Kaltblütig

7 Fuga | Penúltimo capítulo


DOMINGO – 16 DE MAIO. 08h03 DA MANHÃ

Marinês voltava a pé de sua habitual ida à Feira no domingo de manhã. Trazia na pequena sacola algumas bananas, maçãs e mais algumas frutas que a família adorava consumir.

Passava na frente da casa de Lourdes, parou por um momento e resolveu olhar pela janela. Aproximou-se lentamente, olhando para os lados para se certificar de que ninguém a estava vendo. Espiou pela janela.

O ódio subiu a sua cabeça rapidamente, ao mesmo tempo, o choque.

— Meu Deus! – sussurrou ela para si, bastante perplexa. – Não acredito no que eu estou vendo!

O que quer que estava acontecendo na sala de Lourdes Conde, conseguiu deixar Marinês sem palavras. Ela realmente não conseguia acreditar que aquela mulher fosse capaz. Como ousava?

Correu para casa, que era apenas a alguns metros de distância, largou as coisas que comprara na cozinha, e silenciosamente, subiu para o quarto. Miguel ainda dormia. Ela abriu uma de suas gavetas e tirou uma câmera fotográfica. Voltou correndo para a casa de Lourdes, onde espiou pela janela.

Novamente, sua boca escancarou de choque. Ligou a câmera e começou a tirar várias e várias fotos, sem ser notada.

***

10h37 da manhã

Marinês e sua família trancaram a porta de sua casa devidamente vestidos. Ela conversava com Miguel. Pedro, com Bianca. Eles não notaram a cena surpreendente diante da casa até se redirecionarem para o quarto.

Havia uma enorme fileira de viaturas paradas do outro lado da rua. Mais de 15 policiais estavam encostados em seus carros, de braços cruzados, encarando a família sem nenhuma expressão decifrável.

O primeiro carro parado era de Clóvis e Alcibides, e eles sorriam alegremente. O primeiro até acenou, como se fosse apenas mais um vizinho.

Marinês retribuiu o sorriso e falou ao marido:

— Vamos? Não quero chegar atrasada.

A família Freitas entrou no carro. Miguel deu a partida e deixaram a garagem. Todos, exceto Marinês, estavam bem apreensivos.

No mesmo segundo, todos os policiais entraram em suas viaturas, ligaram os veículos e seguiram o carro da família pela cidade.

— Pai! – disse Bianca, já chorosa. – Você disse que estava tudo bem! Dispense-os! Isto é constrangedor! Estou... Meu Deus!

— Não ligue para a polícia, Bi. É só um terrível engano! – disse Miguel.

— Vamos aparecer no Brasil Urgente? O Datena vai falar mal de nós? E se aparecermos no programa do Rezende? Ou, quem sabe, em um noticiário internacional? Cara, que fantástico! – exclamou Luís.

Marinês sorriu para o filho.

***

— Família Freitas na Sapopemba! Indo na direção leste. Câmbio! – disse Clóvis no rádio. – Desta vez eles não irão a lugar algum! – ele sorriu para Alcibides.

E continuaram o percurso pela cidade. A fileira enorme de carros de polícia seguia o carro da família Freitas por todas as ruas.

— Eles estão indo para a igreja! – disse Alcibides, surpreso.

— Proponho prendê-la! – disse Clóvis, no rádio.

— Negativo! – Respondeu uma voz de mulher pelo equipamento. – Só depois que chegar o relatório do laboratório comparando as impressões do livro com as da tesoura e da lança.

Clóvis fechou a cara, ranzinza.

***

Miguel dirigia tentando manter a calma. Marinês olhava para os lados, indiferente. Luís e Bianca estavam visivelmente tensos, sem coragem de dizer uma única palavra. Até que uma notícia os pegou de surpresa pelo rádio:

“A morte do casal Ana e Paulo Serrat na noite passada eleva para quatro o número de crimes pelo primeiro assassino serial da região Leste de São Paulo. As informações não são detalhadas...”

Bianca e Luís se encararam de bocas abertas. Miguel olhou para Marinês, que não mudou a expressão, nem ao menos reação para o que acabara de ouvir.

