Kaltblütig
8 Mãe assassina! | Último capítulo
Marinês apertou bem o cinto e pisou fundo no acelerador, já que o carro de Pedro estava a uma considerável distância de onde ela se encontrava.
Pedro acelerava seu carro ao máximo, tremendo de medo.
— Meu Deus! – disse ele. – Meu Deus! Eu juro que nunca mais vou ver filmes pornôs! Eu juro! Juro mesmo!
Marinês praticamente não pisava no freio. Nem mesmo diante de lombadas ou de curvas. Os pneus cantavam. Fumaça saía do asfalto conformem seguiam em alta velocidade. Nenhum dos dois ia desistir.
***
Clarice e Pedro correram por dentro de uma praça, ainda desesperados, e pararam na esquina de uma avenida, aguardando o farol ficar verde para poderem atravessar, quando avistaram Miguel e Bianca dentro do carro.
— Pai? – chamou Luís.
Miguel o olhou e abriu o vidro.
— Pai! Você viu a Mamãe? – perguntou Luís.
— Não, e você? – perguntou Miguel.
Neste exato momento, o veículo de Pedro cruzou a avenida em alta velocidade, chamando a atenção de todos que passavam por ali.
— Pedro?! – exclamou Luís para si mesmo.
Em seguida, eles observaram a perua branca cruzar. Marinês viu-os de relance e acenou, sorrindo alegremente.
— Ah meu Deus! – exclamou Luís.
— ENTREM! – gritou Miguel.
Clarice e Luís correram para dentro do carro. Miguel pisou no acelerador ao máximo para poder alcançar a perua branca e o veículo vermelho. Não ia permitir que mais uma pessoa morresse nas mãos da esposa.
Alcibides e Clóvis, agora dentro de um carro branco para não chamar a atenção, seguiam de forma abrupta o veículo da família Freitas. Estavam os seguindo há poucos minutos.
— Atenção todas as unidades! – disse Clóvis no rádio. – A mãe assassina está na Avenida Paulista! Atuem com cautela! Ela está armada e é uma louca! Muito perigosa!
Alcibides não olhava para os lados. Agora também pisava no acelerador para acompanhar a família Freitas, que seguia em desespero pelas vias.
Pedro continuava aflito. Suava frio e implorava para que conseguisse despistar Marinês. Ela, por sua vez, percebeu que a família estava seguindo-a. Não deu a mínima. Pedro era uma testemunha crucial de seu último assassinato e não iria pra cadeia com essa facilidade.
Pedro não diminuía a velocidade do veículo. Nem ao menos olhava para as laterais. Seguiu desta forma por cinco minutos, até que encarou o retrovisor. A perua branca não estava mais atrás dele. Respirou fundo, aliviado, e diminuiu a velocidade. Foi quando percebeu o veículo ao seu lado, na mesma frequência. Marinês o olhava fria e cruelmente, mostrando-lhe a faca.
— AH DROGA! – gritou ele, pisando mais uma vez no acelerador.
Marinês agora não precisava mais fazer esforço para alcançá-lo. Deixou que Pedro a ultrapassasse e posicionou o veículo na mesma faixa de sua próxima presa, de forma que ele não poderia despistá-la.
Pedro então virou o carro em uma rua paralela com a Avenida Paulista e rapidamente se arrependeu. Estava completamente parada. Havia uma fila de pessoas esperando para entrar em um local que anunciava: “Show Especial: The Weird se apresenta esta tarde!”. Não podia ser!
Desesperado, Pedro parou o carro abruptamente e saltou pra fora. Reparou quando Marinês virou a esquina, com a faca em uma das mãos. Ele não tinha alternativa. A rua estava completamente fechada com uma multidão de pessoas. Entrou na fila para adentrar o evento.
14h47 da tarde
Pedro sentia suas mãos tremerem. Observou a lerdeza do rapaz funcionário na verificação das identidades e resolveu avançar. Ouviu algumas pessoas reclamarem por furar fila, mas não lhes deu atenção.
— POR FAVOR, ME DEIXA ENTRAR! – gritou ele para o homem.
— Ei, rapaz! Cadê a sua identidade? – pediu o homem, enquanto o restante da fila reclamava ainda mais alto da imprudência de Pedro.
— Posso te entregar lá dentro? – perguntou Pedro, nervoso.
— NINGUÉM entra sem identidade! – disse o homem. – Aliás, você está furando fila, rapaz! Pode voltar!
— Meu Deus, quanto é o ingresso?! – sua voz já estava trêmula.
— Você é estudante? Se for, a meia-entrada é R$150.
Pedro tirou a carteira do bolso. Contou o dinheiro rapidamente.
— Toma aqui. Eu tenho R$400. Paga o ingresso e o resto fica pra você, se me deixar entrar agora! Por favor!
— Quando é seu nascimento?
Pedro reparou Marinês saltando da perua branca.
— AAH MEU DEUS! – gritou ele, apavorado. – É 14 DE JULHO DE 1972!
Marinês agora pedia licença para algumas pessoas na rua, a faca sempre à mostra, sem se importar com ninguém.
— POR FAVOR! – berrou Pedro mais uma vez, completamente trêmulo.
— Tá bom, entra! – disse o homem. Pedro jogou o dinheiro em suas mãos e entrou no local.
Marinês se aproximou da fila enorme. Tinha urgência em encontrar Pedro e não iria se dar ao luxo de aguardar na fila. Ele poderia estar ligando para a polícia naquele exato momento. Guardou a faca em sua bolsa e foi pedindo licença a todos que estavam ali, que a olhavam boquiabertos.
***
Após andar por alguns corredores, Pedro finalmente chegou na arena, onde o show da banda The Weird iria ter lugar. O local estava completamente lotado. Mal podia andar. A banda, já no palco, era formada por garotas completamente esquisitas, fazendo alusão ao título que deram para o grupo. Os cabelos de cada uma eram compostos por diversas cores. Usavam maquiagens de cores diferentes também, como lápis azul em um olho, e verde no outro. Roupas curtas, coloridas e chamativas. A diferença entre as três era mínima.
— Com licença! Com licença – pedia Marinês na fila para entrar.
— Olhem! É ela! – disse um garoto. – É a mulher assassina, da televisão!
— Ah legal! – disse outro rapaz, sorrindo. – Ela é da banda?
— A polícia está atrás de mim! Com licença! – pedia Marinês educadamente, sorrindo para todos, até conseguir chegar à porta.
— Ei! – disse o homem que extorquira Pedro há poucos minutos, agarrando o braço de Marinês, que o olhou nervosa. – Você não é a mãe assassina?
— Ah... Sim, eu acho que sou...
