Kaltblütig
1 Ligações ofensivas
SEXTA FEIRA — 14 DE MAIO DE 1993
Aquela era somente mais uma típica manhã na casa de Marinês Freitas. Ela estava arrumando a mesa para o café da família. Seus filhos estariam se levantando para mais um dia no último ano do ensino médio e seu marido, Miguel, um médico psiquiatra, já estava descendo as escadas.
– Bom dia, querido – disse Marinês ao marido, dando um beijo em sua bochecha.
– Bom dia, querida! O que temos para o café? – perguntou ele.
– Panquecas, claro! – ela sorriu.
Marinês foi até a janela da casa para ver se o seu cachorro estava comendo a ração colocada no reservatório mais cedo, e viu que dois policiais estavam chegando ao portão. Abriram-no sem tocar a companhia. Minutos depois, ouviram três batidas. Marinês saiu da janela e abriu a porta.
– Bom dia senhora – disse um dos policiais.
– Bom dia – respondeu Marinês.
– Nós somos os detetives Clóvis e Alcibides e estamos investigando uma brincadeira de muito mau gosto para muitas pessoas, que anda ocorrendo com uma de suas vizinhas.
Marinês olhou para os detetives por um segundo, sem entender qual era, afinal, o motivo de sua visita. Bianca e Luís desceram as escadas e se acomodaram à mesa, olhando para os detetives. Marinês quebrou o silêncio:
– Ah, tudo bem. Posso saber o que isso tem a ver comigo?
– Certamente. Nada a ver com a senhora, esperamos. Mas a vítima desses telefonemas ofensivos é uma mulher que mora no começo da rua, a dona Lourdes Conde.
– Oh meu Deus! Eu conheço a Lourdes! – disse Marinês, e Miguel levantou-se para ficar ao lado da mulher.
– Mas... Senhor Clóvis? Bem, ainda não conseguimos entender por que o interrogatório dentro de minha casa.
– Queremos pistas de alguém que possa estar fazendo isso com a Senhora Lourdes. O telefone está restrito, as cartas não têm remetentes, são deixadas diretamente na casa da vítima pelo autor ou autora. E o único email tem como remetente um anônimo, enviado por uma lan house – explicou Clóvis, e depois tirou uma folha de dentro do bolso – Este aqui é uma impressão do email que dona Lourdes recebeu. Gostaria que vocês vissem, e se tem alguma ideia de quem fala tamanha barbaridade...
Marinês pegou o papel e o abriu:
“Lourdes, eu te pego sua gostosona. Você me deixa com um tesão insuportável. Eu olho você dormir todas as noites e isso me deixa toda babada.”
– Oh meu Deus! – exclamou Marinês – eu nunca disse palavras de tão baixo calão, nunca mesmo! Ainda mais escrever... Que nojo!
– Não tem ideia de quem seja? – perguntou Alcibides.
– Seu nome é? – perguntou Marinês.
– Detetive Alcibides, senhora – respondeu ele, e então Bianca pigarreou, lançou ao detetive um olhar de sedução e disse lentamente:
– Oi, Alcibides!
Marinês olhou para a filha com um olhar de censura, e depois voltou a encarar os policiais.
– Muito bem, senhores. Não tenho ideia. Não ando com pessoas que usam esse tipo de vocabulário. Sinto muito em não poder ajudá-los.
– Nós agradecemos, senhora? – perguntou Clóvis.
– Marinês Freitas – ela sorriu.
Os policias então sorriram e deram às costas para a porta no exato momento em que Clarice e Pedro adentravam o portão.
– Estão com fome? – perguntou Marinês, sorrindo.
Miguel deu um beijo na bochecha da esposa e saiu da cozinha com sua pasta de trabalho na mão.
– Não, senhora Freitas. Comemos antes de sair de casa – respondeu Clarice, sorrindo.
Passaram-se alguns segundos até todos saírem da cozinha e se posicionarem na entrada da casa. Pedro entrou em seu carro e jogou uma camisinha para o banco traseiro.
– Você não devia fazer isso dentro do carro, rapaz – disse Marinês, sorrindo novamente – e deveria usar o cinto! Que mania a sua, não?
– Próxima vez eu me lembro, senhora Freitas – respondeu Pedro, entrando no banco do motorista e saindo com Clarice e Luís.
– Por que não foi com eles, Bianca? – perguntou Marinês.
– Eu vou com Fernando, mãe – respondeu.
– Posso saber quem é Fernando?
– Ai Mãe, ele é um gatinho! – ela estava sonhando, e neste momento, um carro branco virou na esquina – ai Mãe, ele está vindo! Vou esperá-lo lá na frente. Até mais tarde.
– Até querida! – respondeu Marinês, sorrindo para a filha e voltando para dentro de casa.
09h47 da manhã
Marinês fechou a porta de seu quarto e sentou em sua cama. Pegou o telefone em cima de seu criado e discou um número. Passaram-se poucos segundos quando alguém atendeu.
