Kaichou Wa Heroine-sama!

4 Adventure IV - The enemy and the companion


Notas iniciais
Hey, hey! Muito obrigada aos leitores que comentam, vocês fazem minha vida feliz =w= E também a quem me pede capítulos pelo chat, eu fico super lisonjeada~~ Postando muito rápido, talvez tenham alguns erros. Boa leitura!

Mesmo que com o semblante tranquilo, Suzuna manifestava uma animação incomum. Afinal, era a primeira batalha solo verdadeira ― esteve sempre ao lado da irmã neste tipo de situação. Embora a consequência disto fosse uma sincronia perfeita (e letal) com os movimentos da mais velha, a sensação de independência trazia-lhe um agradável misto de ansiedade e temor. Além disso, nunca havia enfrentado uma besta de gelo, e o fato de que adicionava uma nova criatura à “coleção” de embates impulsionava a garota.

Contudo, o primeiro a agir foi Shintani. Quase que de maneira impulsiva, correu em direção ao Zverled enquanto mantinha uma das mãos presa ao punho da arma. Era rápido em seu percurso, pois não trajava da armadura completa como muitos dos soldados. Em posições estratégicas para defendê-lo de ataques mais brutos, as peças metálicas permitiam a movimentação ágil.

Com destreza, retirou da bainha a espada que carregava. Tão logo o fez, o equipamento revelou-se mais do que uma simples lâmina. Era composta por várias pequenas porções que quando retraídas, encaixavam-se e faziam com que o espaço ocupado fosse mínimo. Porém, agora estavam livres, em toda a sua extensão, e era possível assimilar o real comprimento da arma: era praticamente do mesmo tamanho que o rapaz.

Apesar de não se surpreender com facilidade, a morena soltou uma exclamação contida ao perceber que as dimensões da espada provavelmente ultrapassavam a própria altura. E isto não durou mais que alguns segundos, porque o rapaz avançou contra a besta empunhando o enorme conjunto de lâminas. Mas Suzuna era centrada, ainda que a aparência dissesse o contrário, e tratou de auxiliar o companheiro em vez de deslumbrar-se com suas capacidades.

Quando Hinata golpeou a pele do inimigo pela primeira vez, iniciou as conjurações para auxiliá-lo. Mesmo que sempre mantivesse distância dos adversários, as habilidades eram tão ofensivas quanto as do moreno ou de Misaki. Afinal, não havia qualquer proteção física nas vestes simples e o manto encantado, pois era com a magia que se defendia.

E sua magia era diferente. Completamente adaptada ao seu jeito de ser.

Raffle Raffle Shoot! ― proferiu enquanto posicionava um dos braços na direção do bicho.

Apontou no tronco, usando os dedos para simular uma arma com as mãos, e fingiu atirar. “Fingiu”, porque com o gesto um rastro de energia translúcida deixou a ponta do indicador em direção à criatura. Exatamente no ponto em que o soldado o golpeou, exatamente no mesmo momento. Que sorte!

Porque era a sorte o poder de Ayuzawa Suzuna.

Ao contrário de muitos magos daquele Império, a pequena não dependia apenas de mana, aquilo que nutria a capacidade mágica. Utilizava-a, sim, mas como complemento à verdadeira base de seus feitiços. Tanto o esforço despendido quanto a magnitude dos ataques e escudos, tudo era determinado segundo fatores aleatórios. Como em uma roleta de uma casa de apostas, a pequena deveria acertar mentalmente os valores corretos. E sempre acertava.

Até mesmo Shintani surpreendeu-se com sua mira, fitando-a com assombro quando voltou ao chão após atingir o Zverled. Ela não mentira quando dissera que não precisava de proteção. Como resposta, somente um esgar de lábios femininos um tantinho presunçoso, e principalmente impassível. Ora, ela gostava de impressionar os outros apesar do tamanho diminuto.

Porém, a besta era resistente, apesar de ser apenas um mamífero crescido. Com muito retardo, manifestou alguma reação devido ao ferimento, grunhindo ferozmente enquanto arqueava o grande corpo para trás. Ecoando pelo espaço vasto e vazio, o som era ameaçador, como um prenúncio de que não seria fácil derrotá-lo.

O rapaz estava animado, no entanto. Sorriu com a perspectiva de um desafio maior, e acenou para a garota como se indicasse que deveriam prosseguir. Com um grande impulso, foi saltando por entre os galhos das árvores próximas, com poucas folhas que atrapalhassem a visão. Foi aos poucos ganhando altura e se aproximando do topo da criatura, a região na qual a pele era mais sensível aos ataques.

