Kahrir Valmont e os Sussurros do Castelo: Ano 1
1 Capítulo 1: Beco Diagonal
A pequena sineta acima da porta da Olivaras Varinhas tilintou suavemente quando Kahrir empurrou a porta e entrou na loja longa e estreita. O ar estava pesado com o cheiro de madeira polida, couro antigo e um leve toque metálico, quase elétrico. Caixas empilhadas até o teto tremiam de leve, como se as varinhas dentro delas sussurrassem entre si, inquietas e ansiosas.
O Sr. Garrick Ollivander surgiu de trás de uma das prateleiras altas, seus olhos claros e grandes parecendo atravessá-la. Os cabelos brancos flutuavam ao redor da cabeça como teias de aranha.
— Ah… uma nova aluna — murmurou ele, com aquela voz suave e curiosa. — A caminho de Hogwarts, não é? Vamos ver…
Ele começou a se mover entre as prateleiras, puxando caixas ao acaso e testando varinhas com movimentos rápidos e precisos. Cada tentativa terminava em algum pequeno acidente: faíscas fora de lugar, um vaso de flores que murchava de repente ou um livro que saía voando e batia contra a parede. Kahrir já começava a se sentir levemente desanimada quando Ollivander parou de súbito, inclinando a cabeça como se tivesse ouvido algo que apenas ele conseguia escutar.
— Interessante… — sussurrou.
Ele subiu em uma velha escada e puxou uma caixa longa e estreita de uma prateleira perto do teto. Soprou a poeira da tampa com cuidado e a abriu lentamente.
Dentro dela repousava uma bela varinha de madeira: cor de mel escuro, com veios dourados sutis, polida à perfeição. O cabo era elegante, com detalhes que pareciam ter crescido naturalmente, como se a própria árvore a tivesse moldado daquela forma.
— Madeira de faia… núcleo de coração de dragão… trinta e um vírgula setenta e cinco centímetros… flexibilidade inflexível — anunciou ele, quase reverente.
Kahrir estendeu a mão. No instante em que seus dedos tocaram a varinha, algo se alterou no ar. Um calor agradável subiu por seu braço, como se a varinha a tivesse reconhecido. Uma chuva suave de faíscas prateadas e douradas irrompeu da ponta, dançando como pequenas estrelas cadentes. As prateleiras vibraram de leve, e por um breve segundo ela sentiu uma conexão profunda — como se a varinha finalmente tivesse encontrado aquilo que procurava.
Ollivander abriu um sorriso raro e satisfeito.
— Ah, sim… ela escolheu você. De forma bastante decisiva, inclusive. Varinhas de faia são exigentes. Procuram bruxas e bruxos com sabedoria além da idade, mente aberta e compreensão profunda das coisas. Não se dão bem com intolerância ou rigidez mental. Mas, quando encontram a pessoa certa, são capazes de uma sutileza e elegância mágicas que poucos conseguem igualar.
Ele estudou a varinha nas mãos dela com aprovação.
— Coração de dragão… poderoso, rápido no aprendizado, capaz dos feitiços mais espetaculares. Mas temperamental também. Exige respeito. E essa flexibilidade inflexível significa que vocês duas possuem uma determinação notável. Não se dobram facilmente. Serão leais uma à outra, mas precisarão crescer juntas.
Ollivander inclinou a cabeça, curioso.
— Diga-me, minha jovem… como se sente ao segurá-la?
Kahrir segurou a varinha com reverência, os olhos brilhando de admiração. Ela era leve, mas carregava um poder contido, elegante, quase vivo. Seu coração bateu um pouco mais rápido.
— Uau… — murmurou ela, a voz cheia de encantamento. — Ela é linda. Sinto como se estivesse me reconhecendo.
Depois de girar a varinha devagar entre os dedos, admirando a cor de mel escuro e os veios dourados, ela ergueu o olhar.
— Sr. Ollivander… existe algum desafio que vem com essa varinha?
O fabricante de varinhas soltou uma risada baixa e gentil.
— Ah, uma excelente pergunta. Toda varinha que vale a pena vem com seus desafios.
Ele explicou com paciência: a madeira de faia exigia mente aberta e uma sabedoria ainda em desenvolvimento; o coração de dragão era poderoso, mas volátil, especialmente quando alimentado por emoções fortes; e a flexibilidade inflexível significava que ela e a varinha precisariam aprender a confiar uma na outra ao longo do tempo.
Kahrir ouviu com atenção, ainda maravilhada. Hesitou por um instante antes de perguntar:
— Ela é um pouco grande, não é? Trinta e um vírgula setenta e cinco centímetros parece bastante comprida…
Ollivander piscou, divertido.
— Grande? Eu não chamaria de exagerada. Está confortavelmente dentro de uma faixa saudável. Sugere presença, amplitude e confiança na sua magia. Esta não é uma varinha tímida. Combinada com faia e coração de dragão, reforça elegância com alcance quando necessário.
Satisfeita, Kahrir sorriu.
— Acho que entendi. Obrigada por tudo. Vou levá-la.
