Kaichou Wa Heroine-sama!
2 Adventure II - The witches and the soldier
Notas iniciais

Se não necessitasse de seu auxílio para chegar à capital, Misaki tinha a plena certeza de que já teria chutado aquele nômade presunçoso e pervertido e seguido caminho com sua irmã. Sozinhas. Porém, o destino era cruel, e embora seus perseguidores já não conseguissem alcançá-las, adentrara de tal modo nos atalhos sugeridos por Usui que já não sabia onde estava, afinal. Talvez tudo não passasse de um plano daquele rapaz misterioso, e não foram poucas as vezes nas quais questionou-lhe sobre o fato, empunhando suas adagas.
― Está estressada demais, Ayuzawa ― avisou o rapaz, divertido. ― Não sabem o que dizem?
― Dizem o quê? ― indagou, com suspeita e irritação extremas.
― Que estresse se resolve com sex-
A interrupção se deu com um soco tão violento que o rapaz foi ao chão, enquanto a agressora berrava que ele não deveria comentar sobre assunto tão depravado, principalmente quando Suzuna podia ouvi-lo. Ainda que não o expressasse, a mais nova sentiu-se levemente frustrada por ser tratada como criança quando era somente dois anos mais nova, mas preferiu relevar. Era mais interessante perguntar à irmã se ela por acaso não queria ficar a sós com o mais recente companheiro e assistir ao rubor e ao constrangimento dominar as faces da outra.
E, apesar de todos os pequenos empecilhos, alcançaram enfim a capital. O que levou a guerreira a refletir sobre sua jornada: havia chegado a seu destino, e não tinha a mínima ideia de como a cidade poderia ajudá-la a encontrar a mãe. Ciente de que o território era vasto, a menor sugeriu que se dividissem para procurar por informações, ainda que Misaki tenha visto a caçula assentir em concordância para o loiro. Compreendeu seus planos, então, quando Usui permaneceu como sua companhia. Aqueles dois estavam tramando contra ela!
― Já chegamos aqui e não preciso mais de sua ajuda! ― protestou ela enquanto Takumi a seguia.
― Não vai me agradecer? Que mal-educada. ― O nômade simulou decepção.
― Argh!... O-Obrigada, tudo bem? ― bradou, furiosa e embaraçada. Apontou então para uma direção aleatória. ― Agora pode ir embora!
― E você por acaso tem ideia de onde está, ou onde deve ir? ― Sua sentença escondia um sorriso.
Bem, ela não tinha noção alguma do local. E de modo inconcebível, Usui também sabia os caminhos e destinos da cidade. Mesmo que a contragosto, a decisão natural foi manter-se com ele ― aturar por muito tempo mais sua expressão atrevida e insolente! Segundo as informações que receberam, encontrariam suas respostas se visitassem um certo estabelecimento conhecido por suas bruxas excêntricas e suas previsões certeiras.
― Tem certeza de que é um lugar confiável? ― perguntou Misaki, desconfiada de que apenas iriam roubar de seu já escasso dinheiro com trapaças. Afinal, magias de presságio eram muito difíceis de se assimilar e, portanto, raras também.
― Mesmo que “Maid-Latte” não soe confiável, elas devem ser boas para conquistarem a fama que possuem ― respondeu o rapaz, afagando o topo da cabeça da garota.
Mesmo toda a suspeita e agressividade não faziam dela menos fofa e atraente aos seus olhos. Principalmente quando ela corava em resposta à sua maneira de tranquilizá-la e desviava o rosto numa tentativa de esconder o rubor. Mas de maneira alguma, pensou a morena consigo mesma, iria deixar ser seduzida por aquele estranho!
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Ainda que sozinha, Suzuna não sentia-se solitária ― afinal, iria encontrá-los na praça central dali a algumas horas para reunir informações. Além disso, a relação de sua irmã com o loiro tinha sua total aprovação, já que o rapaz fora o único a despertar em Misaki algo a que a menor já tinha plena consciência: uma paixão desajeitada, sim, mas que poderia com o tempo converter-se num amor sólido. E quem diria; a mais velha, que alimentava um ódio excessivo por homens, acabou por apaixonar-se antes dela mesma, que sentimento algum (seja de aversão ou de simpatia) nutria por ninguém além da própria família.
