Kaltblütig
3 Investigação
22h45 da noite
Miguel estava deitado em sua cama com um livro na mão, e Marinês fazia uma oração, ajoelhada.
– Não paro de pensar naquele pobre professor – disse ele, enquanto Marinês levantava e deitava ao seu lado.
Ela então pegou um livro cuja capa estava intitulava “Cachorros: O Melhor Amigo da Mulher” e abriu-o na página a qual parara de ler.
– Mas fazer o que... Boa noite, meu bem – disse Miguel, apagando a luz do seu abajur. – Não leia até tarde. Um grande dia treinando cachorros nos espera...
– Já sei todos os cachorros da vizinhança que vamos treinar amanhã... – disse Marinês, olhando para o livro.
A página que ela estava, no entanto, não continha figuras ou textos sobre cachorros, mas sim a foto policial de dois homens negros, com uma legenda que dizia: “João Gabriel de Oliveira – Matou 65 pessoas em quatro semanas no povoado de Vila Rasa, em São Paulo. E Fabrício Borges – Está preso em um dos Presídios de Segurança Máxima. Estuprou e matou 142 mulheres em três meses no estado do Pernambuco. Era conhecido como o ‘Metedor de Vadias’. Foi condenado a 150 anos de cadeia, ou seja, até a morte”.
– Boa noite! – voltou a dizer Miguel, fechando os olhos.
Marinês então fechou o livro, desligou o abajur e colocou a mão no peito do marido.
– Ei, e o meu beijo de boa noite? – perguntou ela.
Miguel abriu os olhos e sentou-se mais próximo da esposa.
– Eu achei que com essa tristeza da morte do professor...
– Temos que nos concentrar na vida, no presente, querido – disse Marinês, acariciando o rosto de Miguel.
E então eles se beijaram.
– Por mim tudo bem, Mari – disse ele, tornando a beijar a esposa.
Parou novamente e levantou-se um pouco.
– Você quer, querida? – perguntou.
– Claro que sim! – respondeu Marinês.
– As crianças estão acordadas?
– Faremos em silêncio!
– Que bom que você é minha esposa!
– E você também é demais!
– Você me dá tesão! – disse Miguel. – E muita paz!
E os dois voltaram a se beijar, dessa vez com mais vontade e intensidade.
Em questão de segundos, Miguel já estava por cima da Marinês.
– OOOOOOOOH! – gritou ela.
Bianca ouviu. Estava lendo uma revista sobre garotos e arregalou os olhos.
– Não acorde as crianças! – pediu Miguel.
Novamente, outro gemido:
– OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOH!
Desta vez Luís, lendo uma revista de cinema, ouviu os gemidos e olhou com repugnância para sua porta fechada.
Agora, Marinês estava por cima de Miguel.
– Querida, você está tão quente hoje! – disse ele.
O momento ficou um tanto mais bizarro, quando os movimentos de Marinês davam a impressão de que estava realmente pulando em cima do corpo de Miguel.
Luís e Bianca abriram as portas de seus quartos, encararam um ao outro com uma expressão constrangida e olharam para a posta fechada do quarto dos pais. Não conseguiam acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo.
– QUERIDA! – gritou Miguel – EU... ESTOU... QUASE... LÁ!
Sábado, 15 de Maio – 07h30 da manhã
Marinês vestiu uma roupa verde, como aquelas em que as pessoas que vão a excursões pelas florestas costumam vestir. Mariane, uma garota alta, de cabelos pretos, estava indo em direção à casa de Lourdes, já no fim da rua.
– Que está olhando, Mari? – perguntou Miguel, ainda deitado.
– Os passarinhos! São tão lindos! – mentiu ela.
Marinês acompanhou Mariane com o olhar até ver que Clóvis e Alcibides, os detetives, conversavam com Fátima e ela apontava com o dedo para sua casa. O que será que poderia estar dizendo sobre ela? Sobre sua família? Ainda mais para dois detetives.
O telefone tocou e Miguel atendeu.
– Alô? – perguntou ele.
– Oi. Aqui é Paulo Serrat e preciso de uma terapia hoje! Estou louco!
– Bem, senhor Serrat, ligue para o meu escritório e peça que marquem sua consulta para segunda-feira, e eu o atenderei.
– Segunda? – perguntou Paulo, desesperado.
Ana então pegou o telefone da mão do marido.
– Miguel, aqui é Ana Serrat. Ele vai se matar até segunda! Pode ter um infarto de tão louco que está!
– Ah, tudo bem Sra. Serrat, às 10 horas – disse Miguel, desligando o telefone. – Lamento querida, mas os cachorros estarão aí no fim de semana que vem.
Marinês já estava tirando a roupa que colocara para treinar cachorros.
– Tudo bem, eu entendo – disse ela, sorrindo. – Não gosto muito de fazer isso sozinha, foi o nosso acordo para passar mais tempos juntos. Vou preparar o café.
