Karakuri Burst

62 Eu não esqueço, o que você quiser, Rin.


Notas iniciais
XEGAY~ Sentiram saudades? Claro que sim, atiro em quem dizer que não Ò-Ó Tá, mentira XD Mas se falou não, seu popo não será perdoado :) AIN COMO TOU ENGRAÇADA, CA-RA-LHEO Então, meu atraso DESCOMUNAL é devido exatamente pelo o que estão pensando, passarolhos ;~; Eu até disse que iria demorar, e que não iria postar, MAS DISSE ESSE CARALHO EM JUNHO, E ESTAMOS EM FUCKING JULHO Eu quero morrer ;-; ~They shot me down, BANG BANG. Sweet hit the floor, BANG BANG~ Só não morro, porque vocês não me matam, porque... ~E LÁ VEM AQUELA COISA QUE TODOS, OU PRATICAMENTE TODOS OS FICWRITERS JÁ DISSERAM~ ... ''Porque se eu morrer, como fica a história?/Nunca saberão o que acontece/Não tem fim'' Então, nada de BANG BANG, SUAS JESSIES JS DA VIDA -q Sim, me atrasei por conta da escola. SIM, NÃO ESTOU DE FÉRIAS, PAREM DE JOGAR NA MINHA CARA, SUAS COISAS CRUÉIS ♥ Sim, eu tenho um trabalho e duas provas. Sim, eu tenho prova no penúltimo dia de aula, SIM, EU SÓ TENHO 7 DIAS DE FÉRIAS, OBRIGADA, DE NADA Vamos ver se assim vocês tem um pouco de pena de mim ;--------; Ah, aliás, se alguém quiser me adotar e me levar pra escola de vocês, saiba que a mochila já tá até arrumada -qqq Sério u-u Agora.... CARALHOU SUÍTI, O MAIOR CAPÍTULO DA FIC! FINGE QUE É PRESENTE PRA COMPENSAR A MINHA DEMORA, AMIGUINHOS DA CALESITA A verdade é que quando me vi livre, comecei a escrever. Fiz 4 mil palavras terça, mais 4 mil ontem ( Quarta ) e mais umas 800 hoje ( Quinta ) EU TÔ UM CACO, PUTA MERDA Mas, fodaci~ O mais legal é que ainda falta :') Esse capítulo corresponde ao resto que faltava do 52 ( Esconde-esconde ) e só foi METADE DO 53 ( Errado? Por quê? ) Cara, pra mil palavras de um capítulo do passado, EU ESCREVIA 4.000 no 62. OU SEJA. PRÓXIMO CAPÍTULO VAI SER ''VEEEEEM MONSTRO'' TBM :') ''Suíti, se não tá postando semanalmente, porque não tira aquele aviso das notas da história?'' Então... É O CARAIO QUE EU TIRO '^' Aquilo tá ali pra me lembrar que eu tenho um dever a cumprir u-u Não posso prometer que semana que vem eu vou estar aqui, mas darei 110% de mim, PROMETO, PASSAROLHOS; Agora... Sofhi Chan, MENINA DIWOSA PRA CARAI ♥♥♥♥, e quem disser que não, considere-se morto u-u Só falando mesmo~ SÓ Muito obrigada pela recomendação! Tia Suíti ficou tão feliz quando chegou em casa e viu. Eu fiquei meio: ''Vamos ver o Nyah... Carrega.... AIN CARALHO ♥'' Sério, estou muuuuuuito feliz mesmo ♥ E como você conseguiu ler 45 caps em DOIS DIAS? Você vai pro record de Kara-Burst, sério mesmo ^-^ 17 recomendações.... Mano, é muito mais do que uma autora pode querer :') OBRIGADA A TODOS VOCÊS, BANDO DE DLÇ ♥ Ah, AUTORES QUE LEIO SUAS RESPECTIVAS FICS ~Falando com todos mesmo~ Até final de semana, o meu review já chega em vossas contas! E por último, esta e outras, MAS NÃO TODAS, imagens de KB não editadas ( Cruas mesmo ) Se encontram no meu We Heart It :v Se quiser achar/caçar, procura lá por ''Sweet Geek'' que é meu nick, mas o meu link mesmo é ''SweetBitts'' Enfim, PROPAGANDA FEITA. Ganha toddynho quem chegar lá em baixo ♥

RIN POV’S ON

Flashback on

Assoprei meus dedos, sentindo um pouco do calor da minha respiração.

‘’Shhh. ’’

Segredo.

Aquilo definitivamente não era certo.

Precisei esfregar minhas mãos, uma na outra, para tentar apagar a sujeira de mim. Meus lápis eram tão coloridos e tão sujos. Me perguntava incessantemente se mamãe realmente havia gostado. Talvez. De verdade?

Besteira. Besteira. Besteira.

A rainha jamais teria motivo para mentir para princesa.

Não de novo.

Bati as mãos. Elas haviam ficado roxas. Mas não era bonito. Talvez todas aquelas cores bonitas se tornassem uma feia no fim. Que feio. Pelo menos eu sabia que meus desenhos estavam bonitos. Eram bonitos, são bonitos. Todos eles.

Não me atrevi a espiar o outro lado do corredor.

Eu odiava o quarto do papai.

Eu odiava o papai.

Por que a escola comemorava dia dos pais?

Eu não gostava.

Nunca precisei do pai.

Ele não precisava de ‘’dia’’.

Todos idiotas.

Não queria entrar lá de novo. Rainha má.

Voltei meu olhar a as escadas, desde o primeiro, até o décimo sétimo degrau. Desde o primeiro, até o último caco. Eu estava com medo de subir aquele pequeno campo minado. Cada passo vai quebrar. Vou quebrar sozinha.

Porque as pessoas quebram tão facilmente?

Ossos estúpidos.

Porque eu tinha que quebrar para mamãe?

Estúpida.

Senti minhas pernas tremerem no primeiro degrau. Senti as pontas dos cacos de vidro sob meus pés. Sentia a minha pele arder nas mãos e nas pernas, que foram arrastadas por alguns corredores, puxadas em dezessete degraus, jogadas numa madeira áspera. As mãos coçavam, pinicavam, ardiam. Queria ser uma boneca para arrancá-las fora. Agora. Rápido. Eu as tinha avermelhadas, roxeadas, com farpas cortando e atravessando a pele da palma e dos dedos.

E agora, eu pisava em cacos.

Tinha medo de acabar não tendo controle de mim mesma, de tombar e cair, de tropeçar, de não conseguir se erguer mais uma vez.

Então eu toquei a parede.

Quase sussurrando um ‘’me ajude’’ para as paredes que tudo podiam ouvir, espalmei uma das minhas mãos na parede clara, sentindo tudo aquilo que poderia chamar de sistema nervoso tentar recuar aquele movimento.

Doía, machucava.

Mas eu não queria cair.

Tinha medo.

Subi mais um degrau, arrastando lentamente minha mão pela parede. Observei pelo canto dos olhos a mancha roxeada que se estendeu em um pedacinho da parede. Eu estava sujando.

Não importava mais.

Eu sabia que não estava nem trinta centímetros acima do nível do piso do andar de baixo, visto que estava no segundo andar da escada. Sabia disso. Mas me sentia como uma menininha em perigo. Havia provado a mim mesma que era uma mocinha há menos de poucas horas atrás. Gritando para mim mesma ‘’continue’, eu não me importaria de manchar a parede, deixar um rastro de polegares, anelares, indicadores, mindinhos e o famoso dedo do sinal feio. Não me importaria de cortar meus pés. Dessa vez, não. O que de errado eu estava fazendo?

Mamãe criou aquilo que chamamos de caos.

E com mãos e pés latejantes, eu o experimentava.

