Kakatte Koi
44 Sombras do passado
Notas iniciais

Uruha estava sentado em seu quarto, a luz suave do pôr do sol entrando pelas cortinas entreabertas. Ele havia passado os últimos dias se afastando de tudo e de todos, especialmente de Kai. Uruha não conseguia conciliar a imagem do amigo que conhecia com a de um vampiro. A raiva, a traição, e a dor ainda estavam frescas, latejando em seu peito. As inúmeras tentativas dos amigos em mediar uma conversa entre eles não haviam surtido efeito. Ele simplesmente não queria ouvir.
Quando chegou ao restaurante naquela tarde, Uruha estava visivelmente tenso. Daigo já estava esperando, sentado em uma mesa no canto, o semblante preocupado, mas determinado. Uruha sentou-se à frente dele, cruzando os braços, sem esconder a desconfiança.
— O que você quer, Daigo-san? — disparou Uruha, direto ao ponto, sem rodeios. — Kai-san pediu para você tentar me convencer falar com ele?
Daigo respirou fundo antes de responder.
— Uruha-san, eu sei que você está com raiva e magoado, e eu entendo o motivo. Ele não sabe que liguei para você. Também sei que você ainda tem sentimentos por ele. Sei disso porque eu também tenho e eu quero que você entenda, que ele não escolheu isso.
Uruha franziu a testa, sentindo a raiva borbulhar novamente.
— Você acha que isso muda alguma coisa? Ele mentiu para mim, Daigo-san! Ele... ele me usou!
Daigo inclinou-se um pouco mais para frente, sua expressão sincera.
— Eu sei que você se sente traído, e você tem todo o direito de se sentir assim. Mas há coisas que você não sabe que descobri sobre ele.
— O que você descobriu, Daigo-chan?
As palavras saíram mais ásperas do que Uruha pretendia, refletindo a dor que ele ainda sentia.
— Eu descobri que Yutaka não escolheu ser um vampiro. E eu descobri isso porque... Eu estava lá enquanto auxiliava o chef Kai nos jantares, e foi assim que tudo começou.
— Começou? Como assim?
— Você se lembra daquele dia em que ajudei com o jantar de Kai-san e ele passou mal?
— Sim. Você disse que ele tinha distúrbio alimentar, nada parava no seu estômago.
O olhar de Uruha se intensificou, as palavras de Daigo o prendendo.
— Foi aí que tudo começou com um simples ato de ajuda nos jantares que Kai-san estava organizando. Ele queria agradar você e comeu mesmo sabendo que o seu corpo rejeitaria o alimento, durante esse tempo que descobri o segredo dele...
Uruha franziu a testa, confuso com as palavras de Daigo.
— Que segredo? Do que você está falando?
— Yutaka-san ser vampiro. Ele não escolheu ser vampiro, foi transformado contra a sua vontade. Eu estive com ele em momentos difíceis, vi a transformação dele e testemunhei isso da pior maneira possível. Então, enquanto passávamos mais tempo juntos, meu sentimento por ele foi crescendo. Senti uma forte atração por ele, algo que eu não conseguia controlar, mas respeitei porque ele havia pedido você em namoro.
Daigo parou por um momento, respirando fundo.
— No dia em que você partiu feliz, depois do jantar de comemoração do single. Ele não conseguia mais controlar seus instintos, a fome o consumia, sei que ele não queria te machucar, e se segurou o máximo que pode — as memórias voltando com força — Eu tava lá e fui vítima do ataque da sede de sangue de Yutaka.
Uruha ficou atônito, a complexidade da situação o deixando sem palavras. Uruha finalmente encontrou sua voz, sua expressão, uma mistura de surpresa, confusão e tristeza.
— O quê? — sua voz saiu baixa, cheia de incredulidade.
— Sim, Uruha-san, não foi um assaltante, eu fui atacado pela sede de sangue dele. E, mesmo com tudo o que aconteceu... Eu não o culpo, entendi o que ele estava passando, meu sentimento por ele só cresceu. Eu me apaixonei por Yutaka-san.
O silêncio pairou sobre a mesa enquanto as palavras de Daigo afundavam em Uruha.
