Ieshia para ajudar a compreender a geografia do lugar! Boa leitura! Capítulo dedicado a Malu, primeira leitora real oficial de Karma aqui no Nyah. ♥

O ritmo do primeiro dia é tocado no intuito de colocar uma grande distância entre ele e a capital do reino de Ieshia, a cidade de Rohesia, afim de estar longe quando for encontrada a carta deixada para a mãe por ele ante de partir. Percorre a estrada principal durante a madrugada e quando as luzes do crepúsculo começam a repelir a escuridão da noite, ele desvia seu caminho para o interior da floresta que se inicia na lateral do caminho e se estende por muitos quilômetros. Uma vez protegido pelas árvores, desmonta pela primeira vez para permitir que o animal descansasse. Herry sente as pernas rígidas e o quadril dolorido, uma dor que começa irradiar da lombar para o restante das costas, percebendo que foi um erro superestimar suas lições de equitação, julgando que seriam suficientes para aliviar o desconforto de uma viagem longa.

O baia amarilho pasta e usa um riacho estreito que há nas proximidades para hidratar-se. Herry faz o mesmo, sentando-se as margens e colocando as mãos no interior da água. A corrente massageia as palmas doloridas pelo tempo segurando as rédeas e alivia o desconforto. Unindo-as forma uma cocha que usa para lavar o rosto e livrar-se do suor que escorre a partir dos cabelos escuros e deixa um rastro salgado nos lábios, que agradecem quando entram em contato com líquido que é bebido pelo príncipe em goles longos. Ao satisfazer-se, o rapaz procura por uma árvore próxima e descansa contra ela, sem perder de vista sua montaria.

Da bolsa de couro que carrega consigo desde que deixou a fortaleza, ele retira um pedaço de pão de centeio e ervas. Seu estômago se manifesta no instante em que as narinas inalam o odor agradável do alimento e a massa parece ter mais sabor do que das outras vezes que provou semelhantes. Contêm o ímpeto de alimentar-se até ficar satisfeito uma vez que não sabe quando irá ter acesso a alimento para abastecer suas reservas e está ciente de que a saciedade traria sonolência. Assim que sente ter livrado o corpo da maior parte do desconforto, retoma sua viagem.

A ida para o sul já dura uma quinzena e o príncipe ainda está longe do seu destino final. Seus cabelos foram cortados por ele com seu punhal de caça e a farta cabeleira escura está baixa, além de exibir um corte assimétrico como se tivesse permitido que sua irmã mais nova brincasse ali. O adorado cavanhaque também é apenas uma lembrança e as cicatrizes finas que distribuem-se por seu maxilar são avisos róseos de que a lâmina do punhal não é o ideal para aquela tarefa. As roupas também foram trocadas. Ainda que ao deixar o castelo tenha tido o cuidado de escolher os trajes menos “reais” que haviam em seu guarda roupa, receava que seu esforço não fosse suficiente.

Ao parar na Vila do Homem Cego, no meio do caminho entre a capital e Sirena, a maior cidade da porção leste do reino, percebe os olhares furtivos de sujeitos da rua na sua direção. As novas roupas são surradas e menos confortáveis, não protegendo-o completamente do frio noturno habitual da estação das flores. O ouro que carrega consigo é usado racionalmente, privando-se de luxos.

No terceiro dia longe de casa, ele já é capaz de perceber as mudanças com relação a região que cerca Rohesia. Os campos de tornam-se menos verdes a medida que as plantações reduzem. A capital é envolta por áreas agrícolas responsáveis por mantê-la, assim como as regiões vizinhas. Durante o avançar do cavalo, o cultivo é substituído paulatinamente por gado, cabritos e cavalos, deixando-o ciente de que está entrando nos Três Irmãos, localidade conhecida por sua produção animal significativa. O ar ali tem o cheiro forte do estrume e as casas tornam-se mais escassas, configurando-se principalmente como fazendas isoladas e cercadas por pastos repletos de animais.

O ritmo do avançar diminui com o tempo. Após o quarto dia, Herry percebe um aumento no número de guardas que transitavam pelas ruas dos lugares pelos quais passa e vez ou outra encontra rondas nas estradas que o obrigam a improvisar esconderijos. Julga que aves foram enviadas para todo o reino informando seu desaparecimento da capital e ordenando que seja encontrado. Em Ieshia, fêmeas de Aves do Paraíso são usadas para carregar mensagens. Tenta intuir se o rei colocou a situação como uma fuga ou um sequestro, a segunda opção parece mais provável, uma vez que o tio não deixaria o pai “envergonhar” toda a família assumindo não ter controle sobre o filho.