— Não! Os Serrat, não!

— Ah! É uma pena! – disse Marinês. – Eles deveriam ter escovado os dentes!

— Aha! – foi a única coisa que Miguel conseguiu dizer, enquanto Bianca olhava para a Mãe, de olhos arregalados e boca completamente aberta. Luís tinha a exata mesma expressão.

As informações continuaram no rádio:

“O detetive Alcibides Gosterr revelou o nome do suspeito no caso dos assassinatos. E é chocante! Ela! Isso mesmo! Uma mulher! E ela foi identificada como Marinês Freitas!”

— Ah, é mesmo? – perguntou Marinês, soltando uma alta e gélida risada.

Miguel já não conseguia se controlar. Sentiu suas mãos tremerem e sua boca ficou notavelmente aberta, assim como os filhos. Não sabia o que dizer.

— Droga! – exclamou Bianca. – Nunca mais vou arrumar um namorado!

Luís riu.

— Mari, eu li a respeito disso! – disse Miguel.

Marinês o encarou, curiosa, com um pequeno sorriso no rosto.

— É a menopausa? – perguntou ele.

— HAHAHA! Ah, querido... – e ela se calou, sem tirar o sorriso do rosto.

— Diz a verdade, mãe! – pediu Luís. – Olha só, por mim tudo bem... Você é uma assassina serial?

— Ah, Luís, querido! O único cereal que conheço é Sucrilhos! – respondeu Marinês, dando risadas mais uma vez.

O semáforo acendeu a luz vermelha e Miguel parou o carro. Na faixa vizinha, parou um veículo de cor preta, com as janelas abertas. Havia um casal no banco da frente e duas crianças no banco traseiro. Eles estavam à direita de Marinês.

Ela os olhou e sorriu. No segundo seguinte, Marinês quase saltou de seu banco com o susto. A família gritara desesperadamente e acelerara o carro, quase provocando um acidente por avançar o sinal vermelho.

Marinês olhou para o marido, assustada.

— Não se preocupe, querida! – disse Miguel. – Vamos arrumar um bom psiquiatra para você!

Ela voltou a olhar para frente. O semáforo acendeu a luz verde e então a família continuou seu caminho, as viaturas sempre os seguindo.

***

O sino tocava. Havia muitas pessoas do lado de fora da igreja, conversando e aguardando o início da missa.

Miguel parou o carro próximo à porta de entrada. Todos desceram do carro e foram notados pelos outros presentes. O silêncio foi total. A atenção das pessoas se encontrava na família Freitas.

— Olha só aquilo! – exclamou Lourdes de braços cruzados, ao lado de Fátima.

— E na casa de Deus! – disse Fátima. – É muita cara de pau!

Miguel e Marinês deram as mãos e seguiram pelo caminho até a entrada da igreja. Todos abriram espaço para que eles pudessem passar sem encostar-se a absolutamente ninguém, e os olhavam com medo e repugnância. Especialmente para Marinês.

Alyson e Ronaldo, os lixeiros, estavam ali vestidos adequadamente.

— Veja quem está aqui! – comentou Ronaldo.

— Ah! Rô! Aly! Oi! – disse Marinês, contente ao vê-los.

— Olá! – disseram os dois juntos, sorridentes.

— Luís! – gritou Clarice.

Seus pais a seguravam com força pelo braço, impedindo-a de ir até o namorado.

— Não, Clarice! Não pode falar com ele! – disse a mãe da garota.

— Oi Clá! – disse Luís, triste ao ver a mãe da namorada impedindo-a de vir falar com ele. Também não ousou se aproximar.

— Tudo bem, querido! – disse Marinês, ainda seguindo o caminho. – Eles não merecem ter você por perto.

Pedro e sua família também estavam ali. Ele olhava para Marinês com repugnância.

— Bom dia, senhoras! – disse Marines olhando alegremente para Fátima e Lourdes.

