Kaichou Wa Heroine-sama!
3 Adventure III - The beast and the creature
Notas iniciais

Gostaria de, sinceramente, entender porque a natureza era tão cruel. Vestida apenas com um complexo vestido negro de adornos brancos e um singelo avental branco, Misaki atravessava um deserto. Um deserto polar. Insuficiente, o tecido fino não bloqueava a passagem de seu calor, rapidamente perdido para o ambiente externo. Não fosse por sua vontade férrea, já teria cedido ao frio e ao desejo de encolher-se para encontrar alguma maneira de se aquecer.
Estavam à procura do único habitante naquele império que poderia reverter o feitiço lançado sobre a armadura: curiosamente, uma mulher. “Aoi-chan” era a mais habilidosa ferreira, a se destacar apesar dos preconceitos de gênero. Quando descobriram nela uma possível solução daquele problema de vestuário, a Ayuzawa primogênita sentiu-se identificada à desconhecida; afinal, eram ambas garotas ocupando funções tradicionalmente masculinas. Segundo diziam os boatos, era muito jovem e, mais que isso, a mais bela já vista em vários séculos. Linda, eficiente, habilidosa; os diversos fãs de Aoi eram merecidos.
Vergonhosamente, era a única dentre a equipe que parecia afetada pela baixa temperatura. Suzuna possuía seu manto mágico; Usui provavelmente possuía o mesmo item, ainda que nem de longe o aspecto de suas vestes indicasse alguma proteção encantada; Hinata estava bem devido à armadura espessa do Exército. Apenas ela usava roupas inadequadas, e a culpa era toda daquelas bruxas! Com a raiva, sentiu o corpo esquentar-se minimamente; o que se perdeu num arrepio involuntário com uma rajada de vento desumana.
Pela enésima vez preocupado com seu estado, o loiro ofereceu-lhe a própria vestimenta: ― Ayuzawa, você p-
― Eu já disse que não! ― cortou ela, categórica. ― A roupa é sua; que fique com você!
― Então... ― O tom masculino tornou-se subitamente malicioso. ― Podemos muito bem dividi-la. ― E estendeu sua capa, como em um convite para que ela a compartilhasse com ele.
― E o que te faz pensar que eu iria fazer isso, seu alien pervertido?! ― esbravejou a guerreira, possessa. Aliada à raiva, a vermelhidão de sua face denunciava também sua vergonha.
― Não vê que a Misaki-chan não quer ser incomodada, Takumi? ― interviu o rapaz moreno, enquanto apressava o passo para manter-se entre os dois.
Aparentemente, o soldado desenvolvera alguma espécie de paixonite por Misaki ― ou melhor, pela imagem que julgava ser correta, baseada em sua antiga (e falecida) tutora, “Rin-sensei”. Segundo ele, era uma mulher doce e compassiva, e acreditava que de alguma maneira os deuses trouxeram-na para ele novamente, através de um corpo muito semelhante.
Não apenas isto: estendia as qualidades de Rin até Misaki, e muitas vezes as tratava como uma única pessoa. Sua confusão de sentimentos faziam-no acreditar que a morena era tão amável quanto suas memórias da professora transmitiam, ainda que em nenhum momento a mais velha das Ayuzawa tenha demonstrado qualquer afeto ou delicadeza. Somente confundia-se diante da devoção ingênua e sincera do outro, muitas vezes exigindo-lhe que deixasse de agir daquela maneira ― ao que ele prontamente obedecia, com seu sorriso fascinado.
Ao contrário, Usui nunca aparentou estar satisfeito com a atenção que aquele soldado irritante oferecia à guerreira. E demonstrava com clareza a sua aversão a este, que lhe correspondia da mesma maneira. Assim, ambos viviam a discutir entre si até que a morena irritadiça atingisse o limite da paciência e os repreendesse severamente. Em sua mente restrita, não compreendia o motivo pelo qual aqueles dois se detestavam tanto assim.
