Karakuri Burst

63 Isso é uma mentira tão encantadora.


Notas iniciais
YEEEEEEEEEEEEY I'M ON VACATION *Chora de felicidade* E escrevi esse capítulo ontem. Sério, umas 6.000 palavras foram só na Terça. DIGAMOS QUE, EU TAVA NO ESPÍRITO Agora, vamos bater palminhas purq eu sei que estavam todos chorando e engordando horrores porque eu não estava presente -qqqqq ANYWAY 30 Páginas de Word, pqp.... MAIS DE 16.000 PALAVRAS O 62 COM 63, CARAIO HEIN O que me lembra, esse capítulo é o FLASHBACK FINAL Cobrindo as partes dos capítulos 53 ( Errado? Por quê? ) e 54 ( Annelise ) E EU TÔ FELIZ PAKAS ^----^ Leitores: Porque Tia Suíti? PORQUE, PORQUE, PORQUE, PORQUE A PARTE MAIS FODEROSA DA FIC VAI CHEGAR *Agora sim, chora bagario como fangirl desperada* Ai, ai.... Eu nunca tô bem ;~; MAS TÔ ANIMADA E, também... Tava cansativo esses flahsbacks :v E escrever bagaraio cansa bagaraio :v E por último, quero dizer que essa capa ( Na versão original, sem o caraio a 4 de edição /Só pra vocês terem ideia, esse caralheo lindju é completamente azul/ é a tela de bloqueio do meu celular ) E que.... O 64 PROMETE, PASSAROLHINHOS DE ESTIMAÇÃO Então, quero vossas bundas na cadeira/poltrona/sofá/cama na próxima quarta, porque Tia Suíti IRÁ RETORNAAAAAAR Yeeeeeey ♥♥♥♥♥ Estuprei o Caps Lock ♥♥♥♥

RIN POV’S ON

Flashback on

Na terceira batida eu fui puxada para dentro.

Mamãe havia me puxado pelo pulso, e empurrado a porta com a palma da mão. Ela girou a chave na porta, enquanto eu ouvia o tilintar do cobre de cada chave que se encontrava.

Meu pulso escorregou entre seus dedos, me dando a primeira oportunidade de correr.

Correr? Aqui? Não.

Não era a melhor das ideias.

Mamãe se virou lentamente, com as costas um pouco arqueadas, dando uma impressão de cansaço. Mas não era nada que tirasse a pose perfeita da mamãe.

Poderia encarar a mamãe de diversas e diferentes formas, e não iria conseguir entender o porquê daquilo.

Meu olhar correu pelos cantos da sala, até encontrar os barulhos tic tac que chamavam a minha atenção e cantavam nos meus ouvidos.

Sete e quarenta e oito.

Talvez ele estivesse certo.

‘’-Ah. – Fiz pouco caso. – O que quer apostar?

Um olhar um tanto divertido quando desafiador se acendeu.

–Corrida até em casa. Porque, caso não tenha percebido, já devíamos estar em casa já faz muito tempo. Mas é uma aposta.’’

Entre um céu claro e um escuro, havia se passado praticamente três horas desde que havia cruzado essas portas. Se parasse pra pensar, quantas coisas poderiam acontecer em cento e oitenta minutos?

Eu podia preocupar a mamãe cento e oitenta vezes.

Mas, mesmo, assim, ela estava feliz.

Rin-chan,– O aro que juntava todas as chaves era rodava em seu dedo com um pequeno bambolê. – não acha que está, hm, um pouquinho tarde, querida?

‘’Rin... chan’’?

–Um pou... – Mordo minha língua. – Sim.

–Porque essa cara de preocupada, Rin? Esse rostinho pode se encher de rugas quando faz essa cara feia. Fico tão feliz de ver você saindo para brincar lá fora, ao invés de ficar enfurnada naquele quarto. Agora, se apresse, sim? A mamãe quer ajuda da garotinha mais bonitinha desse mundo para fazer o jantar.

Olho com cuidado para a mamãe. Ela tinha um sorriso bonito e uma voz aconchegante. Suas bochechas ficavam gordas e rosadas quando ela ria.

Isso não era normal.

Mas era divertido.

–Eu?

­­­Por reflexo, quando ela estendeu a mão em minha direção, eu fechei os olhos.

Depois, me senti boba.

Quando senti seus dedos apertarem minhas bochechas, foi o segundo susto da noite. Abri meus olhos com cautela, como se a qualquer segundo eu os forçasse a se fechar de novo. Mamãe tinha seus dedos mornos contra minhas bochechas geladas, as apertando com delicadeza e com ar brincalhão. Talvez eu fosse fria como porcelana, e talvez eu realmente pudesse quebrar.

Acho que era assim que a mamãe me via.

Papai também.

–Claro que sim. De quem mais eu estaria falando? Deixe de ser boba, garotinha. Somos uma dupla! — Seus risos poderiam preencher toda a casa, enquanto meu silêncio tomava o menor espaço possível. – Somos parceiras até no crime!

E os risos prosseguiam.

Altos e bonitos.

Quase contagiantes.

–Devo lavar as mãos?

–Você trouxe sujeira da rua, querida. O que acha?

Me virei com a intenção de seguir até o banheiro, mas parei quando senti as mãos da mamãe em meus ombros. Como se comandasse uma bonequinha de corda, direcionou meu corpo em direção a cozinha. Fui andando à medida que ela andava, à medida que ela me empurrava.

Não entendia muito bem o motivo da felicidade da minha mãe.

Nem o porquê da gentileza.

Mas tudo bem.

Eu gostava.

Quando meus sapatos bateram no chão da cozinha, mamãe soltou um suspiro alto, acompanhado de mais uma risada.

–Porque sempre escolhe o mais difícil, Rin-chan? Vá na torneira da cozinha, não na do banheiro, pequena.

Ela solta meus ombros, embora nunca os tenha apertado. Não sabia direito o que sentir, ou como agir, quando mamãe era assim comigo.

Não me importei com a higiene quando apertei a garrafa frágil de plástico, e o detergente rosado caiu na minha mão feito um espirro.

Rosa era uma cor bonita, afinal.

Além do que, era muito bom ter espuma nas pontas dos dedos.

A água era terrivelmente gelada. Cada vez que aquela torneira era aberta, e cada vez que os jatos de água batiam no fundo da pia, me provocava arrepios. Minhas mãos embaixo daquela água conseguiam ser mais gélidas do que normalmente eram.

Na minha primeira tarefa como ajudante da mamãe, eu recebi uma faca. Mamãe disse que não queria me ver como inútil quando crescesse, então, eu deveria aprender com ela.

Eu tenho sete anos, eu sou uma mocinha.

Então eu não deveria ter medo de fazer alguns cortes.

Mas eu tinha pena.

