A manhã seguinte começou com uma luz suave atravessando as janelas subaquáticas do dormitório das meninas do primeiro ano da Sonserina. O verde pálido do lago se espalhava pelo quarto, dando às paredes de pedra uma tonalidade quase viva, enquanto vozes baixas e o som gentil de baús sendo fechados já ecoavam pelo espaço. O castelo estava acordando.

Kahrir se levantou devagar, ainda carregando aquela mistura de empolgação e curiosidade que não a deixara desde a Seleção. Abriu o baú e tirou a veste preta recém-ajustada, com o brasão da Sonserina costurado sobre o peito — uma serpente prateada sobre um campo verde-escuro. O tecido caía bem em seu corpo, elegante e discreto, exatamente do jeito que ela gostava. Com um movimento natural, pegou a varinha de faia e a deslizou para o bolso interno da veste. O peso leve ali trouxe uma sensação imediata de segurança, como se ela se sentisse mais completa com a varinha por perto.

Antes de sair, foi até uma das janelas. Lá fora, o dia estava nublado. O céu cinzento cobria o castelo e o lago, e uma brisa fraca agitava a superfície da água. Não fazia um frio congelante, mas certamente era frio o bastante para ser desagradável. Kahrir não hesitou. Pegou o cachecol verde-esmeralda e o enrolou ao redor do pescoço. O tecido macio aqueceu de imediato, confortável sem parecer pesado.

Quando ficou pronta, deixou o dormitório e desceu para o salão comunal. Alguns alunos já estavam ali, enquanto outros saíam em direção ao café da manhã. Hogwarts pela manhã parecia diferente — mais viva, cheia de ecos de passos, vozes e do início de uma rotina. No caminho até o Salão Principal, Kahrir notou alunos com horários nas mãos, discutindo sobre para onde deveriam ir em seguida.

Quando entrou no Salão Principal, o café da manhã já estava servido. Pães quentes, frutas, ovos, suco e chá cobriam as mesas. Adrian já estava ali, sentado à mesa da Sonserina, franzindo levemente a testa para um pedaço de pergaminho.

Ao ver Kahrir, ele ergueu uma das mãos em um pequeno cumprimento.

— Bom dia.

O olhar dele passou rapidamente pelo cachecol dela.

— Boa escolha. Está meio frio hoje.

Então ergueu o pergaminho.

— Acabei de receber isto. Nosso horário.

Ele inclinou o papel na direção dela.

— Parece que nossa primeira aula é Poções.

Adrian abriu um sorriso torto.

— Direto para algo potencialmente explosivo.

Kahrir se aproximou da mesa e olhou o pergaminho nas mãos dele.

— Ah, maravilhoso… Na verdade, estou curiosa sobre Poções. Diz o que vamos fazer hoje ou isso também é um mistério? E nós vamos tomar café antes da aula, certo?

Adrian sorriu de leve.

— Infelizmente… mistério.

Ele bateu levemente no pergaminho.

— Só mostra o horário e a sala. Nada como “hoje vocês não explodirão um caldeirão”, o que eu pessoalmente acho uma falha séria no sistema.

Ele puxou um prato para perto.

— Mas sim, definitivamente vamos comer antes. Eu não confio em Poções de estômago vazio.

Kahrir serviu-se de pão quente, ovos, algumas frutas e chá. Adrian a observou pelo canto dos olhos.

— Vejo que o plano alimentar continua consistente.

O Salão Principal estava cheio de energia agora; o primeiro dia oficial havia começado. Alunos comparavam horários, enquanto outros tentavam descobrir onde ficavam as salas. Depois de alguns minutos comendo, Adrian pegou o pergaminho outra vez.

— Poções… masmorras.

Ele olhou ao redor.

— O que, honestamente, combina com a Sonserina.

Levantou-se.

— É melhor irmos devagar antes de nos perdermos logo no primeiro dia.

Vários alunos mais velhos já saíam em grupos, claramente familiarizados com o caminho. Adrian olhou para Kahrir.

— Vamos?

Kahrir se levantou e seguiu Adrian para fora do Salão Principal, juntando-se ao fluxo de alunos que se movia pelos corredores. O castelo estava completamente vivo agora. Passos ecoavam contra as paredes de pedra, vozes se cruzavam em diferentes direções, e alunos mais velhos passavam com a confiança de quem já sabia para onde estava indo.

Eles chegaram a uma escadaria larga. No instante em que Kahrir colocou o pé no primeiro degrau, a escada começou a se mover. Os degraus deslizaram lentamente, conectando-se a outro corredor.

