O Expresso de Hogwarts cortava os campos ingleses em um ritmo constante, o som das rodas sobre os trilhos criando uma espécie de música baixa que embalava a viagem. Dentro da cabine, a luz da tarde entrava pela janela, dourada e suave, iluminando o estofado gasto dos assentos. Kahrir mantinha A Arte da Magia Silenciosa aberto no colo, embora seus olhos vez ou outra se perdessem na paisagem que corria lá fora.

Nyra observava tudo de dentro da gaiola com sua calma habitual, virando a cabeça quase completamente para acompanhar uma nuvem ou algum pássaro distante. De vez em quando, soltava um pio curto e grave, como se comentasse aquilo que via.

Kahrir fechou o livro por um momento e se inclinou em direção à gaiola. Ainda havia um leve aperto em seu peito — a lembrança dos pais, Aldren e Liora Valmont, que haviam desaparecido anos antes durante uma expedição envolvendo magia antiga. O tio Caelan fizera tudo o que podia, mas havia momentos em que a ausência deles surgia sem aviso.

Ela estendeu a mão e tocou de leve as barras. Nyra aproximou o bico, roçando-o suavemente contra elas em um gesto simples de companhia. Kahrir sorriu de leve, sentindo o nó afrouxar.

A porta da cabine deslizou com um clique suave. Um garoto de cabelos castanhos levemente bagunçados apareceu na entrada, carregando uma mala pequena. Seus olhos castanho-claros pareciam quase avelã sob o brilho da janela.

— Ah… oi — disse ele, com um sorriso tímido, mas amigável. — Esse lugar está ocupado?

Kahrir o estudou por um instante. Ele não parecia barulhento. Apenas alguém procurando um canto mais tranquilo.

— Pode entrar — respondeu ela com naturalidade. — As outras cabines estão bem barulhentas.

O garoto pareceu aliviado. Colocou a mala no bagageiro e se sentou à frente dela.

— Obrigado. As outras estão cheias e barulhentas demais.

Ele olhou para a gaiola e ergueu as sobrancelhas.

— Uau… ela é enorme. É uma coruja-real?

Nyra girou a cabeça lentamente, examinando o recém-chegado com aqueles olhos âmbar penetrantes, e soltou um pio grave.

O garoto riu baixinho.

— Ela parece estar me julgando. Eu sou Adrian Rowle.

Kahrir estendeu a mão e apertou a dele.

— Kahrir Valmont. E essa é Nyra.

Ao ouvir o próprio nome, Nyra inclinou a cabeça como se aprovasse. Adrian sorriu, relaxando um pouco.

— Prazer, Kahrir. E prazer, Nyra.

A conversa começou devagar, mas logo encontrou um ritmo fácil. Adrian era espontâneo, usando um humor leve para preencher os silêncios. Contou que morava em Londres com os pais e que estava nervoso com a Seleção, embora tentasse não demonstrar. Kahrir ouviu mais do que falou no início, mas respondeu com sinceridade sempre que ele perguntava sobre suas compras ou sobre Nyra.

Em certo momento, Adrian abriu a mochila e tirou uma caixa colorida de Feijõezinhos de Todos os Sabores Bertie Bott.

— Quer experimentar um? — ofereceu, com um sorriso de canto. — Mas cuidado… alguns são bem estranhos.

Kahrir aceitou, pegando um feijão verde-escuro. Mordeu com cuidado. O sabor explodiu em sua boca — menta fresca, quase refrescante demais.

— Menta — disse ela, aliviada. — Sorte até agora.

Adrian riu e pegou um vermelho vivo. Seu rosto se contorceu quase imediatamente.

— Argh… molho de tomate estragado. Por que eu sempre pego esses?

Eles continuaram experimentando, rindo toda vez que um sabor terrível aparecia. Kahrir pegou um bege-claro e fez uma careta sutil.

— Terra molhada… ou algo pior.

Adrian quase engasgou de rir.

— Você tem cara de quem está tentando ser educada enquanto sofre.

Depois disso, a conversa ficou mais natural. Kahrir contou um pouco sobre o tio Caelan e os voos casuais de vassoura cheios de manobras. Adrian ouviu com interesse, dizendo que também gostava de quadribol, embora nunca tivesse jogado de verdade. Falou sobre os pais, que trabalhavam no Ministério, e admitiu que esperava ser selecionado para uma casa onde pudesse fazer amigos sem tanta pressão.

Enquanto o trem balançava suavemente, um pensamento quieto surgiu na mente de Kahrir.

Seria bom conhecer alguém na mesma casa, pensou. Alguém com quem já tivesse conversado, alguém com quem já tivesse rido por causa de doces horríveis. Não era que tivesse medo de ficar sozinha — ela gostava de observar antes de se aproximar —, mas seria mais fácil ter ao menos um rosto familiar no meio de tanta novidade.

Ela não disse isso em voz alta, mas o desejo permaneceu ali, discreto e silencioso, enquanto observava Adrian rir de outro feijão ruim.