Não queria machucar o peixinho ou o frango.

Mas a mamãe me fez ver que estavam todos mortos.

Então tudo bem.

No final, as coisas ficaram com um cheiro estranho. Talvez fosse bobeira minha falar ‘’estranho’’, sendo que o cheiro de sangue para tudo e qualquer coisa era igual.

Era nojento.

Olhei ao redor, procurando nos cantos mais uma vez.

Tic tac.

Nove e cinquenta e sete.

Quando todas as estrelas brilhavam no palco escuro que era o céu, eu me permanecia sentada no sofá macio da minha sala. Eu podia me debruçar na janela enquanto ela poderia pentear meus cabelos e olhar minhas curtas unhas. De repente, eu não via mais nervoso. Não mordia mais meus lábios, ou roía minhas unhas. Enquanto pudesse espiar a casa da frente, estava tudo bem.

Me sentia estranha por querer tanto que ele aparecesse só para me dar língua, como no primeiro dia. Mas então, as puxadas no meu cabelo me puxavam para a realidade junto com os nós.

É, eu era meio boba mesmo.

////

Quando o primeiro pingo de chuva atingiu o chão, eu já estava a caminho de casa. De certo modo, eu pulava a escola da minha mente. Nos trinta minutos que eu tinha no recreio, corria atrás das minhas amigas e procurava bons esconderijos nas brincadeiras. Em algum momento eu vi a necessidade de treinar sempre.

Okay, sempre não, mas pelo menos o suficiente para vencer de Len.

Pensava no meu colega de caminho enquanto assistia a agitação de alguns alunos da minha escola para correrem até suas casas.

‘’Já é hora desse estranho passar por aqui. ’’

Paro por alguns instantes, puxando a mochila das minhas costas para pegar uma pasta fina e transparente. Puxo o zíper da mochila até o fim, e a rearmo em mim.

‘’É impossível.’’

Pouco a pouco, eu aumento o ritmo dos meus passos, á medida que sentia meu uniforme cada vez mais pesado.

‘’Você pode reclamar o quanto quiser que é sozinho.’’

Sinto a sola dos meus sapatos ficar escorregadia. Simplesmente odiava a chuva.

‘’Mas você é o único que não percebe ‘’

E simplesmente odiava ela ser uma das razões pela quais eu gritei com o garoto estranho.

‘’que é você que afasta as pessoas.’’

Por um momento, eu tiro a pasta de cima da minha cabeça e estico a mão.

Parou?

Não, não parou.

Só parou de chover em mim.

Talvez com ansiosa, talvez com medo da resposta, o tempo me custou alguns segundos até que me virasse para trás pra ver quem era. O reflexo azul que a calçada molhada fazia, possivelmente poderia me enganar.

Mas a cara de retardado que ele tinha, não, isso jamais mudaria.

Num primeiro momento, eu não soube o que fazer. Muito menos responder. Seu braço esticado, estava na chuva apenas para erguer o guarda-chuva sobre mim. A única parte dele que estava protegida junto de mim era sua mão, que segurava firmemente a haste.

Em partes assustada, em partes, feliz.

Essa sou eu.

Queria entender, porque, mesmo depois de tudo, ele estava fazendo isso.

Len era complicado.

E eu já tinha desistido de tentar entender.

Depois de poucos segundos sob influência da chuva, ele andou até ficar do meu lado. Pelo menos, assim, ele podia me proteger e ser protegido.

Então tudo bem.

Tudo bem não falar nada.

Foi o garoto estranho que escolheu dar o primeiro passo. Um passo em meio à chuva, em meio a pingos, mas mesmo assim, o primeiro. Me olhou por cima do ombro, com aquele costumeiro sorriso bobo, e me esperou.

Percebi que não precisava acompanhar seus passos. Podia ser a acompanhante do meu colega de caminho.

Até mesmo na chuva.

Até mesmo quando ele venceu a aposta.

Aquela que dizia que ele nunca mais iria me dar carona.

–Por quê?

Por olhar para baixo, eu achei que ele não havia me escutado. Mas eu sabia que não era isso. Len podia fingir várias coisas, e várias coisas que ele dizia realmente poderiam ser falsas.

Mas eu não sei se ele tem a capacidade de fingir pra mim.

Queria apertar as bochechas dele e repetir quantas vezes fosse necessário até ele aprender.

‘’Minha insistência era maior que qualquer resistência dele.’’

–Por quê? – Me viro para ele, que não queria me encarar. Eu não via nada de interessante nesse chão em que ele tanto prendia sua atenção. Mas tudo bem. Eu podia competir livremente pela sua atenção se fosse assim. Meus dedos vão em direção em seu braço, em partes molhado, em partes gelado, e o apertam, naquele meu ‘’carinhoso’’ beliscão. — Anda Len, diz por quê! Eu quero saber por...

Ele puxa seu braço, fazendo o guarda-chuva balançar um pouco.

Seu olhar irritadiço era o perfeito oposto do meu alegre.

Cala a boca. – Len tentava arrancar qualquer emoção de mim. Parecia que eu o perturbava. — Você me confunde.

Uma risada se formou lá no fundo da minha garganta. Porém, a única coisa que eu fiz foi sorrir.

Eu? Confundindo ele?

Touché.

Eu não vi mais necessidade de continuar a conversar. Por mim, estava mais do que satisfeita. Talvez ele não tenha respondido minha pergunta, e provavelmente tenha me trazido muitas mais.

Mas tudo bem.

Eu o havia feito se confundir ao meu respeito.

Ele também não procurou por assunto. Eu sentia, nem que fosse lá no fundo, que uma parte dele estava constrangida, incomodada, com isso. Sabia que não devia esperar atitudes vindas dele. Não agora.

Ele era estranho, afinal.

Eu passei a observar as pessoas na rua. Não pude deixar de olhar para o ponto de ônibus. Então era aquele nosso ponto de partida? No futuro teria de dizer para os meus amigos que o conheci num ponto. Ótimo. E estranho, então, podia-se dizer que estava adequado.

Não, não. Essa imaginação que é realmente estranha.

Estendi meu braço, e coloquei minha mão sobre a dele por poucos segundos, para o fazer ajeitar o guarda-chuva. Minha mão molhada escorregou sobre a dele, até voltar para o bolso quentinho do meu casaco. Ele me olhou de relance, logo voltando a se concentrar no chão. Eu sabia que não tinha um traço de culpa. Afinal, ele havia se desligado do mundo após ter gritado aquilo. Ele que me protegia da chuva, e embora doesse ele admitir isso, ele também sabia. Eu poderia facilmente carregar o guarda-chuva, visto que eu era a carona, mas sentia que levaria um peteleco na mão se tentasse. Mas agora, com ele tão alheio as coisas a sua volta, ele deixou o guarda-chuva tombar para direita, quase o deixando agarrar em um poste e quase deixando de nos proteger.

