Kaichou Wa Heroine-sama!
7 Adventure VII - The ambitious and the priestess
Notas iniciais

Acordou naquele dia em especial com um desconforto generalizado. Não sabia definir se era um enjoo ou uma enxaqueca, mas o mal estar se manteve por toda a manhã. Decidiu ficar alerta: para uma sacerdotisa como ela, cujo corpo e mente deveriam ser sempre sãos, um incômodo daquele gênero poderia ser um mal presságio. Orava aos espíritos para que estivesse errada.
Mas desta vez eles não atenderiam às suas preces.
À tarde, iria com o pai recepcionar o herdeiro de um falecido amigo da família. Temia pela saúde do pai, bastante debilitada naqueles tempos, mesmo que a contragosto do senhor. Afinal, uma reunião composta por homens de importância não deveria ser lugar para uma mulher solteira. Muito mais alguém como ela, a quem a pureza era exigida para exercer a função de protetora de todas as terras do clã.
No entanto, preocupada com o estado do líder dos Harada¹, Chiyo foi obstinada para que pudesse ao menos acompanhá-lo. Seria muito mais simples se fosse um homem ― poderia representar o pai e deixar que repousasse como o médico determinou, assim como despreocupar-se com relação a casamentos. Era feliz como estava: dedicando-se de corpo e alma tanto ao crescimento espiritual quanto à família. E esta resumia-se ao pai. O que tornava tudo mais complicado.
A mãe morrera no parto da única filha, retirando do homem a honra de ter um verdadeiro herdeiro. Restou a ele uma frágil e dócil criança, que para redimir-se da vergonha que proporcionou ao progenitor ao não nascer segundo as expectativas da época, cresceu e fortificou-se à própria maneira.
Se não era capaz de aprender as artes da guerra, seriam as da defesa. Se não podia proteger as fronteiras com armas e escudos, usaria sua especialidade: o controle exímio de espíritos e seus poderes arcanos. Com o tempo, tornou-se mestra na manipulação destes seres que eram capazes de afetar os seres humanos, embora apenas alguns pudessem perceber a presença que deles emanavam.
Assim, tornou-se uma espécie de sacerdotisa não-oficial da região, afastando os mau-espíritos, atraindo os positivos e equilibrando as existências em troca de acordos de paz. E mesmo que o pai nunca tenha exigido dela qualquer ajuda, sentia-se extremamente feliz por ser útil e orgulhar a pessoa que mais amava dentre todas.
E este amor era recíproco: o senhor desejava intensamente que a filha fosse feliz, mas pensava que, presa ao seu lado, ela nunca seria verdadeiramente livre. Assim, estava sempre à procura de possíveis pretendentes. Nunca obrigaria sua preciosidade a se casar, mas talvez ― talvez ― ela se mostrasse interessada em um dos homens que apresentava a ela.
O que nunca aconteceu. A fidelidade de Chiyo à família e às artes arcanas era inquebrável o suficiente para que nenhum dos muitos sequer a arranhasse. Porém, pensou o líder de idade já avançada, poderia retirar algum proveito da teimosia da jovem.
Ao contrário do senso comum, iniciou a amizade com o falecido nobre em uma guerra na qual lutaram juntos, e foi o término desta que os afastou. Unidos por uma guerra, separados pela paz política. E pelo que bem sabia, o também filho único do companheiro era poucos anos mais velho que a a própria herdeira. Imaginava que a diferença de idade de todos os pretendentes, muito mais velhos que Chiyo, a fizesse desconfortável diante deles. Sendo assim, um homem de idade aproximada poderia agradá-la mais.
Por este motivo, não insistiu com a adolescente tão persistente. Aos dezessete anos, era idêntica à mãe quando da mesma idade: madeixas lisas, negras e infinitas como um belo tecido; corpo esguio, quase que moldado para os quimonos modestos que vestia; pele de uma delicadeza ímpar, leitosa e macia e cujos afagos transmitiam uma aparente eterna tranquilidade. Apenas as íris violeta herdara dele, e o conjunto fazia do rosto um raro espécime de beleza.