No décimo quinto degrau, algumas bufadas saíram pela minha boca. Parecia que a pequena princesinha estava maluca. Me deu vontade de correr para longe. Limitei o rastro roxo e nojento que a sujeira da minha mão fazia, ali. Pulei os dois degraus restantes como se estivesse brincando de amarelinha, chegando na casa dez, e por fim no ‘’Céu’’. Segundo andar, você é meu novo céu.

Corri, batendo os pés no chão com força, desarrumando tapetes, fingindo que não via.

Eu queria ser ignorante.

Via meu quarto como um refúgio das paredes cor de rosa. Entrei como alguém no anseio de roubar. Fui até as costas da porta, e forçando a madeira no chão, empurrei a porta até que se fechasse. Um barulho irritante e um risco perfeitamente curvado, como se a porta fosse um compasso de madeira, foi feito no chão.

Cambaleio pouco a pouco para chegar até a cortina da minha janela. Eu não queria mancar. Não queria rastejar.

Queria ser normal, como todo mundo.

Puxei a cortina até cobrir qualquer visão curiosa. Controlei a respiração, quando percebi meus ombros subindo e descendo, e o aparente fôlego escasso. Me sentia mais do que patética daquele jeito.

Com um suspiro profundo, tirei aquelas roupas sujas do meu corpo.

Minha profunda vontade era deitar no chão e congelar de frio. Mas eu neguei a mim mesma. Caminhei até o banheiro como se não sentisse absolutamente nada. Queria ser gelo. Queria ser uma boneca. Sem sentimentos, sem dor. E um sorriso lindo.

Empurrei a porta de correr de vidro que confinava o Box. Não quis me olhar no espelho, seria nojento. Liguei o chuveiro, na intenção da imediata água quente me queimar viva. Pelo menos, queria que me fervesse. Se isso me limparia? O que estava morto em mim escorreria por toda a extensão desse corpo junto com a água até ir para o ralo.

Queria que fizesse fumaça, embaçasse minha visão e condensasse os vidros. Queria desenhar com meus dedos, cantar e gritar. Gritar. Queria gritar. Alto. De jeito insuportável. Para importunar a mamãe e destruir minhas cordas vocais. Como se quisesse que se arrebentassem uma a uma.

E era o que eu queria.

Era terrivelmente amarga a sensação se segurar os sentimentos. Quase sufocante.

Olhei de maneira monótona aquele roxo escorrer entre meus dedos e as bordas das minhas mãos. Os pontinhos pretos fincados na minha palma, as farpas, foram puxadas uma quando a camuflagem roxeada se escorreu. Minhas curtas unhas só se mostraram mais inúteis para tal, mas eu não queria dar razão a mamãe.

A pele morta ao redor dos meus machucados era nojenta. Aquela coisa tinha que sair de mim. Até não sentir mais nada. De verdade. Até a princesa se convencer que está tudo bem. Está. Não foi humilhante, repugnante ou nojento.

Não, não foi.

Tudo bem.

Me senti perdida entre uma falsa névoa que criei em meu próprio banheiro. Quando desliguei o chuveiro, sentia que meu joelho estava em ‘’carne-viva’’.

Limpo, ao menos.

Tateei os ladrilhos molhados e escorregadios que compunham minha parede. Com pingos antes quentes, agora gelados, descendo das pontas dos meus cabelos, eu só queria sair dali para trocar de roupa logo.

Havia posto roupas que cobrissem meus machucados, e havia secado meus cabelos. Tinha deitado na cama por aproximadamente quinze minutos. Olhava para o teto branco, e lembrava do quarto dele.

Pai.

‘’Mamãe não veio pedir desculpas’’.

A mamãe estava quieta. Muito quieta. Não conseguia escutar nada do primeiro andar. A porta fechada não poderia surtir esse efeito de isolamento de som. Era só madeira lisa. E fina.

Não, não, mamãe está muda.

Depois de tanto gritar, cortaram as cordas vocais da Rainha e as puxaram para fora.

Haha, apenas brincando.

A Rainha considerava pedir desculpas?

Não Rin, a pergunta certa é se sua mãe alguma vez já pediu desculpas a qualquer um.

‘’Só não se iluda, criança.’’

Tic... – Com o corpo esparramado na cama, olhava incessantemente o relógio. Quase quatro e meia. – Toc.

Mamãe disse que eu poderia brincar.

‘’ -Mamãe... – Concentro meu olhar para as paredes limpas do corredor. – Posso brincar? Lá fora?

Com um breve sorriso, mamãe me responde.

–Claro, querida. Apenas não demore muito.’’

Me levantei da cama, balançando minha cabeça e passando as mãos entre os fios. Me sentei no colchão, e calcei meus sapatos neutros.

­-Tic... Toc...

Estalei a língua no céu da boca uma última vez, e fui em direção a porta. Não parei para espiar, não valia mais a pena qualquer resquício de cautela. Desci as escadas como qualquer um, batucando as paredes com as pontas dos dedos, e massacrando cacos de vidro.

–Mamãe. – Gritei para as paredes. – Estou indo brincar.

Senti o vento passar por mim e brincar com meus cabelos quando puxei a porta da sala sem pensar duas vezes. Sentir um pouco do calor do sol era reconfortante, eu acho. Estava tão distraída e desastrada que simplesmente corri para casa da frente.

Não sabia qual era seu quarto, em qual janela observava as pessoas, e em qual parede eu deveria me escorar para chamar seu nome.

Cada passo que dava, me sentia culpada de pisar na grama dele. Dava um tremendo medo simplesmente chamar por ele, sabendo que ele poderia dizer ’’Não’’ a qualquer momento.

Então me lembrei da mamãe.

Tenho medo dela. E do papai também. Len não era assustador daquele jeito.

Então não precisava ter medo.

Garo... – Mordi minha língua. – Len!

Os primeiros segundos se arrastaram. Quando completou o primeiro minuto, eu vi o quão impaciente eu sou. Uni minhas mãos em formato de concha, e as pus ao redor da minha boca.

–Len!

Tomei ar mais uma vez.

Ellen!

Tive o bom senso de perceber que o chamando de ‘’Ellen’’ ele nunca me responderia.

Afinal, de qualquer jeito, ele me responderia?

–LEN!

Me virei de costas para checar se passava alguém na rua. A situação que eu passava era embaraçosa. Se alguém me visse eu perderia totalmente a calma, que eu já não tinha, e me esconderia atrás de alguma planta do jardim que eu pisava.

Uma vez, na Tv, quando eu era pequena, eu assisti uma das milhares versões de Romeu e Julieta, só que feita por dois adolescentes, e muito mais legal que a original. Mamãe havia feito pipoca e tinha se sentado para assistir comigo. Ela disse que era chato, enquanto eu não dava ouvidos e mordia a ponta das almofadas.

Olhei para o chão, estendi minha mão entre as folhas e a grama, e peguei uma pedrinha fria e úmida, suja de terra.

A partir daquele momento, decidi sozinha ser a Romeu da minha história.

Dei alguns passos para trás, por pouco não tropeçando na calçada da casa dele, e caindo.

Não, dessa vez, não.

Não sabia em qual janela atirar.

Eu sabia que a minha mira era péssima. ‘’Sem jeito’’, desajeitada.

Olhei cada traço de cada janela que aquela casa exibia. E daí se não tivesse nenhum mero sinal de diferença? Eu iria tentar achar o quarto dele de qualquer jeito. E mesmo que se não fosse na frente, eu tentaria uma a uma do mesmo jeito.

O quadrado ao lado da porta, onde alguma coisa fora arrancada me desiludiu de apertar a campainha.

Vasculhei por todo meu corpo, dois décimos de coragem, e depois de encontra-los, atirei a pedrinha sem se quer olhar uma última vez para a segunda janela do segundo andar.

Só abri meus olhos quando ouvi o estalo no vidro.