Kahrir observou aquilo acontecer e disse:

— Acho que vou demorar um pouco para me acostumar com escadas que se mexem.

Adrian soltou uma risada baixa.

— Acho que vou demorar um pouco para confiar nelas.

Ele olhou para os degraus com uma expressão levemente desconfiada.

— Meu irmão disse que às vezes elas se movem enquanto você ainda está nelas.

Fez uma pausa.

— Espero que ele estivesse exagerando.

A escadaria terminou de se mover com um clique suave, e eles seguiram em frente. Mais alguns corredores, outra escada — esta, misericordiosamente parada —, e a atmosfera começou a mudar. A luz ficou mais fraca, as paredes mais frias, o ar mais úmido.

Estavam descendo.

As masmorras.

Adrian olhou ao redor.

— Certo… agora isso parece Poções.

Alunos de outras casas também chegavam, formando pequenos grupos diante de uma porta escura de madeira. Um leve cheiro de ervas, metal e algo mais difícil de identificar pairava no ar. A porta se abriu.

Um professor de aparência severa, vestido com roupas negras e um olhar penetrante, observava os alunos a partir da entrada.

Severus Snape.

— Entrem.

A voz dele era baixa, mas firme.

Os alunos entraram em silêncio. A sala era fria, com mesas de pedra, caldeirões já posicionados e prateleiras cheias de frascos de ingredientes. Snape fechou a porta atrás deles, e o som ecoou pela câmara. Ele observou a turma por vários segundos.

— Vocês estão aqui para aprender a ciência sutil e a arte exata do preparo de poções.

A voz dele preencheu a sala.

Adrian lançou a Kahrir um olhar rápido, como se dissesse que as coisas haviam ficado sérias depressa.

Snape continuou.

— Aqui há pouco espaço para o tolo agitar de varinhas.

A sala ficou completamente imóvel.

— E muitos de vocês mal compreenderão a beleza daquilo que irei ensinar.

Ele começou a caminhar entre as mesas.

— No entanto… para aqueles com a mente adequada… posso ensiná-los a engarrafar fama, destilar glória… e até mesmo pôr um tampão na morte.

A sala permaneceu em absoluto silêncio. Snape parou e olhou diretamente para a turma.

— Abram seus livros.

A primeira aula deles havia começado.

As mesas estavam organizadas em duplas, com um caldeirão compartilhado no centro de cada bancada de pedra. Sem precisarem dizer nada, Kahrir e Adrian acabaram juntos, quase naturalmente, depois de terem passado toda a viagem lado a lado. Kahrir se sentou, abriu o livro com cuidado e organizou seu espaço: livro aberto, pergaminho alinhado, pena de coruja-parda pronta para escrever. A pena deslizou suavemente enquanto ela fazia suas primeiras anotações, precisas e limpas, exatamente como a vendedora prometera.

Adrian se acomodou ao lado dela, ainda absorvendo a sala.

— Certo… isso é muito mais sério do que eu imaginava.

À frente, Snape começou a escrever no quadro com movimentos rápidos.

Poção Simples para Cura de Furúnculos

Virou-se imediatamente.

— Copiem.

Kahrir começou a tomar notas. A receita envolvia ingredientes básicos, mas exigia uma ordem precisa: urtigas secas, presas de cobra esmagadas, espinhos de porco-espinho e uma base líquida devidamente aquecida.

Snape continuou.

— Um erro na ordem… ou na quantidade…

Olhou diretamente para a turma.

— E o resultado será… desagradável.

Alguns alunos ficaram visivelmente tensos. Adrian inclinou-se um pouco na direção de Kahrir.

— “Desagradável” parece uma palavra leve demais.

Snape começou a circular pela sala.

— Comecem.

O som dos caldeirões sendo preparados preencheu a masmorra. Kahrir e Adrian trocaram um olhar rápido; nenhum dos dois precisou dizer em voz alta que queria acertar. Eram sonserinos. Queriam ir bem.

Kahrir assumiu o controle do caldeirão, mexendo com cuidado, controlando o ritmo e a temperatura com atenção quase meticulosa. Adrian cuidava dos ingredientes, verificando a ordem, separando as quantidades e olhando repetidamente para o quadro para garantir que nada saísse errado. Era um trabalho silencioso e sério. Sem pressa. Sem movimentos desnecessários. Se fossem fazer aquilo, fariam direito.