Não era somente linda, como também inteligente e esforçada. Obstinada. E tantas qualidades estava desperdiçando mantendo-se ali, no universo restrito daquelas terras tão retrógradas. Ao menos para ele, a filha merecia conhecer o mundo ― os locais mais exóticos e exuberantes, as culturas mais diversas, o conhecimento que os sábios poderiam lhe fornecer. Entretanto, deixar que fosse sozinha era perigoso: estaria largando-a a mercê de bandidos, mercenários, violentadores. Monstros que abusariam da bondade e inocência, e dos quais ela dificilmente conseguiria conter sozinha.
Que desta vez algum bom homem incitasse nela algum interesse, desejou fervorosamente. E, ao menos em uma primeira impressão, a garota mostrou-se aparentemente atraída. Afinal, arregalara os olhos com um incrível assombro tão logo alcançaram os portões nos quais Igarashi Tora e alguns de seus criados os aguardavam.
― Seja bem vindo, Harada-san ― cumprimentou amigavelmente o rapaz loiro.
― É você o filho de Igarashi, meu rapaz? ― indagou, manifestando toda a surpresa. ― É ainda mais jovem do que eu pensava.
― Vinte anos já não fazem de mim tão jovem ― refutou ele, com um largo sorriso que muito se assemelhava ao do pai. Herdara dele a gentileza, percebeu.
― Bobagem. ― Acrescentou ao resmungo um gesto displicente com uma das mãos, que a doença que o corroia por dentro não havia limitado os movimentos. ― Ainda tem toda uma vida pela frente.
Enfim Tora percebeu a jovem. Ou melhor, trocaram olhares. Aos olhos do homem, esperançoso em uma união matrimonial, foi apenas um breve reconhecimento mútuo. Contudo, o otimismo o cegou para a intensidade com a qual os pares de orbes visualizaram-se simultaneamente, e também para o ligeiro vislumbre perverso com o qual ele a observara.
― Imagino que seja sua filha. ― Tal como as restantes, a frase era de uma fingida cordialidade. Mas os olhos denunciavam as intenções ao mirá-la de novo: ― Se me permite dizer, é muito bela.
― Claro que é. ― Gargalhou, permitindo-se um pouco de presunção. ― Me orgulho deste tesouro. Não é, Chiyo?
― Sim, meu pai.
Espantou-se com a frieza da resposta dela, mas assuntos mais urgentes chamaram a atenção quase que imediatamente. Ambos foram convidados para entrar, e durante horas tratou de alianças e reforços, entremeados por perguntas sobre a vida que o amigo levara até o derradeiro fim.
Ao contrário das expectativas, a garota não se mostrou entediada um minuto sequer. Na verdade, estava concentrada no herdeiro Igarashi ― os olhos pareciam segui-lo durante o tempo necessário para que não fosse indiscreta o bastante. Fora uma espécie de atração à primeira vista? Não achava que a filha era assim tão fútil, mas não podia dizer que estava insatisfeito. Nunca a vira tão interessada em um homem em toda a vida.
Não percebera, contudo, que Chiyo suava frio por baixo do quimono, ou que a respiração estava alterada diante do perigo. Para assegurar-se dos movimentos do rapaz, dele não desviava a visão nem por meros segundos. Estava em pânico, e este se intensificava quando Tora percebia que ela o vigiava ― nestes momentos, sentia arrepiar até o último fio de cabelo.
Porque era a única a perceber o que ele realmente era. E precisava, urgentemente, afastar o pai daquele monstro. Temia pelo que o loiro a exibir uma agradável máscara seria capaz de fazer. Tanto que suspirou, aliviada, quando o senhor queixou-se das dores que sentia nas pernas ― a oportunidade perfeita para convencê-lo a partir. Tal como antes, insistiu até a aceitação.
No entanto, mesmo que os distanciasse ao máximo naquele momento, a criatura continuaria a existir. Para salvar não só a ele, como a todos, preservando a segurança que todos a ela confiavam, deveria destruir aquela ameaça. E nenhum plano surgia em sua mente, assim como sabia que nenhum poder milagrosamente dela despertaria para ser capaz de derrotá-lo. Porém, surgiu uma oportunidade:
― Gostaria de conversar a sós com sua filha. ― O pedido de Tora era manso, educado. Respeitoso. Como ele era capaz de atuar tão perfeitamente? ― Me permite?
