Kaichou Wa Heroine-sama!
1 Adventure I - The heroine and the mage
Notas iniciais

Percorriam sorrateiramente o ambiente cavernoso, atentas a qualquer sinal ameaçador. Afinal, apesar de suas habilidades incontestáveis na batalha, Misaki e Suzuna não seriam imprudentes no suposto lar de um reconhecido e temido feiticeiro, principalmente porque seu objetivo não era derrotá-lo. Ambas estavam em busca de Minako, que desapareceu sem deixar vestígios do pequeno vilarejo em que viviam. E, para deixar o seu lar, com destino à capital do Império em busca de informações sobre o paradeiro da mãe, as irmãs Ayuzawa deveriam cruzar os domínios do dito cruel bruxo das trevas.
― Poderíamos ter contornado o castelo, onee-chan ― sussurrou a mais nova, enquanto escondiam-se entre as pedras.
― P-Por aqui é mais rápido ― argumentou a mais alta, contendo um arrepio involuntário.
― Ou é porque dizem que aquela floresta é amaldiçoada por fantasmas? ― deduziu Suzuna, num tom implicante, pois sabia do medo que a primogênita sentia por aquele tipo de criaturas.
― N-Não é por isso!
Seu grito ecoou pelo ambiente, reverberando nas paredes rochosas. Indignada consigo mesma, Misaki praguejou baixo enquanto corria com a irmã em busca de um novo esconderijo seguro. Contudo, já haviam denunciado sua presença, e uma rajada de flechas negras foi disparada contra as duas. Amaldiçoando a si mesma, a irmã mais velha pôs-se à frente da menor para defendê-la, mas a pequena maga foi rápida o suficiente na conjuração de um escudo mágico.
Aproveitando-se da proteção momentânea, ambas encontraram abrigo atrás de uma grande rocha. Sendo a mais analítica dentre as duas, Suzuna planejava alguma maneira de escaparem sem o confronto direto com o inimigo, conforme observava a área ao redor. No entanto, seus planos foram frustrados quando a morena mais velha sentiu-se ofendida com as palavras do feiticeiro, que as chamou de covardes.
Misaki nunca aceitaria ser estigmatizada como covarde.
― Seu desgraçado! ― proferiu, enraivecida, ao avançar contra o adversário.
Como sabia que seria inútil avisar a mais alta que o bruxo que enfrentariam possuía perigosos poderes hipnóticos, conforme suas pesquisas, a maga apenas a seguiu. Enquanto preparava os encantamentos necessários para dar suporte ao combate da irmã, a outra invocava suas armas brancas: duas adagas médias e leves, adequadas aos seus movimentos ágeis.
Eram uma bela dupla, Suzuna não poderia negar. Apesar do temperamento explosivo da mais velha, sua capacidade em lutas a curta e média distância era exímia, e em complemento aos talentos mágicos da caçula, praticamente invencíveis. Embora muito novas, ambas já haviam derrotado os mais diversos oponentes, e por este motivo não temiam o poderoso feiticeiro.
Contudo, ao ouvi-la, o inimigo estagnou e, quando tornaram-se visíveis, a morena de madeixas repartidas ao meio poderia jurar que vira medo em seus olhos. Alheia a detalhes tão ínfimos, Misaki avançou contra o que se revelou apenas um rapaz. Desferiu contra ele inúmeros golpes, ao que o agora evidentemente assustado moreno somente desviava. Porém, desacostumado a um combate tão próximo de seu oponente, acabou encurralado contra uma parede próxima. Sobre seu pescoço, a arma afiada o comprimia mais contra a superfície. As lentes de seus óculos haviam partido com o impacto.
― De-deixem meu mestre! ― pediu um garoto, até o momento oculto entre as pedras. Tremia sobre as próprias pernas, amedrontado, mas seu olhar denunciava sua determinação em proteger o superior.