— Ah moça! Entra! Depressa! – disse o homem, alegre.
Marinês retribuiu o sorriso e entrou na casa de shows.
A música rock era ensurdecedora. Os fãs da banda subiam em cima do palco e se jogavam na plateia como uma forma de divertimento. Não haviam seguranças no local e as meninas pareciam não se importar.
Marinês caminhou pelos corredores escuros até chegar à arena. Surpreendeu-se com a quantidade de pessoas, mas ninguém prestaria atenção se esfaqueasse alguém ali mesmo. Mesmo sem ser completamente ouvida, pedia licença educadamente a cada um, erguendo a cabeça a procura de Pedro.
— Com licença! Com licença, por favor! Preciso passar!
Ainda não conseguira avistá-lo. Já estava ficando nervosa e apreensiva. A polícia podia estar parando à porta da casa de shows neste momento. Olhou para a entrada do local. Se eles chegassem, se abaixaria e procuraria uma saída. Não ia se entregar, e não ia permitir que ficasse presa por anos e anos por conta do provável depoimento de Pedro.
Foi então que ela o viu. Para azar de Pedro, a plateia cismou com seu desespero e o ergueu no ar, jogando-o para o alto diversas vezes. Marinês seguiu para onde ele estava, fingindo dançar freneticamente. Seu desejo de matá-lo crescia a cada passo. A música estava ajudando.
— Eu preciso passar! – pedia ela. – Com licença, com licença!
***
Miguel e sua família já haviam saltado do carro e corriam pela calçada para chegar à porta da casa de shows.
— Não é melhor trancar o carro? – perguntou Luís.
— Não, vamos depressa!
O rock dentro do local estava tão alto, que eles podiam ouvir claramente a letra das canções do lado de fora.
— Minha mãe está aí?! – perguntou Bianca, constrangida.
— Pai, por favor, pega leve! – pediu Luís. – É o The Weird!
***
Pedro finalmente foi colocado no chão. Ele correu para o canto da arena e viu o exato momento que Miguel foi pego pela multidão e também foi lançado diversas vezes para o ar.
— Não pessoal! Ponham-me no chão! – pediu ele.
Pedro tremia da cabeça aos pés. Notou uma porta ao seu lado, abriu-a e caminhou por outro corredor escuro com algumas curvas. Chegou a outra porta, abriu-a e viu-se em cima do palco, encarando toda a multidão. A guitarrista estava exatamente ao seu lado. Notou sua presença e, com uma expressão de repugnância, acertou-o violentamente com a guitarra no estômago.
Pedro cambaleou, mal conseguindo respirar. Já vi virar para voltar pela mesma porta quando a viu. Marinês estava parada em sua frente. Ela tirou a faca da bolsa e abriu um grande sorriso. Agarrou uma corda que estava ao seu lado e cortou-a de uma vez com a lâmina.
Um vão de luzes extremamente pesado desabou nas costas de Pedro, que caiu no chão violentamente.
***
Agora a polícia parava seus veículos em frente à casa de shows. Os detetives Alcibides e Clóvis saltaram do veículo branco e correram em direção à porta.
— Identidade? – pediu o homem atendente.
— Que identidade, rapaz! Polícia! Saia da frente! – berrou Clóvis, entrando no local.
***
Com um corte profundo na testa e sentindo-se muito tonto, Pedro conseguiu se levantar. Deu apenas um passo até reparar, mais uma vez, que Marinês continuava à sua frente. Porém, ao invés da faca, segurava uma pequena lata de spray e um isqueiro.
— Você vai queimar, Pedro! – disse ela, sorrido agradavelmente.
— AH NÃO!
Marinês colocou o isqueiro diante do spray e apertou-o. Grandes chamas de fogo foram espirradas em Pedro, sendo atingido pelas costas. Ele correu em direção ao palco, completamente em chamas.
— NÃO SENHORA FREITAS! EU NÃO IA CONTAR PRA NINGUÉM! – gritou Pedro.
Ele caiu, já imóvel, após muito gritar. A multidão vibrou ao ver o corpo completamente em chamas. A família Freitas encarava a cena completamente perplexa. A banda The Weird continuava o espetáculo como se nada extremamente cruel tivesse acontecido.
— MAS QUE DROGA! – berrou Clóvis, tentando passar pela multidão para chegar ao palco.
As chamas continuavam a lamber o corpo de Pedro. Uma das cantoras aproximou-se e, segurando uma garrafa de vodca, virou-a na boca. Em seguida, cuspiu o líquido no corpo, fazendo as chamas crescerem e iluminarem a arena por completo.
A multidão aplaudiu, ao mesmo tempo em que acendiam vários isqueiros. Marinês desceu do palco e se posicionou na frente como se fosse uma fã da banda. Dançava animadoramente.
Girando, ela viu o marido:
— Ah, oi! – disse ela, acenando e sorrindo.
Miguel só conseguiu acenar. Estava boquiaberto.
Marinês, ainda sorrindo, colocou os dedos no ouvido, indicando que o voluma da música era ensurdecedor. Voltou a encarar as cantoras.
— VOCÊ ESTÁ PRESA! – berraram Clóvis e Alcibides, agarrando Marinês e algemando-a.
Ela olhou para os detetives, assustada.
— Querido? – chamou ela, supostamente sem entender.
— Calada! – ordenou Clóvis.
A arena silenciou. As cantoras olharam para Marinês, assim como todos as outras pessoas que ali se encontravam. Foi então que, inesperadamente, uma chuva de vozes começou a gritar:
— MÃE ASSASSINA! MÃE ASSASSINA! NÓS TE AMAMOS!
Antes de sair do local, Marinês olhou para os fãs e para as cantoras, que diziam o mesmo tocando uma nova melodia na guitarra. Então ela sorriu.
***
5 MESES DEPOIS
Segunda-Feira, 4 de Outubro – 09h46 da manhã
O tribunal de Justiça estava lotado. A Família Freitas caminhava em direção à porta, tentando passar pela multidão de repórteres que os aguardavam, sempre repetindo as exatas mesmas perguntas.
— Deixem-nos passar! – pedia Miguel.
— Acha que sua esposa é inocente? – perguntou uma repórter.
— Como está a mãe assassina?
— Como sua esposa se sente em relação a este julgamento?
Miguel finalmente chegou à porta. Mas virou-se e encarou todas as pessoas sedentas por qualquer declaração ou informação.
— Ah... Marinês está arrasada com as acusações que fizeram contra ela! E está tendo fé de que irá recuperar sua vida após o julgamento.