Meu olhar percorreu a extensão da casa por inteira antes de chegar naquela janela. Eu não sabia muito bem o porquê de a ter escolhido, mas era aquela em que iria jogar as minhas forças, sem repensar se era idiota ou não.

Antes com medo de fazer alguma coisa, agora completamente vidrada á aquela janela.

Precisava tentar mais uma vez. Então de novo, e de novo, e de novo.

A cada arremesso eu me sentia mais retardada. O que eu estava fazendo? Tentando destruir uma casa? E se ele quisesse me ignorar? Ou... Ou só não estivesse em casa?

O que você está fazendo, Kagamine Rin?

Mas eu queria tentar mais. Mais uma vez. Procurei algo pesado, algo destrutivo. Minhas mãos já estavam machucadas e meus joelhos estragados. Nada era certo nem errado. Podia fazer se quisesse.

Quebrar, destruir.

Encontrei um pedaço daqueles tijolos alaranjados atrás da árvore que havia no jardim. O peguei usando as duas mãos, sacudindo entre os buraquinhos, que caíram algumas minhocas feias.

Voltei ao meu lugar, e usando o restinho da minha força pacata, eu joguei.

O barulho de vidro se quebrando se repetiu na minha cabeça.

Primeiro as minhas fotos, agora uma janela.

Tudo se quebrava.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove...

Garoto estranho.

–O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?

Descabelado e com cara de quem acordou agora, ele apareceu na janela antes dos dez segundos.

Eu... Acordei ele... Com uma janela quebrada...

–É que...

–Você... – Seus dedos percorreram as extremidades da janela, não se importando dos cacos machucarem ou não seus dedos. – Quebrou a minha janela!

Precisava manter minha cabeça inclinada para falar com ele, enquanto ele precisava abaixar a sua para me olhar. Encarei naqueles olhos azuis da cor do apontador, e aquele cabelo amarelo de giz de cera.

Se ELE tivesse me escutado na primeira vez...

Eu estava jogando pedrinhas na sua janela, mas você não aparecia!

Estreitando os olhos, ele bateu na própria parede, como um maluco.

–Então você tacou um tijolo, Rin?!

Ele realmente acha que eu sou a errada nessa história? Ele... Ele... Ele que não acordou desde a primeira tentativa!

–É que eu achei que precisava ser algo maior pra fazer mais barulho e chamar sua atenção!

Gritei sem medir o tom. Formei pequenos punhos com aquela atitude do garoto estranho. Ele, dando um sorriso de canto, parecia que iria morrer de rir.

ONDE JÁ SE VIU TACAR PEDRA NA JANELA DOS OUTROS PRA CHAMAR ATENÇÃO?

Me encolhi de vergonha. Pensei no filme do Romeu e da Julieta, pensei nas histórias que já li, nos contos nos livros de gramática.

–Uma vez eu li em...

Quieta. – Mostrou-se mais impaciente que eu. – O que você quer, peste?

...Droga.

O que eu quero de você, exatamente?

–An... Bem... – Meus pés doeram depois desse tempo. Quis o mexer de vergonha. ‘’Sem jeito pra mira’’? Eu era inteira sem jeito. Minhas mãos se uniram nas costas. Sem jeito. Isso era embaraçoso, só deixei me consumir. Sem jeito, sem solução. – Eu queria saber se... Quer brincar comigo?

Minha mente tilintava.

‘’Por favor, não ria. ’’

Olhei para ele mais uma vez, tendo noção que antes ele já me encarava. Quietamente esse estranho me examinava. Sua boca se contraiu, soltando uma palavra sem hesitação.

Não. – Manteve o olhar firme, porém cansado. Com cara de que alguém havia arrancado seu sono não fazia nem cinco minutos. – Vai pela sombra.

–Mas... – Engoli o meu pequeno orgulho. Eu não iria desistir. – Len! Eu não tenho ninguém pra brincar, brinca comigo!

Me encarou uma última vez, e deu de costas, sumindo para dentro do seu quarto, sumindo da segunda janela do segundo andar.

Fiquei parada lá por um pouco tempo, pensando o quanto vale o esforço com Len.

Era isso que ele queria, afinal?

Ser isolado pra sempre?

Assim como ele, me virei de costas, sentindo a irritação nas pernas se agravar um pouco mais.

Só parei de andar quando o ouvi me gritar.

ESPERA!

Sorri secretamente para mim mesma.

Então não.

Não era isso que ele queria.

‘’ -ELLEN, — Falei sem nenhum tipo de controle vocal. – NÃO SE VÁ.

Ele deu um suspiro tão alto que pensei que medir o controle de voz poderia ser uma das nossas coisas em comum.

Se bem que suspiro não é voz... Enfim.

–Eu só estou a cinco passos de distância de você. Para de gritar como se fosse vendedora de coxinha. – Len e suas associações retardadas... – E pela última vez, é Len, não ‘’Ellen’’. – Seus olhos viraram até mim. – Que é?’’

–Cruzes, Len. – Me virei devagar, esboçando o sorriso como um bebê bobalhão. O encontrei parado na janela, com os olhos mais atentos. – Estamos só alguns metros de distância, não precisa gritar como se fosse vendedor de coxinha.

Sua boca se alinhou com um profundo tédio quando notou que usei suas próprias palavras contra ele.

–Pô, como você é engraçada, realmente.

Sorrio com o comentário do mau perdedor. Formulo logo uma cara de tédio, como se não ligasse pra aquilo.

–Aliás, — Aquela curiosidade que eu não conseguia conter me pressionava a mascará-la de qualquer forma. – o que te fez mudar de ideia tão rápido?

Foi a vez dele sorrir.

–Porque você é estranha.

Estranha? Eu não sou uma versão feminina dele!

Ele... Ele era o meu garoto estranho.

E... Se eu fosse a estranha também, eu seria...

–H-hey! – Saiu como um grito desafinado, composto de vergonha.

–Já estou descendo.

Mesmo sabendo que ele sairia da janela, eu me virei de costas mais uma vez, numa tentativa de me esconder dele e de mim mesma.

De novo, o que eu estava fazendo?

Dessa vez, ele havia me deixado completamente sem jeito. E ele ao menos percebeu. Droga... Como esse estranho fazia essas coisas?! Droga, droga, droga.

Controle-se, Rin.

Virei-me de costas, voltando a olhá-lo, assim que escutei a porta da frente bater. Ainda com uma, mesmo que pouco aparente, cara de sono, ele veio andando até mim, piscando os olhos com força antes de parar do meu lado.

Murmurando um pequeno ‘’vamos?’’ começamos a andar lado a lado, como... Quase... Como se fôssemos amigos. Eu não sabia para onde estávamos indo, nosso destino continuava desconhecido, pelo menos para mim.

Ele andava pela calçada com uma tranquilidade quase assustadora, desviando umas poucas vezes das pessoas que contornavam nosso caminho. Queria resumir aquela coragem de antes para lhe puxar a blusa e perguntar para onde ele estava me levando.

Fomos para o lado contrário em que a escola ficava, e acabamos por nos afastar do bairro residencial em que vivíamos. Ao menos, a parte que conhecia.

Repentinamente, ele parou de observar a paisagem, como fazia até então. Me pegando um pouco de surpresa, porque eu o observava e não previa esse tipo de movimento, ele se virou para mim e me encarou firmemente.

–Olhando mais de perto, você é bochechuda. – Focou nas minhas bochechas, logo após se dirigindo para minha boca, onde ele fez uma espécie de sorriso vitorioso antes de comentar. – Ah, e tem dentes tortos... – Meus lábios se contraíram com essa. – E quando faz bico, fica igual um pato... Olha só, mais um animal pra lista.

Lista?

Que lista?! ­– O olho esperando uma resposta, qualquer resposta, vinda dele. Mas ele só sorriu, praticamente mandando um ‘’cala a boca’’ indireto. – Ah, você é muito chato...

