Kaichou Wa Heroine-sama!
6 Adventure VI - The girl and the demon
Notas iniciais

“Onde está aquele idiota?”, questionou-se uma vez mais.
Como se não bastasse estar na droga de uma cidade desconhecida e congelante (ainda que o ídolo tenha emprestado a própria capa), ter um enfermo a cuidar e uma mãe perdida a procurar, o bastardo sumira! O que ele queria? Metê-la em mais problemas? Um grande idiota!
Deveria deixá-lo para trás, era o que a mente lhe dizia; livrar-se de vez de um nômade que a provocara insistentemente durante todo o tempo. Contudo, devia agradecer a ele por ter sido ao menos um bom, embora pervertido guia. E Usui fora útil em suas buscas... Ora, não sabia mais se era realmente benéfico avançar sem ele!
Aninhou-se mais no tecido que a envolvia, eliminando qualquer fresta que deixasse o frio penetrá-lo. Tanto a temperatura quanto a consciência de onde estava a fizeram voltar à realidade: não havia tempo para questionar-se. Iria encontrá-lo como almejava; se depois viessem a seguir por caminhos distintos, era outra questão a ser tratada mais tarde. Não deveria se deixar abalar por dúvidas ― seria sua força a mantê-los.
Determinada, seguiu por entre as ruelas cuja pavimentação escondia-se quase que por completo devido à neve. Apesar do clima rigoroso, muitos eram os habitantes a circular por entre a cidade; em sua maioria buscando os abrigos das tavernas ou hospedarias. Alguns voltavam de caçadas, ostentando aquilo que seria o próximo banquete. Um punhado de crianças divertia-se criando bonecos cândidos ou talhando o chão com o próprio corpo. E o mais importante: nenhum deles era Takumi.
Para onde fora o bastardo, afinal?
Afastou-se do grande movimento, concentrado na praça principal, para aventurar-se pelas ruelas escuras, estreitas e sobretudo desertas. Por aquela área cruzou com algumas figuras ameaçadoras, e não deixou-se ameaçar, seguindo por eles sem medo. Como poderia manter o orgulho como guerreira se meia dúzia de baderneiros a assustasse?
Contudo, apressou o passo, pois lutas eram desnecessárias. Estava em busca de um babaca sumido, isso sim! E tão logo pensou nele mais uma vez, vislumbrou familiares madeixas loiras através da entrada do que deveria ser uma instalação abandonada.
Apenas a porta encontrava-se aberta ao exterior, já que todas as janelas foram bloqueadas por tábuas que filtravam até mesmo a luz uniforme e branca do céu pálido. Do teto pendiam teias de aranhas, e nas profundezas do ambiente sombrio, ruídos de insetos e ratos eram ofensivamente nítidos. O que um dia fora um balcão sofrera com o tempo e o descaso; muitas mesas e cadeiras estavam jogadas a esmo, e pareciam sofrer do mesmo abandono. Toalhas imundas, puídas cobriam algumas mesas, e algumas se encontravam estiradas no chão. Não se surpreendeu quando a madeira rangeu sob seus pés.
Porque ali, naquela espelunca, sentado em uma das cadeiras a fitar o chão de maneira incompreensível, estava Usui. E não se importava de adentrar em local tão asqueroso para buscá-lo. No entanto, nem a denúncia barulhenta dos próprios passos acordou-o de seu transe. Oh, ele merecia uma bronca daquelas ― brincar de pique-esconde em um momento tão delicado!
― Onde você estava? ― rugiu, irritada. ― Te procurei por todo o canto!
― Procurou por mim? ― Havia algum humor estranho, incomum na indagação. ― Tem certeza?
― Iria procurar por quem, imbecil? ― Ignorou qualquer suspeita, quase cega de raiva. Agir irresponsavelmente justo naquele momento? Era demais! ― Levante-se logo, precisamos de um médico que verifique o estado do Shintan-
― Este nome me irrita ― interrompeu o loiro. ― A ele também.
Contudo, para Ayuzawa foram apenas murmúrios incompreensíveis. E o maldito continuava sentado, apoiando os cotovelos sobre as pernas e olhando fixamente para o assoalho. O que havia de tão interessante ali além de baratas? Impaciente, insistiu:
― Que besteiras está resmungando aí, Usui?
― Eu prefiro ser chamado por meu próprio nome, mulher.