Um garçom se aproximou da mesa trazendo uma garrafa saquê e dois mini-copos, que Uruha encheu e bebeu num gole só, processando tudo o que acabara de ouvir, e as emoções o atingiram com força. Era uma situação incrivelmente complexa, cheia de segredos e paixões não resolvidas.
O olhar de Uruha vacilou. Ele queria manter sua raiva, seu ressentimento, mas o peso do que Daigo estava dizendo mexia com algo profundo dentro dele.
— Ele... ele fez isso com você? E você continua aqui, defendendo ele? Como? Como você consegue? — A dor na voz de Uruha era inegável.
— Porque eu o amo, Uruha-san. — Daigo olhou diretamente nos olhos de Uruha, sua sinceridade como um golpe direto. — Eu o amo com tudo que ele é, com todos os fardos que ele carrega. Eu sei que ele está lutando contra algo que vai muito além de nós. Ele carrega uma culpa tão profunda que eu nem sei se ele vai se perdoar um dia. Mas você precisa saber que ele nunca quis que fosse assim.
Uruha desviou o olhar, lutando para processar o que acabara de ouvir. Sua mente estava um caos, e a imagem de Kai, o amigo que ele conhecia há algum tempo, se misturava com a nova realidade que Daigo estava revelando.
— Eu me senti tão... insignificante. Achei que nossa amizade fosse importante para ele, mas ele te escolheu, Daigo-san. E não a mim. — Uruha admitiu, sua voz carregada de frustração e dor.
Daigo balançou a cabeça, compreensivo.
— Ele nunca te escolheu ou me escolheu, Uruha-san. Ele estava lidando com uma transformação horrível, e tudo saiu de controle quando me atacou. Ele sentiu atração física primeiro por você. E agora... ele se sente preso em uma espiral de culpa por mim, e achando que você nunca vai perdoá-lo.
— Eu... eu não sei o que dizer, Daigo-san. Isso é muita coisa para processar.
— Eu sei que é difícil de entender, mas é a verdade. Ele é o mesmo Kai que você conheceu, mas agora ele tem essa parte de sua vida que ele não pediu. E ele queria contar a você, mas estava com medo da sua reação.
O silêncio pairou sobre eles, pesado e incômodo. Uruha olhou para as mãos, pensando em tudo que havia acontecido. As lembranças da amizade com Yutaka, as noites compartilhadas com Kai, os risos, as conversas profundas... agora tudo parecia envolto em um véu de dor e traição.
— No jantar depois do show, Kai-san tentou contar para você que era um vampiro, mas não foi levado a sério, fizeram até piada com um clipe de Halloween. Eu me afastei dele para não vê-lo mais destruído com depressão por sua causa. Por favor, dê uma chance e converse com ele. Nunca mais observei o sorriso com covinhas no rosto dele. — Daigo implora a Uruha.
Daigo estava disposto a abrir seu coração para Uruha, compartilhando verdades profundas e complexas sobre Yutaka, esperava que ele pudesse encontrar em seu coração a capacidade de compreender a situação.
— Eu só quero que você saiba que a razão pela qual estou compartilhando isso é porque eu vi o quanto ele está sofrendo. A depressão o consome, e ele não queria mais se alimentar de ninguém, especialmente de mim. Ele se sente culpado por tudo o que aconteceu entre vocês.
Uruha estava visivelmente atordoado com a revelação de Daigo. Olhando ele com uma mistura de emoções conflitantes deixando-o perplexo. Ele sabia que sua raiva e decepção em relação a Yutaka eram poderosas, mas agora ele estava enfrentando uma reviravolta inesperada na história.
— Daigo-san, eu... não posso negar a honestidade em suas palavras e o quanto isso deve estar doendo em você. Eu nunca soube que as coisas haviam chegado a esse ponto para o Kai-san, e eu não tinha ideia dos seus sentimentos por ele. Eu também não posso negar o que senti por ele, e a falta que ele faz...
Uruha compreende agora a dor de Daigo, a coragem e o amor que ele tem por Yutaka, de sentir falta da mordida do vampiro.
— Eu... eu não fazia ideia, Daigo-san. Eu sempre achei que ele... tivesse escolha, que ele tivesse feito tudo de propósito. Mas... você estava lá? Você passou por isso também?