Voltei a olhar para frente, deixando de focar em Len.

Já estávamos na rua de nossas casas, quando finalmente me dei conta. Ele, erguendo sua cabeça, começou a ter noção de onde estávamos, e seu senso de responsabilidade cresceu. Arrumou o guarda-chuva numa posição firme, o girando um pouco, para segurá-lo com mais precisão.

Em meio aquela arrumação toda, uma etiqueta branca se desprendia cada vez mais da haste. Aproveitando a nova desatenção do meu colega de caminho, eu a puxo e guardo no meu bolso.

Sim, eu tinha total consciência que a minha curiosidade seria a minha ruína um dia.

Mas enquanto isso, eu continuava xeretando.

Minha atenção foi subitamente roubada quando eu escutei aqueles gritos. Não diria que eram gritos de horror ou medo, eram os costumeiros gritos de raiva que a mamãe fazia. Isso me fez ficar alerta. Não tinha ideia de como conseguia os ouvir, até que olhei para Len.

Sua expressão confusa e de desisnteresse, era um tanto interessante.

Pelo menos significava que não era a única a ouvir.

Mesmo nessa fina garoa, fina, porém incômoda, a mamãe podia estar aqui fora. Mas ainda não entendia por que. Não era hora, não era dia, não era certo ela estar aqui.

Depois pensei em mim.

Pensei em como estava, com quem estava.

Len.

Simplesmente aquele garoto que todos evitam, por aquele motivo.

Não, não. Aquilo não fazia sentido. Ele não tinha cara de assassino. Não que eu seja a pessoa mais qualificada em assassinos, mas ele não parecia mau.

Então porque a resposta foi afirmativa?

‘’ -Você não é o garoto que todos falam? – Estreitei os olhos, procurando o olhar melhor. Ele me encarou com uma indiferença... Estranha. – Aquele garoto que...

–Matou a própria mãe? É, sou eu.’’

Isso era o mais estranho.

De todas as coisas que Len era ou podia ser, assassino não estava na lista.

Ele era bom!

Droga.

O meu tempo era terrivelmente curto. Eu poderia simplificar minha vida, começar a correr, me afastar dele e chegar em casa separadamente. Podia esquecer, me afastar, ser a egoísta que sou. Não iria causar nenhum problema, nem levantar suspeitas.

Porém,

‘’-Eu quero que, você prometa, enquanto nós formos amigos, você não irá me machucar.

Eu juro solenemente que, enquanto o que a Laranja murcha chama de amizade e eu chamo de acontecimentos precoces e incômodos, eu não vou machuca-la.

’Acontecimentos precoces e incômodos’.

Tudo bem, eu poderia viver com isso. ‘’

Nós éramos amigos.

E eu não pretendia abandonar ele.

Por isso, eu o olhei uma última vez, antes de encher meus pulmões de are gritar pela mamãe.

–Mãe!

Len imediatamente ergueu a cabeça para encarar quem era a pessoa por quem eu chamava de mãe. O pegando desprevenido, eu saí de baixo da proteção que aquele guarda-chuva era pra nós. Eu corri pela chuva, sentindo meus passos deslizarem pelo asfalto molhado embaixo dos meus pés.

Mamãe, que até então falava ao seu BlackBerry, baixou lentamente o celular. Não levou nem cinco segundos para que ela associasse o que estava acontecendo. Seu olhar autoritário se revezou entre eu e Len por pelo menos dez vezes antes de abrir a boca para falar qualquer coisa.

–O que você estava fazendo?

Espio Len pelo canto do olho, enquanto ele retribui o olhar com o mínimo de discrição, sem entender absolutamente nada. Dessa vez, ele me confundia. Ele nunca foi interessado na vida de ninguém, e agora, parecia que ele havia se fincado naquele ponto da calçada. Observava nossa conversa em silêncio, como se estivesse analisando o comportamento de mãe e filha.

Mãe...

...E filha.

Entendo.

–Ah, eu não te apresentei, mamãe. – Olho para ele mais uma vez. – Aquele é o...

–Quem... – E se, por um momento, eu achei a mamãe boa ontem. Esse seria o meu doce engano. — Te deu autorização pra andar com esse garoto?

Parecia negação.

Aquilo que ela estava prestes a fazer, era negar a si mesma o que estava acontecendo.

–Você está proibida de andar por aí com ele.

E então, foi naquele momento que eu aceitei, para mim mesma, que eu realmente não tinha nenhum controle vocal.

­-Mãe!

E de novo eu vi. Mamãe estava sorrindo. Minimamente, e de jeito frio, mas estava. A que ponto aquele, até então, voz reconfortante e sorriso bonito poderiam ir até se quebrarem com a raiva da mamãe?

–Eu não estou te pedindo, eu estou te mandando. Isso é uma ordem.

Então eu admiti. Pra mim e pra ele.

–Mas mãe! Ele é meu amigo!

Um barulho, no outro lado da rua, me chamou a atenção. Por alguns segundos, eu deixei de prestar atenção na mamãe para prestar em Len.

Eu tive pouco tempo para associar o que estava acontecendo.

Vi o guarda-chuva ser solto por Len, e atingir o chão. O vento o carregou por alguns metros, antes de realmente colidir com o solo, mas nesse tempo, o estranho já estava vindo em minha direção.

Por quê?

Porque, pela primeira vez, ele se importou.

E, mesmo não sabendo que tipo de pessoa era a minha mãe, mesmo assim, ele teve coragem.

Até porque, ele foi a primeira pessoa a tentar me defender quando mamãe me batesse.

E por fim, eu só senti.

Foi como um estalo alto, para o resto do mundo se calar.

–Você não vai desrespeitar a sua mãe.

E sem qualquer tipo de aviso, aquelas mesmas mãos das quais não tive medo ontem, tornaram-se o meu pequeno temor de hoje. Com uma das mãos segurando o BlackBerry, a outra foi usada para me agarrar pelo pulso e me puxar para dentro de casa.

Ela só me soltou no tapete da sala.

Enquanto ela me trancava em casa, eu levava a ponta dos meus dedos ás minhas bochechas. Aquilo deixava meu rosto quente, afundado na vermelhidão.

E principalmente, ardia.

Desejava afundar naquele tapete fofinho. Minhas mãos e pernas já estavam machucadas.

Eu não precisava que me machucassem mais.

–Eu vou dizer só mais uma vez, Kagamine Rin. Eu não quero você andando com aquele garoto. E se você pensar em mentir pra mim, e continuar a andar, conversar, ou conviver com ele, saiba que vai ter que esconder muito bem. Porque se eu descobrir que você esteja fazendo merda, garota. Você não tem ideia do que eu vou fazer com você e com seu ‘’amiguinho.’’