E enfim levantou os olhos para mirá-la. Lá estava o mesmo rosto de sempre, talvez um pouco mais sério que de costume. Porém, algo estava absolutamente diferente. Não encontrou o par de orbes esverdeados, de um tom vivo e vibrante que por vezes mais pareciam joias derretidas. Em seu lugar, destacavam-se duas manchas rubras e sombrias, cuja visão evocava as trevas. Como qualquer cidadão bem instruído, Misaki sabia bem o que significavam íris vermelhas.
O estigma de um demônio.
Imediatamente conjurou uma adaga, pondo-se em posição de defesa. Poderia ser corajosa, mas não era idiota: tinha noção de como o corpo reagira quando apercebeu-se da presença maligna. Controlava-se para disfarçar o nervosismo; se o deixasse dominá-la seria seu fim. Não sabia qual era o nível de poder do inimigo, ou o que ele fazia no corpo de Takumi, e enfrentá-lo diretamente, principalmente sem a própria armadura, poderia ser fatal.
Sem dele desviar os olhos, arrastou os pés sutilmente para trás. A porta estava próxima... Se fugisse, teria de correr ― e muito ― e talvez atrair a atenção daqueles homens podres do lado de fora, mas isto era mais agradável do que lidar com uma criatura das trevas. No entanto, ele pareceu antecipar o plano, pois os olhos reluziram em entendimento e o rosto franziu numa carranca.
Merda...! Ao preparar-se para fugir, virando-se na direção da entrada e inclinando as pernas para usá-las até a exaustão, todas as esperanças desapareceram. Neste meio tempo de reação, somente ao retirá-lo do campo de visão por poucos segundos, ele avançara até seu objetivo e selara-a com o próprio pé, num chute grosseiro.
O que aquela criatura estava fazendo ali? Por que Usui? Eram estas as indagações constantes, até aquele momento. Porque agora, ao encará-lo sem nenhuma esperança de escapatória, o único pensamento era quase doentio de tão insistente. “Vou matá-lo antes que me mate. Matá-lo... Matá-lo!” Por isto ergueu mais a lâmina, pondo-a entre si mesma e o demônio.
E avançou. Preparou-se para atingi-lo em cheio, em um ponto que ao menos em um ser humano seria danoso. Talvez não o fosse para o adversário, mas depositava confiança em seus movimentos: tinha que crer que era possível. Tomou impulso, e percebeu que atingira algo, pois sentiu a adaga a perfurar algo, e o pingar insistente de sangue sobre o chão.
Ele a interceptara usando a mão direita. Arregalou os olhos amarelados diante da cena bizarra: a palma, completamente fissurada e inserida até o meio da lâmina. Aproveitando-se do sobressalto da morena, enfiou mais a própria mão, até alcançar seu cabo e segurá-lo de modo sinistro. Um leve franzir de sobrancelhas denunciava o desconforto mínimo, e a voz foi calma e rouca, embora fria, ao proferir:
― Abaixe essa arma, não vai ser útil de qualquer maneira.
Medo. Medo anestesiava os sentidos e tornava tudo irreal. Impedia os membros de movimentarem-se em reação. Fazia a existência fraquejar; mal podia dizer se estava tremendo e arrepiando ou era apenas impressão. Não queria morrer. Não queria morrer! E o medo, ensinaram-lhe desde pequena, era combustível para a coragem. Um não existia sem o outro.
E esta pequena chama, convertida em puxões para recuperar a própria arma, foi cruelmente apagada quando, sem qualquer dificuldade, ele tomou para si o objeto. Sem pressa, arrancou-a da carne em que se entranhara, gerando um ruído perturbador. Pior era sua expressão: havia apenas o desagrado de quem simplesmente arranhou a pele. Mas tratou de eliminar qualquer possibilidade de dor: diante da orgulhosa guerreira, despedaçou a adaga como se amassasse folhas de papel.
Como... como era possível? Como poderia enfrentar algo que a fitava como se fosse uma mosca incômoda e insignificante? Como iria manter-se viva se ele podia repetir nela mesma o que fizera com a lâmina tão resistente? Afastou-se por instinto, até que sentiu as mãos a tatearem algo às costas. O balcão. Merda, estava nos fundos do recinto! Como uma presa encurralada.
― Onde está Usui? ― indagou, firme.
― Estou aqui ― respondeu a coisa, acenando para o próprio corpo. Uma das mãos estava claramente ensanguentada, mas ele mal parecia incomodado. ― Mas acho que se refere à outra metade, não é?
― Desde... desde quando?
Não mais que um sussurro, a voz era incrédula. Outra metade? Compartilhavam aquele corpo? Então, aquele com quem lidara durante todo o tempo... Mas por que nunca demonstrara qualquer indício? O demônio o possuíra fazia pouco tempo? Quantas horas, precisamente?