Mesmo antes de alcançá-lo conseguia antever o ferimento que causaram no ombro esquerdo do animal de pelagem clara, pois o sangue destacava-se em meio ao branco como um pequeno, ainda que significativo sinal de que a vitória seria conquistada. A intenção inicial, entretanto, foi adiada, porque um dos braços da besta movia-se em sua direção.

Usando de reflexos ágeis, desviou a tempo de manter-se abaixo do membro superior do animal enquanto este arrancava galhos, troncos e folhas numa ofensiva instintiva. Apenas o gesto revelou muito à Suzuna, que não o atacou à distância porque percebeu a esquiva do companheiro. Zverleds movimentavam-se com bastante lentidão, mas os ataques eram rápidos e letais.

Eram como alguns insetos, que permaneciam inertes por longos períodos de tempo, somente para apanhar as presas desprevenidas em uma única investida. Porém, insetos não tinham seis metros de altura nem pesavam toneladas. E, principalmente, insetos não tinham mãos compostas por garras tão afiadas quanto adagas nem dentes serrilhados como se adaptados à carnificina. Com um corpo daquele tamanho, deveria ser dificultoso mover-se com liberdade, e os membros superiores deveriam ser os menos restritos neste aspecto. Adaptá-los para serem absurdamente velozes era fundamental para que fosse possível alcançar as vítimas.

“Meu alvo são os braços, o de You-kun é o tronco”, pensou ela rapidamente. Atacou uma vez mais numa rajada de energia, mirando um pouco abaixo da ferida já existente quando a besta avançou contra Hinata mais uma vez. Como esperado, foi certeira, e o golpe fez com que sangue espirrasse abundantemente, enquanto a criatura retraía-se com a dor e o impacto.

Aproveitando-se da brecha, o moreno agiu ao atingir o peito do animal, fincando a espada tão profundamente quanto possível. Um dos braços do Zverled estava quase que inutilizado, e o outro estava imóvel devido à atrasada reação corporal. Deixou-se estar ali, ferindo a criatura pelo maior tempo disponível até que este reagisse. Conhecia bem a espécie, e sabia que a morte era a única maneira de impedir que a “cria do gelo”, como também era chamado, os devorasse. Porque só deixavam o próprio ninho quando estavam famintos.

Afastou-se antes que a besta movesse o braço ileso, voltando à posição ao lado da pequena. Assistiram à ofensiva brutal na direção em que Hinata estava poucos segundos atrás. Ao olhar as inúmeras garras que somente poderiam pertencer a um monstro, assim como a velocidade assustadora com que o animal investiu, ambos sabiam que o rapaz seria feito em pedacinhos se fosse pego. No entanto, estavam salvos ali, há tantos metros de distância.

― Foi muito bem, Suzuna-chan ― parabenizou Shintani, tão brevemente quanto a situação permitia.

Mesmo que a situação exigisse a máxima concentração, a menor deixou-se distrair por alguns momentos. Deveria saber que era diferente a sensação que a voz do mais velho provocava em seus ouvidos. “É diferente de quando a onee-chan diz meu nome”, percebeu. Nunca se sentiu tão bem ao ser elogiada, mesmo que o fosse com alguma frequência. Era do tal sentimento especial de que tanto falavam as meninas apaixonadas da vila?

Mas o rosto permanecia apático, e o coração em ritmo irregular, assim como as bochechas no tom pálido de sempre. “Ora, algo está errado”, admitiu, ainda que a preocupação não fosse suficiente para modificar quaisquer comportamentos. “Talvez esses sintomas não se manifestem em mim” , raciocinou, tratando da possível paixão como uma doença transmissível. “Ou talvez eu esteja enganada.”

Todavia, notou que aquele não era um momento adequado a se devanear sobre amores e enfermidades, muito menos de confundir-se em plena batalha. Deveria espairecer quaisquer dúvidas, eliminar todas as incertezas. Ao menos enquanto o Zverled permanecesse vivo. Tratou de respondê-lo, com a calma tradicional:

― Digo o mesmo ― murmurou, e deixou pendente o prosseguimento. Queria dizer “Não seja pego”, mas a coerência foi mais rápida que o sentimento: ― Continue assim.