Entretanto, a rivalidade entre ambos não se resumia a um frustrado triângulo amoroso. Suas naturezas eram diametralmente opostas, de tal modo que não suportavam lidar com tantas diferenças. Somava-se a isto o gosto do loiro de provocar os outros, e a facilidade com que Hinata se deixava levar por estas provocações. Mais uma vez, ambos iniciaram sua troca de farpas:
― Tão intrometido, Sanshita-kun. ― Takumi usou do apelido que inventara, encenando-se de desentendido. E surtiu o efeito esperado: o rosto do moreno adquiriu um intenso avermelhado com a raiva.
― Meu nome é Shintani. Shin-ta-ni!
― Eu sei soletrar, Sanshita-kun. ― continuou, entediado. Avançou alguns passos, deixando o outro para trás enquanto falava: ― É uma surpresa descobrir que também sabe.
― É óbvio que sei soletrar! ― confirmou Hinata, enquanto apressava-se para alcançá-lo. Não iria ficar para trás de forma alguma! ― Não sou analfabeto!
Diante do desenrolar de mais uma briga, Misaki suspirou, cansada. Era tão tranquilo viajar somente ao lado da irmã... No momento, a menor estava alheia à discórdia masculina; os olhos desfocados denunciavam sua concentração. Elaborando alguma magia, provavelmente. E assim o fez: mal pôde perceber, a mais velha percebeu em si mesma uma mudança. Não havia mais frio, nem vento, nem sensação alguma.
Ao seu redor, uma tênue esfera enfeitiçada bloqueava toda interferência externa.
― Está melhor agora, onee-chan? ― perguntou, embora já soubesse a resposta.
― Sim. Muito obrigada, Suzuna. ― agradeceu com um sorriso doce. Afinal, somente ela merecia. Aumentou o tom de voz ao prosseguir: ― Alguém tem que se fazer útil por aqui.
Com suas palavras e seu olhar ameaçador, tanto Usui quanto Shintani encolheram-se minimamente. Num marchar altivo, já que não mais afetada pelo frio, Misaki passou por eles sem encará-los de fato ― como se os ignorasse deliberadamente. Ao contrário, a mais nova avançou um pouco mais antes de apontar-lhes o polegar voltado para baixo. Como seu rosto não expressava reação alguma, aquele era o único indício com que conseguia transmitir sua mensagem: não foi desta vez, garotos.
****
Apesar da monotonia do branco, a paisagem nevada também possuía sua diversidade: a vegetação era abundante no horizonte. Suas árvores desenvolviam-se no formato característico daquela espécie que suportava as baixas temperaturas, e em muitas delas ainda se via a folhagem escura recoberta por camadas macias e alvas. Em outras, no entanto, o gelo tocava diretamente em galhos nus ― e o contraste de cores interrompia a supremacia do branco.
Mesmo assim, o tom claro, somado à luz uniforme transmitida pelo céu limpo e igualmente cândido, conferiam ao cenário um aspecto azulado, ainda que não sombrio. Adepta da vida das cores quentes, Misaki apenas almejava deixar aquela opressão de um sutil turquesa, assim como o calor e a vibração das chamas de uma fogueira. Ainda que entrecortado pela vegetação (tanto a mais próxima, pontual, quanto a mais longínqua, concentrada em massas arbóreas), o amplo espaço transmitia-lhe uma sensação oposta à claustrofobia: era aberto demais. Sem limites.
O que fazia deles alvos fáceis para qualquer inimigo oculto entre as árvores.
Não pôde evitar um arrepio diante do agouro ― um arrepio estranho, já que a barreira mágica a confortava. Todavia, sabia que o poder de Suzuna não havia alcançado ainda o nível máximo, capaz de defendê-los completamente. Mesmo sua própria proteção era frágil, e provavelmente iria romper-se com facilidade caso algum oponente a golpeasse. Tomado pela preocupação, o semblante dela tornou-se receoso e seu cenho, franzido.
― Misa-chan, não precisa se atormentar ― acalmou Usui, ao seu lado.
Assustou-se com a súbita proximidade, eriçando-se um pouco. Afinal, aquele escudo tinha suas desvantagens: assim como as adversidades exteriores não podiam penetrá-lo, isto também se aplicava às sensações básicas como a noção de afastamento e aproximação. Até mesmo voltou-se para trás, verificando se a caçula e Shintani ainda os acompanhavam. Ambos andavam num ritmo mais lento, entretidos em alguma conversa que despertava no rapaz sorrisos esporádicos de contentamento.