Buscou dentre os diversos estabelecimentos por quaisquer relatos que coincidiam com o seu interesse; porém, ao final, a única instrução dada a ela foi para procurar por algum soldado do Império disposto a ajudá-la. Tarefa impossível, pois nenhum membro do exército era conhecido por sua cordialidade e gentileza ― eram, em sua maioria, uns brutos que abusavam de seu próprio poder para subjugar qualquer um que os questionasse.
Pensou em diferentes estratégias de pesquisa entre estranhos para alcançar a mãe sem depender de um opressor perverso, até que vislumbrou algo que poderia ser a solução de seus problemas. Poucos metros a frente, um pouco destacado entre a multidão devido à armadura, um desses mesmos soldados carregava uma criança. Sentado em seus ombros e abraçado à sua cabeça desprotegida, um garoto parecia divertir-se com algo que o rapaz dissera. Muito jovem para os padrões do exército, o moreno apanhou o menino, entregando-o para uma senhora que deveria ser a mãe do pequeno.
Após presenciar a cena estranha ― afinal, ele nem ao menos cobrara por seus serviços! ― Suzuna passou a segui-lo. Talvez encontrasse auxílio se o solicitasse ao soldado que agora era repreendido por seu superior. E nem ao menos durante a reprimenda deixou de sorrir, como se o gesto representasse suas desculpas por ser prestativo. Sim, era ele, decidiu a maga. E antes que pudesse se aproximar, o rapaz voltou-se em sua direção:
― Também quer ajuda, não é, menina?
Havia notado a pequena a segui-lo, e acostumado a lidar com este tipo de situação, apenas esperara o momento oportuno para oferecer-se. Contudo, ao fitar seu rosto de perto percebeu que a morena não era uma criança, apesar da altura. Deveria ser poucos anos mais nova que ele mesmo. E ela comemorou mentalmente o fato de que o rapaz se oferecera espontaneamente ― poupar esforços era gratificante.
― Sou Ayuzawa Suzuna e estou à procura de minha mãe desaparecida ― explicou brevemente. Mencionou ainda que apenas buscava por um rumo a seguir, pois ela mesma iria buscá-la.
― Não é perigoso sair por aí sozinha? ― O moreno parecia preocupado, pois mesmo que a menor aparentasse ser capaz de conjurar feitiços, o mesmo não poderia ser dito de sua resistência física.
― Minha onee-chan é mais perigosa que qualquer coisa ― garantiu, em seu tom apático.
Um tanto confuso com a maneira estranha com que a mais baixa se portava, ainda assim o soldado não deixou de ajudá-la ― seu auxílio não tinha distinção entre pessoa alguma. Chamava-se Shintani Hinata e, quando questionado sobre a razão pela qual era tão solícito sem exigir nada em troca, revelou que o prometera há muito tempo atrás a uma garota de sua vila.
Durante o diálogo, Suzuna pôde assimilar três fatos sobre o rapaz: sua ingenuidade equiparava-se à bondade; podia corar com facilidade ao receber elogios e falar sobre o próprio passado; e o sorriso quase permanentemente estampado em seu rosto era lindo.
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Era frustrante ter de concordar com Usui. Sua opinião sobre as bruxas do Maid-Latte revelou-se correta: elas eram realmente poderosas, e não apenas umas farsantes. Porém, havia algo de estranho nas quatro mulheres. Muito estranho.
Subaru era a mais tranquila, dona de uma calma absurda e uma paciência sem limites. Para alguém explosiva como ela mesma, aquilo era tão surpreendente quanto a apatia característica de sua caçula. Erika, ao contrário, era animada e vivaz ― um tanto excessivamente, sim. E os olhares maliciosos que lançou quando os viu juntos, como se realmente pensasse que ela e Takumi eram um casal, eram ultrajantes o suficiente para que a julgasse uma pervertida como aquele loiro abusado.
Honoka parecia sofrer de algum distúrbio bipolar, pois ora mostrava-se educada, alegre e receptiva, ora alternava para uma face mais obscura e cruel, principalmente quando a contrariavam. Contudo, a mais excêntrica certamente era Satsuki ― afinal, uma mulher daquela idade não deveria portar-se daquela maneira tão empolgada a ponto de ser infantil. Não havia como compreendê-las, decidiu Misaki, embora elas lhe oferecessem um acolhimento que julgava ser impossível.