Estendeu para cima o polegar como se indicasse que aprovava o esforço. Já acostumado às expressões estranhas e constante impassibilidade de Suzuna, o rapaz sorriu em resposta com um incomum entusiasmo. Era um belo retrato de dois opostos: a apática e o efusivo; os lábios de um expandiam-se enquanto os da outra mantinham-se numa linha.

O sorriso dele era tão bonito sentiu vontade de desenhá-lo e emoldurá-lo. Talvez o fizesse, depois de tudo aquilo. Sim, iria eternizar a felicidade de Shintani Hinata, e aquilo gerava em si mesma um comichão engraçado no peito. Aquecia e fazia respirar um órgão que só deveria bombear sangue, e aquilo era... diferente. Porque para ela nada era estranho, apenas desconhecido.

― Prometo ― garantiu ele, interrompendo-a, antes de posicionar-se para um novo ataque.

Com a sentença, a pequena assentiu, subitamente mais séria, embora nada transparecesse externamente. Para ela, promessas eram um jogo: uma aposta para não quebrar as próprias palavras. E ele o disse com tanta confiança, tanta euforia que a preencheu de expectativas. Cresceu o formigamento do tórax, num espreguiçar gostoso pelo corpo. Como eram agradáveis estas reações, pensou ela.

Mas para tanto, teria de auxiliá-lo a cumprir o que assegurara. Mentalmente, as roletas da sorte giravam à espera de sua decisão; observava com atenção tanto o movimento do rapaz quanto do animal. Era capaz de captar estes mínimos detalhes externos com perspicácia incomuns, como se a inexpressividade a tornasse mais sensível às mudanças.

Criaram uma espécie de repetição e sincronia: Hinata esquivava das investidas da criatura, cujos braços eram atingidos pela maga; com o momentâneo cessar das ofensivas, ele atingia os pontos fracos com a longa espada fragmentada em lâminas que intensificavam a dor do corte. Feriram diversas vezes o Zverled neste ciclo de auxílio mútuo, no entanto notaram que os intervalos de lentidão da besta de gelo tornavam-se cada vez menores.

Muito mais letais e assustadores, os golpes no vácuo transmitiam toda a fúria e veemência do animal voraz por duas presas de difícil captura. Mesmo completamente feridos, os membros superiores continuavam a ser utilizados até a exaustão, ou assim achava Suzuna. Era uma visão grotesca: a superfície antes branca do ser, que antes confundia-se com a paisagem monocromática, estava manchada pelo sangue que fluía sem restrições. O fluido até mesmo gotejava para o chão quando a cria de gelo insistia em mexer os braços quase retalhados de flechadas enfeitiçadas.

Até que, enfim, o movimento cessou ― com uma última rajada de energia combinada à estocada certeira em um dos ombros, os braços do Zverled despencaram para a neve como pesos mortos. Desta vez apenas com segundos de atraso, rugiu num lamento ameaçador enquanto tentava, em vão, usar dos membros danificados. Depois de muitas tentativas, pareceu resignar-se, cansado.

Numa gargalhada animada, após um suspiro ruidoso e aliviado, Shintani comemorou a vitória. Haviam inutilizado o adversário e nem ao menos teriam de sacrificá-lo. Os grunhidos atemorizantes da criatura foram substituídos pelos risos eufóricos a ecoar na paisagem gélida. Mais parecia uma criança vencedora e não um soldado, pensou a morena, ainda que também estivesse empolgada à própria maneira. E era tão bonitinho vê-lo tão feliz.

Contudo, descobriria ela da pior maneira, algumas promessas nunca poderiam ser cumpridas devido às circunstâncias. Após um longo período estagnado, a besta contraiu-se inteira, aninhando-se em si mesma, antes de congelar por completo a própria pele. E, tão rápido que não poderiam reagir à mudança, expandiu-se ao tamanho original. Os pelos, convergidos em espinhos cristalizados, foram arremessados em todas as direções.

Já instintiva, Suzuna “sorteou” uma barreira mágica à sua volta, bloqueando o súbito ataque sem dificuldade. Mas estancou. “...E ele?” Não deveria ter receios naquele momento, mas sentiu os nervos a amortecerem, como sempre acontecia quando estava tensa. Maquinalmente, girou o corpo na direção do rapaz, esperando por um sorriso aliviado em resposta.

Como se cruelmente retardado, o movimento do líquido rubro em trajetória até colorir a neve pura foi observado por olhos arregalados.

****

― Será que ainda falta muito? ― reclamou Misaki em voz alta. Quase quicava em ansiedade.