Ollivander embrulhou a varinha cuidadosamente em papel grosso cor de creme, amarrou-a com uma fita fina de veludo vinho e colocou-a dentro de uma caixa longa e elegante de madeira escura, com o nome “Olivaras” gravado em letras douradas. Entregou-a a ela com um gesto quase cerimonial.
— Cuide bem dela, e ela cuidará de você. Boa sorte em Hogwarts. Tenho a sensação de que ouviremos grandes coisas vindas dessa combinação.
Kahrir pagou os sete galeões e colocou a caixa com muito cuidado dentro da bolsa nova. Ao sair da loja, a sineta tilintou alegremente atrás dela.
O Beco Diagonal se abriu diante dela como um mundo encantado e caótico. O sol da tarde filtrava-se entre construções tortas, iluminando vitrines coloridas, bruxas e bruxos apressados, corujas voando baixo e crianças da sua idade carregando pacotes enormes. O ar cheirava a pergaminho novo, poções borbulhantes, doces e um leve traço de fumaça de fogos de artifício.
Com a varinha pulsando de leve dentro da caixa, Kahrir respirou fundo, sentindo uma mistura de ansiedade e empolgação. Ajustou a bolsa no ombro e começou a caminhar pela rua de paralelepípedos.
Seu primeiro destino foi a Madame Malkin’s Roupas para Todas as Ocasiões. Manequins encantados giravam lentamente na vitrine, exibindo vestes negras de Hogwarts com o brasão da escola, capas forradas de veludo e modelos sofisticados com bordados que mudavam de cor conforme a luz.
Dentro da loja, o ambiente era aconchegante, cheio de tecidos empilhados, espelhos de corpo inteiro que falavam e plataformas de prova com banquinhos flutuantes. Madame Malkin, uma bruxa baixinha de cabelos grisalhos presos em um coque apertado e óculos de meia-lua, aproximou-se rapidamente com um sorriso profissional.
— Boa tarde! Primeira vez em Hogwarts, não é? Perfeito. Vamos precisar do conjunto completo para o primeiro ano.
As vestes se ajustaram magicamente ao corpo de Kahrir assim que ela subiu na plataforma. A bainha encurtou sozinha, as mangas se acomodaram perfeitamente e os ombros ficaram confortáveis. Madame Malkin circulava ao redor dela, fazendo pequenos ajustes com alfinetes flutuantes.
Enquanto as vestes se assentavam, Kahrir sentiu um leve formigamento na mão. Sem pensar muito, abriu a caixa e tirou sua nova varinha. No instante em que seus dedos se fecharam ao redor dela, uma suave chuva de faíscas douradas dançou em volta da bainha da veste, como se a varinha aprovasse sua aparência de estudante de Hogwarts.
Madame Malkin ergueu uma sobrancelha impressionada.
— Ora, ora… uma varinha nova, hum? Bela madeira. Faia, não é? Vejo que ela já está se acostumando com você. Cuidado para não transformar meus alfinetes em borboletas, querida!
Ela riu baixinho e trouxe uma capa preta com forro vermelho-sangue e um chapéu pontudo tradicional.
— Então, me conte… já sabe em qual casa espera ser selecionada? Ou está ansiosa demais para pensar nisso?
Kahrir girou lentamente na plataforma, sentindo o tecido cair perfeitamente ao redor dela. Com um leve sorriso, respondeu:
— Astúcia, ambição e um pouquinho de orgulho. Isso soa bastante como Sonserina, não acha?
Madame Malkin assentiu, ajustando a capa sobre seus ombros.
— Soa mesmo como a Casa da Serpente. Inteligência prática, determinação para ir longe e lealdade feroz aos seus. O salão comunal fica nas masmorras, com vista para o Lago Negro — frio, misterioso e elegante. Verde-esmeralda e prata. Mas o Chapéu Seletor é quem realmente decide. Ele vê o que há no coração.
Enquanto falava, Madame Malkin trouxe as vestes extras, a capa, o chapéu, o cachecol e as meias, que se dobraram sozinhos e flutuaram até o balcão. O total ficou em doze galeões.
Kahrir pagou calmamente. Antes de sair, seu olhar parou em alguns itens nas prateleiras: um cachecol verde-esmeralda que combinaria lindamente com seus cabelos castanhos ondulados, e um par de luvas finas de couro de dragão, perfeitas para as aulas de voo.
— Acho que vou levar o cachecol e as luvas também — disse ela.
Madame Malkin sorriu, satisfeita. O cachecol se enrolou suavemente ao redor do pescoço de Kahrir, destacando o tom de sua pele e o movimento natural dos cabelos. As luvas deslizaram por seus dedos como se tivessem sido feitas sob medida, aquecendo levemente sem apertar.
— Perfeito. O cachecol é de lã encantada, e as luvas são excelentes para segurar uma vassoura sem escorregar. Vão lhe dar mais controle e conforto.
Com os pacotes agora mais cheios — vestes completas, cachecol verde-esmeralda e luvas de couro de dragão —, Kahrir deixou a loja sentindo-se mais como uma verdadeira estudante.