Daigo diz com uma voz suave, mas firme.
— Sim, Uruha-san. Eu estava lá, e vi o que Yutaka estava passando. Foi horrível para ele, e foi ainda mais horrível para mim. Eu percebi que ele estava lutando contra algo muito maior do que ele mesmo. Não é como nos filmes ou nos livros... ser vampiro para Yutaka é um fardo, uma maldição. Ele nunca quis isso, e agora está preso nesse ciclo de culpa e dor.
Uruha inclinou-se para frente, os cotovelos apoiados na mesa, as mãos entrelaçadas, lutando para entender as palavras de Daigo. A raiva que ele havia carregado por tanto tempo estava começando a desmoronar, substituída por uma sensação de confusão e, talvez, empatia.
— E você, Daigo-san? — Uruha perguntou, quase num sussurro. — Como você consegue lidar com isso? Com o que ele é?
Daigo sorriu tristemente.
— Eu não vejo ele como um monstro, Uruha-san. Eu o vejo como alguém que está sofrendo, alguém que precisa de ajuda. O que ele é não define quem ele é. Você sabe disso melhor do que ninguém.
As palavras de Daigo ressoaram em Uruha. Ele sempre soubera que Kai tinha um coração bondoso, sempre fora gentil e atencioso. Mas agora... tudo parecia tão confuso.
— Eu me senti tão traído, Daigo-san. Primeiro porque ele nunca me contou, e depois... porque ele te escolheu. Eu não consigo entender como você ainda quer estar perto dele, depois de tudo que passou.
— Eu o amo do jeito que ele é, mesmo com todas as complicações, e eu aceito isso. O que aconteceu entre nós, não, foi algo planejado. Tudo mudou quando ele perdeu o controle. Eu sei que é difícil, mas... só espero que você consiga ver isso, como eu vejo.
Uruha ficou em silêncio por um longo momento, o som suave do restaurante ao redor deles criando uma sensação de isolamento. Finalmente, ele falou, sua voz carregada de exaustão e resignação.
— Eu... eu não sei se estou pronto para perdoá-lo completamente, Daigo-san. Mas, talvez eu deva, pelo menos, escutar o que ele tem a dizer. Se você está disposto a seguir em frente com tudo isso... acho que eu devo tentar fazer o mesmo.
O alívio foi instantâneo no rosto de Daigo, que soltou um leve suspiro, como se estivesse segurando a respiração esse tempo todo.
— Uruha-san, eu realmente aprecio que você esteja disposto a ouvir. Acredito que uma conversa entre vocês possa esclarecer muitas coisas. Afinal, vocês tiveram uma história juntos, e o que aconteceu não pode ser apagado. Talvez seja o primeiro passo para todos seguirem em frente.
Uruha assentiu, ainda relutante, mas determinado a, pelo menos, dar uma chance para essa conversa.
— Ok. Mas, Daigo-san... isso não significa que tudo voltará a ser como antes. Eu ainda preciso de tempo para assimilar tudo isso.
— Eu sei, Uruha-san. Eu entendo. Apenas dê a vocês dois essa chance de acertar as coisas. Isso é tudo que eu peço, que você o escute. Ele merece a chance de se explicar, e você merece a chance de ouvir a verdade. Depois disso, você decide o que fazer.
— Ligarei para ele agora. Marcarei um encontro em algum lugar neutro, onde a gente possa conversar. — Uruha pegou o celular e, antes que pudesse hesitar novamente, discou o número de Yutaka. O telefone tocou algumas vezes antes que a familiar voz hesitante respondesse.
Daigo observou enquanto Uruha discava o número de Yutaka, sentindo uma mistura de esperança e ansiedade crescer dentro de si. Ele sabia que não seria fácil, mas aquele era o primeiro passo que Yutaka tanto precisava para começar a consertar o que havia sido quebrado. O restaurante parecia mais silencioso do que nunca enquanto Uruha esperava o telefone chamar.
Finalmente, a voz de Yutaka soou do outro lado da linha, hesitante, mas cheia de surpresa.
— Uruha-san? — A surpresa na voz de Yutaka era clara.