A cavalgada solitária o dá tempo para pensar e em várias oportunidades Herry pensa em desistir, maldiz seu ímpeto e considera a possibilidade de retornar para a capital. Contudo, o orgulho o impede de fazer a volta ou deixar-se capturar. Por mais que sua iniciativa não acabe em nada, ele precisar levar sua intenção até o fim. Nunca gostou daquilo que permanece sem uma conclusão. Da mesma forma, ao ter vaidade como sua conselheira, ele refuta essa possibilidade. Retornar para Rohesia agora é colocar-se como uma criança birrenta que descobre que a brincadeira escolhida não é tão prazerosa quanto parecia no começo. Terá que ouvir Olavo apontar que é mimado e que não consegue viver longe dos mimos que sua posição oferece. Ele não dará esse prazer ao homem. Assim, o tio, de modo muito irônico, o dá forças.

Ao sentir que ficará louco, passa a dialogar com a montaria e o cavalo torna-se seu melhor amigo. Banhos quentes estão fora do seu alcance. Já se acostumou com a sensação áspera da poeira da estrada em sua pele, que está mais escura por conta do bronzeado acentuado pelas horas de sob o sol. Mesmo lançado sobre a cabeça, o capuz da capa arranjada por ele não o protege com eficiência dos raios solares, além de abafar sua respiração, criando a desagradável sensação do ar quente entrando pelas narinas. A exaustão do cavalo obriga paradas mais frequentes. Na prática, Herry descobre que a exposição solar por um tempo prolongado tem seus malefícios. Começou com uma dor de cabeça, um latejar nas têmporas, mil agulhas sendo pressionadas contra o seu crânio.

O suor ensopa as roupas, colando-as contra o corpo. Os movimentos do cavalo começam a revolver seu estômago, embora sua ingestão de qualquer tipo de comida seja restrita. Os pães acabam, deixando-o apenas com as frutas silvestres encontradas nas árvores próximas as estradas (quando existiam) ou com aquilo que consegue arrecadar ou comprar nos vilarejos ao longo do caminho. No dia que se arrisca a comprar um pedaço de faisão, experimenta o sabor detestável da carne crua e descobre que uma fogueira improvisada não é tão simples de criar, embora o irmão mais velho tenha feito parecer ao ensina-lo quando Herry ainda era uma criança. Ao pensar na família, Herry odeia-se. Um sentimento devastador que cresce em seu peito e alimenta de todas as infelicidades colhidas em seu impulso de fugir da capital para tentar ajudar o sul. Sua fúria, tão apontada para sua mãe como um demônio pessoal que precisa domar, volta-se contra ele.

Se ele conseguir sobreviver já será um grande feito, uma vez que naquele estado não é capaz de prestar auxílio a menor das criaturas. A vontade de chorar vem com um sentimento derrotista, mas as lágrimas estão secas pela desidratação ou porquê seria humilhante demais deixa-las cair. Embora ninguém esteja perto para notar o momento, ele irá carregar a lembrança de sua derrocada. Os lábios rachados ardem quando tenta umedecê-los com a língua igualmente seca.

O príncipe sente-se quebrar pelo próprio ego. Na última lasca de consciência, que perde-se para as tonturas que o acometem, Herry reza para a Deusa implorando por ajuda. O seu conhecimento geográfico torna-se inacessível para ele. Não sabe qual é a próxima cidade ou vilarejo em seu trajeto ou quanto tempo demorará para encontrar civilização. Faz um esforço para volver o rosto para trás procurando por qualquer sinal de movimentação. Nesse momento, ele anseia por encontrar qualquer guarda que esteja a sua procura a mando do trono de Ieshia.

O céu torna-se escuro sem que ele perceba por nuvens escuras que escondem o sol. Só nota a mudança na atmosfera quando um estrondo alto ecoa a partir do firmamento e o clarão ilumina tudo ao seu redor. Não há sequer um fragmento de azul visível e as nuvens escuras trovejam como tambores a anunciar a chuva. Ela cai. Herry a vê rumando em sua direção numa visão bela, que o enche de prazer e reascende sua vontade de chorar. Maneja o animal para fora da estrada, parando sob as árvores. Como corpo dolorido, escorrega para fora de sua montaria e sente a fraqueza súbita que o lança ao chão, os joelhos chocam-se contra o solo. A dor é ignorada. Arrasta-se poucos metros a diante na direção da cortina densa como uma criança que busca o alento desesperado no colo da mãe.