― Fique onde está! ― ordenou a guerreira, apontando ao outro a adaga sobressalente, ao que o rapaz baixo apenas assentiu. Manteve a lâmina rente à garganta do feiticeiro, cuja expressão era de puro desconforto. ― E você? Por que nos atacou? E por que nos chamou de covardes, hein?
― A-Afaste-se, por favor ― implorou, num fio de voz diante da proximidade da morena.
― É claro que não vou-
― Você está aparentando ser a vilã, onee-chan ― interrompeu Suzuna, considerando a situação. Num vislumbre descontextualizado, a maior ameaçava dois indefesos rapazes.
Bufando emburrada, Misaki deixou o feiticeiro ao recuar alguns passos. Agora livre, o moreno desabou sobre o chão, recuperando o fôlego perdido, e o lacaio veio ao seu encontro, pronto para auxiliá-lo em seu reestabelecimento. Embora afastada, no entanto, a primogênita exigiu explicações de ambos, impaciente diante da bizarra cena que presenciara. Onde estava o tal temido mago das trevas?
O menor, cujo nome era Yukimura Shouichirou, esclareceu que seu mestre, Kanou Soutarou, era um bruxo poderoso ― sua única fraqueza, porém, era a fobia a pessoas do sexo feminino. Para manter-se afastado daquilo que o enfraquecia, isolou-se naquele castelo, afugentando todo e qualquer intruso para que nenhuma mulher ousasse adentrar em seus domínios, provavelmente aterrorizada diante das narrativas que os homens regressos lhe contariam.
Nunca iria imaginar existirem duas corajosas garotas como as duas, e foi somente ao escutar o timbre feminino, há tanto tempo esquecido, que manifestou-se em Kanou o retraimento ― denominá-las covardes apenas fazia parte da encenação esboçada para intimidar os ocasionais guerreiros a se aventurar por aquelas terras. Enquanto Suzuna encontrou inúmeras falhas naquele plano tramado no desespero, a morena mais velha enfureceu-se mais e mais, puxando-a pelos pulsos ao abandonar aqueles estúpidos medrosos.
― Que batalha ridícula! ― queixou-se, a passos largos.
― Ao menos ganhamos ― consolou a menor.
― Mas não foi honrado!
Diante da frustração de sua irmã, a mais nova apenas riu de modo excêntrico. Adquirido com o tempo, o ódio de Misaki pelos homens apenas crescia a cada embate no qual o adversário a menosprezava segundo seu gênero. Talvez a luta ganha apenas usando este mesmo gênero como vantagem tenha ferido seu orgulho.
Prosseguiram em seu caminho, atravessando a grande floresta encantada que separava seu vilarejo da cidade mais próxima. Lá iriam hospedar-se durante a noite, descansando para o longo trajeto até a capital do Império Seika. Logo ao chegarem à hospedaria, alguns homens insinuaram-se para as duas, animados diante da rara presença feminina. Já mal-humorada, Misaki repeliu todas as investidas, e chegou à ameaçar um engraçadinho que tentou tocá-la, avisando-lhe que não garantiria a integridade de suas partes íntimas se continuasse com aquela pouca-vergonha.
Mal notaram a presença de um encapuzado a observá-las, silencioso ao apreciar desacompanhado um copo de bebida em uma mesa aos fundos do salão. Assim como não perceberam o leve sorriso de canto que ele esboçou durante as intimidações berradas pela guerreira.
Quando a lua atingiu o centro de céu, as irmãs dormiam tranquilas, inconscientes de que os mesmos homens que a mais velha afugentou tramavam uma emboscada contra elas. Contudo, despertaram repentinamente quando o som de uma garrafa a chocar-se contra a janela do quarto as assustou e deixou em estado de alerta. Aprontaram-se com velocidade, suspeitando de uma possível vingança daqueles que Misaki ofendeu de maneira imprudente.