Nenhuma das duas lhe respondeu. Marinês parou, olhou nos olhos de Lourdes e sorriu maliciosamente. Lourdes ficou constrangida, vermelha e virou o rosto para outra direção. Fátima fizera o mesmo.

De repente, um homem se jogou na frente de toda a família e tirou uma foto com um flash muito forte.

— Ah! – exclamou Marinês. – Mas o que foi isso?

— Diga, senhora Freitas, a senhora é uma mãe assassina? – perguntou o fotógrafo.

— O que? – perguntou Marinês.

— Ah, por favor! Sem comentários! – disse Miguel, tentando impedir o rapaz de tirar mais fotos.

— Gostei do título “Mãe Assassina”! – disse Luís.

Marinês sorriu.

— Ela está entrando na igreja! Câmbio! – disse Alcibides no rádio.

Ao passar pela porta da igreja, Marinês notou uma grande placa que dizia: SERMÃO DO DIA – PENA DE MORTE E VOCÊ.

Ela entrou na igreja e todos ali dentro a olharam, assustados. Sentou-se atrás de uma mulher que segurava um bebê em seu colo. Segundos depois, as várias pessoas do lado de fora começaram a entrar e se acomodar. A reunião já estava prestes a começar.

O padre se posicionou em seu lugar em cima do altar e falou em um microfone:

— Levantem-se.

Todos obedeceram.

— Bendito seja o Pai, o Filho e o Espírito Santo...

— E Bendito seja o reino d’Ele agora e por toda a eternidade... – concluiu o restante da igreja.

O rapaz fotógrafo olhava muito para Bianca, que começou a fazer pose para impressioná-lo, sorridente.

***

— Aqui é o Capitão Lucas, do Departamento de Homicídios! – chamou uma voz pelo rádio da polícia. – Os relatórios do laboratório confirmaram! As impressões encontradas no livro conferem com as das armas dos crimes. Marinês Freitas é a assassina! Vamos lá rapazes, prendam a víbora!

— Entendido! – respondeu Alcibides, sorrindo. Ele e Clóvis foram em direção à igreja. Todos os outros policias os acompanharam. Marinês não teria como escapar desta vez.

***

O padre continuava com o sermão do dia:

— Enquanto estava na Cruz, Jesus não condenou a pena de morte. Condenou?

— Não! – responderam os membros.

— Se já houve um momento a se protestar contra a pena de morte, não foi naquela noite?

Todos os membros falaram entre si.

— A pena de morte está legalizada em vários países. E o que estamos esperando, amigos cristãos? Está na hora de nos juntarmos para conseguir a legalização por aqui e começarmos a aplicá-la! Enquanto ainda temos tempo!

Todos os policiais entraram na igreja e viram que os membros estavam em silêncio perante a reunião. Os detetives e mais quatro policiais encontraram assentos disponíveis, enquanto os outros se posicionaram nas portas do fundo da igreja, e do lado de fora.

— Amém! – disseram os membros.

— E agora, todos de pé novamente! – pediu o Padre, e todos se levantaram. – Vamos orar e confessar nossos pecados a Deus!

— Deus misericordioso, confessamos que pecamos pelo o que fizemos e pelo o que deixamos de fazer...

Marinês falava as palavras de olhos fechados. Então sentiu uma leve coceira no nariz. Iria espirrar. Segurou na primeira tentativa para não fazer barulho durante a oração, e continuou dizendo as palavras normalmente. Porém, quando sentiu pela segunda vez, não conseguiu segurá-lo:

— ATCHEEEM!

Gritos para todos os lados na igreja. Todos saíram correndo de seus lugares. O padre foi um dos primeiros a desaparecer.

Marinês correu em direção ao palco enquanto os policias e os detetives tentavam passar pela multidão, completamente desesperada e fora de controle.

— MARINÊS? MARINÊS?! – gritava Miguel.

Ronaldo e Alyson seguraram Alcibides e deram um soco em seu rosto. Marinês viu e acenou com o polegar.

— AH! Muito bem! – disse ela, subindo em cima do palco e percebendo uma porta ali nos fundos, quase despercebida. O padre passara por ali.