Len era diferente do que tudo e todos pensavam.

Talvez eu não o conhecesse como queria, e talvez, do seu ponto de vista, eu sequer o conhecesse.

Mas era tanta... Maldade o que faziam com ele.

E eu só queria saber por quê.

Mãe. – Com uma voz tímida, a chamei. — Por quê?

‘’Por quê?’’ O quê, Rin?

Porque está me proibindo? E porque eu não posso andar com ele? Ontem! Ontem, mãe! Ontem, eu fiquei, o dia todo, com ele. E você não reclamou! Pelo contrário, você ficou feliz. Então, qual é o problema?

–Você é burra, criança. Não espero que entenda. Preciso fazer com que você diferencie o certo do errado. Você só precisa saber que aquela criança é errada. Aquele garoto é errado. Não é para você falar ou brincar com o filho daquela mulher.

Toda vez que ele me chamava de burra, um ódio se aflorava internamente. Eu sabia. Todos sabiam. Todos tinham que saber.

Eu não sou burra.

E ele? Ele não é errado.

Errado? – Se as palavras tivessem gosto, essa seria uma das mais amargas a passar pela minha boca. - Por quê?

–Isso lá te interessa? Deixe de ser essa intrometida irritante que você é, Rin.

E, como um fragmento de protesto, eu não pensava no que falava, apenas dizia.

–Mas,

–Cala a boca. ­– Ela me censurava. — Eu não quero ouvir mais absolutamente nada sobre esse assunto ou esse garoto. Estamos entendidas?

Meus dedos formigaram até que se viram formados em um punho. Não queria mais estar ajoelhada no tapete, não queria mais afundar. Dessa vez, era diferente.

Dessa vez, eu queria lutar.

Não. Agora, não, Miriam.

Lentamente, eu me virei para ela, erguendo minha cabeça para enfrenta-la. Eu sabia que as consequências dos meus atos seriam...

Seriam o que a maldade dela definir.

Me olhando de cima a baixo, ela deu aquilo que podemos chamar de ‘’sorriso de canto’’.

–Pra você, pirralha, é ‘’mãe’’. ‘’Mamãe’’.

– ...Não.

Arqueando as sobrancelhas, como se não levasse minha resposta a sério, ela repetiu.

–Não?

–Não.

–Então eu vou precisar ensinar mais uma vez como é que se deve tratar a mamãe. – Um sorriso maldoso, um que não era bonito de se ver, se alastrou pelo seu rosto. – Qual é a sua mão de desenhar?

Por um momento, hesitei.

Hesitações poderiam me levar a falhas.

Sem falhas.

–Responde logo, caralho.

–Direita.

Então, se desencostando da porta, deu passos apressados em minha direção, incapacitando minha fuga antes mesmo de eu traçar uma. Sua palma estalou no meu braço direito, e o segurou com força, como se aquilo fosse uma corrente que me prendia a uma coleira.

–Ótimo. Porque eu não quero que você seja inútil, eu vou te ensinar mais uma lição na cozinha. Fogo, queima.

Ela começou a arrastar meu corpo pelo chão, igualzinho fez quando quis me prender no quarto dele.

Início diferente, final tragicamente igual.

Um final que só traria dor.

Ela me soltou aos pés do fogão. Mas eu não corri. Eu não me mexi. No chão ela me soltou, no chão eu fiquei.

Gélido, ao menos resfriava meu rosto quente.

O barulho do gás se ligando poderia estalar em qualquer mente. O do fogo se acendendo, também. Não sabia como explicar, só sabia que fogo privava ar.

Me puxando mais uma vez pelo braço, meu corpo foi erguido uns poucos centímetros do chão. Me olhei no reflexo do vidro do forno, vendo apenas uma garotinha meio triste, meio corajosa.

Não tinha ideia de como definir.

Tentei lutar contra o hábito de chamá-la de mamãe, mas eu falhei no último minuto.

–Mamãe?

–Diga, querida.

E, a partir daí, eu senti as chamas tocarem a minha palma.

‘’Ele balançou o guarda-chuva azulado algumas vezes. Olhou de um lado a outro, arqueando a sobrancelha para mim, como se fosse idiota.

–Vem logo pra cá.

Eu estava errada.

Ele não era ruim.

O garoto estranho era bom.’’

–Ele é bom.

–Oh, Rin. – Ela riu. – Isso é uma mentira tão encantadora.

////

Eu sempre procurava um porque das coisas.

Sempre me perdia nos porquês.

Mamãe me dizia que eu era intrometida.

Len pensava que eu era enxerida.

Eu me autodominava curiosa.

Enquanto me via deitada na cama, sem vontade de me mover, apenas levava as pontas dos meus dedos aos lábios.

Agora enfaixados, cobertos, várias e diversas vezes por faixas brancas, ataduras, sentia que minha mão não passava de uma réplica mal feita de uma múmia.

Mamãe foi piedosa no final.

Não foi muito tempo experimentando o calor. E depois, eu fui arrastada até a pia, e aquela água que eu costumava odiar, foi a coisa que mais me reconfortou.

‘’Acidentes acontecem’’ Mamãe disse.

Ela disse que iria passar. Não iria demorar. Que em breve eu poderia desenhar de novo.

E que, até lá, eu podia aprender com a esquerda.

Mamãe foi gentil e me carregou até o meu quarto.

À noite, ela não me pediu ajuda na cozinha, o que me fez feliz. Ela trouxe o meu jantar até aqui e assistimos desenhos juntas.

Depois de um tempo, ela foi embora, mas dessa vez ela disse ‘’tchau’’.

Lentamente, eu me lembrei do papel que havia roubado do guarda-chuva de Len.

Ah sim, Len.

Ele havia visto tudo aquilo.

Desde o tapa, até ser arrastada para dentro de casa.

Espero que ele não me ache muito estranha.

Eu desamassei o papel que permanecia úmido no bolso do meu casaco de escola. Eu já havia o tirado do meu corpo, porém como estava de fácil alcance, simplesmente estiquei meu braço esquerdo até ele.

Len, Ann, Leon

Caso perdido, telefonar

45-326-1309

Então aquilo servia para encontrar o dono do guarda-chuva.

Estendi minha mão até encontrar o celular no meu criado mudo.

Eu achava, que pelo menos, ele tinha o direito de saber.

Ele poderia me ignorar todos os dias, mas eu simplesmente não conseguia me imaginar ignorando a presença dele. Pele menos, uma, explicação, eu devia.

Teclei, desde o quatro até o nove, e coloquei o celular no meu ouvido.

Isso tinha riscos.

Mas, eu estava disposta a corrê-los.

O que mais mamãe faria comigo?

E após três toques, ouvir sua voz me deu um pouco mais de coragem para continuar.

–Alô?