***
O helicóptero de uma emissora de TV acompanha um ônibus azul e branco que seguia por São Paulo. No lugar das janelas, havia grades. Estava transportando detentas. Dentre elas, Marinês. Todas cantavam a mesma canção:
— “My criminal mind is all I, all I’ve ever had, ask one who’s known me, if I’m really so bad... I am!”.
***
— Você estava no caso horrível do casal que matou toda a família da empregada, não é? – perguntou uma mulher a uma senhora de cabelos brancos e alta.
— Sim! – respondeu a mulher, sorrindo.
— Imaginei!
— Meu marido acha que sou louca. Ele não entende o trabalho de jornalista. Não sou louca só porque cubro esses casos...
— Só que... você é!
Miguel, Luís, Bianca, Clarice e Rodrigo passavam pelos corredores do tribunal e ouviram esse rápido diálogo entre as mulheres. A imprensa contava todos os mínimos detalhes a toda população brasileira que estava revoltada com o caso que chamavam de “Marinês: a Mãe Assassina”.
Rodrigo não parava de tirar fotos de Bianca, enquanto Clarice entregava vários folhetos às pessoas que estavam ali. Luís dava autógrafos.
Em questão de minutos, os convidados estavam sentados dentro do Júri. O Juíz sentou-se, pegou seu martelo e bateu na mesa.
— Silêncio na corte! Está aberta a sessão! – disse ele.
Foi aberta uma porta no canto esquerdo da sala, e Marinês entrou acompanhada de dois policiais. Estava com um vestido azul escuro, usava um batom de tom vermelho bastante forte e seu cabelo estava bem cuidado, mais preto do que nunca. Ela sorriu ao ver o número de pessoas que aguardavam. Em seguida, encarou os oito jurados que iriam assistir ao caso.
— Ah! Olá senhores jurados! – disse Marinês, sorrindo. – Meu nome é Marinês Freitas!
Foi quando ela fixou os olhos em uma mulher de cabelos brancos, que usava um casaco colorido. Abriu um novo sorriso.
— Ah! Eu adorei o seu casaco! Onde você comprou?
Os juízes se encararam. Alguns constrangidos. Outros chocados.
— Senhora Freitas, eu disse silêncio! – ralhou o Juíz principal, batendo seu martelo.
Ela então viu a família.
— Querido, oi! As crianças têm feito a lição? – perguntou.
Clarice e Luís balançaram a cabeça positivamente.
Marinês então se sentou e o Juíz começou a falar:
— A senhora é acusada de múltiplos asssassinatos. Isto é um tribunal, não um bar!
Marinês desviou o olhar para o marido e fixou no juíz, com um pequeno sorriso amigável visível.
— Senhor promotor – chamou o Juíz. – Sua exposição inicial.
— Obrigado, meretíssimo! – respondeu um homem alto, de cabelos pretos e que usava óculos. Ele se levantou e se posicionou diante dos jurados. – Bom dia, senhoras e senhores do Júri! Sou Thimoty Valesko. Espero que nos tornemos grandes amigos nos próximos dias.
Os jurados não esboçaram reação.
— Devo dizer de início que este não é um caso agradável – continuou o Promotor. – Está ré... – ele apontou para Marinês. – Marinês Freitas é uma mulher extremamente perversa. Uma maçã podre, eu diria, que, sem soma de dúvida, matou seis pessoas inocentes...
Marinês mexia as mãos impacientemente, e seu advogado de defesa, sentado seu lado, pediu que ela parasse.
— Isso mesmo – continou o Promotor. – Ela os matou! E isso é um fato!
— De certa forma, eles mereceram! – sussurrou Luís para Clarice.
— Com perversidade e premeditadamente com um carro em velocidade; com uma lança; com uma tesoura; um aparelho de ar condicionado; com as chamas letais causadas por um spray e até mesmo com uma perna de cordeiro. Simplesmente cruel!
Marinês agora olhava para um dos jurados e indicava com as mãos que havia algo em seu nariz. O homem a olhou e percebeu o que ela queria dizer. Passou a mão pelo nariz e fez cara de dúvida. Ela balançou a cabeça negativamente, então o jurado pegou um lanço e açoou o nariz. Ela sorriu, satisfeita.
— Senhoras e senhores do júri, esta ré, esta tal de Marinês Freitas, não é uma mulher! Ela é um monstro!
Marinês olhava cada um dos jurados enquanto o promotor falava, e sua atenção recaiu nos saltos de uma das mulheres. Brancos, lindos. Encarou o rosto da moça. Era a mesma que estava usando o casaco bonito. Marinês a conhecia bem, muito bem. Repentinamente, ela sentiu um ódio compulsivo. Seu sangue ferveu e o rosto adquiriu um tom vermelho. Segurou com força as mãos na cadeira, tentando se controlar.
O promotor se sentou e o advogado de defesa se levantou, colocando-se na frente dos jurados.
— Senhoras e Senhores, meu nome é Guilherme Cruz, e nós temos pela frente uma difícil tarefa. Conheço a família Freitas há 16 anos. O pai, Miguel, é meu amigo de escola. Luís e Bianca brincaram com os meus filhos. Mas eu descobri que não conheço Marinês Freitas. Não conheço!
Marinês agora escrevia em um papel, e ao terminar, tentou chamar a atenção de seu advogado.
— Ninguém realmente conhece Marinês Freitas! – continuou Guilherme. – Ela.. Ela...
Ele foi interrompido. Marinês fazia “psiu” e apontava para o papel o qual escrevera. Guilherme se curvou para ler a caligrafia bonita da cliente.
“Eu conheço a Jurada 8!”
Guilherme olhou para os jurados, e disse:
— Marinês Freitas é louca.
Todos os presentes fizeram, em coro, um “ohhh”.
— Ela cometeu esses terríveis crimes, mas nem por isso é má! – disse Guilherme.
Marinês se levantou abruptamente, olhando para o Juíz, e disse:
— Meretíssimo, eu quero fazer um pedido.
O Juíz a olhou, esperando.
— Quero dispensar meu advogado e me defender.
Todos os presentes novamente exclamaram “ohhh”.
— Pela sua insanidade – continuou Guilherme, como se não tivesse sido interrompido. – Marinês Freitas é inocente!
— Meretíssimo – continuou ela. – Eu tenho o direito de me defender. Li livros sobre leis. Exigo que me permita ser minha própria defensora, por favor.
O promotor olhou constrangido para Marinês, que sorria alegremente.
— Senhora Freitas – disse o Juíz. – A ré que tem por advogada a si mesma, tem por cliente uma tola! – então ele olhou para o advogado de defesa e para o promotor. – Ambos aproximem-se!
Os dois se posicionaram diante do juíz, e Miguel sussurrou para a esposa:
— Não acho que seja uma boa ideia!