― Está perguntando à pessoa errada, rapaz. ― Apontou para a morena, esperançoso de que ela aceitasse. Mal sabia as intenções do “casal”. ― Quem decide se irá ou não levar adiante este pedido é ela mesma.
― E... Eu também desejo conversar com... Igarashi-san, meu pai.
Desta vez, o senhor olhou apreensivo para a jovem. De alguma maneira, as palavras dela soaram tão... Temerosas. Afinal, Chiyo não queria envolver-se com ele e estava obrigando a si mesma a ficar? Entretanto, tão logo se aproximou para questioná-la, a garota sussurrou “não se preocupe”, indicando com as mãos para que a esperasse nos portões.
Ambos ouviram os marcantes passos do senhor Harada a mancar até a entrada, até que os olhares se cruzaram novamente. Apesar de sustentar-se por algum tempo, a sacerdotisa baixou o rosto diante das íris vermelhas. Como ele as disfarçava para as outras pessoas, já que podia enxergá-lo como realmente era?
Seu gesto provocou uma risada abafada de Tora, e o rosto feminino queimou com a vergonha. Sem pressa, o rapaz dirigiu-se até o aparador bem talhado e exótico; apanhou uma garrafa cujas inscrições não foi capaz de ler. Dali despejou em uma bela taça de vidro o líquido avermelhado, que ela reconheceu imediatamente pelo odor característico.
― Imagino que não queira desfrutar de um bom vinho...?
― ... Estou bem desta maneira.
Não sabia quais eram os propósitos do herdeiro Igarashi: se pretendia embebedá-la para descobrir algum segredo, ou sequestrá-la para chantagear o pai. Eram inúmeras as possibilidades, mas estava certa: ele seria capaz de cada uma delas. Além disso, abstinha-se daquele tipo de desfrute viciante, que poderia desorientar o rumo que escolhera trilhar.
E desta vez a atitude não despertou o bom humor no loiro ― ao sentar-se na poltrona tão excessivamente decorada quanto o restante da mobília, parecia terrivelmente desagradado. Em uma das mãos segurava a taça, girando-a algumas vezes. A outra servia de apoio para o rosto, porque o cotovelo estava fincado no suporte do estofado.
― Errado, errado. ― Balançou a cabeça em desagrado. ― Não é nada divertido agir dessa maneira tão certinha. Entediante, na verdade.
― Eu... não me importo. ― Permaneceu rígida.
― Está perdendo o melhor que a vida tem a oferecer agindo assim. ― Bebeu um gole do vinho da melhor safra. Ao prosseguir, deixou explícita a própria ironia: ― Mas é nisto que se baseia sua vida, não é, pura e inocente sacerdotisa? Em privações?
― N-Não-
Sentia-se desconfortável com aquele homem, que a avaliava dos pés à cabeça, e ao recuar poucos passos para trás tateou algo rígido. Havia alcançado a outra extremidade do ambiente. Como um...
― Ora, parece um animal indefeso. ― Pela primeira vez, Igarashi Tora mostrou-lhe o sorriso. E ao encarar aquela expressão sarcástica, entendeu o que realmente sentia. Era medo. ― Mas é prudente agir dessa maneira, sabendo o que eu sou. Você sabe, não é?
― Goukyo ― sussurrou, e completou mentalmente para si mesma: o Demônio da Arrogância.
― Este é meu nome, mas imaginava que você diria “demônio” ― indicou ele, arqueando ligeiramente as sobrancelhas. Levantou-se, e depositou o copo uma vez mais sobre o suporte da mobília antes de caminhar em sua direção. ― Porém, é realmente mais perceptiva do que eu achava para descobrir quem sou com exatidão.
Não era difícil reconhecê-lo depois que revelou a verdadeira face: tanta imponência e presunção só poderiam pertencer à criatura que jamais aceitaria estar abaixo de ninguém. E não só a personalidade, como a aparência também condizia com a identidade: os cabelos curtos, de um loiro escurecido, que em certo ponto desviavam-se em uma única direção; os olhos felinos, sagazes, tão expressivos quanto as sobrancelhas constantemente arqueadas; o porte orgulhoso, embora não necessariamente opressor. Que no momento estava a um passo dela, quase espremida contra a porta.