— Precisamos conversar. Eu preferiria que não fosse na mansão nem no restaurante, para evitar qualquer pressão desnecessária. Um lugar neutro. Eu... quero ouvir o que você tem a dizer.
Do outro lado da linha, o alívio era palpável na resposta de Yutaka.
— Isso soa bem, Uruha-san. Estou contente que você esteja disposto a falar comigo.
— Que tal nos encontrarmos em um bar próximo ao restaurante? Amanhã, às sete da noite. Vamos nos encontrar lá, então.
— Claro, Uruha-san. Arigatô. Eu... estarei lá.
Quando Uruha desligou o telefone, sentiu um peso em seus ombros, mas também uma leve chama de esperança. Ele olhou para Daigo, que o observava com um sorriso discreto.
— Acho que isso é o melhor que posso fazer por enquanto. — Uruha suspirou, cansado, mas decidido.
— É mais do que suficiente, Uruha-san. Arigatô. Espero que isso seja o início de uma maneira de seguir em frente.
Uruha assentiu, sabendo que havia muito a ser discutido e que a estrada à frente seria desafiadora. Mas, por enquanto, ele estava disposto a dar uma chance a Yutaka para contar sua versão da história.
A partir daquele momento, ambos sabiam que o caminho seria longo e complicado, mas pelo menos, agora, havia uma chance de cura para Yutaka, Uruha, e até mesmo para Daigo.
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O encontro foi marcado, e ambos estavam ansiosos para a oportunidade de esclarecer as coisas e, esperançosamente, encontrar uma maneira de reconciliação. A conversa no bar se tornaria um momento crucial para eles, uma oportunidade de entender e sanar as feridas do passado.
Yutaka olhou para Uruha com uma expressão carregada de nervosismo e vulnerabilidade. Ele sabia que aquela conversa seria decisiva. Depois de tanto tempo escondendo sua verdade, ali estava ele, prestes a revelar seu lado mais sombrio, algo que ele evitava compartilhar com todos que amava.
— Eu sei que você está com medo... e com raiva, Uruha-san. Eu também estaria. Mas, por favor, só me ouça. Não estou aqui para pedir seu perdão, só quero que você saiba a verdade. — disse Yutaka, sua voz carregada de tensão.
Uruha, ainda que relutante, concordou em silêncio. Ele estava ali para escutar, cruzando os braços como se tentasse se resguardar do que estava por vir. Seu coração pulsava rapidamente, dividido entre a indignação e a necessidade de compreender.
Yutaka, então, acenou para o garçom e pediu um vinho tinto para ambos, pois o que tinha a dizer exigiria daquela coragem líquida. O silêncio entre eles, até a bebida chegar, era bastante desconfortável; após um gole, Yutaka suspirou fundo, voltando seu olhar para Uruha.
— Eu sou um Dhampir, Uruha-san. Meio humano, meio vampiro. Meu pai é Hyde-san, ele é um vampiro puro, e minha mãe era humana. Desde que nasci, vivi com essa maldição, mas não sabia, só descobri há pouco tempo. Sendo um vampiro necessito de sangue para sobreviver, isso não é nada que eu tenha escolhido — a voz de Yutaka vacilou, mas ele prosseguiu, observando cada reação de Uruha.
— Hyde-san, o músico? Um vampiro?
Ele fez uma pausa, observando a expressão confusa e tensa de Uruha. Os olhos de Uruha se arregalaram levemente ao ouvir a palavra "vampiro".
— Sim, a música e os vampiros estão ligados no mundo humano.
Ele inclinou-se ligeiramente para trás, como se o chão tivesse se desfeito por um instante sob seus pés. Yutaka continuou, sentindo que precisava explicar melhor.
— Eu tentei te proteger de tudo isso, porque sei que não é fácil de entender. Queria que você continuasse me vendo como o chef Kai que conheceu, e baterista da banda, e não o... monstro que carrega essa fome. Mas tudo desabou quando você descobriu sobre Daigo-san — disse Yutaka, com a voz embargada.
A menção de Daigo fez Uruha desviar o olhar. A ferida ainda aberta pulsava em seu peito, o queixo trêmulo. A dor da traição se misturava ao novo entendimento de uma realidade que ele nunca esperou enfrentar. Yutaka apertou as mãos sobre a mesa, buscando força para continuar.