Ao redor deles, outras duplas já produziam resultados questionáveis. Um caldeirão ao fundo soltou uma fumaça esverdeada. Em outra mesa, alguém claramente havia adicionado um ingrediente cedo demais e agora tentava esconder o cheiro forte que subia da mistura.

Mas, na mesa deles, a poção começava a tomar forma corretamente. O líquido adquiriu a consistência adequada: espesso o bastante para não parecer aguado, liso o bastante para não empelotar. A cor mudou gradualmente para um tom aceitável, e pequenas bolhas regulares se formaram na superfície, exatamente como o livro descrevia.

Adrian manteve a voz baixa.

— Urtigas dentro. Presas esmagadas… agora.

Kahrir as adicionou no momento certo e continuou mexendo.

— Mais duas voltas — murmurou Adrian, olhando a receita. — Depois os espinhos, mas só quando esfriar um pouco.

Kahrir esperou. Contou mentalmente. Então fez o movimento.

Os espinhos caíram no líquido com um som discreto, e por um segundo os dois encararam o caldeirão, tensos, como se esperassem que ele explodisse apenas por ofensa pessoal.

Ele não explodiu.

A poção soltou uma pequena espiral de vapor claro e se assentou.

Adrian soltou o ar devagar.

— Certo… isso parece promissor.

Snape passou entre as mesas como uma sombra escura, observando o trabalho de todos com um olhar que parecia capaz de encontrar defeito até na respiração de alguém. Parou ao lado da mesa de Kahrir e Adrian, e o ar ao redor deles pareceu se apertar imediatamente. Os dois mantiveram a postura, sem se apressar nem se atrapalhar.

Snape estudou o caldeirão. Depois os ingredientes já usados, a bancada organizada, as notas de Kahrir e a precisão com que Adrian mantivera as porções separadas.

Por um segundo, não disse nada.

Então:

— Ao menos alguns estudantes nesta sala entendem que poções não são feitas com entusiasmo cego e mãos inúteis.

A voz permaneceu seca, mas, vinda dele, soou quase como elogio.

Ele se afastou.

Adrian esperou até Snape estar longe o suficiente antes de murmurar, sem olhar para Kahrir:

— Acho que essa foi a versão dele de “muito bem”.

Na mesa ao lado, um aluno jogou uma quantidade grande demais de um ingrediente, e o caldeirão fez um barulho horrível.

Adrian ergueu uma sobrancelha.

— E acho que essa foi a versão do universo de “nem tanto”.

A aula continuou por mais vários minutos, até Snape ordenar que todos parassem. Ele percorreu a sala, avaliando os resultados finais. Quando chegou à mesa deles de novo, olhou a poção terminada, tanto a cor quanto a textura adequadas.

— Aceitável — disse.

Então seguiu adiante.

Adrian ficou em silêncio por um segundo.

Depois murmurou:

— Vou contar isso como vitória.

A primeira aula terminou com a sala presa entre o alívio e o rescaldo da tensão. Alguns alunos pareciam traumatizados. Outros, orgulhosos. Kahrir e Adrian, pelo menos, saíram com a sensação de que haviam começado bem.

No corredor frio fora das masmorras, os alunos começaram a se dispersar em direção às próximas aulas. Adrian olhou para Kahrir enquanto ajustava os materiais.

— Então… sobrevivemos ao Snape no primeiro dia. Honestamente, é um excelente começo.

Ele ergueu o horário.

— A próxima é Feitiços.

Kahrir ajustou o cachecol enquanto caminhavam.

— Vou dizer uma coisa… Snape pode ser duro, mas acho que ele é honesto. Qualquer erro em uma poção pode acabar causando uma explosão e machucando alguém. Ele tem motivo para ser sério.

Adrian olhou para ela por um segundo, surpreso — não pela lógica, mas pela calma com que ela chegara à conclusão logo no primeiro dia.

— …certo. Isso foi mais racional do que eu esperava depois daquela aula.

Ele sorriu de leve.

— Mas faz sentido.

Eles continuaram andando, subindo as escadas e deixando para trás o ar úmido das masmorras. À frente, uma sala de portas abertas e grandes janelas deixava entrar uma quantidade generosa de luz. Ao contrário das masmorras frias e úmidas, a atmosfera ali parecia mais leve, com carteiras bem organizadas e espaço aberto. Um professor baixinho, de vestes coloridas e expressão animada, já estava dentro, organizando alguns objetos.

Professor Filius Flitwick.

— Ah! Alunos! Entrem, entrem!

A voz dele era leve, quase musical.