Quando as gotas grandes o acertam, elas ardem contra a pele queimada. Uma risada fraca ecoa, divertindo-se com a sensação de ter o corpo encharcado pela torrente. Une as mãos e tenta recolher uma quantidade significativa de água para beber. Assim como ele, a sua montaria aparenta estar distraída com aquilo que vem do céu, porque não se manifesta. O estômago dói. Herry decide aproveitar a sensação refrescante deitando-se numa cama de folhas macias que aglomeram-se logo ao lado e encolhe o corpo, abraçando o próprio tronco. Os olhos pesam e ele não recusa fecha-los. O príncipe se entrega, sem saber que a mão que se entende na sua direção pertence a Ele.

Para o povo de Ieshia, a morte tem uma forma inocente. Uma criança, um menino. O seu nome perdeu-se com os anos e conta-se que aqueles que ainda se lembram recusam-se a pronunciar, porque carrega o peso de uma maldição que infesta a boca daquele que ousa proferi-lo levianamente. Por isso, o chamam por Ele, a criança que percorre o reino ceifando almas na companhia de mariposas, que são suas vigilantes. Mesmo na época em que em elas tornaram-se uma praga nos campos de milho poucos ousaram livrar-se delas, porque dizem que matar uma mariposa prova a ira da Criança. Os que atentaram contra as borboletas da morte que comiam as folhas verdes de seus cultivos morreram ensopados pelo próprio sangue, provando do veneno que utilizaram contra as mariposas. Ele é uma criança e como tal não conhece limite para suas ações, exceto quando é acompanhado pela Senhora.

A percepção do tempo escapa da sua compreensão. Uma claridade esbranquiçada irrompe através do escuro das pálpebras fechadas e um vento morno acaricia seu rosto como uma porção de dedos gentis. O som de uma risada infantil o faz abrir os olhos, registrando o cenário ao seu redor. Reconhece prontamente o Jardim do Desfiladeiro situado aos fundos do castelo escuro, repleto de flores típicas da região do planalto e com trepadeiras que se misturam com a grama e descem através do penhasco, sem intimidar-se com a altura singular. Uma muralha baixa foi erguida para prevenir quedas, mas do topo dela é possível visualizar o fundo distante.

Herry esfrega os dedos contra os olhos, esforçando para afastar a sonolência que o toma. Ao erguer-se vagarosamente tem a estranha sensação de algo está errado ali, está deixando escapar algum detalhe importante. Todavia, a figura que surge das moitas de rosas selvagens o distrai. Os cabelos castanhos e ondulados de Gabriela chacoalham-se, enquanto ela corre aos risos.

— Você nunca vai me pegar se ficar parado aí com essa cara de bobão, Herry! — A menina o desafia, postando-se a alguns metros com as mãos na cintura. O vestido que ela veste é de sua cor favorita, azul celeste e combina com as flores do arbusto no qual se escondia momento antes.

— Você esquece que tem pernas curtas! — Herry coloca-se em pé num salto, o corpo aprumando-se como um felino do deserto nortenho e corre na direção da irmã, que solta gritinhos antes de retomar sua corrida e embrenha-se no interior do bosque que há ali. O príncipe mantem os olhos presos as costas da menor para guiar-se e quando ela desaparece no meio das árvores, ele atenta-se as suas risadas. Após alguns minutos percorrendo o lugar, Herry tem a impressão de que ele parece maior do que se lembra. A sensação incomoda retorna e a brincadeira perde seu teor alegre. — Gabriela!

Chama pela irmã, reduzindo seu ritmo para conseguir esquadrinhar o cenário ao seu redor em busca da menor.

— Gabriela!

Sua voz percorre a penumbra que preenche o interior das árvores. Quando foi que tornou-se tão escuro? O desespero cresce quando não recebe uma resposta da irmã. O coração aperta-se ao recear que algo tenha acontecido com a garotinha. O desfiladeiro. O alerta surge entre seus pensamentos e ele começa a correr, embora não saiba dizer em qual direção está o penhasco. Uma visão horrível ganha forças em sua imaginação mórbida, o corpo frágil e delicado descendo pelo vazio para encontrar o solo do fundo do vale.

— Aqui, Herry!

Aliviado gira o corpo na direção do farfalhar das folhas. O sorriso de gratidão que se forma no seu rosto esmaece ao não encontrar a irmã. Do lugar onde ouvira sua voz, uma serpente o fita com o corpo ereto e o guizo na extremidade da causa emitindo um chacoalhar ameaçador. O corpo ofídico é tomado por escamas de coloração azulada como as rosas selvagens e o vestido de Gabriela.