Logo mirou o nômade mais uma vez, enfim assimilando o que ele falara após assustá-la repentinamente. Contudo, ainda que as palavras do loiro tenham soado estranhamente tranquilas, num tom manso e agradável, o que ele dissera a incomodou. Mais especificamente, seu orgulho como guerreira.
― Por que diz isto, imbecil? ― replicou, emburrada. Aquele maldito apelido! ― Eu sei muito bem me proteger sozinha!
― É claro que sabe ― confirmou, divertido. Ela não se convenceu.
― Não estou de brincadeira!
― Veja que coincidência: eu também não. ―A anterior calma foi substituída por uma implicância insistente. Ele realmente desejava apanhar; somente isto justificava aquele comportamento irritante!
― Pare de gastar meu tempo inutilmente com ess-
Uma explosão.
Ou ao menos esta foi sua impressão sobre o que ocorrera. Mal percebera, foi envolvida pelos braços do loiro, num gesto protetor ― deveria ser ele, já que sua visão estava prejudicada. Assim como o restante dos sentidos, atordoados diante do estrondo, do tremor, da escuridão. Correspondeu ao aperto, buscando mantê-lo próximo para corroborar a certeza de que estava seguro junto a si. Era tudo uma névoa disforme, e todos aqueles ruídos e vibrações simultâneas dificultavam a compreensão.
Como quando dentro da bolha de Suzuna, sentia-se desorientada para as manifestações externas. Desta vez, porém, um pânico diante do desconhecido crescia em um ritmo o qual ela tentava a todo custo conter. Não deveria sentir medo algum! Deveria proteger a todos!
E logo tudo passou ― voltaram os sentidos, assim como a noção de espaço. Durante todo o tempo, fora cingida pelo nômade, e a sensação permanecera: ainda estavam abraçados um ao outro. Aninhada contra seu peito, conseguia captar sua respiração, assim como seus batimentos cardíacos. Eram estranhamente fracos para alguém que acabara de lidar com um aparente cataclismo daqueles.
Muito contrários, na verdade, aos da própria guerreira, cujo coração batia enlouquecidamente. Não apenas diante de toda a confusão, mas também porque consciente de onde (e como) estava. Aconchegada a um homem... num contato tão íntimo como nunca sentira. Dedos longos pressionavam seu corpo, aproximando-o tanto quanto possível. Apesar de coberta por tecido, sua pele se arrepiou com o toque. Podia até mesmo aspirar seu aroma ― uma fragrância agradável, embora acentuasse o embaraço.
― Já-já pode me soltar ― pediu, encabulada. Afastou o rosto logo que possível para esconder as bochechas avermelhadas. Podia imaginar a implicância-
― Nenhum ferimento? ― Os olhos esmeraldas expressavam apenas preocupação. E, de alguma maneira, aquilo era tão constrangedor quanto a malícia habitual.
― Nenhum, não está vendo?! ― revidou, na defensiva. Não entendia a própria raiva; afinal, ele fora educado. Todavia, era impossível não demonstrar irritação quando se sentia acuada pela vergonha.
Não demorou a perceber onde se encontravam: em uma espécie de caverna. Rochas os envolviam nas laterais, e o próprio teto era composto por elas. Sob os pés, o chão cru adquiria o mesmo aspecto terroso e áspero das demais superfícies, e o ambiente como um todo era de um marrom monótono. Como vieram para ali, se minutos atrás estavam em meio à neve num campo vasto?
― Estamos no subsolo ― esclareceu ele, também atento ao redor. Especificou: ― Um abrigo de Zverled¹.
Quando mencionado, o nome evocou na guerreira memórias de sua infância: nunca enfrentara alguma besta de gelo em sua vida, embora soubesse desde muito nova que eram letais. O primeiro ataque consistia em uma surpresa: deixar a própria morada subterrânea, emergindo subitamente até a superfície. Após devastar um considerável terreno à sua volta, passava a atacar os que sobreviveram à investida inesperada. Porque muitos eram tragados para o subsolo, e a estes o único destino era agonizar, enterrados vivos.