Kahrir e Adrian entraram. A sala de Feitiços era completamente diferente da de Poções: mais clara, menos tensa, com objetos mágicos espalhados e penas e livros posicionados sobre as carteiras. Flitwick bateu palmas, animado.

— Hoje começaremos com uma das bases mais importantes da magia!

Adrian se sentou ao lado de Kahrir.

— Certo… isso parece menos ameaçador.

Flitwick continuou.

— Levitação!

Ele ergueu a varinha.

— O feitiço: Wingardium Leviosa!

Várias penas flutuaram gentilmente no ar, demonstrando o efeito. Adrian observou, interessado.

— Certo… isso parece útil.

Olhou para Kahrir.

— Muito menor chance de explosão.

Flitwick começou a explicar o movimento correto da varinha e a pronúncia.

— Lembrem-se! É LeviOsa, não LeviosA!

Alguns alunos já começavam a tentar. Kahrir tinha uma pena sobre a carteira diante dela. Sua varinha repousava no bolso interno da veste.

Seu primeiro feitiço.

Ela pegou a varinha com calma. O simples ato de segurá-la trouxe de volta aquela sensação familiar — o calor leve subindo pelo braço, a conexão firme, quase consciente. Olhou para a pena sobre a mesa, respirou fundo e se concentrou.

Um pensamento passou por sua mente.

Uma varinha como a dela responderia bem a algo tão básico?

A resposta não veio em palavras, mas em sensação. A varinha não rejeitava o feitiço. Também não parecia particularmente empolgada. Era quase como se dissesse: simples, sim, mas faça direito.

Kahrir fez o movimento com precisão, exatamente como Flitwick havia mostrado.

— Wingardium Leviosa.

Por um segundo, nada aconteceu. Então a pena subiu. Não de forma brusca, nem trêmula, mas com controle extraordinário, como se estivesse suspensa por um fio invisível perfeitamente alinhado. Não tremia. Não desviava. Flutuava no ar com uma elegância incomum para uma aluna do primeiro ano.

Adrian parou de tentar o próprio feitiço por um momento e encarou.

— Certo…

Ele olhou mais de perto.

— Isso foi… limpo.

Na mesa ao lado, uma pena tremia como se estivesse passando por uma crise existencial. Em outra, uma garota havia acabado de lançar a sua diretamente no rosto do parceiro. Mas a pena de Kahrir permanecia estável, precisa, controlada.

Professor Flitwick passou por perto e percebeu. Parou, estudou a pena no ar e então olhou para Kahrir.

— Muito bem!

A voz dele estava genuinamente satisfeita.

— Excelente controle para uma aluna do primeiro ano!

Apontou com a varinha.

— Continue!

E seguiu para outra mesa.

Adrian olhou para Kahrir com um meio sorriso.

— Certo… então a resposta é sim.

Olhou de volta para a pena.

— Sua varinha não apenas faz. Ela faz melhor do que o necessário.

Ele pegou a própria varinha.

— Agora estou levemente sob pressão.

Kahrir, por sua vez, conseguia sentir algo interessante. A varinha respondera bem não porque o feitiço era simples, mas porque ela o lançara com precisão e intenção clara. Aquele tipo de varinha não queria espetáculo vazio. Queria controle. E Kahrir havia lhe dado isso.

A pena ainda flutuava no ar, perfeitamente estável. Kahrir manteve a varinha erguida, o foco firme. Começou a testar um controle mais fino: um pequeno movimento para a esquerda, e a pena deslizou suavemente. Depois para a direita, sem oscilar, sem cair. Reduziu o movimento ainda mais, quase imperceptivelmente, e a pena respondeu com precisão minuciosa, como se estivesse ligada diretamente ao pensamento dela.

Enquanto testava, disse naturalmente a Adrian:

— Na verdade, pensando bem… é simples. Você só está levantando a pena. Tente não pensar demais. Acho que o nervosismo é o que causa os acidentes.

Adrian observou a pena dela se mover com um nível de controle quase elegante demais para um primeiro dia.

Ele respirou fundo.

— Certo… não pensar demais. Fácil falar.

Ergueu a varinha, fez o movimento e disse:

— Wingardium Leviosa.

A pena dele tremeu, subiu cerca de um centímetro, parou e caiu.

Ele fechou os olhos por um segundo.

— Certo. Claramente pensei demais.

Kahrir continuou controlando a própria pena, agora guiando-a em um pequeno círculo sem perder estabilidade. Adrian observou de novo.

— Como você faz isso parecer tão… natural?