— Gab! Não venha pra cá! Fique onde está, pequena! — Alerta com receio de que a irmã acabe deparando-se com o animal e seja atacada. Contudo, o anseio de protege-la o impede de perceber que a serpente não está ali pela princesa. Herry tateia a cintura em busca do punho da espada, mas não sente o frio do metal contra os dedos. Tenta lembrar onde a deixou, enquanto recua vagarosamente. O animal coloca as presas pra fora, meneando lentamente o corpo num movimento hipnótico. O rapaz não tira os olhos dela até que um dos seus passos produz um “crack” ao partir um galho. Tudo acontece rápido. O príncipe desequilibra ao pisar em falso e a víbora lança-se na direção dele, que não é rápido suficiente e sente as presas da criatura sendo enterradas em sua panturrilha, rasgando a carne e iniciando uma dor aguda. O grito de dor corta o bosque, mas não há ninguém por ele.

É enviado de volta ao limbo escuro e solitário de sua mente. Alucina com os pais e os irmãos. A pequena Gabriela dança ao seu redor em determinado momento e tenta enfeitar os seus cabelos escuros como uma coroa de rosas selvagens, o vestido dança ao redor do corpo magrelo da menina e toda ela se desfaz numa explosão de borboletas azuis, que se conglomeram e dão forma a serpente que torna a ameaçar o príncipe. A cobra é pisoteada por um par de pés, Olavo surge ali e o encara com frieza, seus olhos revelando prazer e diversão ao fitar com desprezo o príncipe convalescido.

Vozes femininas soam em uníssono dentro de sua alucinação.

Não desista, Herry.

Tão acostumado com aquele vazio de pensamentos e sensações que parece durar uma eternidade, ele demora para perceber quando a consciência retorna. A primeira coisa da qual toma nota é o odor amadeirado que se mistura com o cheiro de condimentos. O som de folhas sendo agitadas pelo vento está presente, porém distante. Além dele, consegue distinguir o barulho de conversas e de passos contra assolhado.

Não está quente, mas não faz frio e o seu corpo está protegido por um tecido fino que tem uma textura gentil, sentida quando move as pernas e o lençol desliza contra sua pele. Lutando contra as mãos pegajosas da sonolência, Herry abre os olhos para compreender onde está. Definitivamente, não é seu quarto e assim a esperança de rever sua irmã se desfaz. O cômodo não é familiar a ele, que move os olhos ao redor em busca de qualquer pista que ajude a entender o que está acontecendo.

As lembranças mais recentes são parcas e confusas. Recorda-se da exaustão ao percorrer a estrada e da chuva que veio ao seu encontro, depois disso nada mais. A língua dança pelos lábios e o gosto salgado que os impregna sugere que tentaram alimenta-lo no tempo que permaneceu desacordado. Ao erguer o rosto, afastando-o do travesseiro de penas que suporta a cabeça, percebe que suas roupas foram trocadas por trajes limpos e secos. As mãos e os pés não estão maculados pela poeira da estrada como outrora.

A hipótese de ter sido encontrado por oficiais ganha força entre as suas considerações. Vagarosamente, usa os braços para escorregar para cima, apoiando as costas contra a cabeceira da cama e só então jogando as pernas para fora dela. Ao perder o apoio do tronco, ele sente a cabeça girar de um jeito nauseante, obrigando-se a respirar profundamente. Ao lado da cama, uma bacia com água e uma toalha apoiada nas bordas indica que alguém tem cuidado dele e tentou controlar sua temperatura. Herry estica o rosto para reconhecer o conteúdo de uma jarra de metal fosco que está ao lado de uma caneca. Serve-se e bebe água, embora não seja mais atormentado pela sede torturante da estrada.

Na rápida inspeção pelo quarto percebe seus pertences acomodados num dos cantos sobre uma poltrona surrada. O coração palpita ao lembrar-se da espada e a chance de ter sido surrupiada enquanto esteve fora de si o faz levantar num movimento brusco. O quarto todo gira diante dele ao colocar-se em pé, mas o principal sinal de sua debilidade vem de uma das pernas. A fisgada profunda o faz soltar um esgar de reclamação, caindo sobre a cama outra vez. A panturrilha lateja e o príncipe puxa o tecido que a recobre. Antes de revelar completamente aquela parte do seu corpo percebe a estranha cor que domina a pele do calcanhar. Está escura e a tonalidade não remete a bronzeado, é o tom negro do apodrecimento entremeados por veios violáceos.