Mas... o que era moe?
― É algum encanto mágico? ― perguntou ao acompanhante, enquanto flores eram conjuradas pela gerente do estabelecimento enquanto ela balbuciava a palavra desconhecida.
― ... Você não vai entender de qualquer maneira ― respondeu ele diante do olhar confuso da outra.
Balançou a própria cabeça para afastar quaisquer distrações ― lidar com gente maluca era o de menos. Tinha de manter-se encaminhada em seu foco: encontrar a mãe desaparecida e retornar para a tranquilidade de sua vila com sua família.
― Mas podem mesmo nos ajudar? ― insistiu, após o surto da mulher mais velha.
Por um momento, todas se empertigaram, e logo assumiram uma espécie de posicionamento ensaiado, como se sua movimentação ao alinharem-se à frente do nômade e da filha de camponeses fosse integralmente e teatralmente coreografada. Diante de toda a pompa, Misaki pareceu atordoada uma vez mais. O que diabos elas estavam fazendo? Sua resposta veio em forma de um cântico leve e suave:
― Nada faremos, graciosa guerreira ― entoou Satsuki, atuando em solenidade.
― Se em troca não nos oferecer algo justo ― complementou Subaru, tombando o rosto em condescendência.
― Como faz uma boa hospedeira ― atentou Honoka, graciosamente assustadora à sua maneira.
― Que ao proprietário lhe arca o custo ― finalizou Erika, estendendo os dedos para formar um “V”.
Aquele não era um momento apropriado para declamações e poemas! Porém, compreendeu Usui, não era uma simples poesia: era uma conjuração poderosa. Uma promessa selada à magia. Se a morena lhes desse o que queriam, seriam obrigadas a realizar seus pedidos ― qualquer um deles. Eram realmente sérias em seu serviço, pois deveriam destruir cidades ou transportar tesouros caso a outra parte assim o desejasse. Contudo, Misaki era honesta e ingênua a ponto de nem sequer pensar nestas vantagens. Talvez este fosse o motivo pelo qual confiaram a ela tal poder, afinal.
― Então... devo oferecer o quê em troca? ― O tom da morena era cauteloso.
O sorriso perigoso que as quatro lhe direcionaram fez com que ela se arrependesse de sua pergunta. Tão logo percebeu, suas vestes, até mesmo as porções metálicas de sua armadura foram convertidas num uniforme estranho. Era bicolor, e o preto e o branco invertiam-se entre o tecido macio e as rendas delicadas. Mas o quê...?
― Não disse que ela ficaria linda nesta roupa? ― entusiasmou-se Satsuki, e passou a invocar a floração ao pronunciar “moe” uma vez mais.
― Até que não ficou tão ruim ― concordou Honoka, vislumbrando-a de esguelha.
Demorou a acreditar no que diziam. Nem ao menos prestou atenção ao seu lado, em como os olhos de Takumi arregalaram-se alguns milímetros quando a transformação foi feita. Afinal, nunca a vira vestir algo tão singelo quanto um vestido ― e o contorno de suas pernas era visível devido à saia curta, mesmo entre as meias claras; assim como a curva suave de sua cintura marcada pelo laço bordado. Ela estava adorável.
― Como assim?! ― protestou Misaki, diante daquele desenrolar ridículo.
― A gerente quis te ver vestida assim desde que entrou aqui ― explicou Subaru, como quem se desculpa.
― Não dá para impedi-la de conseguir o que quer ― continuou Erika, divertindo-se com toda a situação.
― Não vou poder lutar para encontrar minha mãe vestida dessa maneira! ― justificou-se a mais nova. No que afinal aquelas loucas estavam pensando?!
Aí está para o enigma a sua resolução
Pois na busca de sua armadura perdida
Encontrará neste reino e em sua imensidão
A localização que lhe era desconhecida.
A resposta uma vez mais veio declamada. Desta vez, entretanto, enquanto pronunciavam cada verso, as bruxas desvaneciam-se assim como as palavras que proferiam, e acabaram por desaparecer no ar, diante dos dois. Como anteriormente, ele havia entendido o que elas queriam dizer: apesar de não lhes dar respostas diretas, as mulheres haviam indicado-lhes um caminho certo. Um rumo, enfim.