― Afaste-se. ― Tentou transmitir mais determinação com a sentença. ― Afaste-se de mim.
― E o que pretende fazer? ― Igarashi não moveu-se sequer um centímetro, e riu em escárnio com todo aquele desespero. ― Me exorcizar com o poder da paz? Clamar pelos espíritos para que eles me impeçam?
― O que você quer? ― questionou ela, e os olhos púrpura transmitiam curiosidade.
― Ah, vejo que enfim alguém se mostrou interessada em conversar. ― De soslaio, percebeu que ela corara. ― Eu quero tudo, simplesmente. Riquezas, propriedades, escravos. Mulheres. Influência política, exércitos. Poder.
― E... depois?
― O quê? Acha que vou querer me livrar de tudo o que conquistei com a “destruição infernal”? ― indagou, incrédulo. Em seguida bufou. ― Isso seria bem idiota. Quando o que tenho me entediar, apenas vou procurar por mais. O mundo não é pequeno como julga sua compreensão estreita.
Era adequado que Arrogância fosse tão ambicioso, raciocinou ela enquanto Tora lhe explicava. E pelo que parecia, nada do que o homem almejava diferia de desejos comuns da nobreza. Eram em sua maioria gananciosos, apesar de humanos. Contudo, não podia confiar no que ele dissera. Poderiam ser simples mentiras para ludibriá-la.
― Eu não vou deixar... Não vou deixar que conquiste o que quer.
― Então chegamos à questão crucial. ― O loiro suspirou, entediado. ― Quanto quer?
― Perdão? ― Por que estava sendo educada com um demônio? Que hábito inconveniente!
― O quanto quer para ficar calada, sacerdotisa?
― Não quero dinheiro sujo ― enojou-se, em uma reação espontânea.
― Não me insulte. ― A voz masculina transmitia uma ponta de irritação. ― Não há sequer um vestígio de sangue em meus bens. Ao contrário dos meus irmãos, não vejo graça em um bando de humanos guerreando. Vocês são mais úteis vivos que mortos.
A citação aos “irmãos” atraiu-a mais do que o menosprezo com que ele tratava dos “seres inferiores”. Se Igarashi era filho único como ela, provavelmente se referia aos outros seis que, como ele, eram os mais poderosos dentre todas as criaturas das trevas. Achou estranho como ele os tratava como uma família, já que não imaginava qualquer um deles manifestando afeição uns aos outros.
Além disso, não era daquela espécie de podridão que estava falando. Dentre os poderes de Goukyo, a liderança nata era um dos mais letais. Com uma só ordem, era capaz de comandar exércitos, iniciar ou encerrar embates milenares. Graças à habilidade de dominar as mentes em detrimento das escolhas das vítimas, era evidente que a violência não se fazia necessária. O que não tornava ele menos cruel.
― Você faz pior. Manipula a vontade deles.
― Todos têm truques ― ignorou-a. ― Afinal, sem os seus não seria capaz de manter a paz por tanto tempo por aqui, ou estou enganado?
― Por quê? ― Não conseguia entender o motivo pelo qual o loiro estava dialogando com ela em vez de controlá-la como desejava. ― Por que não fez o mesmo comigo ainda?
― Não posso dizer que não tentei. ― De algum modo, Tora parecia decepcionado consigo mesmo. ― Mas sua bondade e virtude parecem protegê-la ― supôs com desdém.
Enfim Chiyo compreendeu onde estava a verdadeira força. Não era capaz de lutar, o que descartava uma derrota envolvendo capacidades físicas ― mas o espírito, o caráter, a compaixão fazia com que os espíritos nela confiassem e por ela o enfrentassem, o suficiente para impedir que o domínio sobrenatural não a corrompesse. Não deveria ter medo, repetiu mentalmente várias vezes. Não deveria ter medo.
― Nunca vou sucumbir aos seus desejos mesquinhos.