Herry morde o lábio inferior, subindo a calça até vislumbrar a ferida. O cenho é franzido quando o odor desagradável emerge do lugar onde sua carne foi consumida pela avaria, no exato lugar em que foi atacado em seu sonho. É possível delimitar duas pequenas fissuras circulares ao centro do ferimento e tudo ao redor delas está enegrecido. Apesar disso, a lesão tem um aspecto saudável, aparenta estar regredindo e as regiões que drenam pus restringem-se as mais próximas as perfurações.

Tomando mais cuidado, ergue-se novamente e avança até os seus pertences a pulos curtos, esforçando principalmente a perna sadia, enquanto poupa a oposta, embora a sinta pulsar a cada salto. Apoia-se no espaldar da poltrona, revirando os itens acomodados sobre o móvel. Encontra a bolsa de couro, mas não verifica seu conteúdo. O manto negro que vestiu nos últimos dias também está ali e ao pressiona-lo Herry sente uma consistência firme inapropriada para um amontoado de tecido. Ao desenrolar a capa encontra sua espada preservada. Abraça a arma, tocando o rosto contra a prata. Da sua posição, ele consegue visualizar o lado de fora da janela aberta, percebendo assim que se encontra no segundo piso da construção.

A estranheza da situação o assalta novamente, mas antes que providencie interrogações, a porta do quarto é aberta e um homem adentra exibindo um coxear semelhante ao que o nobre reproduziu para alcançar a poltrona.

— Bem que a Berta disse ter ouvido barulhos estranhos! — O recém-chegado diz com um sorriso largo, sem preocupar-se com a expressão confusa que é desenhada no rosto do outro. Segurando uma bandeja, ele a deixa sobre o móvel ao lado da cama, tomando a bacia com água nas mãos. — Nós achamos que você não iria acordar antes da neve. — A constatação é finalizada com um meneio leve da cabeça.

Herry o encara sem saber o que dizer. O castanho dos cabelos do homem é combatido pelo grisalho e os fios caem até a altura dos ombros. Seu corpo é largo, mas não é rechonchudo. Parece mais com músculos firmes que acabaram descuidados que esmoreceram. Naquela curta interação, o jovem busca compreender a natureza daquele que presume ser anfitrião.

— Me desculpe, eu... — Balbucia, ajeitando o corpo apoiado contra a poltrona. — Não lembro do que aconteceu... Como eu cheguei aqui?

— Eu e minha mulher encontramos você caído ao lado da estrada logo depois da tempestade. — O homem começa a explicar. — A chuva danificou uma parte do telhado e decidimos ir até a vila para arranjar material para o conserto com a carroça. No meio do caminho, você estava lá desacordado e te trouxemos para cá, somos donos dessa estalagem. Como está o machucado? — Questiona, indicando a perna do príncipe com a destra. — O curandeiro que trouxemos para dar uma olhada disse que se você ficasse mais algum tempo lá... — A figura arrasta o polegar sobre a garganta.

A possibilidade assombra Herry.

— Meu cavalo?

— O pobre não aguentou, já estava morto quando chegamos. Ele sangrava pelas narinas e isso só acontece em viagens longas. De onde está vindo?

Herry separa os lábios para lamentar a morte do animal, mas detêm-se. Esfrega as mãos contra o rosto, inspirando para clarear a mente.

— Da Capital. — Ele esclarece, imaginando que as notícias sobre a sua fuga já chegaram até ali e o homem já reportou sua presença para os oficiais.

— Ó. Estava lá para as festividades do rei? Não é de se espantar que o pobrezinho tenha batido as botas. É de se impressionar que ele tenha conseguido ir e voltar. — Um pesar sobressai em sua fala. — De onde você é, meu jovem?

— Eu...

— Essa conversa fiada não importa agora, me perdoe. — O homem interrompe, gesticulando no ar. — Coma o ensopado enquanto está quente, o pescado chegou essa manhã! — Aconselha ao retomar sua animação. — Berta logo virá para dar uma olhada em você, ela está animada para entender o que aconteceu. Eu sou Reno...

— Peter. — Responde ao perceber que a pausa feita por Reno incitava uma resposta. Ainda confuso, oculta o seu verdadeiro nome.

— Nesse caso, seja bem-vindo, Peter. — Reno despede-se com um aceno curto e o deixa sozinho.