E, mesmo reconhecendo a voz, mesmo sabendo quem é, eu não pude deixar de perguntar.

–Len?

–Rin? – Uns poucos barulhos foram feitos ao fundo. Parecia que ele estava se arrumando. – Como sabe meu número?

‘’Ah, sabe como é, né. Enquanto você olhava para o além, eu, meio que, roubei o papel de identificação do seu guarda-chuva.’’

–Eu tenho uma amiga que é amiga de um amigo que é primo de um amigo que estuda lá na sua escola.

Não queria admitir, mas essa, provavelmente, foi a mentira mais ‘’meia boca’’ que já disse.

E com voz um pouco descrente, ele respondeu.

Aham. – Deu uma pequena pausa. — Você está bem?

Eu fui agredida.

Eu fui arrastada.

E fui queimada.

Mas, enquanto estiver respirando, sim, estou bem.

Não precisa se preocupar.

–Ah, sim... Estou.

–Se isso ajuda, dizem que setenta por cento da dor é psicológica.

Realmente, ele era muito bobo.

Mas era bobo o suficiente para me fazer em momentos como esse. Tenho quase certeza que não foi proposital, mas adoraria permanecer com alguém que me arrancasse verdadeiros risos.

–Bem, eu estou ligando pra dizer que... Eu acho que não vamos mais poder brincar. – E, de repente, eu comecei a considerar se isso iria afeta-lo. Se sentiria falta. Foi apenas um dia realmente perto de mim. Mas isso me fazia sentir a necessidade de mostrar que queria continuar. – Eu sinto muito.

Não Rin. – Eu mentiria se não dissesse que aquilo havia me pegado de surpresa. — Faz parte da aposta. Você claramente disse que eu era obrigado a brincar com você.

–Mas foi você que...

–Pois é. Eu também disse que nunca mais iria te dar carona na chuva.

Len era uma criança chata e estranha com argumentos perfeitos.

–Vamos desobedecer às regras então?

Porque houve essa regra? Porque sua mãe não te deixa brincar comigo?

–Ela disse que não era para eu ‘’falar ou brincar com o filho daquela mulher’’. Disse que era errado. – Pouco a pouco, penso nos segundos roubados que nós tínhamos. Eu tinha que desligar antes que fosse tarde. – Len, eu tenho que desligar.

Sem esperar qualquer tipo de resposta, meu dedão rapidamente foi em direção ao botão de desligar.

Um minuto e quarenta e seis segundos.

Minha mente só me bombardeava com uma única pergunta.

‘’O quê você fez?’’

O que eu havia acabado de fazer?! Eu concordei. Concordei.

Aceitei o fato de desobedecer a mamãe, aceitei todas as suas caronas e saídas para brincar.

E, mesmo já tendo aceitado isso pelos dois,

Eu definitivamente havia aceitado ser sua amiga.

////

No dia seguinte, enquanto mamãe trabalhava, eu me aventurei novamente. De repente, eu não via mais nenhuma sensação negativa em fazer isso. Claro, sentia um frio na barriga a todo e qualquer instante, e quando comentei isso com o Len, ele disse:

‘’Isso é falta de casaco, Laranjinha.’’

Enquanto andávamos até o parque, ora ou outra eu o beliscava sem piedade. Várias vezes me ameaçava, alegando fazer o mesmo, mas então eu dizia que beliscões machucavam, e que ele havia prometido não me machucar.

Ele reclamava de quanto eu era má, e virava a cara pro lado.

Eu cochichava ‘’Mau perdedor’’ e tudo recomeçava.

E enfim, quando chegamos, pedi que começássemos com o balanço. Comecei a cutuca-lo quando aquele folgado achou que era para ele balançar também.

Claro que não, era para ele me empurrar.

Eu estava com a mão machucada, afinal.

Completamente a contra gosto, ele começou a me empurrar devagar. No entanto, em troca, pediu que eu explicasse o que significava aquela ligação a noite.

–Hm.

–E é por isso que eu não devia estar aqui. – Olhei para os lados, sentindo o frio na barriga me assombrar mais uma vez. – Pelo menos aqui¸ não.

–Por quê?

–Porque é arriscado. Mamãe pode chegar aqui a qualquer instante. – Antes, até afirmaria que não, porém, ontem ela estava em casa. E eu não sabia o porquê. – Não que eu não goste do Parque, é que...

–Entendi. Você é uma menina boa demais.

Interrompi o ritmo frenético que ele me empurrava após essa frase. As solas dos meus sapatos arrastaram na terra seca, levantando um pouco de poeira. Segurei nas correntes que prendiam o balanço, até que ele parasse.

Ele que não entendia o porquê de eu ter feito isso, me encarava sem reação.

Ele era idiota, por acaso?

–Falando desse jeito, parece que sou um cachorro. ‘’Boa menina’’.

E com um sorriso sacana e as sobrancelhas arqueadas ele respondeu.

–Então tecnicamente sou seu dono?

E se ele era idiota? A resposta era sim. Definitivamente sim.

–N-Não! Quê? NÃO!

–Era uma brincadeira. – Confessa. – Rin.

Meio emburrada, e de braços cruzados, eu me viro para ele.

–Quê?

Porque sua mãe fez aquilo?

Claro. Eu não esperava que conseguisse responder todas as perguntas que a mente dele projetava. Não imaginava que minhas respostas e explicações iriam corresponder todas as suas expectativas.

Mas mesmo assim, tentei.

–Mas eu já te di...

E me cortando, por ouvir uma resposta que não queria, refez a pergunta.

–Não. Ela te bateu. Mas por quê? Isso não é normal.

Eu ponderei se deveria contar toda a verdade ou não.

Eu não deveria esconder as coisas dele.

Mas tinha coisas que era melhor esconder.

–Ela ficou com raiva de mim. Mamãe ainda está brava comigo, mesmo eu não entendendo muito bem o porquê. – Com isso, me levantei do balanço, tomando cuidado para não tropeçar na terra. Dou a volta no brinquedo, parando ao lado de Len. – Mas o que eu sei é que minha mãe é uma mentirosa. Acho que todos são mentirosos, na verdade. Qual é o problema?! Eu não entendo porque mamãe disse aquelas coisas! Eu não sou burra! Não sou.

Ri de mim mesma nos pensamentos.

Então eu era explosiva assim?

Mas se todos dissessem que Len era uma pessoa ruim, todos são mentirosos.

Se a mamãe diz que ele é errado, ela é mentirosa.

E eu? Bem, eu não entendia qual era o problema de andar com Len.

E, aparentemente sem entender nada, ele me encara.

–Quê?

–Eu não sou burra. – Repito, a cada vez com mais vigor. – Ela disse que eu não entendo, porque eu sou uma criança burra. –E pouco a pouco, as memórias afundam a minha mente. – Que iria gritar comigo até eu aprender.