Ela saiu do quarto e fechou a porta lentamente. Depois, disparou pelo corredor com uma expressão severa, como se estivesse prestes a matar alguém. Entrou no quarto de Luís e chamou ao seu ouvido:
– Luís!
– Mãe! – gritou ele. Estava sem camiseta. – O que foi?
Marinês sorriu.
– É hora de levantar. Não quero que chegue tarde ao trabalho, você entra mais cedo de sábado. Sempre esquece.
Ela então saiu do quarto.
– Você me assustou! – disse ele, levantando-se.
Marinês chegou à cozinha e Bianca estava sentada à mesa, chorando.
– Bi, querida, por que está chorando?
– Ele não veio me pegar! Eu mato aquele canalha! – disse Bianca, ainda chorando. – É sério! Aquele canalha deveria estar morto!
Marinês então olhou pela janela de sua cozinha e viu que Clóvis estava mexendo em sua lata de lixo. E então, viu Alcibides com uma prancheta na mão olhando por outra janela, para dentro de sua casa e fazendo anotações. Ficou assustada.
– Ele disse que vinha! – continuou Bianca. – Eu mato ele!
Marinês então saiu da janela e olhou para a filha.
– Não diga o que você não pensa, Bi.
Alguém bateu à porta.
– Eu acho que é o Fernando, Mãe! – disse Bianca.
– Não querida, são os detetives.
Bianca voltou a chorar.
Marinês abriu a porta e sorriu ao ver Clóvis e Alcibides parados, encarando-a.
– Bom dia detetives – disse ela, dando as costas aos dois e voltando para a mesa.
08h10 da manhã
– Bom dia senhora Freitas – disse Clóvis.
– Oi detetive Alcibides! – disse Bianca, com um olhar sedutor.
– Bom dia, Srta. Bianca – respondeu ele, indiferente.
– Bom, senhora Freitas, acho que soube da morte do Senhor Gilberto, não? – perguntou Clóvis.
– Ah sim! – respondeu Marinês. – Um bom homem. Um ótimo professor.
– Contusões, fraturas, ruptura de vários órgãos vitais... – Continuou Clóvis.
– Meu Deus! Que horror! – disse Marinês.
O motor de um carro ficou audível na cozinha e Marinês espiou pela janela. Os olhos de Bianca brilharam.
– Não querida. É Pedro e Clarice.
Bianca voltou a fechar a cara, triste.
– Pedro, aquele que não usa cinto de segurança! – disse Marinês aos detetives.
Miguel e Luís entraram na cozinha.
– Bom dia detetives – disse Miguel.
– Pesadelo na escola! – disse Clarice, assim que entrou na cozinha.
– O massacre do professor Gilberto! – anunciou Pedro.
Pedro, Clarice, Luís e Bianca riram.
– Não tem graça! – disse Miguel, enquanto Luís e Clarice se beijavam.
– Bom – continuou Clóvis. – Senhora Freitas, foi de carro até a APM ontem?
– Sim, eu fui – respondeu Marinês sem hesitar.
– O que significa isso, detetives? – perguntou Miguel.
– Sei que parece estranho, mas só há um aluno do professor Gilberto cujos pais possuem um Gol Cinza, como a de vocês – disse Alcibides, sem rodeios.
Todos na cozinha encararam Alcibides boquiabertos.
– Está dizendo que Marinês está ligada a isso? – perguntou Miguel, irritado.
– FOI ELA! – berrou Pedro – Foi com o carro para cima do professor Gilberto e o esmagou! Eu vi tudo!
Todos olharam para Pedro, chocados com sua revelação. Mas em seguida, ele caiu no riso. Marinês o olhou, incrédula, segurando seu ódio.
– Cala a boca, Pedro. Não fale bobagens! – disse Luís.
Marinês se colocou ao lado do marido.
– Bem, pelo o que eu entendi... A única testemunha é uma viciada em drogas...
– Sei quem você pode atropelar, Mãe! – disse Bianca, rindo.
– Bianca! – repreendeu Miguel. – Que coisa feia de se dizer! – e então ele se virou para os detetives. – Acho que está na hora de vocês irem embora! Minha esposa não sabe nada sobre esse terrível acidente!
– Assassinato – corrigiu Marinês.
– Olha que gata! – disse Pedro, mostrando uma revista com uma mulher na capa.
– Deixe-me ver isto! – disse Alcibides severamente, pegando a revista e analisando sua capa. Uma das letras grandes, que compunha o título, estava cortada.
– Está faltando um “P”. As letras batem com o formato do P da carta em recortes que Lourdes Conde recebeu – disse Clóvis.
– Olhe, querido! – disse Marinês, pegando a revista e mostrando a Miguel. – Esta revista é da Fátima. Pode ver pela etiqueta. Não gosto de ler revistas de costura, são tediosas. E além do mais, eu sempre reciclo as minhas revistas.
Miguel concordou com a cabeça.
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