— Não se preocupe, querido! – disse Marinês, sorrindo e virando-se.
— É, eu já me decidi... – disse o Juíz, então Guilherme saiu do Júri e Thimoty voltou a seu lugar. – Bem, senhora Freitas, não tenho escolha se não deixar que seja sua própria advogada.
Marinês sorriu, feliz.
— O que se declara? – perguntou ele.
Marinês então se levantou e respondeu sem hesitar:
— Eu sou inocente, meretíssimo.
Foram ouvidos novos “ohhhh” em todo o tribunal.
O Juíz bateu seu martelo.
— Ordem! Quero ordem no tribunal! Silêncio ou deverão se retirar!
***
Pouco menos de uma hora mais tarde, depois que todo o tribunal estava em silêncio, o promotor se levantou e pediu a entrada de testemunhas. O juíz autorizou.
— Eu quero pedir a entrada de Lourdes Conde – pediu o promotor.
Lourdes entrou na sala com um vestido vermelho e uma bolsa branca de lado. Tinha os cabelos mais curtos e cabelos pretos, porém com mechas loiras. Um tom um tanto estranho. Marinês a viu e sorriu, maliciosamente.
Rebolando, Lourdes dirigiu-se a seu lugar, uma cadeira a pouca distância de Marinês e do juíz.
Uma mulher morena levantou de sua cadeira e se dirigiu à Lourdes, decidida:
— Levante a mão direita.
Lourdes obedeceu.
— Jura que, em seu depoimento, dirá a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade?
— Juro – disse Lourdes, rapidamente.
— Obrigada – e então a mulher voltou a se sentar.
Thimoty levantou-se e se posiciou a pouca distância de Lourdes, pronto para falar.
— Senhora Conde, alguma vez recebeu telefones obcenos?
— Certamente.
— E a senhora reconheceu a voz de quem ligou?
— No ínicio, não. Depois, numa reunião de amigas, entre aspas, notei a mesma inflexão na voz. E então, foi só ligar os fatos.
— E de quem era a voz, Lourdes?
— Era dela... – Lourdes fez questão de apontar o dedo para Marinês. – Marinês Freitas, sentada bem ali. Não estou morta por sorte!
Todos se calaram.
Outros minutos se passaram e Marinês levantou-se para interrogar Lourdes.
— Senhora Conde, a senhora bebe?
— Não, não bebo.
— Então, não estava bêbada ao receber esses telefonemas supostamente obscenos?
— Certamente que não.
— Então, no dia que foi à casa de Fátima Oliveira... No dia que disse que reconheceu a minha voz, não estava bebendo?
— Uma cerveja no almoço não é beber.
— Então, a senhora bebe?
— Socialmente, tomo uma cerveja.
— Então a senhora admite que mentiu?
— Não, não admito sua vadia!
Todos na plateia mexeram-se desconfortavelmente em suas cadeiras e mais uma vez, pôde-se ouvir um coral de “Ohhh”.
— Modere seu vocabulário – ordenou o juíz.
Então Lourdes voltou a olhar para Marinês, que sussurrou: “Foda-se”.
— Ouviu? – sobressaltou-se Lourdes, olhando para o juíz. – Ela acabou de dizer foda-se! Eu ouvi!
Marinês então sorriu amigavelmente.
— Que fique registrado que estou bem aqui, quietinha!
— Vai se foder você também, sua puta!
Marinês escancarou a boca, fingindo não acreditar na postura da rival.
— Estou avisando, senhora Conde, mais uma obcenidade e responderá por desacato à autoridade! – disse o Juíz, o tom de voz mais alto e irritado.
— Senhora Conde, a senhora namora? – perguntou Marinês.
— Sim, namoro.
— Quantos a idade da senhora?
— Tenho 48. Mas não vejo porque isso vem ao caso.
— E quantos anos tem sua namorada?
Alguns poucos “Ohhh” puderam ser ouvidos da plateia.
— Namorada? – perguntou Lourdes, assustada.
— Sim, a sua namorada.
— Não sei do que está falando...
— Senhora Conde, a senhora é lésbica?
— Claro que não! Namoro com homens! Gosto de pepinos! E grossos!
Marinês então sorriu maliciosamente, foi até sua mesa e pegou um envelope amarelo. Voltou a fitar Lourdes e perguntou:
— Não que haja algum problema em ser lésbica, é claro. Só não vejo motivos para mentir, uma vez que jurou contar a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade, lembra? Então, senhora Conde, diga-me... a senhora é louca?
— Não sou não, sua filha da puta!
Desta vez, os “Ohhh” da plateia foram substituídos por “Uhhh”, explícitas vaias de todos os presentes.
— Senhora Conde, por desacato à autoridade, eu a condeno a cinco dias de prisão e uma multa de mil reais.
A polícia foi em direção à Lourdes, mas Marinês interrompeu:
— Um instante, meritíssimo! Eu ainda não acabei.
Todos se calaram para ouvi-la.
— A Senhora Conde disse ter alguém ao seu lado. Antes de sair, senhora Conde, é um homem?
— Claro que é!
— E quantos anos ele tem?
— Tem 35! Satisfeita?
— Ah, claro. Mas antes de qualquer coisa, eu queria mostrar ao nosso juíz que o que você diz, não bate com as fotos que eu tirei cinco meses atrás da janela de sua casa.
Lourdes arregalou os olhos. Marinês entregou as fotos ao juíz, que olhou e abriu a boca com o choque.
— Lourdes Conde namora uma garota de 16 anos. Nas fotos em que eu tirei, pode-se notar que as duas deviam estar fazendo sexo. Está quase explícito, infelizmente meu ângulo não era dos melhores. Note, meretíssimo, as várias latas de cerveja sobre a mesa. E veja a posição em que Lourdes está em relação a garota, que se chama Mariane. Lourdes Conde é uma pedófila!
Novos “Ohhh” invadiram a sala. Mas agora, de frustração.
Lourdes olhava para Marinês assustada, mas sentia um ódio que nunca havia sentido em toda sua vida. Seria capaz de matá-la.
— Lourdes Conde! – berrou o juíz. – Vou ordenar que uma investigação seja feita em relação ao seu relacionamento com menor, envolvendo sexo e bebidas ilícitas. Saiba que a senhora pode ser processada e agora aumento sua pena por desacato para 10 dias e multa de dois mil reais, se quiser sair quando o prazo expirar. Tenha um bom dia.
As policiais então agarraram Lourdes, que começou a se debater e a xingar. Estava vermelha de raiva.
— Sua filha da puta! Sua tarada nojenta! Sua vaca! Piranha horrorosa!