— Daigo-san... descobriu por um descuido meu. Ele me encontrou no pior momento e eu não pude evitar. Eu estava descontrolado, a sede de sangue era insuportável, e ele estava lá. Foi um ato de desespero, ainda não me perdoei pelo que fiz a ele, mas... ele entendeu o que estava acontecendo. — confessou Yutaka, as palavras lhe rasgando por dentro. — Ele não fugiu, Uruha-san. Ele escolheu ficar e me ajudar a controlar o que eu não conseguia. E, com o tempo, acabamos nos aproximando mais do que eu jamais imaginei.
Uruha apertou os punhos, a confusão dançando em seus olhos. Ele respirou fundo antes de se virar novamente para Yutaka, a voz baixa, quase um sussurro.
— Você não acha que esconder isso de mim foi o pior? Eu sempre estive ao seu lado — disse Uruha, a voz pesada de frustração.
Yutaka fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso da pergunta.
— Não... não foi certo. Mas eu tinha medo, Uruha-san. E, no fim, foi isso que aconteceu. Você sempre foi meu porto seguro, a vida humana que queria ter e eu não suportava a ideia de você me ver como um maldito vampiro.
Yutaka parou, hesitando, antes de continuar.
— E é por isso, que Daigo-san se tornou um amigo que acabou gostando de mim, Yutaka que é a parte vampira. Assim como você, que gosta do baterista Kai, que sou eu tentando manter minha humanidade. Somos um corpo só, uma parte é deste mundo e outra do mundo da música, que está mais entrelaçado com a comunidade vampira do que imaginávamos.
Sentado em frente a Uruha, Kai respirou fundo antes de começar a contar sua história. Ele sabia que essa era sua última chance, e a dor estava evidente em seus olhos.
Uruha finalmente olhou para Yutaka, seus olhos cheios de emoções conflitantes.
— Uruha-san, não precisa ter medo. Eu sou o mesmo Kai que você conheceu. Mas antes de tudo isso, eu era Yutaka, e essa parte da minha vida humana... eu nunca contei para ninguém.
Ele abriu a boca para falar, mas Yutaka o interrompeu, continuando sua confissão.
— Eu sei que isso te feriu, e eu sinto muito por isso. Mas, por favor, entenda que eu nunca quis te machucar. Eu estava perdido. Minha vida sempre foi uma montanha de dificuldades.
Uruha o olhava em silêncio, as mãos repousando tensas sobre a mesa segurando o copo vazio. Kai continuou, sua voz carregada de emoção
— Eu... não contei sobre minha vida antes porque achava que isso me definia como um fracasso. Quando eu tinha 14 anos, minha avó morreu de pneumonia. Ela foi quem me criou junto com minha mãe. Quando ela se foi, eu saí da escola para cuidar da minha mãe, que descobriu estar com câncer. Ela morreu dois anos depois, quando eu tinha 16. Eu perdi tudo, Uruha-san. O banco tomou nossa casa para pagar as contas do hospital, e eu fui jogado em um orfanato. Eu era só um garoto, sem família, sem futuro, e sem saber quem era meu pai. Perdi as duas pessoas mais importantes da minha vida.
Yutaka respirou fundo, lembrando dos momentos difíceis.
— Fiquei no orfanato até os 18, e depois fui parar nas ruas. Trabalhei como escravo em um bar até que, aos 21, Kamijo-san me encontrou. Ele me salvou, me deu um propósito quando eu não tinha mais nada. Ele me tirou da escuridão em que eu estava afundando. — a voz de Yutaka era carregada de gratidão e dor ao falar de Kamijo.
Uruha franziu a testa, absorvendo cada palavra com uma mistura de empatia e confusão. Ele ainda tentava processar tudo o que Kai estava revelando.
— Kamijo-san? — murmurou Uruha. — Também é um vampiro?
— Sim, ele e o Versailles aproveitam o estilo e usam na sua música. — Kai suspira e tentando voltar ao assunto.
— Eles usam o Visual Kei para fingir ser uma banda de vampiros. — Uruha fala indignado. — sendo realmente vampiros...