– Alô? – disse Lourdes, apreensiva.
– É da residência da tarada? – perguntou Marinês, engrossando seu tom de voz.
– Mas que inferno! – respondeu Lourdes – pare de ligar pra cá!
– Aí não é da Avenida Xoxota, 4785?
– Sua... – Lourdes hesitou, mas continuou — Sua Vaca, vadia!
– Agora o código postal é 212, Galinha!
Fátima vinha entrando pelo jardim de Marinês com uma cesta de piquenique nas mãos. Assim como os policiais, ignorara a campainha.
– Marinês? – chamou ela, aproximando-se da porta de entrada – Marinês, querida você está em casa?
No segundo andar, a ligação de Marinês para Lourdes continuava.
– A polícia vai localizar essa ligação! – exclamou Lourdes, desesperada.
– Bem, dona Lourdes Conde, pode me dizer então, por que eles não estão aqui? Cara de porra!
– Vá à merda! – gritou Lourdes e desligou o telefone.
Marinês soltou uma risada e voltou a discar. No andar de baixo, Fátima abriu a porta da cozinha, e entrou na casa.
– Marinês, está em casa? – perguntou ela, entrando e olhando para os lados – eu sei que está.
Marinês colocou novamente o telefone no ouvido, e Lourdes o atendeu com uma rapidez surpreendente.
– Já não disse pra ir à merda? – atendeu ela, nervosa.
– Como disse? – perguntou Marinês, alterando novamente sua voz para um tom mais suave.
– Quem é? – perguntou Lourdes assustada. Será que tinha cometido um engano?
– Quem fala é a Senhora Oliveira, da companhia telefônica. Soube que você tem um problema com telefonemas obscenos.
– Sim, eu estou com esse problema – disse Lourdes, calma, enquanto Marinês ria e tentava abafar – desculpe Senhora Oliveira, mas estou ficando louca! Já mudei o número do meu telefone duas vezes... Sou uma mulher divorciada... Ajude-me!
Fátima chegou à escada e chamou mais uma vez. Não obteve resposta. Então ouviu vozes no andar acima. Resolveu subir silenciosamente.
– O que foi exatamente que essa pessoa doentia lhe disse? – perguntou Marinês.
– Ai, eu não posso dizer tais obscenidades. Eu não falo palavrões!
– Ah meu bem, eu sei que é difícil, mas para dar início a investigação, nós precisamos das palavras exatas.
– Vou tentar... – Lourdes hesitou, mas por fim continuou – ela me chamou de tarada!
E então Marinês segurou uma risada.
– Ela me chamou de tarada! Disse que eu tenho... cara de porra! Um absurdo!– repetiu Lourdes.
Marinês então respondeu com o tom de voz mais grosso.
– Veja como fala, sua piranha!
– Sua desgraçada! – berrou Lourdes.
– Sua vagabunda! – gritou Marinês.
Neste momento, Fátima subiu o último degrau e caminhou devagar até a porta e ouviu:
–... Ordinária! Pega homem! Prostituta!
– Sua puta! – Lourdes respondeu e neste momento, as duas desligaram o telefone.
Fátima abriu a porta:
– Marinês? – e ela se assustou.
– Fátima!
– Você está bem?
– Ah sim, claro. Eu estou bem! – viu então a cesta nas mãos de Fátima – Ah! Mas que bom que você se lembrou!
– Era o mínimo que eu podia fazer – disse Fátima enquanto Marinês retirava e abria a cesta.
Dentro dela havia algumas linhas de costura e uma tesoura.
– Ouvi gritos! – disse Fátima.
– Ah! – respondeu Marinês, disfarçando – era da companhia de TV a cabo. Você sabe... Eles são fogo!
– Eu que o diga! Já passei tanta raiva com eles... – respondeu Fátima, sorrindo.
– Você ficou sabendo da pobre da Lourdes Conde?
– Ah sim, eu soube! Isto é terrível! A polícia foi em minha casa hoje!
– Mas quem, por Deus, ia querer molestar a pobre da Lourdes Conde? – perguntou Marinês, cruzando os braços.
15h15 da tarde
Marinês dirigia seu carro rumo à escola de Luís. No caminho, passou à frente da casa de Lourdes, que estava varrendo a calçada. Ambas acenaram uma à outra. E então, Marinês entrou em um devaneio.
Ela agora estava caminhando por um supermercado lotado. Pessoas com sacolas, carrinhos e cestas de compras por todos os lados. Aproximava-se do depósito, onde apenas um carrinho grande estava disponível. A compra serviria para o mês inteiro, necessitava dele. Estendeu a mão para pegá-lo quando uma mulher lhe esbarrou, pegou o carrinho e saiu caminhando sem olhar para trás. Mas Marinês a reconhecia. Aliás, reconheceria aquele cabelo de miojo, curto, cor castanho, em qualquer lugar. Tratava-se da adorável e respeitada Lourdes Conde.
Sua rivalidade indireta com a vizinha começara ali.
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