Foi Suzuna a guiá-las desta vez, ignorando os protestos da maior que desejava enfrentá-los. Ágeis, ocultavam-se com auxílio das numerosas sombras e escuridão; contudo, sabiam que não havia para onde ir ao perceber que os oponentes eram numerosos o suficiente para bloquear todas as saídas da cidade. Prosseguiriam na busca por uma fuga satisfatória não fosse um encapuzado a agarrar a mais velha por trás, arrastando-a para um casebre abandonado ― e a caçula prontamente os seguiu, almejando libertá-la do que supunha ser um de seus perseguidores.
― Largue ela ― exigiu a maga, num tom monótono e letal.
― Ainda não. Acalmem-se as duas.
A voz masculina atingiu o ouvido próximo de Misaki, que arrepiou-se com a proximidade quase íntima e tornou mais violentas as tentativas de livrar-se do aperto ― inutilmente. Tentou ainda morder a mão que abafava-lhe os gritos, mas sentiu em seus dentes uma espessa camada de couro a proteger a palma. E sua irmã nada podia fazer, pois o misterioso rapaz era astuto o suficiente para usar o corpo da garota como escudo contra suas conjurações.
― É melhor ser menos agressiva, onee-chan ― sussurrou ele, apropriando-se da maneira com que Suzuna denominava-lhe. Isto a deixou incrivelmente possessa. Aquele abusado! Ainda mentiu descaradamente: ― Estou aqui para ajudar vocês.
― Ajudar como? ― Ainda apática, agora a caçula era cautelosa. Poderia ser um blefe.
― Fui eu quem atirou aquela garrafa ― explicou o outro, citando o objeto que as arrancara do sono para deixá-las cientes da ameaça.
Aproveitando-se do pequeno lapso de concentração do agressor, Misaki o golpeou, afastando-se quando ele encolheu-se diante do impacto, para em seguida atacá-lo novamente, até que havia imobilizado-o no chão usando de suas próprias pernas e de sua inseparável arma branca. Como de costume, pressionou a lâmina contra a garganta do rapaz, que revelou-se um belo loiro de olhos claros, indefinidos no recinto obscurecido. Ordenou-lhe que deveria ajudá-las a fugir e trair seus companheiros, se quisesse permanecer vivo.
― Não sei se já percebeu, mas não estou do lado deles. ― A calma e a diversão com que o dizia eram muito irritantes!
― Por que quer nos ajudar? ― indagou Suzuna, interrompendo qualquer ofensa que a morena maior pretendesse pronunciar.
― Tenho meus motivos ― desconversou ele, para em seguida sorrir, sugestivo. ― Sempre derrota seus inimigos assim, onee-chan?
Mencionava a posição na qual Misaki o sujeitara, deitado e preso entre suas pernas ― sua sentença insinuava hipóteses pervertidas, e a mais velha corou ao afastar-se, gaguejando que aquele não era seu nome. Logo afastou tais pensamentos, recuperando a compostura e estendendo sua adaga na direção do desconhecido suspeito. Contrariado, o loiro suspirou e murmurou para si mesmo algo como “Por que tão teimosa?”.
Entretanto, foram interrompidos com o som de vários aldeões a aproximar-se. Num instante, o antes encapuzado desapareceu, e a mais velha o amaldiçoou ao afirmar que ele iria entregá-las aos aliados. Sua irmã foi menos precipitada, atenta aos ruídos externos que sugeriam um confronto, e logo confirmou o que o estranho dissera-lhes: ainda que sem nenhuma razão aparente, ele as ajudara, pois ao deixarem a cabana avistaram-no de pé a caminhar por entre os adversários oponentes desmaiados.
― Acreditam agora em mim? ― O sorriso do rapaz era como uma provocação para Misaki. Ela poderia muito bem derrotá-los sozinha!
Além disso, seus instintos alertavam-na de que ele não aparentava ser nada confiável. Nem ao menos sabia seu nome! E, diante do olhar descrente da mais zangada, já que a menor acomodara-se e voltara a expressar o semblante indiferente, apresentou-se como Usui Takumi, um nômade a caminho da capital. Conhecedor da região, poderia guiá-las por trilhas alternativas às bloqueadas pelos oponentes e evitar uma luta já perdida devido à gritante diferença numérica.