Ciente de que nenhuma resolução será tomada nos próximos minutos e que é preciso reservar suas forças, além de conseguir novas, Herry retorna para a cama e coloca sobre o colo a bandeja trazida por Reno. Ainda fumegante, ele parte um dos pães e mergulha massa no caldo. O sabor é tão agradável quanto qualquer umas especiarias feitas nas cozinhas da fortaleza real. A garganta dói com os movimentos para deglutir, mas ele não dá atenção. Os pedaços de peixe estão salgados na medida certa e se desfazem na boca do príncipe. Termina o prato rapidamente, sentindo-se satisfeito ao fim. Limpa a boca com o dorso da mão, devolvendo a bandeja ao criado.

Luta com a sonolência que começa a abraça-lo após a refeição, usando a parede atrás da cama como apoio para levantar. Caminha com dificuldade para fora do quarto, vistoriando ambos os lados do corredor. Não há sinal de qualquer patrulheiro ou qualquer força de segurança, fazendo-o pensar que sua real identidade não foi descoberta e se foi estão sendo descuidados. No meio do caminho encontra um espelho circular fixado numa das paredes cercado por uma moldura desenhada em arabescos.

Ao fitar o próprio reflexo, ele se assusta. Os cabelos escuros que costumam exibir um penteado comportado e as laterais mais baixas estão desgrenhados. Algumas partes estão mais altas do que outras ao criar retalhos desformes. O rosto está magro, as linhas que conformam sua expressão estão acentuadas e os ossos sobre a pele proeminentes. Os olhos estão fundos e envoltos por manchas arroxeadas. O aspecto cansado o faz parecer mais velho, tira sua nobreza e colocando-o como plebeu.

A estalagem não se revela como um desafio para um recém-chegado. Sem problemas, Herry encontra a escada que dá acesso ao térreo e decide conhecer as outras partes do seu abrigo. O salão está mais movimentado que os corredores acima, cheio de homens que se amontam nas mesas dispostas para as refeições. O movimento é tamanho que nenhum deles dá atenção especial ao rapaz, contudo ele opta por não se meter entre eles. Ouve a voz de Reno mandando alguém chamado “Zarolho” não furar outro com um dos talheres.

Tem o corpo prensado contra uma das paredes quando um brutamontes passa por ele, sem incomodar-se em expressar um pedido cordial. Herry lança um olhar indignado a figura que se vira ao perceber seu ato.

— Algum problema, garotinha? — O maior zomba, detendo-se no meio das suas passadas.

O príncipe o encara. — Não. — Responde por fim, engolindo as troças que alcançam seus lábios.

O interlocutor solta uma risada ruidosa e segue seu caminho. A perna de Herry dá uma fisgada e ele esboça uma careta de dor.

— Garoto! Eu mandei Reno ficar de olho em você! — Uma dupla de mãos surge, agarrando-o pelo ombro, empurrando-o para fora do corredor, atravessando o salão até entrar na cozinha da estalagem. O cheiro de comida domina o ar e a temperatura eleva-se por conta do fogo. — Eu disse que você não pode ficar sassaricando por aí com essa perna!

Herry sente as mãos fortes empurrando e é obrigado a sentar-se numa das cadeiras que cercam uma mesa redonda. Consegue olhar de frente a dona da voz feminina e das mãos imperativas. Uma mulher negra um pouco maior do que ele se agita pelo cômodo, sem interromper seus movimentos ou sua fala.

— O curandeiro pediu repouso. — Sua entonação denota censura. — Isso não é qualquer coisa. Uma mordida da Víbora-Camaleão é difícil de cuidar depois que gangrena.

Ele considera que ela é Berta, a mulher de quem Reno falou mais cedo. Ao retornar para perto dele, a negra coloca um prato e talheres a sua frente, puxando uma banqueta para servir de apoio a perna ferida.

— Como você sabe o que me atacou? — Questiona.

— Meu pai era curandeiro. Cansei de ver homens mordidos pela maldita... E morrerem por causa do veneno. — Berta lança um olhar sombrio sobre os ombros.

Herry pressiona os lábios, cruzando os braços sobre a mesa.

— Onde eu estou?

— Estalagem dos Marinheiros Afogados, Dea Syria. — Ela informa. Dessa vez, traz um cálice metálico. Um amassado numa das laterais faz Herry refletir se o objeto foi usado para atacar alguém no passado. — Já tem idade para beber? Espero que sim. — Com um jarro de barro, Berta preenche o cálice. — Vinho das Gêmeas, vai ajudar com as dores.