–Faz o biquinho. – Voltou a encarar meus lábios. – Quack, Rin. – Mandei um olhar repreendedor, para ver se o incomodava nem que fosse um pouquinho apenas. Nada. — ...Quack.

Atravessamos a rua, dando em frente aos portões de um parque. Guardei um suspiro comigo quando percebi que nunca havia vindo aqui. Espiava por todos os cantos o que havia por lá. Segui Len, entrando pelos portões e observando todo o espaço nunca visto.

– ...Para. – Havia percebido que quase o deixei impune desses ‘’quacks’’ irritantes. – Apenas para.

Ele sorriu mais uma vez, levantando as mãos, como se eu fosse uma espécie de polícia que havia acabado de prender um criminoso.

–Parei. – Criei uma bela desconfiança. – Quer brincar de quê?

Meu olhar correu por toda aquela área. Aquele sim era um bom lugar para se esconder em todos os cantos, explorar novos rumos, e correr por aí.

–Pode ser esconde-esconde?

–Quer dizer pique-esconde? — Tinha uma certeza irrefutável que ele havia feito aquilo só pra me irritar. Seu julgamento deu como ‘’culpado’’, com sentença de beliscão fatal. Aproximei minha mão, e preparei minhas unhas. Apertei seu braço sem dó ou piedade, vendo sua expressão, mesmo que contida, de dor, aparecer. – Parei, é sério, parei.

Sei... ‘’Parou’’, né?

–Eu me escondo e você conta.

–Você tem certeza disso? – Suas sobrancelhas se arqueiam. – Esconde-esconde com só duas pessoas é meio chato, não acha?

Não tinha como discordar. De fato, aquilo tinha lá sua cara de entediante. Mas, nem que seja uma vez, pelo menos uma única vez, eu queria brincar com ele de uma das minhas brincadeiras favoritas. Eu não sabia o quanto isso iria durar. Meu colega de caminho a qualquer momento poderia desistir de mim. Não achava que mantínhamos uma inimizade antes, mas não éramos amigos. Não sei nem se ainda tenho o direito de chamá-lo assim. Ou intimidade.

–Mas é minha brincadeira favorita! – Juntei as mãos, sem controle vocal novamente. Isso seria o suficiente para convencê-lo? Ou eu só parecia uma chata, dependente dele, assim? Não, ele me ver dessa maneira, e tomar essa postura é o pior. – E... Além do mais, agora é só você que eu tenho.

Quis morder minha língua e engolir essas palavras.

Kagamine Rin, você não passa de uma metida.

Uma palavra foi gritada na minha mente.

‘’Desculpa’’.

Seu olhar viajou por todo o parque e assumiu um ar de monotonia. Sério, mas sem demonstrar nenhuma reação a essas palavras rudes e metidas que acabaram de sair da minha boca, ele se dirigiu a mim com uma estranha imparcialidade.

–Eu não quero ser seu amigo.

Nem bravo nem calmo, nem triste nem feliz.

Só disse.

E não esperou por nenhuma consequência.

–Quê?

No auge de um pequeno surto, eu guardava em mim mesma, diversos sentimentos misturados e confusos.

Não queria que o garoto estranho me abandonasse.

Você é uma daquelas. – Um tipo de fachada se rachava e quebrava lentamente em Len. Aquele que quem aparentava ser estava se quebrando, mostrando o quem realmente era. Tudo quebrava, afinal. Ele olhou para os pés, baixando a cabeça, sem ligar. – Só vai lembrar de mim quando os outros te esquecerem.

Mordi a pele morta que se escondia nos meus lábios.

Eu sabia, e não sabia o que dizer.

Só queria...

–Eu mandei parar. – Digo irritada, apertando sua pele num forte beliscão mais uma vez.

Talvez com a mesma, se não, maior, irritação do que eu, ele me encarou.

–Eu já parei de te encher o saco, caso não tenha percebido.

O aperto mais uma vez, me surpreendendo com a lentidão de Len. Só não falo que é abreviação porque não sou idiota. Contradizendo os pensamentos dele, sei que não sou.

–Não isso. – Forço meus dedos nele para o machucar. – Pare de abaixar a cabeça. Você se faz de fraco. Dá a impressão que... As pessoas são mais importantes que você. – Virei o rosto, na tentativa de apaziguar o que pensava. -...Não gosto.

Contraio meus lábios, tirando minha mão que o tanto apertava de seu braço.

–Hm. – Ele murmura, com a mesma significação de ‘’tá’’, ‘’aham’’.

–Imagino que... – Guardo um sorriso estranho. A quem eu estava tentando consolar? – As coisas não estejam muito bem para você agora.

–Jura?

Com um sarcasmo moderado na voz, Len me encarava, como se esperasse que eu tivesse desistido dessa pequena discussão. Não. Ainda não. Minha expressão de incomodada havia feito ele sorrir um pouco.

–Só não esqueça, Ellen. – Torcia por dentro pra que ele tivesse uma boa memória. Ele era um garoto estranho solitário, eu sabia disso. E se eu não estivesse com ele para consolá-lo... Que pelo menos se lembrasse de mim, e conseguisse se consolar sozinho. Sem a ajuda de ninguém. — Talvez não seja hoje, talvez não seja amanhã, mas, no fim, vai ficar tudo bem.

–‘’Vai ficar tudo bem’’? – O tom de deboche era tão alto que chegava a ensurdecer. Idiota. – Você sonha demais. Acha que o futuro é tão bom assim?

Eu poderia dizer várias coisas.

Poderia dizer algumas mentiras.

Quem iria saber?

Sempre me apoiei em quatro palavras que me eram reconfortantes.

Mas a verdade é que,

Não sei. – Nunca soube. E não saberei até chegar lá. – Só não se esqueça.

Talvez doesse soltar esse ‘’Por favor’’ que comprimi entre os lábios. Mas também não entendia o porquê do desespero de não querer que me esqueça. Eu o chamava de nomes estranhos na minha cabeça, e ria secretamente de quão travessa poderia ser. Não, eu conseguia ser incrivelmente boba. Acabei de tentar consolar um de nós. Cabe descobrir qual.

–Tá, tá... – Ele passa a mão pelo cabelo, arrumando aquela bagunça que ele mesmo havia feito. – Eu não esqueço, o que você quiser, Rin.

Ele.

Eu consolei ele.

Eu consegui.

Pode ser que ele tenha falado apenas para se livrar, mas, disse.

–Ótimo! – Percebendo o grito de entusiasmo, baixei a voz, como se fosse normal. – Podemos começar a brincadeira agora?

Dando um sorrisinho, ele revirou os olhos para provocar. Virou de costas lentamente, e levou as mãos aos olhos.

–Um, dois, três...

Levei um susto, começando a rir e sair correndo, para o mais longe possível dele. Se não conseguisse arrumar um esconderijo decente, colocaria a culpa nele por ter começado e ao menos me avisar.

–Até... – Assustei alguns pombos durante a correria. – Cinquenta!

Me escondi atrás de uma árvore de tronco largo, onde apoiei minhas costas e dei longas ofegadas. Espiei rapidamente Len, pra ver se ele ainda contava. Ainda. Voltei a me esconder por completo, suspirando cada vez menos.

Mordo meus lábios de dor.

Me abaixo e passo minhas mãos geladas pelas pernas.

Não entendia porque a Rainha machucava a princesa desse jeito. Mas ficava para sempre. Deixavam marcas. E eu procurava por alguém que as poderia tirar.

Levanto lentamente, tateando o tronco da árvore. Me desencostei um pouco, dando pequenos passos para trás e observando a casca da pobre árvore. Toda machucada. Machucaram a árvore. Tinham tantos nomes escritos nela. Uns riscados, outros com um coração em volta. A única coisa em comum é que havia um pequeno ‘’mais’’ entre todos eles. As pessoas vinham juntas para machucar a árvore. Como dois amigos, comparsas, parceiros de crime,

Ou casais.