As horas passaram. O céu mudou lentamente de cor até que o trem começou a perder velocidade. A paisagem do lado de fora se transformara em montanhas distantes, um lago negro como tinta e, finalmente, as torres e torreões de Hogwarts surgindo contra o céu do entardecer.

Quando o Expresso parou na pequena estação de Hogsmeade, o ar frio da noite atravessou os vagões. Alunos mais velhos gritavam instruções, e uma voz grave e familiar ecoou pela plataforma.

— Alunos do primeiro ano! Por aqui! Todos os alunos do primeiro ano me sigam!

Kahrir pegou a gaiola de Nyra, ajustou a bolsa no ombro e desceu com Adrian ao lado. A plataforma era iluminada por lanternas flutuantes. Hagrid, o gigante barbudo, acenava com uma lanterna enorme.

— Primeiro ano! Venham comigo! Cuidado com a água!

Eles seguiram Hagrid por uma trilha íngreme até a beira do lago. Pequenos barcos esperavam ali, balançando suavemente. Kahrir entrou em um deles com Adrian e mais três alunos. Nyra permaneceu quieta, observando a superfície escura.

Os barcos deslizaram sozinhos pela água. Hogwarts apareceu majestosa à frente, iluminada por milhares de janelas, suas torres refletidas no lago. Kahrir sentiu o coração acelerar — não exatamente de medo, mas de uma empolgação contida misturada à curiosidade.

Os barcos chegaram à margem. Hagrid os conduziu por uma passagem subterrânea até uma grande porta de carvalho. Lá dentro, o calor do castelo os envolveu. Subiram uma escadaria de pedra e pararam diante de portas duplas, onde a Professora McGonagall os aguardava, austera em suas vestes verde-esmeralda.

— Bem-vindos a Hogwarts — disse ela, a voz clara. — Em instantes, vocês serão selecionados para suas casas. Enquanto aguardam, por favor, mantenham silêncio.

Kahrir ficou ao lado de Adrian, sentindo o peso da varinha dentro da bolsa e o olhar calmo de Nyra por perto. O murmúrio nervoso dos outros alunos preenchia o espaço, mas ela preferia observar: as paredes antigas, os retratos que se moviam, o ar carregado de expectativa.

As portas se abriram.

O Salão Principal se revelou em toda a sua grandiosidade — quatro longas mesas, velas flutuando acima delas e um teto encantado exibindo um céu estrelado. Os alunos mais velhos observavam os recém-chegados com curiosidade.

Kahrir respirou fundo quando McGonagall colocou o Chapéu Seletor sobre um banquinho. O velho chapéu começou a cantar, sua voz rouca ecoando pelo salão.

Quando a música terminou, os nomes começaram a ser chamados.

— Valmont, Kahrir!

Ela sentiu um frio na barriga, mas caminhou com passos firmes até o banquinho. Sentou-se. O Chapéu foi colocado sobre sua cabeça.

Uma voz antiga falou diretamente em sua mente.

— Hmm… interessante. Curiosidade profunda, mente aberta, determinação inflexível… astúcia e ambição claras. Mas também uma lealdade silenciosa e uma boa dose de coragem quieta. Onde colocá-la…

Kahrir esperou, o coração batendo forte.

— Ah, sim… você irá longe. Melhor em… SONSERINA!

A mesa verde e prata explodiu em aplausos. Kahrir tirou o Chapéu, um leve sorriso surgindo no canto de seus lábios. Caminhou até a mesa da Sonserina e se sentou.

Pouco depois, Adrian foi chamado. Quando o Chapéu gritou “SONSERINA!”, Kahrir sentiu um alívio discreto e genuíno. Ele veio se sentar ao lado dela com um sorriso aliviado.

— Que bom que não vou ter que descobrir tudo sozinho — murmurou ele, baixo o bastante para só ela ouvir.

Kahrir respondeu com um meio sorriso.

— É… seria bom conhecer alguém.

A Seleção continuou. Mason, um garoto loiro de cabelos acinzentados e postura mais contida, foi chamado e também acabou na Sonserina. Ele se sentou do outro lado da mesa, dando aos dois um pequeno aceno discreto.

O banquete começou. Pratos surgiram magicamente, cheios de comida quente. Kahrir serviu-se de torta de carne, purê de batatas e suco de abóbora, sentindo o cansaço do dia se transformar em uma satisfação tranquila.

Enquanto comia, observava o salão: as conversas animadas, os fantasmas flutuando, os professores à mesa principal. Adrian já conversava com alguns novos alunos da casa, usando seu humor fácil. Mason comia em silêncio, mas olhava ao redor com atenção cuidadosa.

Kahrir pensou em Nyra, em algum lugar lá em cima no corujal, e sorriu de leve. Tinha sua varinha, seus livros, sua coruja e agora uma casa.

Sonserina.

Astúcia. Ambição. Determinação.

Parecia combinar.

Mas, no fundo, ela sabia que a verdadeira aventura — com todos os seus mistérios — mal havia começado.