Por outro lado, a guerreira sentiu-se ludibriada, e reclamava incessantemente contra aquelas “charlatãs insanas”. O que era uma visão hilária, considerando a forma com que ela se vestia ao contrastar-se com suas atitudes. Ao explicar-lhe sobre as poesias mágicas, o estado de Misaki abrandou-se um tanto, ainda que a raiva que sentia por usar aquele uniforme engomado e meigo demais para seu gosto não cessasse.
― Mas ficou muito bem com esta roupa ― elogiou sugestivamente, ao mirar a maneira com que o tecido moldava-se perfeitamente ao corpo da outra.
― E-Eu não quero saber se fico bem nela, pervertido! ― gritou ela, ao afastar-se. Que homem inconveniente!
― Mas vamos recuperar sua armadura ― murmurou, estranhamente suave ao afagar a ponta de seus fios. Um leve sorriso de canto surgiu em seus lábios. ― Combina mais com você.
Mesmo quando Usui foi à frente, ela permaneceu estática diante do que ele dissera. “Combina mais com você.” Já percebera o quanto o rapaz era insistente, mesmo com toda a sua violência e grosseria. Mesmo assim, nunca imaginara que ele pudesse gostar até mesmo desta parte ― seus defeitos, mesmo que ela não os admitisse. Como se a aceitasse exatamente como era, em sua totalidade. Era... inacreditavelmente doce, para aquele tarado atrevido.
― Não vai vir, Misa-chan? ― perguntou o loiro, ao olhar para trás para encontrá-la estagnada, surpreendida e embaraçada.
Ao ouvi-lo, porém, ela despertou ao estado natural.Misa-chan. O odioso apelido que Satsuki lhe dera tão logo ouviu seu nome. E lá estava ele, utilizando-o com naturalidade, como se fossem próximos. Como se fossem íntimos! Aquele pervertido! Antes de brigar com ele uma vez mais, no entanto, lembrou-se de sua irmã. Teriam de encontrá-la antes de partir, e ao questioná-lo ele não demorou a responder:
― Ela deve nos encontrar na praça principal da cidade quando anoitecer.
― E quando combinaram isso? ― Misaki vasculhou sua mente à procura de algum indício de ajuste de horário anteriormente. Não encontrou nenhum.
― Hã... conversas telepáticas? ― brincou ele, embora ela não duvidasse.
Afinal, Suzuna era naturalmente excêntrica, e aquele nômade misterioso, apesar das aparências, nem ao menos deveria ser um ser humano devido às suas habilidades excepcionais. Estava mais para um alien ― sim, um alien pervertido.
****
― Vamos por aqui, Shintani-kun ― guiou ela diante das opções que ele lhe fornecera em um mapa. Um soldado conhecedor das redondezas era um aliado realmente útil.
― Pode me chamar pelo nome se quiser, Suzuna-chan ― ofereceu ele, amigável. Ainda estava surpreendido com a maneira hábil com que aquela pequenina tomava o rumo da situação, apesar de ser ele o guia.
― Não costumo chamar as pessoas pelo nome ― esclareceu ela, mas logo endireitou-se e complementou suas palavras, erguendo um dedo por algum motivo que ele desconhecia: ― Mas posso te chamar de You-kun.
Sem nenhuma explicação. Primeiro lhe disse que não chamava ninguém pelo primeiro nome, com naturalidade ímpar apesar do semblante passivo. E logo em seguida escolhera um apelido aparentemente tão íntimo quando segundos atrás lhe denominara pelo sobrenome. Havia, realmente, algo de inexplicável nos modos da menor. Mas deixou passar; afinal, para alguém como ele, que sempre se concentraria nas qualidades das pessoas, e não em seus defeitos, não havia alguém completamente normal neste mundo, não é?
Tão logo chegaram a um estabelecimento mágico, que exigia um feitiço para que a passagem lhe fosse permitida, Suzuna iniciou uma repentina sequência de passos e movimentações rítmicas de suas mãos antes de proferir os vocábulos mágicos (“Raffle Raffle Spring!”) que converteram o cadeado em uma bela composição floral. Lembrou-se de quando fez o mesmo à frente da irmã mais velha, algumas semanas atrás.