Timidamente, eu observo Len, a procura de alguma reação.

A única coisa que ele faz é arquear as sobrancelhas, como se aquilo houvesse despertado a atenção dele.

–Aprender? O quê exatamente?

–Diferenciar o certo do errado. – E como um último tiro das coisas que mamãe julgava ‘’verdades’’ eu resolvi, a partir de então, falar o que realmente era verdade. – Você é errado, Len.

Dessa vez, ele tentou esconder o espanto.

Pena que ele não sabia fingir para mim.

–O quê? Por quê?

Eu não sei. Ela simplesmente disse. – Admito, um pouco constrangida por ser a minha mãe falando aquelas coisas. –Mas... A mamãe é burra. – E então, desde pequena, me relembrava tudo que ela dizia e disse para mim. — Às vezes ela fala que eu a faço infeliz. Mas depois ela beija minha bochecha e pede desculpa.

–O que mais ela te faz?

Talvez seja pelo fato de ninguém nunca havia me feito essa pergunta que isso tenha me pegado desprevenida.

O que mais ela me faz?

Muitas coisas.

Várias coisas.

Todas encobertas por um baixo ‘’Shhh’’ e um ‘’Eu te amo’’ fraco.

E agora, nesse ponto, o que eu tinha direito de contar sem me passar por uma cúmplice barata que só aceitava as coisas que me aconteciam?

Nada.

Quase nada.

–Sabe, quando ela fala no celular ela fica mais feliz. Isso é... Bom, porque eu só quero ver minha mãe... Feliz.

–Rin...

Quando ele me chamava daquele jeito... Com aquele teor de pena, quase dava nojo do meu próprio nome.

‘’-Você não é má. – Ela pegou o pente prateado encima do micro-ondas. Mamãe era tão organizada. Ela errou. Não pode deixar coisas de banheiro na cozinha. Mamãe me ensinou. Mas ela errou. – Só é burra. É diferente. Mas eu vou te mudar. Para melhor. Muito melhor. Como sua mãe.’’

–Eu não sou tão ruim. – Murmuro para mim mesma, como se confiasse um segredo aos meus ouvidos. – Desculpe, o que ia falar?

Ele me encara sério dessa vez, coisa que me assusta um pouco.

–Como seu pai deixa a sua mãe te bater?

Haha, Pai.

Como se meu pai pudesse impedir alguma coisa.

Como se ele estivesse vivo.

–Mamãe disse que meu pai morreu. Mas ela disse que ele está num lugar onde não há túmulos, flores ou lápides.

Se tinha uma coisa que eu gostaria de perguntar para o meu seria essa.

‘’Como é a sensação da água entrar pela sua boca, descer pela sua garganta, inchar seus órgãos e te matar afogado?’’

Afogado.

Sem túmulos, flores ou lápides.

Ela não entra em detalhes, e eu não quero saber.

E por fim, ele comenta.

–Sei.

–Ah, e eu... – Mordo minha língua para não prosseguir a frase. Eu iria fazer uma pergunta do mesmo valor a ele. Não poderia me dar ao luxo de expressar minhas opiniões. — Nada.

‘’...Odeio que me perguntem a respeito dele.’’

–Ia dizer algo que sua mãe não gostaria que dissesse, certo?

Errado.

–Certo... – Respondi. Suspirei fundo, tomando fôlego para fazer aquela pergunta. Usaria inocência falsa agora. – Mas, Len, porque as pessoas dizem que você matou sua mãe? – Não achando convincente o suficiente, eu completo. — Ah, esse povo é muito mentiroso.

– Não. – Ele responde, quebrando minhas poucas esperanças de ouvir um ‘’sim’’. – Nem tanto. É verdade. Só que ninguém, ninguém, sequer me perguntou alguma vez a verdade. Eu não tenho ideia de como tudo e todos da nossa vizinhança sabem disso, e não entendo porque já esse julgamento frio á mim. Eu tenho e não tenho culpa.

Ter e não ter culpa.

Impossível.

Ou se tem, ou não se tem.

–Como você...

–A verdade é que a gravidez da minha mãe era de risco. Quando eu fui nascer, seu corpo não aguentou. Casos onde somente o bebê sobrevive.

Se não fosse por você sua mãe estaria viva.

Se não fosse por sua mãe, você não estaria vivo.

Eu não tinha direito algum de dizer que entendia Len.

O máximo que podia dizer era,

–Eu não sabia...

–Claro que não. Ninguém sabe. É incrível como as pessoas são nojentas. Ao menos sabem da verdade e criam suas histórias, estão sempre mais preocupadas com a vida dos outros do que com as próprias. Eu não matei Annelise, foi minha mãe deu sua vida por mim.

Enfim eu havia descoberto o ‘’por que’’ que tanto me incomodava.

Mas, no momento, eu me perguntava se realmente o queria ter descoberto. Aquilo era tão injusto. As pessoas não passavam de porcas mentirosas, afinal. Não queria me imaginar no lugar dele, nem por poucos segundos.

Eu ganhei um ‘’porque’’ que talvez não fosse descobrir tão cedo.

‘’Porque as pessoas eram tão más?’’

–Surpresa? – Ele pergunta.

Percebi que dessa vez, nem eu mesma tinha poder sobre o que fazia ou deixava de fazer. Meus braços se ergueram, e contornaram Len sem mais nem menos.

O abracei com força, imaginando que Len era o urso de pelúcia amarelo que mamãe jamais poderia ensacar e jogar fora.

E quando ele percebe o que eu faço, já é tarde demais.

‘’Surpreso?’’

–Me solta. – Ele pede, colocando o queixo no topo da minha cabeça. Seus braços permaneciam colados em seu corpo. Eu jamais esperava qualquer tipo de retribuição, então não me incomodei. Apenas focava em abraçar aquele idiota. – Não vai soltar? – Balancei minha cabeça de um lado para o outro, sentindo o calor do seu corpo. – Eu não preciso da sua pena.

Não, não.

Não era pena.

Nunca seria.

–Não é pena. – Confesso, em meio a sussurros na esperança que ele não ouvisse. – É carinho.

E, pela primeira vez, eu consigo sem o deixar o que dizer.

–Er... Tá, estou bem.

Então era pretexto que antes estava mal.

–Mesmo?

–ESTOU. – Ele grita, me fazendo o observar. Notando a pequena e nova admiradora nem tão secreta, ele vira a cara e se corrige. — Quer dizer, sim, estou. Já pode me soltar agora.

Lentamente eu me afasto dele, um pouco sem jeito pelas coisas que disse e fiz. Sentia um pouco de vergonha, mas sinceramente, não me arrependia.

Len me encara por vários segundos, ficando cada vez mais alterado à medida que o tempo passava.

–Eu não consigo pensar.