— Exato, Kamijo-san foi a única pessoa que me salvou naquela época. Ele e Hizaki-san me deram uma nova família, me tirou do que seria uma existência miserável. Eu tinha 25 anos quando briguei com ele. Fiquei com raiva, quis fugir e morar sozinho no restaurante, e então... eu só me lembro de ser transformado em vampiro. Mas eu não sabia... que eu era um dhampir. — admitiu Yutaka, o tom cheio de amargura.
Uruha piscou, absorvendo o choque da revelação. A voz de Yutaka agora era quase um sussurro, carregada de dor.
— Mas mesmo assim, essa parte de mim... essa parte vampírica sempre esteve lá, escondida e tinha que ser ativada para minha sobrevivência. Eu só queria que você visse o Chef Kai, o cara que toca bateria e gosta de cozinhar, o seu amigo. Não o vampiro que se esconde nas sombras com medo, de perder o controle e atacar as pessoas a sua volta para saciar a sede de sangue.
Uruha desviou o olhar, ainda digerindo as palavras de Kai. A confusão se misturava à dor que ele sentia. À medida que a história avançava, Uruha sentiu uma mistura de choque, surpresa e compaixão.
O que antes parecia impossível e absurdo estava se tornando realidade diante de seus olhos, e a sinceridade nos olhos de Kai era inegável.
Uruha, ainda absorvendo tudo, cruzou os braços sobre o peito.
— E Daigo-san? Ele sabe de tudo isso? — perguntou em um tom hesitante.
Yutaka assentiu, sentindo um peso no peito ao pensar em Daigo.
— Sim. Daigo-san ficou ao meu lado, mesmo quando eu estava fora de controle. Ele aceitou tudo, me ajudou a lidar com essa parte de mim que eu não conseguia controlar. — disse Yutaka, seus olhos implorando por compreensão. — Mas eu nunca quis que isso te machucasse, Uruha-san. E, no final, só te causei mais dor.
Uruha suspirou, o peso da verdade começando finalmente a afundar em seu coração.
— Então... por que Daigo-san? Por que não me contou? — a voz de Uruha soou mais frágil agora, o queixo erguido como se tentasse se manter firme.
Yutaka baixou os olhos, sua expressão cheia de arrependimento.
— Porque eu tinha medo de te perder, Uruha-san. — repetiu Yutaka, a voz baixa. — Você... você foi meu porto seguro, a única coisa estável na minha tentativa de vida humana, e eu não suportava a ideia de você se afastar, se soubesse a verdade, talvez me veria como uma aberração.
Os olhos de Uruha suavizaram, mas ainda estavam cheios de dor, as emoções misturadas. Havia raiva, mas também uma empatia crescente.
— Eu não te vejo assim, Kai. — disse Uruha, suavizando finalmente o tom. — Eu... só estou confuso. Tudo o que aconteceu entre nós... foi real? Ou foi só mais uma parte desse segredo que você estava tentando esconder?
Yutaka sentiu um aperto no peito. A sinceridade da pergunta de Uruha o atingiu com força.
— Foi real, Uruha Ahiru-chan. Cada momento entre nós foi real. Nunca menti sobre o que sentia. Só tentei manter essa outra parte de mim longe de você, achei que estava te protegendo. Achei que estava fazendo a coisa certa. — disse Yutaka, com um suspiro trêmulo.
O silêncio pairou entre eles, pesado e incerto. Uruha observava Yutaka, tentando entender o que se passava na mente dele. Lentamente, a resistência de Uruha começava a ceder diante da vulnerabilidade de Yutaka.
— E agora... o que acontece? — perguntou Uruha, a voz baixa, quase quebrada. — Você ainda está com o Daigo-san?
Yutaka desviou o olhar, incerto do que responder.
— Eu... não sei. Eu e Daigo estamos ligados de uma forma que é difícil de explicar. — as palavras vacilando — Ele me entende, e eu não preciso esconder quem eu sou dele, só que estamos afastados, para resolver essa situação entre nós. Só quero consertar o que foi quebrado entre nós, se... isso ainda for possível.