Próximos demais, Usui e Ayuzawa sofreram desta conjuntura trágica; porém, não sufocavam em meio a terra e muito menos sentiam os ossos partirem-se com a pressão de todo o substrato acima. Apesar dos infortúnios, estavam em uma cavidade subterrânea ― o próprio ninho que a besta tentara proteger com seu ataque desesperado. E não havia qualquer mínima explicação para este fato.
― Conjurei uma barreira à nossa volta ― admitiu Takumi, diante da confusão da morena. Não parecia nada confortável ao expor o próprio poder.
― Você sabe conjurar barreiras? Por qu-
― Minha “magia” não é como a de sua irmã. ― interrompeu, ainda incomodado. Complementou, para si mesmo: ― Acho que nem pode ser chamada de magia.
Aquilo que os envolvera durante todo o tempo era uma esfera negra, intransponível. Daí a desordem dos sentidos de Misaki. Normalmente, aquela espécie de proteção só se estendia a ele mesmo. Porém, ao abraçá-la, o toque entre os corpos permitiu que a barreira a “aceitasse” para si. Pensar em suas habilidades (e naquele “ser” que as fornecia) o estressava, e o loiro logo tratou de tentar esquecê-los.
O que dissera, contudo, fez com que a guerreira percebesse:
― Suzuna!
Tão logo exclamou o nome, com toda a preocupação de irmã mais velha, e avançou contra as paredes rochosas com suas adagas recém-invocadas. Com toda a força e fúria extravasadas, atacou a superfície repetidas vezes, gritando, suplicando pelo nome de sua caçula. E se ela também fora tragada e...? Não queria imaginar. Não queria pensar. Somente ansiava despejar toda a sua frustração em algum lugar.
Era fraca. Inútil. Não conseguira sequer protegê-la... e prometeu que o faria, tantos anos atrás. Contudo, era incapaz até mesmo de transpor aquelas malditas rochas e alcançá-la. Mas onde estaria Suzuna? Na superfície, enfrentando aquela criatura perigosa? Ou indefesa, contorcendo-se em meio a terra... Eram cruéis as dúvidas, e apenas faziam crescer sua raiva. Por que não estava com ela? Por que não era a irmã ali, segura em seu lugar? Por quê? Por quê?
Respondia aos pensamentos incônditos aplicando violência sobre tudo à sua frente. Rochedos eram obstáculos; deveriam sumir de sua frente! Eram apenas barreiras que a impediam de encontrá-la. A cada golpe aplicado, pensava somente em uma palavra: “desapareçam”. Desapareçam. Desapareçam! Tentava cortar, talhar, fissurar; e tudo se mantinha absolutamente o mesmo. Isto a desesperava mais e mais. Suzuna, Suzuna, Suzuna...
Como em uma carícia, mãos familiares envolveram seus pulsos, interceptando seus movimentos e, consequentemente, seus ataques. Como ela estava de costas para ele, voltada para o alvo de seus golpes, restou ao rapaz impedi-la por trás. No entanto, o toque que se iniciara leve a pressionou com mais força quando lutou para escapar daquelas restrições, embora permanecesse tranquilo. Aquele idiota...!
― O que você pensa estar fazendo? ― vociferou, irada, enquanto tentava se soltar. Atrás de si, Usui mantinha o aperto férreo.
― Te impedindo de agir como idiota? ― O tom calmo com que ele murmurou em seu ouvido em a irritou muito mais. Ele não tinha noção do que estava acontecendo?! Não se importava?!
― Não estou agindo como idiota! ― replicou, empenhando-se mais para livrar-se. Todo o movimento fez com que as adagas caíssem de suas mãos. Gritou, exasperada: ― Me solte agora, seu imbecil!
― Atacando as paredes sem objetivo? ― apontou, com o mesmo timbre apaziguador, enquanto ignorava sua súplica. Para detê-la de ferir a si mesma, trouxe os pulsos femininos até as costas de Ayuzawa, mantendo-os juntos.