Herry agradece com um aceno do rosto. Dea Syria é uma das principais cidades do leste, perdendo apenas para a litorânea Sirena, da qual é separada por algumas horas de viagem. É a mais próxima do Vigilante do Leste. Ao assumir o governo de Ieshia, o bisavô de Herry mandou erguer cinco torres, uma em cada ponto cardial do território e uma numa das ilhas Gêmeas. As torres são comandadas por homens chamados Vigilantes e contam com uma guarnição significativa de soldados, uma vez que são a primeira força de contenção para qualquer força inimiga. Os Vigilantes são responsáveis por informar periodicamente o Rei e o Conselho de Ieshia sobre a situação de cada região, mesmo em tempos de paz.

— Quanto tempo eu fiquei desacordado? — O jovem ergue a cálice até os lábios, sorvendo uma pequena parcela do conteúdo. O vinho tem um sabor doce e é nele que reside seu poder inebriante ao instigar provas seguidas até começar a anuviar a mente.

— Uma semana. — Berta informa com naturalidade, pegando o prato dele.

— Não será necessário, já me satisfiz no quarto, perdão. — Recusa educadamente, mas seu protesto não surte qualquer efeito.

— Você passou dias demais naquela cama, nenhuma quantidade de comida é suficiente! — Com uma concha, Berta enche a tigela do príncipe e entrega para ele.

— É melhor você comer ou ela não vai te deixar em paz. — Reno surge ali com sua voz animada, desferindo tapinhas nos ombros do jovem. Herry responde um riso curto, enquanto o homem ocupa um lugar vazio na mesa. — Tabatha! — A voz forme e masculina troveja pelo cômodo.

Herry se sobressalta com o grito, recuperando-se a tempo de ver a menina surgindo em resposta ao chamado do progenitor. Sua pele também é escura e os cabelos são volumosos como os da mãe, mas ela tem os olhos do pai, esverdeados.

— Eu estava alimentando os animais, pai, não precisa gritar toda vez, não sou nenhum dos brutamontes que enchem o salão. — Tabatha bate com as mãos contra as saias do vestido. — Ah, olá! — Ela diz ao notar a presença de Herry. — Eu sou Tabatha como já deve ter percebido... — Lança um olhar de esguelha ao dono da estalagem, contornando a mesa para cumprimentar o visitante.

— Peter. — Herry sustenta a mentira que usou com Reno mais cedo. Quando a garota estende a mão, ele toca o dorso com os lábios, depositando um beijo singelo em sua pele escura. — Me desculpe por... — Ele aponta a perna, justificando-se por não levantar como é de bom tom sempre que se cumprimenta uma dama.

— Tudo bem. — Tabatha abana a mão no ar dizendo-o para esquecer aquilo.

— Ora, o rapaz tem modos! — Reno observa com surpresa. — Enquanto você estava inconsciente, apostamos entre nós quem é você. Eu apostei que era um xucro, mas aparentemente, perdi.

Herry solta uma risada nervosa percebendo que omissão do seu verdadeiro nome não será a primeira manobra farsante que terá que fazer.

— Então, quem é você? — O estalajeiro insiste, esclarecendo que é que está interessado em conhecer o visitante e não a mulher, como apontou mais cedo.

Herry afasta os olhos do rosto de Reno, erguendo o cálice para coloca-lo entre eles. É mais fácil mentir desse modo.

— Trabalho nas forjas para lá do Mar de Fogo. — Ele explica rapidamente, adotando para si uma profissão que costumava fantasiar quando era criança nas brincadeiras com o irmão. Além disso, visitar as Montanhas de Dragos é um sonho alimentado desde aquela época.

As sobrancelhas do homem são unidas num franzir interrogativo da testa.

— Para lá do Mar de Fogo? E o que está fazendo tão para cá? Não ficam em cantos opostos de Ieshia? — Reno instiga mais curioso do que desconfiado.

— Hã... Vim colher pedidos de armas novas dos Vigilantes do Oeste para os ferreiros. — Atrapalha-se.

— Ah, sim. — O homem acolhe a informação dele. — E é quente lá? Tão quente como dizem?

O príncipe começa a recear ser traído pela própria língua se aquela conversa se aprofundar. Felizmente, Berta, sem querer, o salva.

— Reno, pelas três faces da deusa! — Ralha a mulher. — Ele já está fraco demais para quem trabalha nas forjas, olhe esses braços! — A negra cutuca os bíceps de Herry com um garfo. Ainda que não seja forte como se espera de alguém que auxilia os ferreiros, conhecidos como Malabaristas da Lava, ele não é fraco. Os treinos de espadachim e outras atividades as quais é submetido desde a adolescência o deram bíceps ligeiramente volumosos e um corpo perto do atlético.