Mais uma vez, o que você está fazendo, Kagamine Rin?

Só... Só era um fato que faziam isso juntos.

–Pique um, dois, três, Rin.

Levei um susto com a voz de Len. Olhei para trás, com medo de ser pega no flagra, mesmo não fazendo absolutamente nada.

Me inclinei para fora do esconderijo, encontrando um Len me encarando com cara de vitorioso.

–COMO ASSIM?! – Saí por completo de trás da árvore, revelando minha posição sem nenhum pingo de arrependimento. – ‘’Pique um, dois, três, Rin’’ é uma pinóia!

Ele me olhou arqueando uma das sobrancelhas. Falou ‘’pinóia’’ sem voz, apenas para me irritar. É só um xingamento um pouco estranho, não muito diferente de você.

Chato.

–Você se escondeu atrás de um graveto. – Murmura, me olhando de lado. – Muito camuflada, que isso, parecia até um militar.

O garoto estranho tinha uma ironia muito corrosiva.

E irritante.

Mais uma vez! – E outra, e outra, outra, outra e mais outra se for necessário. Que menino ladrão! - Essa não valeu.

Talvez na próxima eu não vá me distrair com nomes. Embora, admito, parece ser legal fazer isso com alguém.

Ao todo, foi algo perto de vinte e três rodadas. Isso é, sendo que somente o Len procurava. Esse menino é muito apelão, não é possível. Não importava, onde, quando e como, ele sempre conseguia me achar. Que irritante! Definitivamente tinha algo de errado com ele.

Na última vez, quando eu estava escondida atrás de um banheiro químico, Len simplesmente brotou do meu lado, dizendo, ‘’Nunca vai conseguir fugir de mim, Rin.’’

Então eu desisti.

De repente não fez mais sentido me esconder dele. Era algo sem escapatória, quase um ciclo vicioso.

E não minto, estou perturbada com essa frase até agora.

Mas tudo bem.

Era ele.

Eu estava sentada em um daqueles largos bancos de madeira que ficavam a disposição das pessoas. Sozinha, no entanto. Len havia saído pra comprar alguma coisa, enquanto eu descansava no banco. Trouxe minhas pernas a mim, as colocando encima do banco. Puxando um pouco a barra da calça que usava, eu vi algumas marcas rosadas e avermelhadas ao longo das minhas pernas.

Falei para mim mesma que cansei de sentir dor.

Se fosse para ser assim, apenas ignoraria e prenderia gritos, enquanto me divertia aqui fora.

Seria melhor assim. Quem iria saber?

Ao longe, conseguia ver Len voltando. Tratei de cobrir aquelas coisas mais uma vez, me ajeitando no banco. Ao chegar, se sentou do meu lado, mas com uma distância um pouco anormal.

O único problema dele é que minha insistência é mais forte que qualquer resistência dele.

Mordendo um chocolate nas mãos, ele notou que eu o observava em silêncio. Não me importaria de continuar assim. Len estava tão concentrado em comer que eu não pretendia atrapalhar. Porém, olhar ele desse jeito me dava uma fome imensurável.

O que me fazia querer vomitar. Mais uma vez. Sentia nervosamente os fios descerem pela minha garganta, mesmo não havendo nada ali.

A sensação era torturante.

Por isso, não queria sentir fome, para não sentir nojo.

–Tá... – Len falava entre mordidas e mastigadas, causando uma espécie de confusão e repulsa em mim. Porque a mãe dele não o havia ensinado? Isso era... Nojento. – Tá tarde já. Vai pra casa.

O vento arrastou algumas migalhas de sujeira para os pombos pelo o chão, e arrancou alguns balões de crianças desatentas. Folhas mortas caíram das árvores, e foram carregadas por aí. E enquanto meu cabelo voava pela minha cara, eu estava congelada, sem saber o que responder para ele.

Não era sequer uma pergunta.

Era uma expulsão.

Em formato de ordem.

Não.

Ele não se preocuparia comigo, a esse ponto, não há o que questionar.

–O quê que é isso? – Apontei para o chocolate. Não que eu não saiba o que era, só estava a fim de saber o sabor. E, eu não comia nada humanamente comestível desde a escola.

Len apontou para a pequena e gordinha barra achocolatada que perdia seu tamanho a cada mordida. Apenas assenti com a cabeça. Nossas conversas mudas eram pequenas e curtas, com coisas simples e básicas. ‘’Isso?’’ Ele perguntou. ‘’Isso. ’’ Respondi.

Deu de ombros.

–Chocolate com flocos.

–Chocolate com flocos?

–Chockito, anta.

Suspiro forte, praticamente assoprando na cara dele, para que perceba minha indignação.

Ou simplesmente receba baba, tanto faz.

–Me dá um pedaço? – Pergunto.

Seu olhar alternou-se entre mim e o chocolate diversas vezes. Eu já sabia que ele tinha a resposta em mãos, e estava só enrolando.

–Não.

Idiota. Muito idiota mesmo.

–Por quê?

–Porque ele é meu, e eu não quero dividir, simples assim.

Que idiota! Um idiota muito egoísta, por sinal. Será que, ele, sozinho, não consiga perceber que eu só quero ser legal com ele e ele comigo?

Bati minhas mãos no banco, explodindo minha indignação por todo corpo. Peguei a barra das mãos de Len, sem nem pensar em correr dele ou algo do tipo. Simplesmente dei uma mordida bem grande, o suficiente para me deixar com as bochechas cheias. O encarei emburrada, mexendo constantemente aquelas bochechas lotadas de chocolate.

E foi desse jeito, que consegui arrancar o primeiro sorriso sacana de Len.

–Nossa, Rin. Eu dei aquela cusparada caprichada aí nesse pedaço. – Seus olhos se focaram em mim, como um garoto terminando de fazer a maior proeza da vida. – Tá todo babado, se duvidar, você até fica grávida de mim por culpa disso.

Me afastei uns vinte centímetros, me arrastando rapidamente pelo banco. Quis gritar muito alto com ele. Muito mesmo. Sabia que meu rosto estava quente, mas estava pouco me importando com aquilo no momento.

Eu? Grávida dele? Nunca!

Garoto estranho.

Depois de alguns segundos encarando qualquer coisa que não seja ele, eu comecei a enxergar graça nas coisas que ele dizia. Daí eu percebi, mesmo que lentamente, percebi. Ele estava brincando. Tentando me fazer rir.

Ah, isso era definitivamente inesperado.

Não iria rir com aquilo, mas poderia sorrir. De modo meio devagar, fui pensando em como aquilo era estranho e ao mesmo tempo, engraçadinho. É. O suficiente para um sorriso.

–Bobo...

Ele olhou para mim, e fez o primeiro sorriso sincero que já pude ver escapar de seus lábios.

Talvez, antes, o meu motivo de sorrir era uma brincadeira um tanto idiota. Agora, era por ele. Len realmente era uma pessoa contagiosa, com aqueles sorrisos, claro. Eu sabia quando ele fingia, poderia o chamar de ‘’pessoa dos sorrisos falsos’’ facilmente. E dessa vez, dessa vez, foi verdadeiro. Genuíno. Porém, mesmo agora, eu me perguntava se o sorriso que dei para ele no meu desenho era realmente autêntico.

Observei o espaço que criei entre nós quando ele disse aquilo. Os segundos se arrastavam, me fazendo cada vez mais fraca. Toda hora que eu pensava ter esquecido de tudo, as memórias me atingiam com tudo. Foto quebrada. Escadas. Porta. Giz. Cabelo. Papai.

Coloquei minhas pernas para cima, e deitei minha cabeça no vão que nos separava. Sentia minha respiração descompassada se acalmar e voltar ao normal pouco a pouco. Ali, mesmo que pouco, eu sabia que podia descansar.

