Kako no Iro - A Cor do Passado
5 "Vocês eram crianças"
Já passava das 13:00 horas, e as duas andavam lentamente pelo caminho que Hikari fazia todos os dias de maneira monótona para ir e voltar da escola, a animação e euforia exorbitante de minutos atrás desapareceu por completo. Havia uma sensação de que precisavam falar de algo, mas nenhuma tomava a iniciativa de começar o assunto. Koshigaya andava com um olhar inquieto, que fitava diferentes coisas no ambiente, como se buscasse energia para falar algo, porém, quem quebra o silêncio é Hikari:
— Quando você chegou?
— Hoje. — Respondeu Koshigaya apática, ainda olhando para o ambiente. Hikari vira-se para ela, concentrando-se em seus cabelos castanhos claros, que deixavam um rastro para trás, apesar da maior parte estar sobre o ombro com uma trança incrivelmente bem-feita. Seu olhar era de quem procurava por sinais de mudanças em sua amiga de infância, e voltando a olhar pra frente, continua:
— Como sabia a onde eu estudava?
— Eu fui na sua casa. Uma senhora me contou e disse como chegar lá. — Koshigaya mais uma vez responde sem interesse. A verdade é que a cada passo que davam, um sentimento de culpa se fortalecia, culpa por não irem direto ao ponto, por não enfrentarem o que precisam enfrentar. Contudo, o remorso voltado uma para a outra as impedem, nenhuma sabia como a outra amadurecera e isso trazia um grande receio.
O barulho de alguns galhos a quebrar, o vento se tornando mais intenso... o suor frio que desce por ambos os rostos se intensifica com a figura da casa de Hikari ficando cada vez mais próxima. Koshigaya para de se movimentar, esperando estaticamente a atenção de Hikari. Um esforço surge dentro de si para fitar os seus olhos negros. Hikari percebe a seriedade do momento, e em uma tentativa de fuga, desvia o olhar para o chão da rua vazia, enquanto cerra os lábios com considerável força.
— T-temos que falar de algo, não é? — As palavras de Koshigaya saem como uma rajada de vento frio pelo ar, causando arrepios intensos. Hikari arregala um pouco o olho, massageia o braço esquerdo com a mão direita, em um gesto pacificador, e então responde positivamente acenando a cabeça. Um breve silêncio toma conta da situação, à medida que Koshigaya aperta as mãos e fecha os olhos com força buscando a coragem para continuar:
— V-você se lembra de como... aconteceu? 11 anos atrás? — Enfim falou, tornando a fitar os olhos de Hikari.
— Como se fosse ontem. — Respondeu com forte melancolia em suas palavras. Mudando a sua visão do asfalto para as raízes da árvore à sua esquerda, Hikari continua a expor seu sofrimento diário. — Eu tenho pesadelos frequentemente com aquele dia...
Koshigaya nota a angústia nas palavras de Hikari, e em um impulso, começa a gritar para a amiga
— A culpa é minha! Toda minha, Hikari!
— Claro que não!! Não, não, não! — Respondeu Hikari, com o tom de indignação crescendo a cada vez que negava, e finalmente olhando para Koshigaya — Eu sou a culpada, Koshigaya! EU! — Um tremor tomava conta de seu corpo, sua palidez se tornava destacada, e voltando a desviar o olhar para o chão, enfim concluiu o pensamento: — E-eu vi... eu vi ela caída na beira do lago, e mesmo assim... continuei correndo... — Seus já olhos se refugiavam atrás do pouco cabelo que tinha na frente de seu rosto.
—Eu deixei vocês duas pra trás, Hikari... eu só pensei em mim naquele dia. Eu devo perdão à Miyuki. — Respondeu Koshigaya, com um ar mais melancólico em seu olhar. Um silêncio assustador surge entre as duas, era como se cada uma tivesse ignorado completamente as confissões uma da outra, cada uma tinha uma culpa dentro de si, que as apertava desde o fatídico dia em seus passados, e que tomou proporções colossais ao longo dos anos. Vendo que não era mais tempo de só lamentar, Koshigaya finalmente diz o que passou o dia inteira, desde que descobriu que retornaria a essa cidade, pensando em como falaria:
— Temos que descobrir o que exatamente aconteceu com a Miyuki.
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