Misaki estagnou diante da verdade ― ele estava certo. O que fizera foi somente descarregar aqueles sentimentos negativos a esmo, e isto de forma alguma salvaria a pequena. Teimosia e desespero nunca poderiam salvar alguém. Contudo, o que mais poderia fazer? Desistir? Nunca! Tinha que sair dali... tinha que protegê-la...
― Não me interessa! ― esbravejou, ignorando o bom-senso. Remexeu-se para escapar novamente: ― Eu tenho que salvar minha irmã!
― Não dá para sair por aqui. ― expôs ele, com prudência. Os ninhos de Zverled eram compostos de limites espessos e intransponíveis. ― Vamos ter que procurar por uma fresta.
― Tem que ser por aqui! ― insistiu a morena. Droga, porque naquele momento não conseguia livrar-se dele? Sempre conseguira! ― Ela precisa de mim agora!
― Ela não está sozinha. ― Imediatamente, lembrou-se de Shintani e de sua experiência como soldado. ― E também não é fraca.
Desta vez, não havia como negar o que ele dissera. Deixou de contorcer-se contra as mãos de Takumi, pois a consciência do que fizera veio em cheio. Realmente, agira como uma idiota. Insensata e precipitada, não era surpresa ter sido tão facilmente presa pelo nômade, apesar da própria força. Porque, desesperada como estava, não seria capaz de enxergar, e muito menos lutar adequadamente. Suspirou, resignada:
― O-Obrigada. ― Desviou o rosto corado, mesmo que estivesse de costas para ele.
― Conseguiu entender? ― O loiro parecia satisfeito. E seu tom, agora mais baixo e rouco, era quase um afago aos ouvidos. ― Que ótimo.
Assim como quando abraçados, uma indescritível vergonha a acometeu. E de nada se assemelhava à que sentira de si mesma, após agir como uma irresponsável. Era mais aguda, e causava-lhe um estranho aperto no peito. Com aquelas vestes finas, conseguia sentir em cada ponto no qual ele encostava ― nestas áreas, um intenso calor se dilatava conforme o percebia.
Havia ainda o fato de que ele praticamente sussurrara a última frase tão próximo a ponto de transmitir também a respiração quente sobre sua pele. Era desconcertante, mas de alguma maneira inexplicavelmente agradável. E mesmo que pretendesse fugir, os pulsos estavam firmemente presos às suas costas.
― P-Por que essa mania de ficar me agarrando? ― protestou, indignada. Estava provocando nela todas aquelas reações bizarras! Repetiu: ― Me solte!
― Talvez porque seja difícil resistir a você ― admitiu ele, sobre o pescoço delgado da guerreira.
Com uma lentidão singular, deslizou os lábios fechados por sobre a superfície macia e pulsante, proporcionando arrepios incontidos em Misaki. Como podia algo tão sutil e lento ser tão... delirante? Usui traçou seu caminho até o ouvido, e quando prestes a prosseguir, ela o interrompeu:
― Eu já falei para parar, alien pervertido! ― exigiu, ruborizada como nunca.
Aparentemente, ele ignorara sua interrupção, pois manteve seus lábios tão perto quanto possível. Enfim os abriu, para morder suavemente o lóbulo da morena. Para complementar seu gesto, que deixara a garota atordoada diante de tantas sensações conflitantes, sibilou, simultaneamente atrevido e divertido:
― Você é adorável, Ayuzawa.
Ele estava pedindo por isso! Segura de que não havia qualquer outra reação apropriada, a guerreira depositou toda a sua força para pisá-lo no pé, desvencilhar-se de suas mãos e, ao final, assentar-lhe um tapa bem dado na cara. Quem ele achava que era para divertir-se às suas custas?
― Seu abusado, maníaco sexual!
O grito ecoou por entre as pedras, amplificando seu alcance. Já ele parecia orgulhoso da bofetada que recebera, pois carregava o mesmo sorriso travesso de sempre. Aquele irritante! Estava distraindo-a do que realmente importava ― deixar aquele abrigo subterrâneo e buscar a irmã mais nova. Nem ao menos olhou para trás quando partiu em direção a um dos “corredores” que a besta provavelmente produzira ao movimentar-se no subsolo.
