Kaltblütig
2 Atropelamento
15h35 da tarde
Marinês parou seu carro, um gol cinza, em uma das vagas disponíveis e entrou na escola, passando por vários corredores para chegar à sala da reunião. Levava com ela uma pequena caixa do Super Mercado Carrefour. Um bolo de presente para o professor.
– Mas senhor Gilberto! – chorava uma mulher, sentada de frente para o professor. – Meu filho estuda a noite toda! Está fazendo o máximo que pode!
Gilberto olhou para a mulher e simplesmente respondeu:
– Bem, há adolescentes que não estão preparados para a faculdade. Isso é absolutamente normal! – ele então sorriu. – Agora, se não se importa, tem outros pais esperando...
A mulher encarou-o, ressentida.
– Obrigado por ter vindo à APM – disse ele, voltando a atenção para o diário de notas.
Marinês chegou ao corredor e rumou para sentar ao lado de Paulo e Ana Marcelino, duas pessoas já quase idosas, pacientes de seu marido.
– Oi Ana! – disse Marinês ao ver a mulher, sentando-se do seu lado.
– Oi Mari! – respondeu Ana.
– Que roupa linda essa que você está vestindo! – disse Marinês.
– Oh, muito obrigada!
Paulo então olhou para Marinês e sorriu.
– Muito bem, senhora Freitas, onde está o seu marido? – perguntou ele. – Deixando todos mais loucos do que já estão com suas contas absurdas? – Paulo e Ana riram, e então Marinês deu um sorriso forçado, como se estivesse morrendo de ódio pelo comentário.
– Ah Paulo! Você é muito engraçado!
A porta da sala se abriu, e a mulher que estava com o professor saiu na frente, chorando. Gilberto apareceu em seguida.
– Ah... Senhora Freitas está?
– Sim, estou aqui! – disse Marinês, levantando-se e entrando na sala.
Ela rapidamente se sentou na cadeira de frente ao professor.
– Senhora Freitas, eu sou o professor Gilberto, dou aula de geografia ao Luís!
– É um prazer conhecê-lo! – disse Marinês, sorrindo e apertando a mão do professor. – Ah! Ia me esquecendo, trouxe isso para o senhor! – ela entregou o pacote com o bolo.
Gilberto deu uma olhada. Era um bolo de chocolate e tinha uma cara ótima.
– Ah! Bolo de chocolate! Obrigado mesmo senhora Freitas! Agora, vamos falar de Luís.
– Bom apetite! – disse Marinês, sorrindo novamente.
– Muito bem... Luís começou bem este ano... Ele se concentra, participa ativamente na sala de aula...
– É, eu sei, ele é um bom garoto! – disse Marinês, orgulhosa.
– Pode ser, mas tem um grande problema!
Marinês mudou a expressão.
– Qual?
– Sua obsessão doentia por filmes! Todos os tipos de filmes! Isso o prejudica! Ele acha que tudo na escola, ou em qualquer lugar, poderia ser um filme!
– Oh não! – Marinês sorriu. – Luís trabalha em um cinema!
– Pois bem, mas isto não justifica a imaginação que ele tem... Imaginação mórbida! Semana passada, eu tomei dele este celular. Começou a colocar músicas de terror durante a aula, músicas instrumentais... E fazia gestos de como se estivesse com uma faca e prestes a matar alguém...
– Nossa... – Marinês estava literalmente boquiaberta.
– Há algum problema em casa? – perguntou Gilberto.
– Mas claro que não!
– Divórcio? Parente alcoólatra?
Marinês olhou-o boquiaberta mais uma vez.
– Diga-me – continuou ele. – O Luís maltratava os animais quando criança?
– Não! Nunca! Eu amo os animais, amo a natureza! Atualmente tenho estudado para ser veterinária! Tenho um afeto inexplicável por cachorros, gatos e pássaros, e qualquer tipo de animal. Eles são inofensivos! Jamais permitiria que um filho meu machucasse um! Nós somos uma família carinhosa e unida!