— LÁ ESTÁ ELA! – gritou Pedro, apontando para a senhora Freitas em cima do palco.

Luís e Clarice já estavam ao lado de Marinês e a puxaram para a porta.

— Vamos mãe! – gritou Luís.

O rapaz fotógrafo tirava várias fotos de Bianca, que fazia todo o tipo de pose, até que um homem passou correndo com toda a violência e a derrubou.

A porta a qual Marinês saíra com o filho e Clarice dava nos fundos da igreja. Lá, eles avistaram o carro de Pedro.

— Vamos mãe! – disse Luís, correndo e puxando-a.

— Depressa Senhora Freitas! – exclamou Clarice. – Entre no carro!

— De quem é? – perguntou Marinês.

— É do Pedro! Entra logo! – pediu Luís. – Ele sempre deixa a chave em baixo do pneu!

Luís então retirou a chave e correu para o banco do motorista. Ligou o carro e falou:

— Vão ver só! Estaremos no maior noticiário! Vamos ficar famosos no mundo inteiro. Parece mentira!

— Ah! Que demais! – disse Clarice, empurrando Marinês para o banco traseiro e fazendo-a abaixar a cabeça. – Você supera o Freddy e o Chucky! Até o Jason! E é real!

— Eu preciso de um advogado? – perguntou Marinês.

— Não! Precisa de um empresário! – respondeu Luís, sorridente.

Luís deu a partida no momento em que Pedro apareceu pela mesma porta a qual tinham acabado de sair. Arregalou os olhos ao vê-los.

— EI! EEEI! – gritou ele, correndo atrás do carro, sem sucesso.

***

Miguel corria para seu carro, enquanto Bianca tentava acompanhá-lo sem deixar de fazer pose para o fotógrafo.

— A sua esposa... – começou o fotógrafo ainda tirando as fotos, mas Miguel o interrompeu.

— SEM COMENTÁRIOS! Marinês sumiu, e estou preocupado com ela!

Bianca deu a volta no carro para entrar no banco do carona, e o fotógrafo a chamou:

— Ei! Ei Bianca! Mais algumas fotos!

— Sim! – disse ela, fazendo várias caras e bocas sensuais.

— Sou Rodrigo Vasconcellos, do Jornal O Estado de São Paulo.

— Oi Rodrigo! – disse Bianca, em tom de sedução. Estava adorando.

— BIANCA FREITAS, ENTRE NO CARRO! – berrou Miguel, impaciente.

Bianca fez algumas caretas e obedeceu, ainda tentando posar para as fotos de Rodrigo. Miguel arrancou com o carro.

***

12h08 da manhã

Luís parou o carro no estacionamento do cinema onde trabalhava.

— Hoje eu fui escalado pra cuidar da locadora... – disse ele. – E já era pra termos aberto! Venha Mãe! Antes que eu seja demitido!

Marinês saiu correndo do carro e tentou acompanhar Luís e Clarice.

— Vamos pegar o elevador de serviço. Por sorte, eles foram trocados e as câmeras serão instaladas só semana que vem. Vem!

Entraram no elevador e subiram até o andar do cinema, que estava vazio a não ser pelos poucos funcionários que rondavam por ali. A locadora ficava ao lado da bilheteria. Luís correu até a porta de funcionários, certificou-se de que ninguém os observava e entrou com Clarice e Marinês. Seguiram por alguns corredores até chegaram à porta dos fundos da locadora.

— Vamos, entrem! – pediu ele.

***

— Estamos seguindo marido e filha! – disse Clóvis no rádio. – Nem sinal da maldita mãe assassina. Ela fugiu rapazes! Que droga, encontrem-na!

***

— Mas, Luís...

— Vem Mãe...

Ele puxou Marinês até uma prateleira colada à parede, a poucos metros de distância do caixa. Puxou-a e Marinês se surpreendeu ao notar que era uma porta secreta, que levava ao estoque da locadora.

— Entre aí! – pediu ele.

Marinês entrou reclamando:

— Isto é uma bobagem!

— Tchau Mãe! Fique aí! – disse Luís, fechando a porta.