O Beco Diagonal continuava movimentado. Ela seguiu até a Floreios e Borrões, onde o cheiro de pergaminho novo e tinta fresca enchia o ar. A livraria era um labirinto de prateleiras altas, livros que se moviam sozinhos e pilhas que pareciam vivas. Kahrir preferiu ficar em seu próprio canto, observando tudo com calma sem se aproximar de ninguém. Pegou todos os livros obrigatórios do primeiro ano e, atraída pela curiosidade, escolheu dois extras: Feitiços Avançados para Jovens Bruxos e A Arte da Magia Silenciosa.
No caixa, a bruxa de meia-idade sorriu por cima dos óculos.
— Boas escolhas nos extras. Eles costumam ensinar coisas que não estão na lista oficial.
O total ficou em dezoito galeões e sete sicles. Kahrir pagou e saiu com os braços muito mais cheios do que antes.
Depois de um dia tão intenso, o cheiro doce de chocolate e abóbora a levou até a Sugarplum’s Sweets Shop. Sentada a uma pequena mesa de canto, ela saboreou um sapo de chocolate, com uma carta rara de Merlin dentro, Feijõezinhos de Todos os Sabores Bertie Bott, e uma torta de abóbora quente acompanhada de cerveja amanteigada gelada. Foi um momento de paz, apenas ela e Nyra — ainda sem nome naquela hora — esperando em sua gaiola.
Depois disso, entrou na Empório de Corujas Eeylops. O interior escuro e fresco estava cheio de corujas de todos os tipos. Kahrir caminhou devagar entre as gaiolas até parar diante de uma coruja-real robusta, com penas marrom-escuras, tufos nas orelhas e olhos âmbar profundos. Quando Kahrir a tocou, a coruja permitiu o contato com uma calma digna. Kahrir decidiu na hora.
— Vou levá-la.
A coruja-real foi transferida para uma elegante gaiola de viagem. O preço foi quinze galeões, incluindo gaiola, comida e um manual de cuidados. Ao sair da loja, Kahrir sentiu uma sensação boa se instalar dentro dela: agora tinha uma companheira forte e serena.
Na Amanuensis Quills, escolheu um estojo discreto de couro negro e uma pena prática de coruja-parda. Pagou e guardou tudo com cuidado.
O dia já caminhava para o fim da tarde quando ela parou na Quality Quidditch Supplies. As vassouras flutuavam elegantemente na vitrine, e o vendedor conversou com ela sobre quadribol. Kahrir mencionou o tio Caelan e os voos casuais cheios de manobras. Quando falou da possibilidade de ir para a Sonserina, o vendedor sorriu.
— Planejamento antecipado… isso soa bastante Sonserina.
Ao anoitecer, Kahrir entrou no Caldeirão Furado. O salão era quente, iluminado por velas flutuantes, e cheirava a pão assado e sopa espessa. Pediu uma torta de carne e chá quente, sentou-se perto da lareira e comeu enquanto ouvia discretamente conversas sobre quadribol. Nyra observava tudo com olhos âmbar tranquilos.
Depois do jantar, subiu para o quarto simples, mas confortável. Organizou suas compras, colocou a gaiola de Nyra perto da janela e, antes de dormir, decidiu o nome da coruja.
— Nyra — murmurou.
A coruja-real girou a cabeça devagar e soltou um pio grave, como se aprovasse.
A noite passou em paz.
A luz suave da manhã deslizou pela cortina. Kahrir se vestiu com calma, desceu para um café da manhã simples — pão fresco, manteiga, geleia e chá — e reuniu todos os pacotes. Com a gaiola de Nyra em mãos, deixou o Caldeirão Furado e caminhou até a Estação King’s Cross.
Na plataforma, observou outros estudantes atravessarem a barreira entre as plataformas nove e dez. Respirou fundo, ajeitou os pacotes, segurou firme a gaiola e correu. A sensação foi como atravessar uma cortina fria de ar. Do outro lado estava a Plataforma Nove e Três Quartos, com o Expresso de Hogwarts soltando vapor, majestoso e vermelho.
Kahrir deixou seus malões maiores no compartimento de bagagens e embarcou no trem. Caminhou pelo corredor estreito até encontrar uma cabine vazia. Colocou a gaiola de Nyra no assento ao lado e sentou-se junto à janela.
Ela abriu um dos livros extras — A Arte da Magia Silenciosa — e começou a ler sobre a teoria da magia sem palavras. Enquanto o trem se enchia, observava pela janela as despedidas na plataforma. Um aperto sutil surgiu em seu peito ao imaginar como seria ter seus pais ali, acenando. Aldren e Liora Valmont, desaparecidos durante uma expedição envolvendo magia antiga. Ela havia sido criada pelo tio, Caelan Virel, que a ensinara a voar e incentivara sua curiosidade por livros e magia.
Nyra inclinou a cabeça, como se percebesse o momento. Kahrir aproximou a mão da gaiola, e a coruja tocou suavemente o bico nas barras, soltando um pio baixo e grave — um gesto simples de companhia.
O apito do trem soou. O Expresso de Hogwarts começou a se mover. A plataforma foi ficando para trás, e os campos ingleses surgiram além da janela.
A jornada havia começado.
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