–Quê? – Pergunto.

–Eu não consigo pensar, num animal, não consigo.

–Tudo bem. – Estranho, mas vindo da pessoa de quem vinha, deveria achar normal. – Mas, o nome dela era... Annelise?

–Sim. – Dá de ombros. — Mas as pessoas costumavam chamar ela só de ‘’Ann’’, para outros, de ‘’Sweet’’. Ainda tinha gente que juntava, a chamando de ‘’Sweet Ann’’.

Sweet Ann.

Era um nome bonitinho.

–É um apelido engraçado. Tenho certeza que as pessoas a chamavam mais de Sweet Ann do que Annelise.

–Não tem como eu saber. – Comenta, aparentemente sem emoção. De certo modo, aquela conversa parecia cansativa para ele. – Rin, se não vamos mais ficar por aqui, aonde nós iremos brincar?

–Eu conheço um lugar. É bem amplo, mas não tem praticamente nada. No fim, ele meio que dá ligação a uma estrada, mas é bem no fim do terreno mesmo. Eu acho que lá é uma área privada.

–Invasão de propriedade. De novo.

Não consigo deixar de escapar um sorrisinho entre meus lábios. Aquela falsa irritação dele quase me comovia. Daí, eu me lembrava do que poderia acontecer caso fossemos descobertos. Uma parte de mim se sentia extremamente travessa por querer levar ele em um lugar proibido, e principalmente, um lugar em que estaríamos sem ninguém.

Sozinhos.

–Mas é melhor do que aqui. Qualquer lugar é melhor. Estamos expostos demais, e se...

–Pare de falar como se estivéssemos fazendo algo de errado. Onde é esse lugar?

////

Não me lembrava exatamente como tinha achado aquele lugar. Mas, de uma hora para outra, havia se tornado o nosso esconderijo secreto. Eu sabia que, pelo menos ali, ninguém poderia nos encontrar.

Me sentia estranha. Queria dizer que aquilo era errado, mas sabia que não era.

Pensava que, no fundo, só estava protegendo ele.

Então tudo bem.

Com um pouco de esforço, uso minhas mãos para empurrar uma das várias grossas e largas madeiras que serviam como estacas numa extensa cerca. Eu sabia, que aquela em especial, estava mal presa. Os gordos parafusos que a prendiam estavam alaranjados e corroídos, exatamente como um rastro de ferrugem supostamente deveria ser.

Imediatamente, guardei minha mão direita no meu bolso.

Len me seguiu em pouco tempo. Aquele lugar não era meu, mas me passava a sensação que eu estava apresentando uma parte de mim para ele.

–O que achou?

Olhando em volta mais uma vez, ele se vira para mim, com mais um daqueles sorrisos idiotas.

–É um lugar bonito, senhorita.

‘’Senhorita’’?

–Quieta. – Como se tivesse cometido um erro imperdoável, ele olha pra mim balançando a cabeça. – Já disse que você me confunde.

Balancei a cabeça discretamente. Ele era ridículo.

Comecei a andar, com calma, sem pressa, até a árvore mais bonita do meu mundinho particular. O barulho dos passos de Len sobre a grama, denunciavam que ele me seguia, mesmo eu não pedindo absolutamente nada.

Quando havia chegado aos pés da árvore, eu me sentei junto as suas raízes. Levando em conta o nível mental de Len, eu não imaginava que ele sozinho fosse descobrir que era para se sentar ao meu lado. Estiquei uma das minhas mãos, e com dois toques, indiquei para aquela mula onde ele deveria ficar.

Ri um pouco, imaginando como seria a minha ruína se ele lesse meus pensamentos.

–Eu quero te perguntar uma coisa, Rin. Porque você brinca justo comigo se você tem seus amigos?

É verdade. Justo com ele. E porque com ele?

Porque eu gostava dele.

–Eu tenho muitos colegas. Não muitos amigos. E depois de um tempo, eles se afastam de mim. – Deito minha cabeça na árvore, como se estivesse num colo, pronta para dormir. — Ainda mais agora que eles me viram indo de guarda-chuva com você.

–Estou te causando muitos problemas.

–Não.

Rindo um pouco, ele olha pra mim de soslaio.

–Não foi uma pergunta.

–Pra mim tanto faz. – Dou de ombros. – É melhor assim.

–Somos dois deslocados. Sempre sozinhos.

–Não. – Sorrio um pouco. — Agora somos dois deslocados juntos.

Depois disso, revirando os olhos e virando o rosto, Len disse que já era hora de voltarmos para casa. Me puxando pelas mãos, ele foi meio apoio para levantar. Fui na frente, afim de mostra-lo mais uma vez qual era a madeira correta. Não sabia exatamente qual era a capacidade de memória dele, e se fosse necessário, mostraria a ele o caminho certo mais mil vezes.

Perto da rua das nossas casas, o frio na barriga me assombrou uma última vez. Na ponta dos pés, tentei espiar ambas as casas, a minha e a dele. Um suspiro aliviado foi arrancado de mim quando não vi a mamãe.

Certo Rin, vai ficar tudo bem.

Já fazia certo tempo de caminhada sem que não houvesse um único som. Não o forçaria conversar comigo desta vez, agora eu achava que estava mais do que suficiente encará-lo.

–Porque está me olhando desse jeito?

Ele era irritante, e eu não tinha ideia de como ele sempre conseguia me constranger.

–Desse jeito, como?

–Nem tente, já foi pega de qualquer jeito.

–Tudo bem... É que você parece focado, pensativo.

–Todo mundo pensa. – Ele sorri. — Você, parece que não.

–Babaca. – Mordo meus lábios, me censurando por falar essas coisas. Tiro minha mão esquerda, e mesmo ambos sabendo o que iria fazer, ele não tenta me impedir, só ri um pouco e vira a cara. Sem hesitar, aperto o seu braço, dando mais um beliscão nele. Ele volta a me olhar, encarando a minha bochecha. – Você devia parar de pensar sobre... Isso.

Ah sim. O tapa.

Meus dedos lentamente vão até a minha bochecha, esclarecendo o que eu queria dizer.

–Mesmo que eu quisesse, eu não consigo parar de pensar sobre isso. – Ele cruza os braços em frente a o peito. – Isso sim, é errado.

Então era isso.

Ele realmente se preocupava.

–Está tudo bem. – Atravesso a rua, seguindo o caminho da minha casa. – Até amanhã, Ellen.

–Até, Rin...oceronte.

E, balançando a cabeça, digo a última frase que poderia dizer a ele.

–Isso. Isso é uma baita apelação.

////

Na manhã seguinte, num sábado frio e nublado, eu acordei mais cedo do que costumava.

Meus dedos correram pelos botões do celular, mandando uma mensagem para Len.