Marinês olhou ao redor. Havia duas janelas na outra extremidade da parede e outra porta entreaberta ao fundo. A sala era enorme. Então, ela ouviu alguém bater na porta da locadora com força.

— Clientes! – disse Luís para Clarice. – Abra!

Clarice correu para a porta e Luís ligou a TV. A pessoa que cuidara da locadora no dia anterior estava assistindo a um sangrento filme de terror.

— Bom dia, senhora Squerdo! – disse Clarice, acompanhando uma velha de cabelos pretos, baixinha e com uma expressão carrancuda até o caixa.

— Bom dia – respondeu ela, com certa arrogância.

A Senhora Squerdo olhou para a TV boquiaberta, chocada com o filme que Luís havia colocado. Na cena em questão, um homem mascarado usando uma serra elétrica, arrancava a pede do rosto de outro rapaz.

Sua expressão ficou ainda mais carrancuda:

— Escute aqui, meu rapaz, já não chega de violência? – disse ela. – Desligue esse vídeo agora! Que absurdo!

Marinês abriu um pouco a porta secreta para ver a dona da voz arrogante. Sua expressão era maquiavélica.

— Desculpe... – disse Luís antes de desligar a TV.

A Sra. Squerdo colocou um DVD em cima do balcão.

— Vocês tem o musical “Annie”?

— Temos sim! – disse Luís, indo em direção a uma das prateleiras e pegando outro DVD. – A senhora trouxe o “Mamãe Fantasma”?

— Claro que sim! Adoro musicais, querida! – disse ela, olhando para Clarice. Desta vez, não foi arrogante.

Luís abriu o estojo do DVD e notou que o disco estava solto, com várias raladuras no inferior.

— Ai, senhora Squerdo... Bem que toda vez que trabalho na locadora, me avisam sobre a senhora. Por que não coloca o DVD corretamente, para impedi-lo de ralar? Quando quiser alugar de novo, vai estar ruim e com certeza vai culpar a gente! A senhora tem que devolver adequadamente!

A sra. Squerdo voltou a fazer uma expressão carrancuda.

— Por quê?

— Por quê? Vejamos... Porque este é o certo a fazer. Já fizeram até um regulamento para mostrar pra senhora! – disse Luís, irritado.

— Você acha que tenho tempo de colocar DVD bonitinho dentro dessa caixinha? Moleque atrevido! – rebateu a Sra. Squerdo.

Marinês revirou os olhos, mas olhava bem para a sra. Squerdo. Sentia seu rosto ferver.

— Está vendo aquele cartaz ali em cima? – Luís apontou para um cartaz grande na parede. – É o Regulamento, a mando da gerência. Se devolver o DVD com estragos, multa de R$9,90.

Marinês tremeu os lábios, nervosa.

— R$2,99 da locação, com mais R$9,90 real, são R$12,89.

A velha tirou o dinheiro da bolsa nervosa e jogou por cima do balcão.

— Fique com o troco seu filho da louca! – gritou ela, saindo da locadora com o musical “Annie” em baixo do braço.

Clarice e Luís observaram-na sair rebolando e começaram a rir.

— Que megera! – disse Clarice.

— Isto é influência dos filmes ridículos que ela vê!

Os dois riram novamente.

— Você concorda Mãe? – Luís esperou a resposta de Marinês, que não apareceu. – Hein Mãe?

— Senhora Freitas? – perguntou Clarice, apreensiva, mas também não obteve resposta.

— Mãe? Mãe!

Luís correu para a sala a qual deixara Marinês. Ela não estava na sala e a porta dos fundos estava aberta.

— Você não acha que... – começou Luís.

— Acho sim! – disse Clarice, correndo de volta ao balcão.

— Qual o endereço da Senhora Squerdo? – gritou Luís, procurando em meio aos documentos de dados dos membros da locadora com sobrenomes na letra S.

Clarice encontrou rapidamente.

— Emília Squerdo. Avenida Padre Antônio Vieira, número 19.

— Meu Deus, é no início da rua. Vamos, por via das dúvidas!