Lourdes foi retirada do tribunal, e Marinês se virou para olhar para a família e piscar para eles, satisfeita. Miguel olhou-a sem acreditar no que acabara de acontecer.
***
Terça-Feira, 5 de Outubro – 10h05 da manhã
Bianca e Rodrigo estavam vendendo camisetas com a estampa “Mãe Assassina” na porta do Tribunal. Livros também estavam sendo vendidos.
— Camiseta da mãe assassina! É só 24 reais! – anunciava Bianca.
— Quero duas! – Pediu uma mulher, entregando o cartão de crédito para efetuar a compra.
— Muito bem senhora! – disse Bianca, entregando-lhe duas camisetas. – Assine aqui.
— Obrigada! – Disse a mulher. – Vocês deviam ter feito isso no julgamento do Paulo Agorim.
Bianca riu e continou:
— Vocês viram nos jornais! A mãe assassina é a dona Marinês Freitas, e ela é a minha mãe!
***
Dentro do tribunal, Luís andava de um lado para o outro no corredor. Usava uma roupa preta com um chapéu branco, e falava no celular. Estava nervoso.
— Escuta aqui – disse ele. – Fala pro Geraldo ir pro inferno! Não me importa o que eles tem! Francisco Cuoco já era!
Um outro garoto entrou no corredor. Usava um casado verde a calças jeans. Tinha o cabelo curto e loiro. Ao ver Luís, começou a andar em direção a ele. Cutucou-o assim que se aproximou. Luís se virou e o garoto perguntou:
— Você é Luís Freitas?
— Um momento – disse Luís ao celular, e então olhou para o garoto. – Sim, sou eu. Mas tem que falar com meu empresário.
— Sua mãe matou meu irmão!
E então o garoto deu um soco demasiado forte em Luís, que o fez cambalear para os lados.
— Puxa cara! – disse Luís, com a mão no queixo. – Fica frio! Fica frio tá legal? Tá tudo bem! Você é irmão do Fernando, certo?
— Isso mesmo.
— Lamento que tenha morrido – disse Luís em tom irônico, e então chegou mais perto. – Já fez sua assinatura como modelo? Ou como ator?
— Para TV, ou revista?
— Para a TV cara! Meu, a Gabriela Cortez quer interpretar minha mãe! Ela está fazendo o maior sucesso na TV e no cinema atualmente! Pra você ver como o caso ganhou repercussão!
— Gabriela Cortez? – perguntou o rapaz, surpreendendo-se.
— Sim!
— E quem vai interpretar meu irmão? Será que Rodrigo Santoro está disponível?
— Vou saber? – perguntou Luís, ironicamente.
***
— Então, senhorita Credes... – perguntou o promotor à testemunha. – Pode descrever o carro?
Fernanda Credes começou a rir.
— Aquele com que o Senhor Gilberto foi assassinado a sangue frio.
Fernanda continuava a rir. Miguel estava com um livro aberto, e voltou sua atenção para a cena ridícula que a garota estava fazendo.
— Eu vi esse filme! – disse Fernanda. – Passou na TV à cabo!
Ela voltou a rir em voz alta, deixando Marinês constrangida. Ela virou a atenção para os jurados. Encontrou mais uma vez o olhar da jurada 8, que ainda usava o mesmo casaco do dia anterior. Olhou então para os sapatos. Eram os mesmos. Novamente, seu sangue ferveu.
— Por favor... – tentava dizer o Promotor. – Por favor, senhorita Credes... Pode descrever... Senhorita Credes!
Fernanda então parou de rir.
— Desculpe – disse ela. – Olha cara, como eu te disse, era um gol cinza. O carro... Não o motorista!
Fernanda riu novamente em voz alta e todos ficaram constrangidos.
— Escuta, olha, era azul e pronto! – disse ela.
O promtor então resolveu se sentar.
— Sabe... – continou Fernanda. – Era... Azul!
Voltou a rir em voz alta, como se tudo o que estivesse dizendo fosse a coisa mais engraçada do mundo. Marinês abriu um pequeno sorriso no canto do rosto. Mais uma testemunha caída.
***
Bianca e Rodrigo continuavam a vender seus produtos do lado de fora.
— Aqui está – disse Rodrigo, entregando um livro para um homem.
Então a próxima mulher da fila se aproximou:
— Pode escrever “para a futura mãe assassina”?
— Claro que posso. Acha que foi ela?
— Eu tenho minhas dúvidas.
Outra mulher entregou dinheiro à Rodrigo e falou:
— Eu também tenho vontade de matar umas pessoas...
Rodrigo riu.
***
Agora quem estava sentado na cadeira para depor era Clóvis. Thimoty segurava, dentro de um saco plástico, dois livros.
— Estes livros... – disse Thimoty. – Estes livros repugnantes que descrevem os atos de sadismo de assassinos seriais. Onde os encontrou, detetive?
— Na lata de lixo de Marinês Freitas.
Thimoty sorriu, sentou-se e virou-se para Marinês.
— Pode interrogá-lo, senhora Freitas.
— Obrigada – disse Marinês, olhando para a platéia. Encontrou Ronaldo e Alyson ali sentados e surrurou: – Tudo certo?
Eles fizeram gestos positivos com as mãos. Ela então pegou um envelope em sua mesa e o segurou, sentada.
— Ah, detetive Clóvis, se eu fosse examinar o seu lixo, que tipo de leitura eu encontraria?
— Protesto! – levantou-se Thimoty. – É irrelevante!
— Pode responder, Clóvis – disse o juíz, ignorando o promotor.
— Encontraria a revista Veja, Caras, o jornal Lance, e revista sobre novelas, que é o que minha esposa costuma ler.
Marinês sorriu.
— Bem, detetive, na noite passada, foi encontrada esta revista em sua lata de lixo.
Marinês tirou de dentro do envelope uma revista e mostrou-a aos jurados e à plateia. Na capa, havia a foto de uma mulher semi-nua, com uma barra preta computadorizada cobrindo sua cintura para baixo.
— Para que todos vocês entendam – disse Marinês. – O nome desta revista é “Garotas com Pintos”.
Clóvis escancarou a boca. Novos “Ohhhh” foram ouvidos na plateia, enquanto Ronaldo e Alyson riam. Alcibides olhou para o companheiro de trabalho de olhos arregalados.
— Isso é invasão de privacidade! – berrou Clóvis.
Marinês sorriu.
— Ah, é mesmo? Só digo uma coisa... Nunca julgue uma pessoa pelo o que ela lê, detetive.
— Eu sou um homem casado, Freitas! Espero que seja condenada à câmara de gás! Ou ao fuzilamento! Espero que você morra!