– Mas alguma coisa tem de errado, senhora Freitas – continuou Gilberto.
Marinês fechou a cara para o professor.
– Seu filho precisa de terapia! – ele não ia desistir. – Um psicólogo!
– Meu marido é psiquiatra! E saberia se meu filho estivesse louco, senhor Gilberto! – explodiu Marinês.
– É só uma opinião! – Gilberto sorriu. – De qualquer forma, muito obrigado por vir à APM! – terminou ele, encerrando a conversa.
Uma garota estava fumando um cigarro no estacionamento da escola, sozinha. Parecia estar absorta em pensamentos. O carro cinza de Marinês estava parado, a pouca distância da saída dos professores. A reunião havia acabado havia mais de 30 minutos.
Gilberto abriu a porta da saída e desceu os poucos degraus em direção ao seu carro, o último do estacionamento. Marinês então deu a partida e acelerou lentamente, parando atrás de Gilberto assim que ele desceu o último degrau.
Por um momento, o professor não percebeu. Depois se virou, comendo um pedaço do bolo e acenou para a mulher. Marinês retribuiu o aceno. Assim que ele deu as costas para continuar andando, ela acelerou o carro ao máximo.
Gilberto atingiu violentamente o vidro, rolou por cima do carro e caiu no chão, atropelado. Ainda consciente e tentava se levantar. A garota que fumava olhou toda a cena, completamente perplexa.
Marinês parou o carro e olhou pelo retrovisor. Gilberto ainda se mexia. Então ela pisou na ré e passou novamente por cima de seu corpo. Neste momento, a garota saiu correndo. Marinês olhou para Gilberto. Não se movia, os olhos estavam abertos e a boca também, então ela colocou seus óculos escuros e saiu do estacionamento. O vidro de seu carro estava manchado de sangue.
Parou no primeiro posto lava rápido que encontrou.
15h22 da tarde
Luís, Clarice e Pedro estavam no quarto do amigo, assistindo a um filme de comédia romântica. Eles riam das trapalhadas dos personagens principais.
– Isso é tão idiota! – reclamou Pedro. – Poe filme pornô!
– Ah, assiste o filme quieto, bestão! – disse Clarice.
– Bom, vou ao banheiro – disse Pedro, levantando-se da cama e indo em direção à porta.
Ao abri-la, Marinês apareceu como um fantasma, com uma bandeja nas mãos.
– Não sei o que tenho hoje! Mas quero que saibam que me sinto ótima! – disse ela. – Querem biscoitos?
– Com licença, senhora Freitas! – disse Pedro, correndo do quarto. Ele parecia estar apertado.
– Oi! – disseram Luís e Clarice juntos.
– Oi gente! – disse Marinês, olhando para a TV. A cena do filme mostrava duas mulheres apaixonadas acariciando uma à outra e se beijando. – Ah! Essa molecada! Comam um biscoito! E quando terminarem de comer, já está na hora de ir, Clarice!
– Mas Mãe, o filme ainda não acabou! – protestou Luís.
– Nada de “mas”. O senhor Gilberto acha que esses filmes prejudicam seus estudos! – disse ela, desligando a TV.
– Caramba! É só uma comédia romântica! – disse Clarice, surpresa.
– Ah mãe, o Senhor Gilberto é um idiota!
– Puxa! – disse Pedro, voltando ao quarto. – Esse filme é melancólico demais!
Marinês pegou uma revista que na capa havia uma mulher seminua.
– Está esquecendo isto, Pedro! – disse ela, entregando-lhe a revista.
– Nós já estamos indo? – perguntou ele, surpreso.
– Sim, vocês estão – respondeu Marinês.
Clarice e Pedro se despediram e saíram do quarto, deixando Marinês e Luís a sós.
– Ouça Luís – disse ela, sentando-se na cama. – Sei que é difícil ser adolescente. Eu sou sua mãe e amo você!