Uruha respirou fundo, as emoções conflitantes ainda fervendo dentro dele. A raiva continuava lá, mas agora mesclada com uma profunda empatia. Ele estava tentando processar o que ouvia.
— Eu não te vejo como um monstro, Yutaka/Kai-san, mas... você escondeu essa parte importante de você de mim. Você se aproximou de Daigo-san, e... ele continuou ao seu lado, mesmo depois que você o atacou. Isso... me assusta e, ao mesmo tempo, me intriga.
Yutaka mordeu o lábio, relutante, mas sabia que aquele era o momento de ser completamente honesto. Olhou em volta, certificando-se de que o local era seguro, e então, sem aviso, revelou sua forma vampírica: os olhos vermelhos brilhando, as presas salientes e afiadas.
A reação de Uruha foi imediata. Ele se afastou bruscamente, o coração disparado e a respiração acelerada. O medo era palpável.
— Viu? — Yutaka falou com um sorriso triste, revertendo sua transformação. — Você se afastou. Eu sabia que você ainda tinha medo. Daigo-san... ele quis tocar nas minhas presas assim que as viu. Disse que amava o vermelho dos meus olhos.
Uruha ficou em silêncio, observando Yutaka com uma nova perspectiva. Ainda sentia o peso do medo, mas agora algo diferente surgia dentro dele. Ele pegou a taça de vinho que havia pedido para essa conversa e tomou um gole, tentando se acalmar.
— Yutaka-san... por que você ainda está perdendo tempo comigo? — A voz de Uruha agora estava mais suave. — Vá atrás dele, antes que seja tarde demais. Daigo-san deve estar se sentindo rejeitado, assim como eu me senti.
— Eu precisava resolver isso com você antes, Uruha-san. — Yutaka inclinou-se um pouco para frente, a sinceridade em sua voz era quase palpável. — Mas você não queria me ouvir...
— Sumimasen... eu fui egoísta — Uruha murmurou, abaixando a cabeça. — Não pensei no quanto você e Daigo-san estavam sofrendo por minha causa.
— Acha que ele vai me aceitar de volta? — Yutaka perguntou, sua voz trêmula com a incerteza. — Eu o magoei tanto, indo atrás de você.
— Acho que sim — Uruha respondeu, levantando os olhos para encontrar os dele. — Ele te ama, Yutaka-san. Só... vá e tente reconquistá-lo. Não deixe que isso se perca.
Yutaka sorriu, um sorriso fraco, mas cheio de gratidão.
— Arigatô, Uruha-san. Obrigado por me dar a chance de consertar as coisas... depois de tudo o que estraguei.
— Gomen... por demorar tanto para entender a situação que ficava entre nós — Uruha murmurou, seu olhar suavizando enquanto ele finalmente baixava suas defesas.
A história de Yutaka o havia atingido profundamente, mas a traição ainda residia em algum lugar dentro dele. Mesmo assim, ele sabia que aquele momento era um ponto de virada.
O silêncio que seguiu foi pesado. Uruha não sabia como reagir. Ele observou Kai com uma mistura de dor e compaixão, a mente lutando para conciliar o passado com o presente.
— Eu... eu não sei se posso perdoar isso de uma vez. Mas... acho que posso tentar entender. Não quero perder a banda, e também não quero perder você, Kai-san.
Yutaka soltou um suspiro, quase de alívio. Havia muito ainda para resolver, mas aquelas palavras eram o primeiro passo.
— Eu sei. Não espero que me perdoe de imediato. Mas queria que soubesse a verdade. Sobre quem eu sou, e que você é importante para mim e que sempre houve uma amizade real entre nós.
Uruha olhou para Kai por um longo momento, e pela primeira vez desde a traição, ele sentiu um lampejo de compreensão.
— Isso já significa muito para mim, Kai-san. Arigatô por me contar — disse Uruha, a voz firme, mas com uma suavidade nova
— Arigatô por me ouvir. — disse Yutaka, sorrindo com gratidão.
E assim, embora ainda houvesse muita dor e incerteza entre eles, aquele momento marcou o primeiro passo em direção a uma possível reconciliação. Ambos sabiam que o caminho seria longo, mas pelo menos agora, estavam dispostos a caminhar juntos.
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