–Você é gorda mesmo. – Ele comenta, observando o céu. — Como se uma simples brincadeira de esconde-esconde se resumisse a uma maratona.

Prendendo minha atenção nas folhas que se desprendiam das árvores mais uma vez, eu escolhi guardar para mim mesma o que achava e não achava de Len. Ele poderia contar mil e um defeitos de mim, que eu não iria citar nenhum dele.

Conseguia ver o céu entre pequenos buracos que as folhas faziam. O céu estava escurecido com algumas tímidas estrelas brilhando. Poderiam não estar coladas, mas não estavam sozinhas, ao contrário do que mamãe dizia.

‘’ Sim, sim, queria que mamãe estivesse nelas também, mas ela respondeu que só havia fotos minhas pela casa porque eu era uma estrelinha, e estrelinhas deveriam brilhar sozinhas.

Nunca vi uma estrela brilhar sozinha. Estrelinhas ficam sempre juntas, brilham sempre juntas.

Estrelinhas são uma família.’’

–E é isso que podemos chamar de folgada. – Ele me olha com o canto dos olhos, enquanto se afastava um pouco, me dando mais espaço para deitar.

Esperava sinceramente que meu colega de caminho percebesse que a lista de todos os meus defeitos era longa e extensa, e que só gastaria tempo e saliva apontando eles.

Algumas mechas de cabelo escapavam e caiam entre os pequenos vãos que o banco tinha entre as madeiras. Não me sentia incomodada, quase me sentia mais leve daquele jeito. Quanto peso que a minha cabeça carregava só com meus pensamentos? Talvez eu fosse capaz de tombar para o lado e acertar o chão.

–Ei. – Olhando diretamente para mim, chama minha atenção. – Vamos embora.

Voltei a olhar a copa das árvores e o céu mais brilhante. De um segundo para outro, o antigo ‘’Tá tarde já. Vai pra casa. ’’ se tornou num novo ‘’Vamos embora’’. Que grande mudança, comentaria em voz alta. Fiquei levemente feliz, com um sorriso escondido em mim, por, pela primeira vez, a minha companhia ser desejada por ele.

Ele era imprevisível ás vezes.

Meu rosto foi segurado por sua mão, e minhas bochechas apertadas por seus dedos, me causando um susto que eu mesma não imaginava ser daquele jeito. Não soltei nenhum grito, nem tive nenhuma reação. Só olhei para ele assustada, medindo o quão possivelmente mau ele poderia ser.

Sem manter expressão nenhuma, olhou-me fundo nos olhos, espatifando aquele um décimo de coragem que eu tinha.

–Não se atreva a me ignorar.

Me solta. – O biquinho que ele tanto ‘’gostava’’ se sustentava na minha boca pelo aperto nas bochechas, fazendo minha voz se distorcer. – Por obséquio, — Juntamente com ‘’pinóia’’. – Ellen.

Sinto seus dedos se afundarem e apertarem mais forte a minha pele. Minha cabeça é balançada de um lado para outro, como se estivesse dizendo um ‘’Não’’ contínuo.

–Qual a dificuldade de dizer ‘’por favor’’? – Suspira, forçando uma pausa. — Já está ficando irritante.

Não tinha noção se aquilo era mais um defeito que ele tinha a pôr em mim. Eu estava o atrapalhando? O machucando? O incomodando? O perturbando? Não sabia ao certo.

Meus pensamentos se confundem e lentamente se embolam, gritando por alguma resposta. Vendo que ele queria algum tipo de reação, a pergunta foge da minha boca.

–O quê?

Respondendo de forma direta, e me surpreendendo um pouco, ele desfaz o meu embolo.

–Seu silêncio.

Agora ele merecia outro beliscão com bastante força e sem nenhuma moderação. Ele era confuso de um jeito tão complexo que era difícil demais entender. Silenciosamente, me perguntava se realmente valia a pena se arriscar e tentar.

Claro. – Roubo sua tão preciosa ironia. – Se eu falo demais, sou irritante. Se eu fico quieta, sou irritante. Se eu quero brincar, sou irri...

–Resumindo, — Mal educado como era, me interrompeu no meio da frase, pegando a atenção para si. – você é irritante de qualquer forma. – Ele solta meu rosto, pondo a mão no bolso. – Mas quando você me ignora, fica mais irritante.

Mexo meu maxilar, acostumando minhas bochechas a costumeira liberdade, que até poucos segundos atrás fora tirada. As pontas dos meus dedos fazem pequenos movimentos circulares nas minhas bochechas, a fim de tirar a sensação incômoda.

–Caramba, hein. – Reclamo em meia voz. – Meninos são brutos...

Contra-atacando o belo elogio que coloquei nele, mesmo que de forma indireta, ele responde.

–Meninas é que são frescas.

Frescas? Então ele não passa de um idiota de cabelo amarelo! Chato!

Bufo, expelindo ar quente pela boca. Continuo a mexer meus lábios, finalmente fazendo a região da boca se acostumar e fazer entender que o aperto passou. Era engraçado de um jeito cômico, que, só usando uma única mão e poucos segundos, ele quase havia me machucado. Percebi sem demora que, se ele quisesse, venceria de mim em tudo, e faria o que quisesse.

Eu não acreditava que Len era babaca, mas que era idiota, ah sim, isso era.

–Me promete uma coisa?

–Não sou de prometer coisas. – Ele responde rapidamente. – E o que você quer, Laranja murcha? – Ri daquele jeito sarcástico, olhando para cima, observando a árvore que estava acima de nós como um telhado de folhas. – Não acha que está muito cedo para ‘’selarmos a amizade eterna... Ah, embaixo de uma árvore qualquer’’?

Futuramente eu iria gritar com ele por ser sempre tão sarcástico com cada coisa que saía da minha boca. Eu era irritante? Ele era irritante. Isso sim esgotava a minha paciência, que muito ingênua, se preenchia todas as vezes que a cabeça martelava um ‘’Tente mais uma vez’’.

‘’ -Qual a dificuldade de dizer ‘’por favor’’? – Suspira, forçando uma pausa. — Já está ficando irritante.’’

–Por favor. – Digo.

–Promessas são... – Cruza os braços em frente ao peito. – inúteis.

–Por... Obséquio?

Um pequeno sorriso se forma no canto dos seus lábios, enquanto ele me olhava com olhos descrentes. Parecia que lentamente cedia para a minha insistência. Guardei mais um sorriso. Sabia que poderia facilmente quebrar a resistência dele.

Ele suspira, finalmente cedendo.

–Certo, o que você quer?

Tomei ar, e praticamente joguei as palavras para fora.

–Eu quero que, você prometa, enquanto nós formos amigos, você não irá me machucar.

Prendi minha respiração por fim, mordendo meus lábios, tentando não morrer de nervoso. Havia dito num pequeno trecho dessa frase, que éramos amigos. Sem mais nem menos, só disse.

–Te machucar? – Pergunta, como se não tivesse entendido o sentido de eu querer essa promessa. Ele balança a cabeça, como se não cresse nos meus motivos. – Vamos fazer uma aposta.

Penso seriamente em levantar e em dar um forte beliscão naquele braço. É uma promessa tão simples, porque estava me ignorando daquele jeito ridículo?

Só...

Só que ele não reclamou ou protestou quando afirmei que éramos amigos. Então eu sentia que havia vencido uma batalha.

Parabéns pra mim.

Ah, mas antes, a promessa.

–Não quero. – Respondo.

–Estou afirmando. – A cara de tédio se forma. – Não te perguntando. Não quero sua opinião.

Alguns fios do meu cabelo pousaram na minha testa após mais uma pequena ventania. Tratei de assoprá-los o mais rápido possível, imaginando se eles poderiam entrar na minha boca.

–Eu não vou fazer nada do que me pedir enquanto não fazer a promessa.

Com um toque de curiosidade, me pergunta.