Pedro olhou-a surpreso, então ela voltou a atenção para a TV. Pegou o controle e ligou-a, dizendo:
– Podemos ver aquela cena de novo? Aquela que as mulheres se beijam e tiram as roupas uma da outra?
18h30 da tarde
– Senhoras e senhores! O perfeito rocambole de carne! – disse Marinês ao colocar o prato à mesa.
– Parece gostoso! – disse Luís.
– Nada como comida caseira! – disse Miguel.
Marinês sorriu para os filhos, e virou-se para Bianca:
– Ah, Bi, querida, fiz seu prato preferido! Brócolis com Gergelim!
– Mãe, o Fernando me disse que se eu perder 5 Kg, ele me leva à festa da Universidade São Judas!
– Bem, querida, se você quer perder peso, devia fazer isso por você e não por um rapaz que você mal conhece...
– O Fernando é um idiota! – exclamou Luís.
– Ele certamente dirige como um idiota! – disse Miguel.
– Fernando me faz feliz! – disse Bianca, aborrecida. – Isso ameaça esta família?
– Não, querida. Estou feliz por você – disse Miguel.
– Também estou! – disse Marinês. – Só queremos que seja feliz!
De repente, todos ouviram gritos.
– Marinês! Cadê você, Marinês! Ai meu Deus do céu! – a voz era de mulher.
– É a Fátima! – disse Marinês, levantando-se da mesa. – Tem alguma coisa errada!
Fátima já estava dentro da casa, chegando à cozinha.
– Ligue a TV! – disse ela, sem fôlego. E olhou para Luís. – Um professor da sua escola foi assassinado!
– Assassinado?! – exclamou Bianca.
– Quem? – perguntou Luís, e ele e Bianca se levantaram.
– Um tal de Alberto... Roberto... – disse Fátima.
– O senhor Gilberto? Ele é o meu professor de geografia! – disse Luís, correndo para a sala.
– Esse mesmo! – disse Fátima, seguindo o garoto. Marinês, Bianca e Miguel foram atrás.
– Que canal está? – perguntou Miguel, pegando o controle.
– Eu vi na Record! É um plantão! – disse Fátima.
A televisão foi ligada e ouviu-se a voz da jornalista:
– A polícia afirma que o professor foi violentamente atropelado no estacionamento da escola. Ainda não possuímos maiores informações.
O telefone tocou e Luís atendeu.
– Alô? – perguntou ele.
– Você viu? Estou chocada! – disse Clarice. – Parece filme de terror!
– Estou vendo, depois te ligo – disse Luís, desligando o telefone e voltando a atenção para a TV.
– O professor Gilberto Almeida tinha 43 anos... – disse a Jornalista.
– Quem quer tenha sido, merece pena de morte! – disse Miguel.
– Até agora só apareceu uma testemunha – disse a Jornalista, e Marinês mudou a cara, olhando fixamente na garota que aparecia em sua TV.
A garota que estava ali era a mesma que estava fumando no momento do acidente. Marinês não a notara quando decidiu tirar a vida do professor.
– Minha jovem, pode me dizer o que você viu? – perguntou a jornalista.
– Era um Gol cinza! – respondeu ela.
– Essa é a Fernanda Credes! – disse Luís.
– Ela injeta todas! – disse Bianca.
– O quê? – perguntou Marinês, interessada.
– É viciada em drogas! – respondeu Luís.
– Era um Gol cinza...
– Olha, igual ao seu carro, Mari! – exclamou Fátima.
– Ah! Fátima, eu não dirijo tão mal assim! – respondeu Marinês, rindo.
– Foi repulsivo! Achatou o cara que nem uma panqueca! Ah, foi nojento cara! Devia ter visto, foi sangue pra todo o lado...
– Desligue isso... – disse Marinês.
– Não acredito que o Senhor Gilberto esteja morto... – disse Luís.
– Ué, você falou que o odiava! – disse Bianca.
– É, ele era um babaca mesmo, mas não merecia morrer! Ainda mais dessa forma tão horrível! – respondeu Luís.
Marinês olhava para todos como se estivesse chocada.
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