Não haviam saído das malditas cavernas subterrâneas. Os corredores criados pelos animais mais pareciam um labirinto infindável que somente acentuava a irritação. Toda aquela escuridão claustrofóbica, mais parecia uma punição depois de sentir-se desconfortável na amplitude da planície de gelo.

E havia Suzuna ― o único membro da família a seu alcance, já que o pai morrera em combate e a mãe fora sequestrada. Não podia perder mais alguém. Não podia, ou iria enlouquecer. Por que não havia a droga de uma saída?! Tão centrada nas próprias preocupações, não notou que Usui estava distante. Ocupado internamente, em um diálogo no mínimo estranho.

“Por que você continua a insistir se sabe que vou negar?”, questionou o loiro, impaciente. Ou mais especificamente, seu lado mais humano.

“Ora, ora. Não é do instinto do ser humano sempre ambicionar por mais?”, respondeu aquilo, com ironia explícita. Que mania cretina de responder perguntas com outras perguntas.

“Você nem é um ser humano.”, retrucou com descaso.

“Olhe que surpresa, Takumi. Você também não.” O ser gargalhou com a obviedade, encontrando um humor distorcido nas piores situações.

“Só porque você está aqui também.”

“Pare de negar sua natureza, garoto.” Pela primeira vez, o timbre não era divertido, e sim zangado. Que rapaz teimoso! Mas logo a fala mansa voltou, carregada de malícia. “Não há como esconder. Uma hora você terá que ceder, e eu vou aproveitar enquanto posso.”

Como se para provocá-lo, evocou na mente que ambos compartilhavam a imagem da morena de maneira insinuante. Estava despida, num corar indecente enquanto arfava de desejo. Usui não poderia negar que era excitante a visão da tão raivosa e audaciosa guerreira rendida daquela maneira, mas ele a queria para si mesmo. Enfureceu-se com a mera suposição de que o outro poderia tocá-la, e sabendo que xingamentos somente o tornariam mais presunçoso, encerrou a conversa:

“Você nunca muda.”

Pouco importava se eram duas partes de uma mesma existência, o considerava um empecilho e não uma parte de si mesmo. Com a obstinação ferrenha do rapaz, a criatura decidiu aquietar-se. Por enquanto. No entanto, não foi capaz de reprimir uma última provocação:

“Ainda não aprendeu depois de tanto tempo? Demônios¹ não mudam.”

Também não impediu um suspiro de exaustão. O que poderia fazer? Ele era um mal, mas um mal obrigatório, atrelado a si mesmo e impossível de se livrar. Além disso, era um mal necessário ― somente com seu suporte seria capaz de alcançar o que desejava. E do objetivo não cederia de maneira alguma.

― ... E você não está me ouvindo? ― chamou Ayuzawa, zangada. Quando percebeu as íris esverdeadas a voltar ao foco, bufou exaltada. Não tinha tempo a perder com distraídos. Apontou para um buraco acima: ― Ali a saída, idiota!

Desde o início surpreendeu-se com o espírito daquela humana. Como se tomada por chamas eternas, sempre honrada, sempre impetuosa. Tão forte quanto o mais exímio combatente, tão tenaz quanto o mais energético revolucionário, e ao mesmo tempo tão doce quando se tratava daqueles com os quais se importava.

Parecia ser capaz de nunca extinguir-se: fogo eterno que a todos servia como referencial. Um farol em meio à tempestade ― ou talvez a própria tempestade: esta era Ayuzawa Misaki. Enquanto subia até a abertura de onde jorrava a luz diurna e uniforme do campo gelado, demonstrava todo o empenho em salvar a própria irmã. Um exemplo dos mais puros de amor fraternal até o limite atingível.

― Suba logo! ― resmungou, estendendo um dos braços para que ele a alcançasse.

Era uma simbólica ocasião: de uma área acima, tomada pela brancura da luminosidade, a garota lhe oferecia a mão para que subisse com ela; ele, que estava em meio à obscuridade do subterrâneo. Aceitou-a sem demora, e os dedos enfim se tocaram. Seria ela a libertá-lo das trevas?

Notas finais
¹ Demônios aqui não tem qualquer relação com a religião, ok? Sem polêmicas =D Oh, as tretas *love* Na na na, o que acharam da "coisa" que divide o corpo com o Takumi?Logo falo mais sobre ele, yey! Ah, fazer a Suzuna sofrer é legal =D See ya!