Luís fechou a porta da locadora desesperado. Os outros funcionários o observaram, sem entender, descer as escadas rolantes correndo ao lado de Clarice. Praticamente derrubavam as outras pessoas que passeavam pelo shopping. Chegaram ao piso térreo e voaram pela porta de entrada sem olhar pra trás. Pedro os viu passando, respirava ofegante. Tinha corrido da igreja até o shopping e resolveu segui-los.

***

Emília Squerdo cortava um pedaço de perna de cordeiro para comer com pão. Era o seu habitual lanche para assistir relaxada ao filme que acabara de alugar. Usava uma grande peixeira para desfiar a carne.

Colocou alguns pequenos pedaços dentro do pão de forma e foi até a sala, onde a TV já estava ligada e preparada no menu do filme “Annie”. Pegou o controle remoto e, sorrindo, pressinou o play. Mordeu um pedaço do lanche, preparando-se para acompanhar as letras das músicas.

12h33 da manhã

O portão da casa de Emília estava aberto. Marinês entrou sem enfrentar poblemas. A porta, porém, estava trancada. Ela estremeceu, mas logo constatou as pequenas janelas de vidro que a compunham. Pegou uma pequena pedra em um dos vasos do quintal. Ouviu o som de música alta que vinha da casa. Bateu com força no vidro. Enfiou a mão e sentiu a chave na fechadura. Girou-a duas vezes. A porta estava aberta. Olhou para o quintal e se certificou de que ninguém estava olhando. Abriu a porta.

O cachorro de Emília, que estava na sala, começou a latir.

— O que foi Silvéster? – perguntou Emília. – Um passarinho de novo?

O cachorro fungou.

— Shh! – pediu Emília. – Por favor! Mamãe vai assistir “Annie”.

Ela já estava empolgada, dançando lentamente em sua poltrona. O cachorro começou a latir mais alto.

— Quieto Silvéster! – pediu Emília novamente. – Não tem ninguém aí! Venha, lambe os pés da mamãe!

Ela ergueu as pernas e o cachorro correu para lambê-los. Ela deu algumas risadinhas enquanto cantarolava a canção.

— Assim! Eu gosto bem molhadinho!

Luís e Clarice pararam na frente da casa de Emília.

— Número 19 – disse Clarice.

— É aqui! Vamos até a janela! – disse Luís, correndo.

As janelas, porém, eram demasiadas altas para que pudessem ver dentro da casa.

Pedro parou na esquina, a poucos metros de distância e ainda mais ofegante. Observou os amigos tentando pular para ter alguma visualização da sala da grande casa. Ele observou a casa ao lado, alguns passos entre o muro e a parede que as separava, e notou a placa “Aluga-se”. Notou na varanda e correu até lá, na esperança de conseguir subir e entender melhor o que estava acontecendo.

Luís levantou Clarice com as mãos, suportando seu peso.

— Suba! Ela está aí? – perguntou ele.

— Emília está vendo “Annie”! – disse ela, quase caindo de cabeça.

Marinês acariciava a barriga de Silvéster na cozinha. Em seguida, pegou a grande peixeira e foi em direção a sala.

Pedro conseguiu chegar à varanda da casa ao lado e teve uma visão perfeita da sala de quem quer que estivesse morando ali.

Marinês então entrou no aposento, lentamente se aproximou da poltrona de Emília, sem ela perceber. Levantou a faca, com a intenção de golpear a velha na cabeça.

Pedro pôs a mão na boca. Não podia estar vendo aquilo!

Marinês abaixou a faca, mudando de expressão, e correu de volta a cozinha.

Pedro se aliviou, respirou fundo. Luís conseguiu, com a ajuda de Clarice, se pendurar no pequeno parapeito para visualizar a sala. Emília sozinha, satisfeita, cantando e dançando as músicas do filme.

— É, ela está cantando “Annie”! – disse ele.

— Eu lhe falei!

Marinês colocou a faca sobre a mesa, e pegou o grande pedaço de perna de cordeiro que Emília estava preparando. Antes de voltar à sala, deu alguns pedaços de carne ao cachorro.