Clóvis foi retirado da sala enquanto Marinês sorria alegremente para ele.
— O júri deve ignorar a explosão desta testemunha – pediu o juíz.
Thimoty então se levantou:
— Chamo para testemunhar, Fátima Oliveira!
***
Minutos depois, Fátima já estava sentada e havia iniciado seu depoimento. Segurava a lança que comparara no bazar de antiguidades.
— A senhora voltou a ver a lança novamente depois que a deixou com a senhora Freitas? – perguntou Thimoty.
— Sim – respondeu Fátima. – Meia hora depois. Estava cheia de coágulos de sangue. E Fernando apareceu morto em seguida!
Fátima largou a lança, como se estivesse vendo o sangue ali. Thimoty pegou o objeto de volta e se dirigiu ao seu lugar.
— Não tenho mais perguntas – disse ele.
Marinês então continou sentada enquanto Fátima a olhava, sem graça.
— Senhora Oliveira – começou Marinês. – Ao me deixar, no bazar, para onde a senhora foi?
— Olhar as coisas – respondeu Fátima. – Era um bazar, afinal.
— Fernando comprou algo que a senhora queria?
Fátima suspirou.
— Ah! Eu não queria aquele ovo. Estava lascado.
— Fernando morreu por sua causa, não?
Marinês se levantou.
— Não! Claro que não! Eu jamais faria mal a alguém! – respondeu Fátima;
— A revista com a letra recortada que serviu para mandar a carta anônima para Lourdes Conde, era sua, não era?
— Sim. Mas eu a emprestei...
— E a tesoura com sangue, encontrada no estômago da senhora Serrat, era sua, não era?
— Sim, mas eu não...
— Senhora Oliveira...
Fátima arregalou os olhos para Marinês.
— A senhora recicla o lixo? – perguntou Marinês.
Fátima suspirou, e todos os presentes a olharam com ansiedade. Juíz, promotor, e até mesmo os lixeiros Ronaldo e Alyson.
— Não! – respondeu Fátima.
Novos “Ohhhh” seguidos de olhares constrangidos caíram sobre Fátima.
— Não tem lugar na minha cozinha! – tentou defender-se.
Marinês voltou a se sentar enquanto Fátima a olhava, chocada.
***
Alcibides agora estava sentado na cadeira para depor, e o promotor Thimoty estava de pé, à sua frente.
— Detetive Alcibides, o senhor foi então até o palco do grupo musical “The Weird”? – perguntou.
— Sim, eu fui – respondeu Alcibides. – E Pedro Golao estava em chamas e caiu de joelhos.
— Foi isto o que o senhor viu? – perguntou Thimoty, mostrando uma foto do corpo de Pedro.
— Sim, um verdadeiro churrasco, com o perdão da palavra.
— Posso mostrar a foto ao júri, meretíssimo? – perguntou o promotor.
Clarice olhava para Alcibides quando percebeu um alvoroço na porta. Virou o rosto e então a viu. Usavau um chapéu preto e estava de óculos escuros. Linda de morrer.
— Olha Luís! – disse Clarice, exaltada. – É ela! Gabriela Cortez!
Gabriela entrou no tribunal rebolando. Alguns seguranças a acompanhavam. Ela se sentou, sorrindo para todos, que pararam sua atenção para vê-la. Seus cabelos eram irreais. Seus olhos eram azuis e penetrantes.
— Eles têm o direito de ver o que a senhora Freitas fez... – dizia o promotor.
Porém, o Juíz estava prestando atenção em Gabriela e em toda a sua beleza. Alcibides olhou para a mulher e riu consigo mesmo, encantado. Os jurados também comentaram entre si a presença da atriz. Thimoty colocou a foto diante do Juíz, que não tirou a atenção de Gabriela.
— Meretíssimo... – chamou Thimoty. – A foto pode constar como prova a ser mostrada ao júri?
— Sim, sim. Pode! – disse o Juíz, sem nem ao menos olhar para a foto. Estava encantado demais com a beleza de Gabriela.
Até mesmo Miguel encarava a mulher com um sorriso bobo no rosto.
— Puxa! – comentou Alcibides. – É você mesma? Gabriela Cortez?
— Sim! Olá! Oi! – disse Gabriela a todos.
— Ah – disse o juíz. – Você estava linda naquele filme, “Mulher Sexy”. E suas cenas de nudez naquela novela das 23h, “A Beleza”, foram espetaculares. Você devia ganhar um Oscar!
Marinês sorria quando o Promotor falou:
— Mais nenhuma pergunta – e foi se sentar, derrotado.
Minutos depois, quando todos novamente prestavam atenção no julgamento, Thimoty anunciou:
— Chamo para testemunhar, Marcos Till!
Ninguém sabia quem era aquele homem. Muito menos Marinês, que olhou para o promotor, completamente confusa. Ninguém entrou na sala. Ela olhou para todos os lados, a procura do menor sinal de uma nova testemunha, mas ninguém apareceu.
***
Os policiais entraram no banheiro do tribunal batendo com força nos boxes.
— Till! Senhor Marcos Till! – gritou um policial, nervoso.
Um homem baixinho, careca, escrevia na parede de seu box: “Cheiro as calcinhas das juradas”. Era o mesmo homem que estivera no banheiro do Bazar de Antiguidades.
— Eu já vou! – disse ele.
— O juíz está aguardando! Vamos logo! – disse o policial, mais impaciente.
— Está bem!
Marcos abriu a porta do banheiro e o policial o empurrou.
— Vamos rápido! Todos o esperam.
***
— Diga seu nome, por favor – pediu Thimoty, diante de Marcos, que estava sentado na cadeira de depoimento.
— Marcos Till.
— Senhor Till, foi ao toalete no bazar de antiguidades no sábado, dia 15 de Maio?
Marinês então abriu a boca em um sorriso sedutor, descruzou as pernas por debaixo da mesa e as deixou um tanto abertas. Marcos não deixou o movimento passar despercebido. Encarou as pernas de Marinês e se inclinou para tentar visualizar algo mais.
— Fui – disse ele, inclinando-se cada vez mais.
Neste momento, um celular tocou. Gabriela Cortez o atendeu.
— Oi! Tudo bem?
Marinês encarou-a, constrangida.
— Viu alguém no box ao lado do seu? – perguntou Thimoty.
Marinês então mexeu-se na cadeira mais uma vez, despertando a atenção de Marcos. Agora, sentava-se na ponta. Abriu as pernas novamente e as fechou. Fez o exato mesmo movimento mais vezes, enquanto Marcos tentava se inclinar para uma visualização melhor, sem dar a mínima atenção ao que acontecia no tribunal.