–Por quê?

–Porque é importante pra mim. Só isso.

Revirando os olhos, ele tira a mão direita do bolso, e lentamente a ergue para os céus, exatamente como num juramento.

–Eu juro solenemente... – Dá uma pausa, como se acabasse de perceber algo. Ele se vira para mim, arqueando as sobrancelhas. – Sabe o que é solenemente?

Ah, agora o idiota duvida da minha inteligência.

–Sei.

–Eu juro solenemente que, enquanto o que a Laranja murcha chama de amizade e eu chamo de acontecimentos precoces e incômodos, eu não vou machuca-la. – Deu de ombros. — Fisicamente, não. Psicologicamente, eu te torturo.

‘’Acontecimentos precoces e incômodos’’.

Tudo bem, eu poderia viver com isso.

–Moço, você é assustador quando quer. – Confesso em meio a uma baixa risada preocupada.

–Eu te assusto?

Não. – Logo corto esse pensamento errado da cabeça dele. – Eu disse que você é assustador quando quer, não que me assusta.

Dando de ombros, mais uma vez, como se não se importasse, ele prosseguiu, a fim de conseguir o que queria.

–Bem então. – Me olhou. – Vamos a minha aposta.

Não tinha ideia do que ele gostaria de me propor, ou no que se atreveria a me propor, portanto, eu me levantei, sentando no banco ao invés de manter minhas costas nele. Passei a mão pelo meu cabelo, e arrumei minha roupa amarrotada. Ajeitei minha postura, e por fim, me sentei com as pernas cruzadas encima do banco.

–Ah. – Fiz pouco caso. – O que quer apostar?

Um olhar um tanto divertido quando desafiador se acendeu.

–Corrida até em casa. Porque, caso não tenha percebido, já devíamos estar em casa já faz muito tempo. Mas é uma aposta.

–Ou seja, só tem um vencedor e um perdedor.

Arqueei as sobrancelhas, esperado ele impor as condições do vencedor, isso é, caso ele vencesse.

–Se eu vencer, nunca mais eu te dou carona em dias de chuva.

Aquelas palavras me pegaram de surpresa. Não que eu contasse que sempre pegaria carona com ele, até porque, eu tinha muito bem um guarda-chuva. E, claro, não chovia todos os dias de todas as semanas de todos os meses aqui em Tokyo.

–Mas... – Calei-me, pensando numa condição no mesmo cunho. – Tudo bem. Se eu vencer, vai me dar carona, sim senhor. E ainda por cima vai ser obrigado a brincar comigo.

Ouvi uma risada baixa sair dele. Descendo do banco, achava que ele facilmente iria ir embora e me deixar para trás. Virando-se em minha direção, e parando na minha frente, numa distância estranha até para Len, se comportava como o perfeito garoto estranho que era.

–Admita que gosta de mim.

E, essa foi a vez que ele mais me pegou de surpresa.

–Quê?!

Inclinando seu corpo em minha direção, sustentando o mesmo sorriso sacana de antes, repetiu mais uma vez.

–Nem que seja só um pouquinho, você gosta de mim.

Não! – Gritei, sem raciocinar direito. Balancei minhas mãos de um lado para o outro freneticamente, negando com toda vontade possível. – Não, não, não, não, não, NÃO.

–Levou para o lado amoroso? – Olhei para ele com mais medo ainda. – Não Laranja murcha, estou falando amigavelmente.

...Amigável?

Por alguns segundos, meu coração quase parou. Ele supôs algo completamente absurdo com esse ‘’amoroso’’ idiota. Quem tem essas ideias? Ele é problemático. Fim.

Minha voz estava quebrada. Não sabia o que dizer.

–Eu...

–Não me diga que você pensou daquele jeito. Está cedo demais pra se apaixonar loucamente por mim.

Filho da... Porcaria!

Antes eu constantemente evitava olhar pra esse ser, mas agora não pude impedir de encará-lo. Como assim apaixonar?! Ele é idiota, e só pensa em coisas idiotas, garoto estranho.

Minha mão simplesmente avançou no braço de Len e o beliscou com força.

E a dele, bem, os dedos de posicionaram num perfeito peteleco, que estava prestes a ser solto na minha testa.

–Espera. – Trunfo mais do que sensacional. – Você disse que não iria me machucar.

Ele fez uma amarga cara de pensativo, como se não me der aquele peteleco fosse tirar a vida dele.

Tsc. – Ele chiou, abaixando a mão completamente a contragosto. – Quando eu disse que você supostamente gosta de mim, quero dizer que para me obrigar a brincar com você, você deve gostar da minha pessoa.

Tratei de acalmar a respiração. Vai nascer alguém mais idiota que o Len.

–An? – Percebo o quão minha voz trêmula me denunciava. – Ah...

‘’ -Eu também te amo, mamãe.

Ela arqueou as sobrancelhas.

–Muito?

–Muito.

–Quanto? – Ela pôs uma das mãos na cintura, enquanto usava a outra para representar. – Um muito assim... – Ela colocou dois dedos próximos, como se fosse só um pouquinho. – Ou muitão? – Mamãe abriu os braços.

Sorri animada.

–Um muitão assim! – Eu abri os braços. ’’

Estendi minha mão, e praticamente colei os dedos.

–Só um pouquinho. – Completo. – Só um pouquinho assim.

–Essa é a proporção que gosta de mim? – Pergunta, com a voz um tanto alterada. Estranhei de início, mas vindo dele, não deveria me preocupar desse jeito. – Podemos, por favor, parar de enrolar e começar logo o nosso ‘’joguinho’’?

Fiz menção de descer do banco, o fazendo se afastar poucos passos. Desdobrei minhas pernas, e meus pés foram em direção ao asfalto da calçada do parque. Olhei ao redor, procurando por aquele mesmo portão do qual viemos.

–A suas marcas, senhoras e senhores. – Começo, como se anunciasse o início de uma importante de corrida. Bem, era uma corrida, e valendo o que valia, tinha lá suas importâncias. – Preparar, apontar, VAI!

Pensei em começar a correr, mas meu colega de caminho esticou o braço na minha frente, me fazendo parar, no caso, me fazendo colidir com o próprio braço dele.

Olhei para ele a procura de respostas, enquanto ele apenas balançou a cabeça.

–Calma. – Seu olhar pousou no lugar que eu havia batido. – Assim não. Ao meu sinal. Três, dois... Um.

Só me toquei que o ‘’Um’’ tinha o mesmo significado de ‘’VAI’’ só depois que o vi correr para longe. Apelão, trapaceiro, menino ladrão!

–EI! – Gritei a plenos pulmões, chamando atenção de olhares curiosos que rodeavam o parque. Eu me pus a correr o mais rápido possível, tentando superar a diferença entre mim e ele. – ISSO NÃO VALE!

–O mundo é dos espertos!

Disse o idiota.

Precisei correr mais do que queria, mais do que aguentava naquelas condições. E tudo isso para quê? Uma carona na chuva? Alguém para brincar? Um vizinho legal? Uma companhia?

Ou... Para ele ter, nem que seja a única, amiga?

Ah, não importa!

Len corria rápido como um fugitivo. Precisava superá-lo de qualquer jeito. Ele dobrou a rua, atravessando o portão do parque. Acelerei o ritmo, dando de cara com uma senhora quando atravessava o portão exatamente como Len. Quase fui parar na rua com o piso escorregadio que a calçada apresentava. Um ciclista apertou o sininho para mim, quando me atrapalhei e quase colidi de frente com ele. Olhei para Len no meio daquela confusão, o vendo dobrar a próxima rua e sumir da minha visão.

Minhas pernas ardiam cada vez mais com o esforço.

Uma mulher que passeava com seu cachorro, o tomava com a guia enquanto usava headphones violetas. Passei correndo, sem ao menos pensar que poderia atrair a atenção do cachorro desse jeito.