Tentou mais uma vez. Dessa vez, respirou e deixou um pouco da tensão sair dos ombros.

— Wingardium Leviosa.

A pena subiu. Não tão suavemente quanto a de Kahrir, mas subiu, e permaneceu no ar.

Adrian sorriu de leve.

— Certo… funcionou.

A pena dele oscilava um pouco, mas não caiu. Ele olhou para Kahrir.

— Acho que você estava certa.

À frente da sala, Professor Flitwick observava os alunos com satisfação geral, embora vários claramente estivessem travando pequenas guerras pessoais contra penas rebeldes. A aula continuou com tentativas, ajustes e pequenas vitórias.

Kahrir ainda sentia aquela conexão firme com a varinha — não explosiva, não exagerada, mas precisa. Controlada. Exatamente como ela parecia preferir.

Depois de mais alguns minutos, Flitwick bateu palmas.

— Muito bem, turma! Um excelente começo!

Alguns alunos suspiraram de alívio. Adrian abaixou a varinha.

— Certo… duas aulas e nenhuma explosão.

Olhou para Kahrir.

— Estamos indo bem.

Os alunos começaram a guardar as coisas. Outra aula viria em breve. Kahrir abaixou a varinha com calma e a colocou de volta na veste.

— O que temos agora?

Adrian tirou o horário novamente e o desdobrou, passando o dedo pelas linhas.

— Certo…

Leu rapidamente.

— Transfiguração.

Olhou para Kahrir.

— Com a Professora Minerva McGonagall.

Adrian fez uma pequena careta pensativa.

— Meu irmão disse que ela é… exigente.

Dobrou o pergaminho.

— Do tipo que, se você errar, ela não vai gritar como Snape.

Abriu um meio sorriso.

— Mas você vai desejar não ter errado.

Alguns alunos já saíam da sala, conversando pelo caminho.

— Ouvi dizer que ela transforma objetos na frente da turma…

— Ouvi dizer que ela consegue se transformar em animal…

Adrian se levantou.

— Pelo menos não envolve caldeirões.

Olhou para Kahrir.

— Ou envolve…?

Ele claramente não tinha certeza.

O corredor estava movimentado outra vez, alunos se deslocando para as próximas aulas. O castelo continuava vivo ao redor deles, com seu fluxo constante de movimento e descoberta. Adrian ajustou a bolsa.

— Vamos?

Kahrir caminhou ao lado dele pelos corredores, ainda carregando na mente o ritmo da aula anterior.

— Acho que não envolve caldeirões… a menos que a gente tenha que transformar caldeirões em alguma coisa, ou animais em caldeirões, não sei. Confesso que estou um pouco hesitante com essa. Tenho medo de fazer algo errado.

Adrian soltou uma risada baixa.

— Certo, transformar animais em caldeirões seria… uma escolha pedagógica interessante.

Pensou por um segundo.

— Mas acho que você não precisa se preocupar tanto.

Eles subiram outra escada — felizmente, esta não se moveu — e entraram em um corredor amplo, com janelas altas deixando a luz entrar.

— Você acabou de fazer uma pena parecer obediente como um soldado — continuou ele. — Acho que vai sobreviver à Transfiguração.

Deu-lhe um meio sorriso.

— Eu é que estou preocupado em transformar meu fósforo em algo completamente errado.

Alunos passavam apressados por eles.

— A sala é por aqui!

Adrian olhou para a porta à frente.

— Deve ser essa.

Eles entraram. A sala era organizada, silenciosa e muito mais formal. As carteiras estavam perfeitamente alinhadas, sem bagunça, sem objetos aleatórios, nada fora do lugar. Tudo parecia exato.

À frente da sala, uma elegante gata cinzenta estava sentada sobre a mesa da professora, perfeitamente imóvel, observando os alunos entrarem.

Adrian franziu a testa.

— …uma gata vai dar essa aula?

A gata saltou da mesa, e, no meio do ar, sua forma felina se alongou e cresceu, transformando-se em um movimento suave em uma mulher alta, de postura impecável.

Professora Minerva McGonagall.

A sala inteira ficou imóvel.

Adrian piscou algumas vezes.

— Certo… retiro meu comentário sobre isso não ser intimidador.

McGonagall olhou a turma com firmeza.

— Transfiguração é uma das formas de magia mais complexas e perigosas que vocês aprenderão em Hogwarts.

Ela começou a caminhar entre as carteiras.

— Qualquer erro pode resultar em consequências… indesejáveis.