— Ah, me desculpe? – disse Marcos, sua atenção nas pernas dela.
— Perguntei se o senhor viu alguém no box ao lado do seu.
— Eu não tenho certeza...
— Como não tem certeza?
— Não tinha ninguém lá!
— Senhor Till, o senhor disse ao júri de acusação que se abaixou e viu um par de calçados femininos no box masculino, ao lado do seu?
— Eu disse o que você mandou! – exclamou Marcos, praticamente babando diante dos movimentos sensuais de Marinês.
Pôde-se ouvir um noo “Ohhh” na plateia, desta vez ainda mais perplexo, ao mesmo tempo em que Miguel interrompeu um beijo entre Bianca e Rodrigo e ordenou que eles prestassem atenção.
— Perjúrio é delito grave, Senhor Till! – disse o Promotor.
— Eu inventei tudo! – disse Marcos, a voz alegre, olhando as pernas de Marinês abrindo e fechando. – Nunca tinha visto Marinês Freitas na minha vida!
Marinês então se endireitou em sua cadeira, sorrindo.
— Vai pagar por isso, senhor Marcos Till! – disse Thimoty, derrotado. – Vai se ver com o esquadrão do vício!
O promotor se colocou na frente do Juíz.
— Não tenho mais nenhuma pergunta – e então Thimoty se sentou.
Marinês se levantou e olhou para o Juíz.
— A promotoria não provou nada, meretíssimo – disse ela. – Não tenho nenhuma pergunta!
Todos aplaudiram Marinês. Gabriela a olhava encantada.
— Ordem! Ordem no Tribunal! – pedia o Juíz. – Faremos um recesso de 10 minutos. Preparem suas argumentações finais.
***
Gabriela Cortez estava cercada de repórteres.
— Bom, eu sinto que Marinês Freitas é uma mulher inocente. Acusada injustamente. Uma dona de casa normal, encurralada por provas circunstânciais! Claro que ela não matou ninguém! Eu acredito em sua inocência plenamente e tenho fé que todos os juízes, e todos que acompanham a repercussão em casa, acreditam também. E tudo o que eu quero nesse momento, é poder retratar bem a vida da “mãe assassina” na TV, com a dignidade, força e superação que essa heroína feminista oferece.
O julgamento havia começado, novamente. Thimoty estava parado diante dos jurados, com uma expressão séria.
— Aí está ela! – disse ele, apotando para a ré. – Um novo rosto no baralho dos assassinos seriais! Considerem-na culpada das seis acusações de assassinato de primeiro grau. Marinês Freitas é uma assassina fria, cruel, que não demonstrou remorso nem arrependimento pelas vidas que tirou.
Agora Marinês estava diante dos jurados.
— Olhem para mim. – pediu ela. – Eu sou tão normal quanto todos vocês. Fui vítima de uma armação da polícia, e de perjúrio por parte de pessoas que eu considerava amigas. Não sou uma assassina fria, e cruel. Isso pode soar piegas, ou clichê, mas eu honestamente, do fundo da minha alma, não seria capaz de matar uma mosca! Meus vizinhos de anos sabem de minha relação com os animais, com os cachorros. Eu amo a vida, seja ela como for. Não tenho coragem e audácia para tirá-la. Não sou Deus.
Enquanto Marinês dava seu discurso, Miguel percebeu o beijo anormal que Bianca dava em Rodrigo, sem se importar com as pessoas encarando-os visivelmente desconfortáveis. Ele os interrompeu.
— Tudo o que eu peço a vocês... – continuou Marinês. – É que tenham a coragem de me inocentar dessas acusações que são... Que são terrivelmente falsas! E muito, muito dolorosas.
***
DOIS DIAS DEPOIS
Quinta-Feira, 7 de outubro – 15h20 da tarde
O VEREDICTO
Os jurados tomaram seus lugares. Marinês os encarava apreensiva, nervosa, com ódio – sua liberdade dependia da decisão deles. Olhavao-os um a um até que percebeu novamente a jurada 8. Usava o mesmo casaco e os mesmos sapatos. Sentiu um desejo imortal e quase irrefreável de ir até ela.
— Senhoras e senhores do júri... – disse o Juíz. – Chegaram a um veredicto?
— Sim. – disse uma mulher de cabelos cacheados loiros, a jurada de número 4. – Chegamos sim, meretíssimo.
Todos os presentes encararam a jurada, calados, e apreensivos. Gabriel Cortez cruzou as mãos, visivelmente tensa.
— Nós consideramos a ré... inocente de todas as acusações!
Grande parte das pessoas testemunhando o julgamento não conseguiu conter a felicidade e se levantou para aplaudir. Outra parcela de espectadores levantou-se e se retirou da sala sem dizer uma palavra. Mas o sentimento predominamente era a felicidade.
— Ai meu Deus! – disse Marinês, rindo, emocionada. – Eu não acredito!
Thimoty encarou Marinês com fúria, não conseguia acreditar que ela havia enganado a todos. Gabriela Cortez sorria, chamando a atenção de todos, e gritou para quem quisesse ouvir:
— Muito bem, Mari! Eu sabia que você ia sair dessa, sua linda! Absoluta!
Marinês se voltou para encarar a família.
— Ah! Não acredito! Eu vou pra casa!
Miguel sorria para a esposa, feliz, mas surpreso com a decisão dos jurados. Afinal, ele havia presenciado a morte de Pedro e tinha certeza que ela era a culpada.
— Eu estou livre! – exclamou Marinês enquanto várias pessoas se colocavam a sua volta, com câmeras e congratulações. – Eu sou inocente!
— O que eu faço agora? – perguntou Miguel aos filhos, tenso.
— Sei lá! – disse Bianca. – Leve-a para casa!
— Chega de violência – disse Clarice.
— Será que ela vai gostar de mim? – perguntou Rodrigo, aflito.
— Trate-a muito bem! – disse Bianca. – E tente... Procure não irritá-la!
Todos eles olharam para Marinês e sorriram, tensos.
***
As portas do júri foram abertas e Marinês saiu de braço dado com Miguel. Ela sorria para todos, feliz, revigorada. Os repórteres tentavam falar com ela. Haviam pessoas com livros, flores. Pediam fotos e autógrafos.
— Eu te adoro! – disse uma fã.
— Eu também te adoro! – respondeu Marinês. – Obrigada a todos!
Todas as câmeras captavam os movimentos de Marinês. As mais importantes emissoras do Brasil davam cobertura à absolvição.