― “Nunca” é uma palavra perigosa ― murmurou ele, dissimulado. E sorriu de forma a confirmar todos os maus presságios que lhe atormentaram durante a manhã. ― E o que me diz do seu querido pai? ― Sussurrou sobre o ouvido dela, sobrepondo todos os centímetros que os separavam. ― A saúde dele me parece tão frágil.
Não, não, não. Não! Ele não podia... Nem sequer encostá-lo!
― Não se atreva...
― Seu silêncio pela vida dele. Justo, não é?
Estava em pânico. Mais que isso: tomada pelo medo de perder quem mais amava. O único que lhe restara. O amado pai. Não, afastou os maus pensamentos. Não iria deixar que nada lhe acontecesse. E para isso teria que ceder aos desejos daquele monstro. Um demônio dos piores. Mas não existiam opções: o que estava em jogo era mais precioso que tudo. Nem precisou pensar. A contragosto, concordou:
― Aceito.
E tão rápido que não foi capaz de perceber de fato como começou, foi puxada para um beijo repentino. E não foi um beijo qualquer. Sentiu a língua ousada a profanar seus lábios virgens, e o primeiro contato fez com que se arrepiasse de maneira distinta à de quando o temera inicialmente. Mesmo que sem coerência, a vontade era que se prolongasse e crescesse. Então... era aquela a sensação que o prazer carnal transmitia?
Suas exageradas reações confirmavam a obviedade de que ele era o primeiro a invadir-lhe a boca, e o demônio não deixou de aproveitar após deliciar-se com o gesto intempestivo. Nem mesmo Tora sabia bem o motivo pelo qual o fizera. Talvez porque ela enfim tenha aceitado a proposta. Talvez porque havia algo de irritante na ingenuidade e amor familiar absurdos, somados à confiança que ela depositara em alguém como ele, de modo a fazê-lo reagir. Ou porque apenas a achou atraente naquele momento, o suficiente para beijá-la.
E como previra, havia algo de atrativo em perverter a inocência ― mais até do que se envolver com mulheres mais hábeis. Uma mescla de doçura em seu fim, uma lenta correspondência, arrepios e suspiros ao torcer os dedos entre os fios extensos, ao avançar e morder a mandíbula pálida e suave. Mas o mais prazeroso e estimulante foi a expressão com que a apanhara depois de arrancar-lhe o fôlego no primeiro beijo: nublando os olhos antes ingênuos, estava a explícita vontade de que ele continuasse.
― O quê...? ― perguntou ela, quase para si mesma. Ainda não entendera bem o que se passara.
― De que outra maneira iria selar nosso acordo?
Igarashi parecia satisfeito com o sarcasmo. No entanto, dentro dela havia apenas questionamentos. Dúvidas. Como fora capaz de gostar... daquilo? E ainda por cima tentar correspondê-lo? Era uma distração, somente uma distração para afastá-la do que realmente importava! A concentração e a disciplina que dela eram exigidas não permitiam aquele tipo de prazer vulgar. Seriam necessários dias, senão semanas de meditação, para que se purificasse novamente. Exigiu com uma crescente raiva (outro sentimento que era proibida de desenvolver):
― Nunca. Nunca mais repita isso!
― Errado, errado mais uma vez ― negou, cínico e abusado. Sentou-se de novo na poltrona, encarando-a como se após beijá-la possuísse qualquer direito sobre ela ― Faço o que quero e quando quero, Harada Chiyo.
O deboche com que seu nome foi sublinhado fez com que a morena lhe virasse as costas e partisse imediatamente, antes que nascesse alguma vontade mais violenta. Ao menos o pai estava a salvo, era tudo o que ela podia desejar.
Já o demônio ansiava por um próximo encontro. Porque ambos nada tinham de semelhantes. Chiyo poderia ser dita uma donzela intocada, inocente, meiga e um pouco atrapalhada. Já ele reunia mais defeitos do que era capaz de contar. Agradava-lhe esta antítese. Era conveniente de alguma maneira, pois despertava em si mesmo o desejo de provar até que ponto ela não seria corrompida. Continuaria a sorrir diante da crueldade?
Ora, os recentes passatempos já o aborreciam de tão monótonos. Nunca antes corrompera uma sacerdotisa antes. Deveria ser uma experiência muito interessante.
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