Adrian murmurou muito baixo:

— Excelente. Isso ajuda enormemente minha confiança.

McGonagall parou.

— Hoje começaremos com algo simples.

Tocou a mesa com a varinha, e um fósforo apareceu.

— Transformar um fósforo em uma agulha.

Olhou para a turma.

— Forma, estrutura e intenção.

Fez o movimento, e o fósforo se transformou em uma agulha fina e perfeita.

— Comecem.

Kahrir pegou a varinha com calma, olhando para o fósforo sobre sua carteira.

— Acho que precisamos imaginar o formato da agulha enquanto lançamos o feitiço — disse baixo a Adrian. — Evitar deixar a mente vagar demais.

Adrian olhou do próprio fósforo para o dela.

— Certo… foco. Forma. Nada de… criatividade acidental.

Kahrir estudou o objeto. Um fósforo simples. Curto. Rígido. Fechou os olhos por um segundo, organizando a ideia em sua mente: fino, alongado, metálico, uma ponta precisa. Nada além disso. Sem exagero. Sem distração.

Fez o movimento com a varinha.

— Transfiguro.

Por um momento, nada aconteceu. Então o fósforo começou a mudar. A madeira se esticou lentamente, a cor passando para um tom prateado, a forma afinando. Não foi uma transformação explosiva; foi gradual, como se o objeto estivesse sendo convencido a mudar.

Ao final, lá estava: uma agulha. Não perfeita como a da professora, mas claramente uma agulha. Fina, funcional, ligeiramente irregular na ponta.

Adrian encarou.

— Certo…

Ergueu uma sobrancelha.

— Isso definitivamente não é mais um fósforo.

Olhou para o próprio e respirou fundo.

— Forma. Nada de vagar.

Tentou. Seu fósforo entortou, afinou apenas de um lado, e a ponta ficou arredondada demais.

Ele olhou para o resultado.

— Isso parece uma agulha que desistiu no meio do caminho.

Kahrir pegou a própria agulha com cuidado. Aquilo era diferente do feitiço de levitação. Sua varinha respondera, mas exigira mais dela — mais clareza, mais intenção, mais disciplina mental.

Professora McGonagall passou entre as carteiras e parou ao lado de Kahrir. Observou a agulha, depois olhou para ela.

— Um começo adequado.

A voz era firme, mas não fria.

— Trabalhe na precisão da ponta. A forma deve ser impecável.

Seguiu para a próxima mesa.

Adrian olhou para Kahrir.

— “Adequado” vindo dela soa… excelente.

Na mesa ao lado, alguém havia acabado de transformar o fósforo em algo parecido com um pequeno pedaço de borracha pulsante.

Adrian evitou olhar diretamente.

— Certo. Estamos definitivamente acima da média.

A aula continuou com tentativas, erros e pequenas melhorias. McGonagall se movia pela sala, corrigindo postura, ajustando movimentos de varinha e lembrando a todos da importância da visualização clara. Kahrir sentia que aquela magia exigia algo diferente da levitação. Não se tratava apenas de controle. Era sobre visualizar e impor forma com precisão.

Depois de mais vários minutos de prática, McGonagall chamou a atenção da turma.

— Guardem seus materiais. Amanhã continuaremos o mesmo exercício. Espero progresso.

Os alunos começaram a parar. Alguns suspiraram de alívio; outros examinavam os resultados com frustração ou orgulho. Adrian guardou a varinha e olhou para Kahrir.

— Duas aulas seguidas indo bem…

Cruzou os braços.

— Estou começando a achar isso suspeito.

Kahrir abaixou a varinha com calma e a colocou de volta na veste.

— Sim, bem… já consigo ver algo incrivelmente idiota acontecendo. Estamos indo bem demais.

Adrian soltou uma risada baixa, quase aliviada.

— Exatamente.

Balançou a cabeça.

— Isso tem “calmaria antes do desastre” escrito por toda parte.

Nesse exato momento, um pequeno estalo veio do fundo da sala. Um aluno soltou um “ah—!” quando seu objeto se transformou em algo completamente diferente do pretendido, liberando uma fumaça fraca e cheiro de queimado.

Adrian fechou os olhos por um segundo.

— Viu? O universo já começou a nos cobrar.

Professora McGonagall virou-se lentamente para o barulho. A sala ficou em silêncio imediato. Ela resolveu a situação com um movimento preciso da varinha e continuou como se nada tivesse acontecido.

Adrian inclinou levemente a cabeça na direção de Kahrir.

— Certo… anotado: não ser essa pessoa.