Não sabia se ele estaria acordado, se eu seria pessoa a acorda-lo, ou se ele não acordaria. Mas, pelo menos, eu teria o mérito de dizer que tentei. Eu havia acordado com a súbita vontade de vê-lo mais uma vez.

Tudo bem, a esse ponto, eu estava mais estranha que ele.

Mamãe havia chegado tarde mais uma vez. O silêncio predominante na casa me contava que ela anda permanecia em sua cama, dormindo pesado. Não achei que faria algum mal eu sair por algumas poucas horas.

Sentada na minha cama, eu abria e fechava minha mão direita. Sentia que aquelas tiras de papel que pareciam as ataduras, só me davam a impressão que minha mão era um presente a ser rasgado.

Mamãe havia me dito que não era para eu fazer nada até segunda ordem.

Havia trocado minha roupa no maior silêncio possível, crendo que se fizesse o mínimo ruído, todos os meus esforços seriam em vão.

Enquanto descia as escadas, uma pequena ideia se prendeu nos meus pensamentos. Fui até a cozinha, puxando a terceira gaveta do móvel escuro. Tinha um pouco de sorte de aquilo estar de fácil acesso.

Esperei por volta de quinze minutos aquele lerdo chegar. Talvez não tivesse o direito de reclamar, porque ele poderia escolher ter vindo, ou não.

Tocando meu ombro, com aquele jeito nada furtivo, esse bobo tenta miseravelmente me dar um susto.

Bela entrada.

–Boo.

–Ai. –Me viro lentamente em sua direção, usando meus dotes da atuação. – Que susto.

–Rin, pode começar a agir como gente? Nove horas não é hora de acordar.

–Mas não vamos aproveitar bem o dia! – Maldito preguiçoso. – Tudo bem, vamos estabelecer um horário. Nos dias de escola, duas horas da tarde.

–Não, não. Da manhã.

Ambos reviramos os olhos, numa espécie de consenso sobre o quão idiota aquilo era.

–Shhh! – O censuro. — E nos sábados pode ser dez. E vai ser assim, porque estou mandando.

–Que badgirl, anda no recreio comigo? – Ele dá de ombros, dando pouca importância. – Tudo bem.

Suspiro, estendendo a mão para ele, que, como se fosse retardado, bate nela como se eu fosse outro garoto.

–Temos um acordo?

–Aham, temos.

Satisfeita com nosso mais novo combinado, lentamente eu tiro o canivete do meu bolso. Ficava pensando no dia que ajudei a mamãe a cortar bichinhos na cozinha. Seria igual.

Len não teve reação no momento que eu tirei o canivete do bolso. Apenas ficou me encarando com uma tremenda cara de paisagem, como se aquilo fosse algo rotineiro. E no fim, quando notou o que eu estava prestes a fazer na minha árvore favorita do nosso esconderijo não tão secreto, só comentou um adorável insulto.

–Vândala.

–Mas isso é a prova que estivemos aqui.

–E o que a árvore tem haver com isso, demente? Já não basta estarmos numa propriedade privada, ainda tem que vandalizar.

‘’–Entendi. Você é uma menina boa demais.

–Falando desse jeito, parece que sou um cachorro. ‘’Boa menina’’.

Arqueando as sobrancelhas, comento sem tirar os olhos do que fazia na árvore.

–Então talvez eu não seja a sua ‘’Boa menina’’.

Escuto seus passos se aproximarem de mim. Focada em meu trabalho, termino de fazer o último risco.

–Esse é o ‘’R’’ mais feio que eu já vi em toda a minha vida. – Comenta, me observando, até então, em silêncio. – Escuta, eu não vou fazer essa palhaçada.

–Por quê? – Me viro para ele, rindo um pouco. — Eu juro que não faço um coração em volta! Só um ‘’mais’’ pequenininho.

–Não.

–Por favor.

–Não.

Suspiro entediada, finalmente me virando para ele. Sua birra era engraçada, e o fazia olhar para qualquer direção que não seja a minha. Sua distração era um dos maiores tesouros que esse idiota poderia me dar, sem querer. Quieta, chego mais perto dele, e começo a falar praticamente colada em sua bochecha.

–Vai deixar meu ‘’R’’ sozinho? – Insisto, segurando o riso pela próxima coisa que iria pedir. – Pode, por favor, olhar pra mim?

Mesmo não querendo, nossos rostos se tocam pela primeira vez. Eu começo a rir feito uma surtada, enquanto Len, por impulso, dá alguns passos para trás, quase tropeçando e caindo de costas.

–O que você pensa que está fazendo?!

–O jeito da Rin. – Mostro a língua, me divertindo com a situação, e o rumo que as coisas ganharam. – Olha que vai piorando.

Ele bufa feito um cavalo gordo, e toma o canivete da minha mão com certa irritação. Len faz de uma maneira como se fosse tão fácil. Bem, eu não tinha culpa nenhuma de ‘’R’’ ser uma letra mais complicada que ‘’L’’.

–Me dá essa merda aqui. – E por fim, arranca o canivete da árvore. — Pronto, feliz agora?

Muito.

Só... Desculpa por te machucar, árvore.

‘’Levanto lentamente, tateando o tronco da árvore. Me desencostei um pouco, dando pequenos passos para trás e observando a casca da pobre árvore. Toda machucada. Machucaram a árvore. Tinham tantos nomes escritos nela. Uns riscados, outros com um coração em volta. A única coisa em comum é que havia um pequeno ‘’mais’’ entre todos eles. As pessoas vinham juntas para machucar a árvore. Como dois amigos, comparsas, parceiros de crime,

Ou casais.

Mais uma vez, o que você está fazendo, Kagamine Rin?

Só... Só era um fato que faziam isso juntos.’’

Notas finais
Sim e-e Eu sei que morremos afogados por falta de circulação de oxigênio no cérebro, mas falar de órgãos inchados é muito mais lindju ♥ Er.... Eu acho que já tá mais do que na hora de eu colocar ''Tortura'' nos bagulho da fic :v Assim, só acho e-e Ah, e esse final aew é do capítulo 62, no meio do pique-esconde 'u' ~É incrível como eu esqueço o que caralhos era pra dizer aqui. Todo capítulo é isso -qqq~ Hue, esse capítulo foi em partes inspirado na minha life huehuehue Essa parada de ''Mão no fogo'' já rolou comigo, mas digamos que era um isqueiro :v E naun era a minha mãe -qqq Eu tenho uma mente meio doentinha -q ♥ Tá, isso aqui já virou uma puta enrolation ;^; Ah, e as crias desaparecidas irão ser maltratadas ♥ Só avisando mesmo :v Vou por a mão de todos vocês no fogo -qq MENTIRAAAA Cof verdade cof Fui-me /ver anime/youtube/comentar em fic Até quarta, passarolhos~ Vejo vocês nos reviews!