— Olá Brasil! Olá Nova York! Olá Rio de Janeiro! – dizia ela. – Você é a da Record? Desculpa, eu não falo com a Record! Repórteres ruins me difamaram o tempo todo. Não dou entrevista. Eu só falo com o Fantástico!
Foi neste momento que a jurada 8 passou apressada na frente de Marinês, entrando em um corredor à esqueda, uns passos mais à frente.
Gabriela Cortez acompanhou a família Freitas, deu o braço para Miguel e seguiu como se fosse uma “segunda dama”, sorrindo e acenando para todos. Em seguida, voltou-se para Marinês.
— Mari, querida, qual o seu cabeleireiro?
Mas Marinês não respondeu. Ela olhava fixamente para o corredor onde a jurada 8 acabara de entrar. Sua concentração foi interrompida quando uma repórter apareceu empurrando todos, na tentativa de fazer uma para Miguel. Por este momento, as atenções se voltaram para ele. Foi a chance. Marinês, sorrateiramente, sem chamar atenção, soltou-se do braço do marido e caminhou para o corredor.
A jurada 8 falava no telefone, de costas para Marinês.
— Conseguimos! Nós a libertamos! Eu sabia que ela era inocente! – disse a jurada.
Marinês avançou delicadamente e retirou o telefone do ouvido da mulher, desligando-o e jogando-o com violência contra a parede. Ninguém ouviu graças ao murmúrio de pessoas no hall principal.
— Você usa o mesmo casaco há quase uma semana, sabia? – afirmou Marinês. – Sua porca! Não tem vergonha na cara?
— E o que isso tem a ver? Nós ficamos confinados em um quarto de hotel durante o julgamento. Não estava fazendo frio quando eu vim e só trouxe uma blusa. E, caso não tenha reparado, está fazendo frio! Eu precisava me agasalhar. Mas de novo, o que você tem a ver com isso?
— O que eu tenho a ver?! Tenho a ver que isso é muito nojento! Muito mesmo! E tem mais!
— O quê?
— Este sapato. Eu jamais poderia esquecer, e acho que você lembra também, não? Eu ia comprar este sapato, eles estavam em minha mão nas lojas Renner, lá no Anália Franco! E você, com sua porquisse e má educação, os arrancou de mim na loja, dizendo que os tinha visto primeiro!
— Ah! – Ela pareceu lembrar, e logo corou. – Me desculpe! Não fiz por mal! Eu juro!
— Sua mãe não lhe ensinou que é falta de educação pegar as coisas das mãos dos outros?
Ao lado da jurada, encontrava-se um orelhão de parede. Marinês, enfurecida, pegou o fone e bateu-lhe com toda força na cabeça da mulher, que cambaleou, tonta. Um pequeno corte se abriu em sua têmpora.
— Bem, agora você sabe! – exclamou Marinês.
A jurada encarou-a, sem acreditar. Levantou-se, sempre olhando nos olhos de Marinês. Seu rosto bonito e branco, com uma leve maquiagem, agora estava manchado de sangue.
— Não! Por favor! – disse ela, estendendo as mãos. – Não fiz por mal!
— Como não? Arrancou os sapatos da minha mão! Então fez! Fez sim! – e Marinês lhe deu outro golpe na cabeça, com mais força.
***
— Está surpreso? – perguntou um repórter a Miguel.
— Sem comntários! – respondeu ele. – Marinês? Querida? Cadê você?
Então ela virou o corredor, andando delicadamente, sorrindo, feliz da vida. Deu um forte abraço em Miguel e lhe estendeu o braço, para continuarem a caminhada até a saída do fórum.
— Estou me sentindo revigorada, uma deusa! E vamos logo, pois quero fazer um jantar especial para minha família, como não faço há tempos! Saudades da minha cozinha, da minha casa! Ah! Que alegria! – disse ela.
Foi então que Gabriela Cortez surgiu ao seu lado, sempre com um grande sorriso tomando grande parte de seu rosto, acenando para as câmeras.
— Mari, sua linda, diva, absoluta! Oi! Sou Gabriela Cortez!
— Oi! – respondeu Marinês, sorrindo.
— Senhora Freitas? – chamou uma fotógrafa. – Podemos tirar uma foto sua com Gabriela Cortez?
Gabriela parou abruptamente, agarrando o braço de Marinês com tamanha força que a fez cambalear.
— Claro que pode, amor! – disse Gabriela. – A “mãe assassina” que não é tão assassina assim, ao lado da mãe assassina da TV! Uma foto e tanto! Será que eles vão me fazer má na série? Não percam! Agora abra um belo sorriso, sua linda! Perfeita! Absoluta!
— Ah, não Gabriela! – disse Marinês, tentando se soltar do aperto que a atriz lhe dava no braço.
Mas foi impedida. Gabriela não soltava e continua a sorrir para as várias câmeras que os acompanhavam conforme caminhavam para a porta. Aproximavam-se, também, do corredor.
— Mari, fique aqui! Assim! Temos que ficar lindas, divas, perfeitas e absolutas para as fotos. Vamos estampar muitas revistas, jornais, websites! Tudo o que divas como nós, mulheres revolucionárias, símbolos sexuais, temos direito! Vamos, sorria! Linda!
Mas Marinês não sorria. Sua expressão mostrava impaciência, nervosismo, e uma vontade imensa de descer a mão no rosto de Gabriela.
— Sorria, mãe assassina! Vamos linda, diva! Sorria para as câmeras, não queremos sair feias, temos que sair absolutas!
— GABRIELA CORTEZ! – berrou Marinês, assustando a todos. – PARE DE FALAR DE DIVA, DE ABSOLUTA, VOCÊ NÃO É TUDO ISSO AÍ NÃO. E PELO AMOR DE DEUS, SUA MÚMIA, ESSE LADO MEU É FEIO PARA FOTOS! PARE JÁ COM ISSO!
Toda a bronca foi gravada pelas câmeras das emissoras. Algumas, exibiam a situação ao vivo. Em seguida, ouviu-se outro grito. Um grito de horror, de pânico, vindo do corredor.
— AAAAAAAAAAAAAAAAH! MEU DEUS! MEU DEUS DO CÉU! NÃO!
A jurada 4, que havia anunciado a absolvição, encarava o sapato branco da jurada 8. A única parte do corpo visível para quem não estava, de fato, dentro do corredor. E não bastou nada além disso para que todos pudessem entender. Estava coberto de sangue.
As câmeras focavam a jurada, horrorizada. Pouco a pouco, voltaram-se para Gabriela, que encarava Marinês com a boca aberta, horrorizada. Pela primeira vez o sorriso não esboçava seu rosto.
Em retribuição, Marinês deu seu tão sádico sorriso maléfico e inofensivo.
FIM
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