Kako no Iro - A Cor do Passado

6 "No dia em que aconteceu"


Setembro, 2005.

O sinal informando o fim do horário letivo tocara, e Koshigaya, Hikari e Miyuki se encontravam no seu lugar habitual desse momento: no pequeno corredor a céu aberto que tinha no fundo da escola. Uma atmosfera imensa de felicidade rodeavam-nas, mesmo estando afastadas das outras crianças e de suas brincadeiras intensas, as três eram suficientes para si. Acontece que Miyuki tinha uma doença respiratória e o corpo muito fraco, por isso não podia participar de nenhuma das brincadeiras propostas pelas crianças da escola. Havia se recuperado um bocado nos últimos meses, é verdade, porém, tinha de haver precauções, por isso, Hikari e Koshigaya abdicavam das correrias para acompanhar sua amiga de cabelo rosa.

Ontem eu descobrir que tem mais gente na Índia do que na Rússia, isso não é estranho? — Perguntou Miyuki genuinamente confusa. Ler era um de seus hobbies favoritos, já que tinha uma livraria inteira na sua casa, Koshigaya estava deitada na grama, com a cabeça sobre as mãos, fechou os olhos como se fizesse muito esforço para pensar, e respondeu:

— Bem... o que é Rússia? — Uma gota de decepção surgiu na cabeça da menor, que começou mirabolantemente a explicar o conceito que para si era óbvio:

— Oras, Koshi! É um país grandão, desse tamanho assim, ó! — E abriu os bracinhos o máximo que podia para mostrar o tamanho do país na sua imaginação. Koshigaya se levantou, um tanto interessada na ideia.

Tão grande assim!? Maior que o Japão!? — Exclamou a garotinha de cabelos castanhos, com certa empolgação.

Muuuuuuito maior que o Japão! É o maior país do mundo! Roi o que o livro que eu li disse. — Retrucou Miyuki com semelhante empolgação, por ainda ser pequenininha (apenas 6 anos e 1 mês de idade), tinha dificuldade em pronunciar as sílabas com a letra f, fazendo um som de r forte no lugar. Entretanto, um anticlímax veio à tona ao buscarem a opinião de Hikari, pois essa cochilava intensamente no banco que havia ali, com direito ao cabelo longo tampando todo o seu rostinho encurvado, apesar de passar a usar o cabelo curto no futuro.


HIKARII!! — Koshigaya grita bem perto de seu ouvido. Apesar do barulho alto, Hikari levanta plenamente e sem escândalo, fita Miyuki, mas ao perceber que quem gritara tinha sido Koshigaya, vira o rosto em sentido anti-horário, apaticamente em direção a amiga mais velha.

— Que é!?

Você só pensa em dormir é? — E começaram ali uma breve discussão, já típica das duas, mas que terminava em poucos segundos com alguma piada vindo da menina de cabelos negros. Miyuki se divertia bastante, e ria da ‘imaturidade’ das amigas discutindo. Ela explicou novamente seu fato curioso para a dorminhoca, porém Hikari apenas se perguntava como que faziam para alimentar tanta gente na Índia.

Aproveitando a animação de todas, Koshigaya propõe uma ideia que pensara em certo dia: Queria entrar na floresta Daiyoru, que tinha acesso fácil através daquele corredor da escola. As crianças eram proibidas de cruzarem a fronteira da escola, mas havia certa negligência quando se tratava daquele corredor, havendo apenas uma cerca facilmente atravessável entre a escola e as primeiras árvores da floresta. Hikari foi a primeira a negar, escondia isso muito bem, mas na verdade era medrosa. Koshigaya insistiu bastante, geralmente seguia o ritmo das duas amigas e controlava sua sede por aventura, contudo, naquele dia estava disposta a convencê-las, e foi o que aconteceu.

Entraram. O fascínio veio rápido assim que observaram a beleza do lugar, natureza era algo que de interesse das três e os pequenos detalhes do lugar as atraiam. Koshigaya vê um guaxinim e corre um pouco para frente, visando observá-lo melhor, enquanto Hikari e Miyuki observam atentamente às folhas mais altas das árvores ali. Perdem então a noção do tempo, e como que em uma epifania, percebem-se longe da escola, quando as primeiras gotas de chuva surgem.

Temos que voltar! — Gritou a mais velha ao olhar para cima e ver as nuvens escuras através do pequeno espaço que havia entre as folhas. Procuraram desesperadamente o caminho de volta, os 12 minutos que ficaram ali pareceram 2 horas e o ambiente quase que completamente escuro colaborava com isso, pois além do tempo fechado, o Sol já começara a se por naquele momento. A chuva ganhou força, já podia ser classificada com uma tempestade, e das fortes! Ventos, trovões, clarões e muita água, poças enormes começavam a se formar no solo, dificultando a movimentação das garotas, até que, quando já ensaiavam o choro de total desespero, Koshigaya nota uma semelhança vindo de oeste, e depois de perceber um guaxinim nessa mesma direção, teve certeza que a saída era por ali.

— É por ali!! Vamos correr! — Bradou imediatamente, em seguida, os seis pés já estavam movimentando-se com enorme velocidade. Koshigaya, arrependendo-se profundamente no futuro, disparou na frente, apenas enxergando a saída, que tinha certeza de estar cada vez mais perto. Hikari e Miyuki a perdem de vista, mas também já notam o caminho a seguir e continuam correndo. Foi então que o evento causador do maior arrependimento e dos pesadelos de Hikari aconteceu. Miyuki escorregou em uma poça de lama, o que a levou para a beirada de uma inclinação que terminava em um enorme lago, ou talvez um pequeno trecho de um rio. Miyuki grita, e Hikari vira para trás. Ela inicia o movimento para ir em ajuda da amiga, mas o seu desespero era tanto, que ao vê-la levantando, acreditou que Miyuki poderia seguir normalmente. Até hoje Hikari se corrói por essa decisão. Sem nem conseguir se equilibrar em pé novamente, Miyuki cai novamente, e dessa vez se precipita no imenso lago ao redor. E essa foi a última vez que Miyuki foi vista por suas amigas.