― Vamos sair logo daqui! ― Voltou ao timbre zangado e distinto de outrora.
― Como quiser, Misa-chan ― concordou ele, com um sorriso contido. Como dissera, ela era adorável, e sua força e obstinação, admiráveis.
― Não sou “Misa-chan”! ― Deixou de marchar com toda a impetuosidade para virar-se para ele, indignada. Ele realmente se esforçava tanto para irritá-la? Queria receber uma surra de uma só vez?
― Prefere Misaki? ― indagou ele, inesperadamente próximo.
Até mesmo abaixou-se para que seu rosto estivesse à mesma altura que o dela, e esboçava um ofensivo (ao menos para ela) sorriso provocativo. Que espécie de pergunta era aquela? Tentou, tanto quanto possível, sustentar o olhar para que ele não percebesse seu constrangimento. Contudo, foi impossível não desviar os olhos e enrubescer diante daqueles olhos que pareciam lê-la por inteiro.
― C-Cale a boca, Usui idiota! ― ordenou, frustrada. Virou-lhe as costas de novo, seguindo à frente. ― Continue a andar!
Como ela era inconsciente de si mesma, ele pensou ao suspirar. Quase teve de suprimir uma risada, ao imaginar como ela reagiria se lhe dissesse que seu caminhar o seduzia. Seguiu-a, conforme ela pedira; afinal, não queria receber outro tapa, embora a coragem dela ao golpeá-lo tenha lhe surpreendido. Era a mulher mais dura e violenta que conhecera, ao mesmo tempo em que também cálida e protetora ― fascinante. Ainda que somente admirá-la não fosse o bastante para alguém como ele.
Foi imprudente em utilizar seu poder, sem qualquer preparação prévia. No entanto, não havia escolha no momento: tinha de fazê-lo para salvar a ambos. Agora, tinha de lidar com as inconveniências de sua condição, como a presença dele, a insistir contra seus limites. Chegara até mesmo a... bem, não importava. Fora sua vontade que o levara a agir daquela maneira ― porque Misaki incitava nele aquele desejo.
“Controle-se”, disse para a criatura em seu interior. “Ela não é sua presa.”
****
― Suzuna-chan, sabe se eles estão bem? ― perguntou Hinata, preocupado com o estado de seus companheiros. E se Misaki...?
― Estão, sim ― tranquilizou ela, como sempre, pacífica.
Estavam ambos na superfície, pois conseguiram esquivar do foco do “desmoronamento”, já que estavam relativamente distantes dele enquanto caminhavam muito atrás de Usui e Misaki. Todavia, nada puderam fazer com relação aos desaparecidos ― tudo acontecera numa velocidade tal em que não foram capazes sequer de perceber quando foram tragados para o subsolo.
Mas Suzuna não se deixava abalar por pouco, e esta era uma das vantagens de seu comportamento apático. Além disso, com sua magia conseguia captar a energia vital dos dois, o suficiente para compreender que não estavam em risco. Todavia, com a distância, a barreira que conjurara desapareceu, deixando desprotegida a irmã mais velha. Ao menos no subsolo o frio não a atingiria. Assim como a besta de gelo, que no momento estava à frente do soldado e da maga.
― Somos só nós, You-kun ― advertiu, assumindo uma postura de combate.
― Isso não é um problema. ― Shintani abriu um largo sorriso, como se para despreocupá-la. Seu entusiasmo ingênuo e otimismo incondicional eram encantadores, ou assim achava a menor.
― Claro. ― Contagiou-se com sua animação, e sua risada pausada foi uma preparação mais para a batalha. Comemorou, a voz simultaneamente impassível e ansiosa: ― Sobra mais XP para a gente.
Miraram ambos a gigantesca criatura que enfim os visualizara. Como um animal bípede, o Zverled não transmitia qualquer sinal de inteligência. No entanto, sabiam que não podiam subestimar os instintos da besta de gelo. Seria uma batalha memorável.
Estava na hora da diversão.
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