A aula terminou pouco depois, e os alunos começaram a deixar a sala, alguns aliviados, outros ainda discutindo seus resultados. No corredor, o movimento voltou ao normal. Adrian pegou o horário novamente.

— Certo…

Passou o dedo pela página.

— Próxima aula… Herbologia.

Olhou para Kahrir enquanto ajustava a bolsa no ombro.

— Vamos? Antes que as escadas decidam nos levar para o outro lado do castelo.

Enquanto caminhavam, Kahrir ajustou o cachecol verde-esmeralda ao redor do pescoço, sentindo o tecido macio aquecer suavemente contra a pele.

— Vamos descobrir se são só plantas… ou plantas que tentam te morder — disse, levemente divertida.

Adrian riu baixo.

— Pelo menos deve ter luz natural desta vez. Depois das masmorras, qualquer coisa com sol é luxo.

O castelo continuava movimentado, mas o fluxo de alunos agora seguia em direção às grandes portas que levavam para fora. Kahrir caminhava ao lado dele, observando o movimento ao redor.

— Ainda nem vimos direito o lado de fora, não é? O dia parece bom. Acho que vai ser legal. Além disso, você já encontrou seu irmão? Nossos horários devem ser completamente diferentes.

Assim que atravessaram as portas, o ar fresco os envolveu. O céu ainda estava nublado, mas claro, e uma brisa leve trazia o cheiro de grama úmida e terra. Os terrenos se abriram diante deles, amplos e bem cuidados, com caminhos de pedra levando às estufas de vidro reluzente à frente.

Adrian respirou fundo, claramente aliviado.

— Certo… isso compensa totalmente as masmorras. Muito melhor.

Enquanto seguiam pelo caminho, respondeu:

— Ainda não vi ele hoje. Mas sim, os horários são diferentes. Ele está em aulas mais avançadas agora. Acho que vamos nos encontrar mais no salão ou nos corredores.

As estufas surgiam à frente: grandes estruturas de vidro e metal, com as paredes levemente embaçadas pela umidade interna. Uma professora de rosto gentil, mãos calejadas e postura firme organizava os alunos do lado de fora.

— Vamos, vamos! Primeiro ano por aqui! — chamou a Professora Pomona Sprout.

Adrian inclinou a cabeça.

— Certo… hora das plantas potencialmente perigosas.

Quando entraram na estufa, o ar mudou imediatamente. Era mais quente, úmido e pesado com o cheiro forte de terra fértil, folhas e algo levemente adocicado. Plantas de todos os tipos ocupavam as longas mesas de trabalho — algumas tremiam suavemente, outras soltavam pequenos vapores coloridos, e algumas pareciam observar os alunos com interesse.

Kahrir parou diante de uma bandeja de pequenas plantas com folhas arredondadas e macias. Assim que se aproximou, as folhas se moveram de leve, como se reagissem à presença dela.

Com cuidado, estendeu a mão e tocou uma delas. A textura era inesperada: macia, quase aveludada, mas com uma leve elasticidade, como se tivesse vida própria. Ao toque, as folhas se inclinaram gentilmente em direção aos dedos dela. Não era agressivo. Parecia… curioso.

Professora Sprout passou por perto e observou com aprovação.

— Muito bem. Estas são Folhas Sensíveis jovens. Reagem ao toque, mas são completamente seguras. O objetivo de hoje é aprender a identificar comportamento e resposta. Nem toda planta mágica é perigosa, mas toda planta mágica deve ser tratada com atenção.

Kahrir percebeu o padrão rapidamente. Quando o toque era leve e gradual, a planta respondia de forma aberta e calma. Quando pressionada rápido ou com força demais, as folhas recuavam levemente. Ao lado dela, Adrian tentou tocar a própria planta de maneira mais rápida. As folhas se fecharam quase imediatamente.

— Certo… acho que fui grosso — murmurou ele, fazendo uma careta.

Kahrir sorriu de leve e se inclinou um pouco em direção à planta dele.

— Tente de novo, mas mais devagar. Não vá direto. Deixe ela perceber você primeiro.

Ela demonstrou, aproximando a mão sem tocar de imediato. Adrian observou, respirou fundo e repetiu o gesto com mais calma. Dessa vez, as folhas hesitaram, mas não se fecharam. Quando finalmente as tocou, a planta permaneceu mais aberta.

— Funcionou… — disse ele, surpreso. — É como se ela precisasse de tempo para reagir.

Professora Sprout passou novamente e viu o progresso.