― O quê? Minha existência atrelada à de Takumi? ― Tanto a fala quanto o caminhar eram mansos. E, inexoravelmente, avançava até Misaki. ― Desde que “nascemos”, naturalmente.
Mentiras... tantas mentiras. Por que acreditara que aquele nômade misterioso seria diferente do restante? Eram assim todos eles, sem exceção, e não aprendera depois de tantos anos. Deixara ser conduzida por um demônio! Pior, ele estivera tão próximo da irmã mais nova. Só de pensar no que ele poderia fazer à Suzuna, contraiu-se em nojo. Mal percebeu, ele estava tão próximo quanto possível, usando da destreza sobrenatural para murmurar sobre seu ouvido.
― Realmente esperava que não guardássemos nossos segredos?
Arrepiou-se, e desta vez não foi por medo. Foi por repulsa. Com toda a força disponível, empurrou-o para afastar-se daquela criatura asquerosa, e isto levou-o a tentar aprisionar seus pulsos. Lutou para libertar-se, mas o aperto era opressivo ― restou contorcer-se para libertar-se, enquanto bradava impropérios:
― Desprezível... Repugnante! Traidor!
― Você se mexe demais!
Despertara o mal-humor do loiro, pois ele desistira de segurá-la por métodos normais. E quanto achou estar livre daquelas garras, então sentiu. Ou melhor, não sentiu. Dormentes, ou seja lá o que fossem, braços e pernas não mais a sustentavam e amparavam, e desabou sobre os próprios joelhos no assoalho imundo.
Era desesperador. Tentava mexer qualquer um dos membros, e nenhum deles movia-se em resposta. Mesmo que a vontade fosse férrea, ela nada conquistava: virara uma boneca. Imóvel e indefesa. Restava voltar o rosto para aquele que fizera aquilo. Porque tinha certeza do autor daquele feitiço covarde. Inflamada, gritou com um ódio nunca sentido:
― Argh! Me solte, desgraçado! Me solte agora!
― Quer que eu te deixe muda também? ― ameaçou ele, tranquilo e impiedoso como antes.
Se não pudesse gritar por socorro, não restariam esperanças. A contragosto, calou-se, fitando o chão em resignação. Se fosse mais forte, seria capaz de impedir aquilo de acontecer? Se fosse mais forte, iria se sentir assim tão inútil? Ora, não importava. Estava presa, à mercê de um demônio cruel, e nada podia fazer além de distraí-lo em um diálogo forçado até que alguém por ali passasse e pudesse chamar sua atenção.
― ... Por quê? Por que eu? Por que agora?
― Takumi é uma criatura insistente ― suspirou, como se entediado ao citar a outra metade. ― Estava à procura de Houshoku, mas as pistas eram tão poucas... ― Encarou-a com aqueles olhos cujas íris eram ensanguentadas, tornando a ocasião mais perturbadora. ― E elas levaram a vocês duas. No final estão procurando pelo mesmo objetivo, ainda que eu ache as suposições dele pouco convincentes.
― Isso não explicou nada, demônio. ― Não que se interessasse pela história. Queria matá-lo sem quaisquer explicações prévias; mas antes teria de fugir e voltar bem mais preparada. E para isso era preciso mantê-lo entretido.
― Eu não sou seu professor ― refutou ele, desinteressado. Agachou-se até estar à sua altura, atingindo a testa feminina com o dedo em menosprezo: ― Se esta mente limitada é incapaz de entender, não é problema meu.
Quando tão próximo, foi impossível esconder as intenções: estavam explícitas no ódio e ojeriza com que o mirava de volta. Reprimiu-se para não voltar a xingá-lo, mas os olhos diziam tudo que os lábios selados não permitiam. Como se avaliasse um espécime raro, a criatura apanhou a face entre os dedos com a mão tingida em sangue. Levantou o queixo, permitindo uma melhor visão do semblante zangado.
― Só de olhar sua expressão consigo entender porque ele quis esconder isto de você. ― Não havia qualquer vestígio de sentimento ou compaixão nas palavras. Algo inumano, monstruoso. ― Tentaria nos matar imediatamente.
― Quem não tentaria? ― proferiu, enfurecida.
― Infelizmente não vai ser hoje. ― Sorriu de maneira atrevida, como Usui fizera tantas vezes antes. Nunca vira um sorriso tão sádico, no entanto. Apanhou um punhado de fios castanhos e aspirou-os sem pudores. ― E tanta resistência atiça minha fome.
― Eu sei quem você é.