― E nada melhor do que companhia, não? ― Sorriu maliciosamente para a mais velha. ― Principalmente uma companhia tão divertida.
Reagindo ao que interpretara ser atrevimento, Misaki deu-lhe um sonoro tapa, ao protestar furiosa e enrubescida. Era a segunda vez na qual Usui experimentara de sua força contra seu corpo, e enquanto massageava a área atingida, elogiou a habilidade da morena. Julgando o elogio uma insolência, a guerreira sentiu-se tentada a atingi-lo de novo, mas conteve-se ao cruzar os braços. Seu guia deveria estar inteiro para conduzi-las ao seu destino.
― Não sei como se chama. ― Seu tom era curioso ao dirigir-se à maior, enquanto seguiam por entre o percurso indicado por ele. Enquanto as ouvira no salão da hospedaria, descobriu que a mais nova chamava-se Suzuna; contudo, o nome da outra permaneceu um mistério. ― Ou devo te chamar de onee-chan, como sua irmã?
― É Ayuzawa Misaki, entendeu? Não vou repetir!
Indignada com a satisfação demonstrada pelo temporário aliado, mal notou a morena mais baixa aproximar-se até que ela sussurrou, bem próxima de seu ouvido:
― Acho que ele gostou de você. ― E complementou com pequenas risadas sugestivas.
― N-Nem pensar!
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Com o tempo, descobriram que Usui era um conveniente acompanhante, pois além de conhecer os mais diversos atalhos por entre o Império, revelou-lhes que foi alvo de um feitiço que retirara-lhe a necessidade de dormir. Devido ao incidente na cidade, ambas eram procuradas por entre as diversas localidades, e escondiam-se entre a mata ― assim como lá descansavam.
Imune aos encantos de Morfeu, era o loiro a vigiar qualquer possível ameaça, garantindo a elas uma noite segura de sono Durante muitas noites, desconfiada, Misaki manteve-se desperta à procura de um mínimo sinal de traição; porém, o nômade apenas a provocava durante as madrugadas não dormidas. Em uma delas, sentiu-se tentada a entregar-se ao sono.
― Pode usar minhas pernas como travesseiro, Ayuzawa ― sugeriu Takumi, atrevido, quando ela bocejou.
― Pare de gracinhas ou vai apanhar de novo. ― A força de sua ameaça foi diluída em meio ao sono.
― Pode me bater se quiser de manhã ― blefou ele, pois não queria sentir os golpes da guerreira nunca mais em sua vida. ― Mas vá dormir.
― Não estou com sono, seu idiota ― mentiu a morena; a frase saiu arrastada, mas a voz era firme.
― Já que não está com sono... ― Um sorriso malicioso rapidamente esboçou-se entre os lábios do loiro. ― Então podemos fazer algo divertido?
Mesmo sonolenta, Misaki arregalou os olhos, pois o maldito não apenas proferiu aquele convite obsceno, como dirigiu-se em sua direção, sentando-se próximo o suficiente para envolvê-la num abraço. E frouxo, seu corpo mal respondia seus movimentos ― iniciou uma sequência de sussurros ameaçadores, pois não queria acordar a caçula. No que diabos ele estava pensando?
― O que você pensou que eu quis dizer com divertido? ― sussurrou ele sobre seu ouvido, estrategicamente próximo já que a envolvia por trás. ― Ayuzawa, sua pervertida.
― O-Olha quem fala!
Contrariando suas expectativas, o rapaz apenas riu e começou a cantarolar: uma melodia simples, baixa e harmoniosa, que assemelhava-se muito à uma cantiga de ninar, embora aquela língua à ela fosse desconhecida. Guiada pelo som, a morena não demorou a adormecer entre os braços do estranho que conhecera há poucas semanas.
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