Entrou novamente no aposento. Estava decidida. Pedro acompanhava tudo.

Marinês então levantou o pedaço de perna bem ao alto, e desceu com toda a violência e força contra a cabeça de Emília. O segundo golpe fez com que a velha virasse a rosto e olhasse nos olhos de quem era a sua atacante. Depois, Marinês acertou com força o nariz de Emília, que a fez cair da poltrona de costas no chão.

Em seguida, a mãe assassina deu seis golpes mortais nas costas e cabeça da sra. Squerdo, enquanto a música “Annie” ainda tocava.

— MORRA! – gritou ela após bater a última vez.

Levantou-se e retirou o disco de dentro do aparelho de DVD. Colocou-o delicadamente no estojo. Sorriu, satisfeita.

— É assim que se faz, sua múmia!

O sangue manchava o tapete branco da casa e a TV estava coberta por pingos vermelho escuro. O cenário era de terror e perturbador. Quando Marinês virou-se para a janela, viu Pedro encarando-a da varanda vizinha. Ele colocou a mão na boca. Ela não podia crer que ele tinha flagrado tudo. Sentiu novamente o sangue ferver. Ele então saltou da varanda, enquanto Marinês corria para a cozinha, pegava a faca e saía em direção à rua.

Enquanto Luís e Clarice tentavam mais uma vez ver o que acontecia dentro da sala de Emília, Marinês passou ao lado deles despercebida, correndo em direção ao quintal que Pedro acabara de invadir, com a faca em sua mão.

Clarice conseguiu novamente olhar a sala. As manchas de sangue no tapete. Os pingos na TV. O corpo inerte de Emília.

— Ah meu Deus! – gritou ela. – NÃO!

O cachorro então saltou na janela, assustando-a e fazendo-a cair.

— Eu vi sangue! É marrom, não é vermelho como nos filmes de terror! É marrom! – Clarice chorava.

— Minha mãe está lá? – perguntou Luís, pulando para tentar ver a sala.

— Não era como nos filmes, Luís! Era de verdade!

— Calma! – Disse Luís, abraçando a namorada.

***

Pedro corria na calçada e olhava para trás a todo instante. Marinês estava a poucos metros de distância, a faca em punho.

— AAAH! – gritou ele em desespero.

Pedro conseguiu chegar ao shopping. Seu carro estava parado do lado de fora. Pegou a chave extra em seu bolso, trancou a porta e tentou ligar o motor.

Marinês parou ao seu lado, socou a janela e tentou abrir a porta, sem sucesso. Vendo que ele ia conseguir escapar, ela começou a enfiar a faca pelo teto do carro.

Pedro tentava se esquivar de todo os golpes que ela dava, com muita sorte. Lágrimas já caíam de seu rosto.

— USE... O CINTO... É A LEI! – gritava Marinês, revoltada.

O motor ligou e Pedro deu a ré com toda a velocidade. Posicionou rapidamente o carro na pista correta e acelerou o carro.

Marinês então correu para o meio da avenida, parou na frente de uma grande van. O homem gordo ao volante pisou no freio e conseguiu parar a tempo.

— ESTÁ LOUCA? – berrou ele.

Marinês correu rumo à janela e apontou a faca para o pescoço do homem.

— Saia daí! – ordenou ela.

— Mas o que é isso? – perguntou ele.

— SAIA DESTE CARRO AGORA! – berrou Marinês.

— Sim senhora! – disse ele apavorado e abrindo a porta, enquanto Marinês o arrancava violentamente do carro, assumia o volante e acelerava ao máximo, seguindo o carro de Pedro.

Começara uma perseguição.

Notas finais
Espero que vocês tenham gostado do penúltimo capítulo de “Kaltblütig” tanto quanto eu gostei de escrevê-lo. O próximo já é o final! O que vocês esperam para Marinês? Ela merece ser punida? Morrer? Fugir? Se preparem, pois teremos muitas reviravoltas e algumas situações, de certa forma, bem bizarras! Espero seu comentário!