Enfim percebeu, assombrada. Sabia bem quem era aquele à sua frente. Estava óbvio. Assim como todos os lutadores e aventureiros daquelas terras sabiam como identificar um demônio, também sabiam distinguir os sete que, dentre todos, eram os mais perigosos. E aqueles orbes que a devoravam de forma insana só poderiam pertencer a um deles.
Seiyoku, o Demônio do Desejo¹.
Como não desconfiar de tantos sinais? Aquela voz aveludada e envolvente, a bela aparência, o olhar sedutor. Embora a natureza agressiva e tenaz da guerreira a fizesse (quase) imune a estes encantos baratos, era perceptível a sua existência, mesmo que a outra face do ser fosse um tanto mais calorosa. O que com toda a certeza deveria ser outro truque, outra falsa impressão.
Além disso, os homens bárbaros que derrotara no primeiro encontro de ambos estavam desacordados ― como se os sentidos lhe fossem roubados. Quando foi tragada pela barreira negra do rapaz, sentiu sumir a visão e audição. E o que ele fizera a Shintani, senão roubar-lhe o tato? Porque uma das inúmeras habilidades de Desejo era manipular os sentidos.
― É mais inteligente do que aparenta, mulher ― surpreendeu-se ele, arqueando as sobrancelhas. Logo voltou a sorrir: ― Isto facilita o processo. ― Apreciou num prazer cruel a compreensão a expandir-se pelo semblante de Ayuzawa, e suas tentativas inúteis de mexer-se enquanto a carregava como um manequim. Garantiu enquanto a levava até uma das mesas: ― Eu não vou te machucar. Há coisas mais divertidas para se fazer.
― Prefiro que me mate ― sibilou, entre dentes.
― Tão dramática. ― Revirou os olhos.
Ao menos a mesa em que fora jogada não estava coberta por uma toalha nojenta e ensebada, ainda que a superfície fosse áspera o suficiente para machucá-la. No entanto, não queria conforto. Que estivesse sofrendo com a dor em um ambiente sujo e malcheiroso, seria melhor do que ser abusada pelo detestável demônio.
Havia em seus olhos avermelhados uma fome intensa, um tanto assustadora, mas arrebatadora também. Como se a seduzisse com seus instintos vorazes. Quando ele fez menção de se aproximar, os lábios quase roçaram aos seus. Porém, desviou o rosto no último instante. Não beijaria aquele estúpido! Nem pensar! Sua atitude, contudo, somente atraiu mais a criatura, que puxou-lhe os cabelos para trás, deixando sua garganta exposta.
― O que temos aqui? Uma rebelde? ― Lambeu longa e lascivamente o pescoço. ― Rebeldia me excita.
Grunhiu em desagrado, desesperada pela falta de movimentos. Contudo, a região com que ele tingira de saliva queimava, ardente. Fazia formigar seu baixo ventre, e nascer em si mesma uma vontade que nunca experimentara. Não! Os efeitos da sobrenatural capacidade começavam a despertar por seu corpo, atiçando-a de modo irresistível. Enquanto a mente gritava, extremamente consciente e enojada, o corpo lentamente cedia. Tanto que o protesto que imaginou ser urrado transformou-se num murmúrio fraco:
― Me... solte... miserável, me solte.
Uma risada leve foi ouvida, e era gritante a diferença entre esta e a maneira com que Takumi sempre rira ao provocá-la. Trazia muita da frieza com que ele a tratava, e incitava-a (mentalmente) a enchê-lo de socos e chutes. Humilhá-la daquela forma e ainda rir, aquele maldito! Entretanto, os membros continuavam dormentes, longe de seu controle.
― Como quer que eu me afaste se é você quem está me segurando? ― sussurrou ele, mordendo o lóbulo ao alcance.
E, com pavor, percebeu que os dedos entrelaçaram-se à roupa do ser. Mais que isto: o corpo não mais estava aprisionado. Agia sozinho. Por mais que quisesse soltá-lo, nada era feito. Ou melhor, somente aproximava-se mais e mais. Aturdida, mais parecia uma expectadora quando os lábios foram selados aos de outra pessoa pela primeira vez.
Tão quente quanto as mãos a agarrá-la era a língua a adentrar em sua boca, moldando-se à sua em um movimento prazeroso ― e por isto, torturante. Correspondia com gradual veemência ao beijo carnal, e os hormônios em ebulição faziam das carícias inquietas e urgentes. Pressionava com força as costas do loiro, se deixando ser levada por sua luxúria.
Porém, a consciência ainda estava lá, incandescente como o próprio espírito. E somente um pensamento repetia-se, milhares e milhares de vezes: “Eu te odeio, Usui Takumi.”.
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