Nunca corri tão rápido como naquele dia.

Atrás de mim, vinha um cachorro muito mal-humorado, que iria destroçar a carne das minhas canelas se eu desse chance. Acontece que eu não conseguia correr direito à medida que a dor me consumia. Sentia as pernas darem pontadas ardidas, como se enfiassem longas agulhas em vários pontos delas.

Dobrei a mesma rua que Len havia dobrado, observando meus ombros descerem e subir continuamente, sem trégua nenhuma.

Assim que o vi no fim da rua, comecei a gritar.

–Me espera! Len!

Acho que com isso, ele passou a correr mais rápido.

Observei as casas e os números conforme ia correndo. Em breve, em questão de segundos, eu chegaria em casa. E ele? Bem, aquele idiota já deve ter chegado na dele. Quando me aproximei o suficiente para me jogar dentro de casa e fugir daquela fera que me perseguia, pensei em algo diferente.

Tudo bem, aceitava o fato que ele havia me vencido.

Mas eu iria o importunar o máximo que conseguisse.

Ao invés de seguir meu caminho e aceitar os fatos como uma ‘’excelente’’ perdedora que era, eu o segui, aparecendo se surpresa no portão que ligava a parte frontal da casa ao jardim dos fundos. Sem dar ‘’Oi’’, ‘’Olá’’ ou ‘’Licença’’ invadi a casa dele sem mais, nem menos.

Pulo seu portão, aterrissando na grama extremamente verdinha que compunha o jardim dele. Ele, com uma vantagem incrível sobre mim, a esse ponto já se encontrava sentado em um dos galhos da árvore que habitava aquele jardim.

–Você está invadindo a minha casa. – Ele comenta.

Nada que eu não saiba, idiota.

Me aproximei devagar, esquecendo os modos e um possível receio. Depois de correr de um cachorro e pular portões, havia algo que não faria por Len?

–Ah... – Ofego, mesmo tentando controlar a respiração. – Desculpa... – Mais um suspiro é arrancado de mim. – Eu, eu vou pedir permissão para invadir sua casa na próxima, tá? Valeu colega.

Andei até a ponta da árvore, pisando nas raízes expostas. Olhei para Len, que de início não entendeu. Quer dizer, não sabia exatamente. Sentia que ele e seus olhos calculista me liam como um livro e me previam como um vidente. Talvez ele já saiba qual a minha atenção, e talvez só não queira me ajudar mesmo.

Mas a insistência sempre ganhará, iludido.

Estiquei as mãos para cima, exatamente como um bebê que quer colo.

Revirando os olhos, ele me estendeu suas mãos, onde eu gentilmente agarrei, e com ajuda dele, subi na árvore. Com um pouco de dificuldade, eu me sentei em um dos galhos, onde pude recostar a cabeça. Toquei minha mão com a ponta dos dedos, sentindo, secretamente, o calor de Len ali.

A mão dele era quentinha.

Fiquei em silêncio por poucos cinco minutos. Len, de certa forma, parecia incomodado comigo ali. Eu não sabia muito bem o porquê, mas ficava em silêncio para não acabar influenciando nada.

–Vai embora.

Suspirei cansada, esperando por aquilo mais cedo ou mais tarde.

–Hm... – Murmuro, até me lembrar de um fracasso de poucos segundos atrás. – Ah, espe...

–Vai embora.

Me seguro para não revirar os olhos. Era um incrível trabalho me esforçar para não irritar Len. Não entendia muito bem porque eu ainda tentava. Fazia menos de vinte minutos que ele havia falado com todas as letras que eu era irritante. Mantê-lo por perto iria ser desse jeito então?

Que problema.

–Você venceu. – Talvez eu tenha esfarelado o pouco orgulho que me restava. Em partes, me sentia triste por meu colega de caminho ser um egoísta idiota. Em outras, por pensar que se vencesse, iria obriga-lo a fazer alguma coisa. Ninguém faz algo que gosta ‘’obrigado’’. Olhei para ele com os lábios tremidos, que se continham para prosseguir. – Quero dizer, a aposta, a corrida, você venceu.

Suas sobrancelhas não escondiam sua irritação. Mesmo não sabendo muito bem o porquê de o irritar tanto, de fato, ele não me queria por perto. Focou em mim por mais alguns segundos, antes de desviar o olhar para longe, bem longe, de mim.

–Vai embora. – Repete sem nenhum traço de emoção na voz. – Já cansei de você.

Olho para baixo, espiando a altura em que estava em relação ao solo.

Len poderia ter a mão mais quente do mundo, mas ainda seria o garoto mais frio que conheci.

Não respondo absolutamente nada, uma vez que não fora feita nenhuma pergunta pra mim. Sentia, lá no fundo, que ele esperava que eu dissesse alguma coisa para ficar. Que voltasse. Okay, talvez num fundo bastante distorcido, mas sentia.

Len era um fraco.

Mas eu conseguia ser pior.

Já no chão, aquelas ridículas emoções aprisionadas em mim fervilharam. Me virei para ele, e antes que fosse tarde, antes que aquele um décimo de coragem se fosse, deixei as palavras escaparem pelos meus lábios.

‘’Bem, Len, tem algo que eu quero que você saiba.’’

No momento em que minha determinação se formou, mesmo a voz dele ficou baixa para mim. Aquela parcela que chamava de coragem era forte o suficiente para me fazer falar o que tinha de ser dito, mas não era suficiente para falar olhando em seus olhos, encarando seu rosto.

Precisei permanecer de costas, presa ao chão como uma estátua esbranquiçada.

–Vai...

–É impossível. Você pode reclamar o quanto quiser que é sozinho. Mas você é o único que não percebe que é você que afasta as pessoas.

Pronto, acabou.

A parcela corajosa se foi.

Andei até o portão que havia pulado com passos mecanizados. Quase como um robô enloirado. Empurrei a pequena porta de madeira que separava o quintal de trás do jardim da frente, e a bati atrás de mim, como uma mamãe irritada.

Atravessei a rua após dois carros prateados passarem na via da direita. Andei pela calçada que se estendia da porta da minha casa, até a da rua, cantarolando qualquer coisa que me fizesse esquecer.

Desejei que quando espiasse a casa da frente, eu não o encontrasse escondido no portão, me espiando em silêncio. Porque disso, eu sabia. A sensação de ser observada por alguém ninguém menos que ele, no momento, me aterrorizava, após ter dito aquelas coisas para ele.

Só sentia.

Não sabia, só sentia que estava sendo observada.

Virei-me devagar, de maneira mais discreta possível. Aqueles cabelos de giz de cera poderiam ser a sua identificação para o resto da vida. Voltei a me concentrar na porta com a mesma cautela que deixei. Estendi as costas da minha mão, batendo três vezes na porta.

Toc, toc, toc.

Notas finais
Olá, essa é a nota final do capítulo, por chegar até aqui, você ganha uma caixinha de toddynho e... OH, UM CHOCKITO BABADO ♥ HEEEEY, vocês lembraram das cenas quando viram as falas dos capítulos um pouquinho mais antigos? Por falar em capítulos, NO PRÓXIMO VAI DAR MERDA ♥ Ah, e esperem ANSIOSAMENTE pelo 64. É sério '3' Amanhã, uma pura sexta, e eu vou estar na escola fazendo trabalho de geo... Ah não, VÁ TOMAR NO MEIO DO SEU Apito Professora chata e-e Ah, e prestem bastante atenção nos capítulos, sim? Só digo isso~ Mais uma vez, obrigada pela recomendação, Sofhi Chan! ♥ AHHHHH, se acharem erro, FALEM? ♥ Nunca dá pra confiar só no corretor do word, e eu até leria o cap... se não estivesse sem tempo... DE NOVO e-e Ai ai, essa vida de colegial -qqqqq Vejo vocês nos reviews! ♥