― O que está fazendo? ― havia questionado ela, perplexa diante do gesto espalhafatoso para uma simples mágica.
― Imitando uma mahou shoujo¹. ― Foi sua resposta, e quando a maior censurou-a ao dizer que não eram um momento para brincadeiras, não demorou a refutá-la: ― Como você não tem imaginação, onee-chan.
Ao contrário do que especulou, entretanto, Hinata não arqueou as sobrancelhas ou cerrou os olhos diante daquele hábito que ela cultivou com o tempo. Na verdade, os olhos castanhos do rapaz adquiriram um brilho próprio em admiração... como se reconhecesse de onde ela retirara aquela maneira afetada de conjurar magias.
― Espere... você fez igual às mahou shoujos das lendas! ― exclamou ele, empolgado como uma criança. Suas maneiras expressivas contrastavam com as impassíveis da pequena.
― Sim! ― concordou ela, demonstrando alguma rara animação. Alguém que também as conhecia!
E durante todo o percurso seguinte, entre as pistas que reuniram ao visitar os inúmeros edifícios e questionar feiticeiros e aventureiros dos mais diversos, prosseguiram no diálogo sobre histórias épicas, criaturas fantásticas e até mesmo sobre comida ― que descobriu a mais nova ser o ponto fraco do soldado. Até mesmo conjurou para ele uma porção de sobremesa com frutas silvestres quando o viu desejar o doce em uma confeitaria.
Eram uma dupla esquisita a percorrer a cidade, tão diferentes entre si e ao mesmo tempo tão semelhantes. Ao ajuntar todas as informações coletadas e aguardar por seus acompanhantes na grande praça em frente à catedral mais imponente da região, a morena não poderia negar que divertiu-se naquele meio-tempo. E mesmo que tenha lhe dito que era desnecessário, Shintani a acompanhava em sua espera; ambos sentados em volta de uma bela fonte disputada.
― Se me bajular um pouquinho, posso fazer outro bolo ― ofereceu ela, em uma brincadeira evidente apesar do tom apático.
― Ah! ― O rapaz levantou-se repentinamente ao perceber. ― Eu nem ao menos agradeci pelo outro!
― Não é necessário. ― Ela abanou as mãos em displicência. Levou às mãos a testa, em continência. Sempre quis fazê-lo, e nunca encontrara a oportunidade. Até agora. ― Bom trabalho, soldado!
Ao entender de sua brincadeira, ele sorriu ao imitar-lhe o gesto, agradecendo à sua “capitã”. Ao mirá-o novamente, ela teve certeza de que o sorriso do rapaz era muito, muito bonito ― talvez o mais espontâneo que já vira em sua vida. Era admirável a maneira com que ele agia, apesar do posto privilegiado ― uma alma bondosa em meio a tantas corrompidas. Quase como um milagre.
Quando o sino do campanário soou, como se estrategicamente pontuais, Misaki e Takumi despontaram dentre a multidão, procurando-a entre a imensidão de pessoas. Em resposta, ela ergueu-se sobre o banco no qual estava sentada, compensando a baixa estatura com o acréscimo das margens da fonte. Ao visualizá-la, Misaki acenou para confirmar que a encontrara.
E enfim ele a viu.
Durante o dia, Suzuna descobrira muito sobre aquele soldado tão aberto a ponto de não esconder segredos nem ao menos a uma desconhecida. Principalmente sobre o motivo que o levara a ingressar no exército ― a morte injusta de sua tão amada tutora quando mais criança. Aquela que o ensinara sobre lendas e fantasias, que o acolhera após a morte de seus pais; alguns anos mais velha que ele mesmo. Ficara explícito o carinho que sentia pela garota ao descrevê-la, atribuindo-lhe tantos adjetivos positivos a ponto de pincelá-la como um anjo.
E encontrou este mesmo olhar quando Hinata visualizou sua irmã. Como se ambas fossem tão parecidas a ponto de despertar-lhe o mesmo sentimento. Mas, embora pudesse lê-lo com tanta facilidade, não poderia prever que ele deixaria o posto na cidade para acompanhá-los. Para proteger aquela desconhecida tão semelhante à lembrança que tinha de sua tutora; como se ao impedir sua morte, pudesse compensar sua inutilidade tantos anos atrás, quando nada pôde fazer diante do assassinato.
A party² estava formada.
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