Para auxiliar em sua fuga do assunto, Herry coloca uma porção de ensopado para dentro, mastigando-o demoradamente. Algo que passa despercebido por ele faz Reno rir. Hesitante, ergue os olhos na direção do rosto do homem.

— Tabatha começou a considerar se você não é o príncipe desaparecido. — A afirmação causa risos que o estalajeiro tenta abafar.

— Existia a possibilidade. — A filha defende-se.

— Existia? — Reno retruca.

— Príncipe desaparecido? — Herry arrisca-se para tentar angariar informações sobre como sua fuga estava sendo abordada pelo reino.

— Mandaram asas para todas as direções de Ieshia. Um dos filhos do rei Gideão desapareceu da capital durante o baile dado em honra da Vossa Graça. — O homem adota uma postura ereta ao transmitir as notícias. — Os oficiais não dão muitas informações, apenas que ele sumiu, mas o povo faz especulações. Há quem diga que foi sequestrado por opositores, outros dizem que já está morto no fundo do Vale, afinal construir aquela fortaleza na beirada de um penhasco foi uma loucura sem tamanho!

— Na minha opinião, ele saiu para desbravar o reino e esqueceu de contar aos pais. — Berta posta-se junto da mesa para incluir-se na discussão. — Vocês sabem como são os jovens, cheios de bobagens na cabeça e os ricos pensam menos do que os pobres. Eles não têm muito para preocupar-se.

— A essa hora, ele deve estar montado em alguma garota sem se importa com a família, enquanto o rei mobiliza meia Ieshia para encontrar o menino. — Reno sugere. O olhar dele vai na direção da esposa. — Mas o que ele ganharia desbravando outras partes do reino? Não há muita coisa para ver fora da pomposa Rohesia.

— Dizem que ele foi visto seguindo para o sul. — Tabatha aponta e ganha um olhar de Herry que espera que ela continue falando, uma vez é a única na mesa que está correta até o momento, sugerindo dispor fontes confiáveis.

— Para o sul? — Ele a questiona.

— E por que ele iria par ao sul? — A zombaria ressoa numa risada vinda de Reno. — Não há nada para ver lá. Nada que o interesse, na verdade. A coroa esqueceu do Sul, sequer o considera uma parte do reino. Devem esperar que a Praga consuma tudo para que não precisem continuar fingindo preocupação, ainda que já tenham aberto mão dessa decência. O Sul já foi esquecido e temos que rezar para que o mesmo não aconteça conosco. — Uma sombra de irritação surge na expressão do estalajeiro. — Enquanto uma parte do povo morre de fome ou por doenças, o menino mimado está roubando toda a atenção.

Durante todo o discurso de Reno, Herry manteve os olhos presos ao ensopado, dançando com a colher entre os pedaços de peixe. É estranho presenciar o momento em que pessoas desconhecidas esboçam suas opiniões sobre ele com tanta sinceridade sem desconfiarem que o seu assunto está sentado a sua mesa. A vergonha que o invade também torna o bailar o pescado atrativo. Qualquer intenção de pronunciar uma defesa sobre si ou a família é contida.

A visão daquelas pessoas sobre ele o choca, porque é semelhante àquela que o próprio tem sobre o povo da capital, mas nunca se viu daquele modo. Alguns adjetivos podem ser facilmente retirados daquelas declarações: Mesquinho, superficial, fútil e imaturo. Percebe a todo tempo coloca-se tão acima dos moradores de Rohesia, quando para quem olha de fora são todos iguais. Pelo menos, as indignações da família sobre o sul confirmam as informações que chegaram até a fortaleza. Assim, as preocupações que permaneceram longe dele até aquele instante, tornaram a aninhar-se em seu peito.

— E você, Peter, o que acha? — Tabatha incentiva.

— O príncipe não sabe o que faz, ele está perdido.

Notas finais
Aparentemente, príncipe Herry está começando a compreender que fora do seu "castelo de areia", no mundo real, as coisas bem são diferentes do que ele imaginava. Herry não estava preparado para essa brutalidade! Críticas? Sugestões? Aguardo comentários, mesmo se for "continua ae porra", haha. Até o próximo capítulo! Fiquem com a Deusa! Mapa de Ieshia: http://i1110.photobucket.com/albums/h441/hey_candyamn/Map%201_zpsb0y71zk4.jpg (Passível de alterações)