— Excelente trabalho em dupla. Aprender a observar é tão importante quanto agir.

Mais tarde, quando Sprout pediu que escrevessem suas observações, Kahrir pegou o pergaminho e a pena de coruja-parda. Escreveu com precisão:

Reação ao toque leve: abertura e inclinação positiva

Retração sob pressão mais forte ou brusca

Comportamento adaptativo dependendo da abordagem

Interação gradual mantém a planta mais receptiva

Acrescentou uma linha extra.

Exemplo observado: planta vizinha reagiu negativamente a estímulo abrupto.

Adrian espiou e soltou uma risada baixa.

— Fui oficialmente documentado como erro científico?

— Evidência prática — respondeu Kahrir, sem conseguir conter um pequeno sorriso.

A aula terminou com Sprout satisfeita com o progresso da turma. Quando saíram da estufa, o ar fresco do jardim tocou seus rostos novamente. Adrian verificou o horário.

— Próxima aula… Defesa Contra as Artes das Trevas. Isso pode ser interessante.

Kahrir ajustou o cachecol enquanto caminhavam de volta ao castelo.

— Ah… minha varinha provavelmente vai gostar disso. Até agora, eu diria que ela esteve desinteressada e entediada — disse, rindo baixinho. — Na verdade, acho que nunca perguntei. Do que é feita a sua varinha? A minha é de faia, com núcleo de coração de dragão e flexibilidade inflexível. Ela é meio mandona e exigente.

Adrian olhou para ela com interesse genuíno.

— Faia com dragão? Isso explica muita coisa. Controle, precisão… e um leve ar de “só vou funcionar direito se você merecer”.

Ele rapidamente tirou a própria varinha do bolso, girou-a entre os dedos e a guardou de novo.

— A minha é de freixo, com núcleo de pena de fênix. Trinta centímetros, razoavelmente flexível. Ollivander disse que varinhas de freixo são leais, mas não gostam de trocar de dono. E pena de fênix… bem, são raras e um pouco imprevisíveis. Se eu não tiver controle, ela pode decidir fazer o que quiser.

Deu de ombros, meio sorrindo.

— Então talvez a sua seja exigente… e a minha levemente caótica.

Kahrir riu baixinho enquanto subiam as escadas.

— Aterrorizante… vamos.

Adrian soltou uma risada curta.

— Excelente. Exatamente o estado mental correto antes de entrar em uma aula com esse nome.

A sala de Defesa Contra as Artes das Trevas era mais espaçosa do que as outras, mas muito menos organizada. Armários encostavam nas paredes, objetos estranhos ocupavam as mesas, e o ar carregava um leve cheiro de madeira velha. Professor Quirinus Quirrell já estava à frente, com as vestes ligeiramente tortas e expressão nervosa.

— Ah! Alunos! Entrem, entrem! — disse ele, com a voz instável. — Hoje… começaremos com conceitos básicos de defesa… sim… defesa…

Adrian inclinou a cabeça e murmurou:

— Certo… não era exatamente o que eu esperava.

Quirrell abriu um armário com cuidado exagerado e revelou uma pequena criatura dentro de uma gaiola. Não era especialmente ameaçadora, mas foi o suficiente para fazer alguns alunos recuarem.

Enquanto o professor começava a explicar criaturas básicas e precauções, Kahrir sentiu algo diferente. A varinha no bolso interno da veste pareceu ganhar vida. Não era desconfortável, mas era inconfundivelmente mais presente — quente, quase pulsando contra o tecido.

Ela levou a mão discretamente ao bolso.

— Ela acordou? Está quase tentando sair do meu bolso… alguma coisa está deixando minha varinha muito agitada. Consigo sentir ela esquentando… deve ser o núcleo de dragão.

O tom brincalhão de Adrian desapareceu de imediato, e ele olhou para ela com mais atenção.

— Quente… quente desconfortável? Ou quente reagindo a alguma coisa?

Kahrir manteve a expressão neutra, embora o polegar roçasse levemente o cabo da varinha através do tecido. O calor estava estável agora. Não queimava, mas era impossível ignorar. Era como se a varinha estivesse em alerta, atenta a algo que o resto da sala ainda não havia notado.

À frente, Quirrell continuava falando, gesticulando de maneira desajeitada, mas havia uma tensão sutil no ar. Nada óbvio. Nada que os outros parecessem perceber. A pequena criatura na gaiola se mexeu por um segundo, e o professor se apressou para acalmá-la.

Adrian baixou ainda mais a voz.

— Meu irmão mencionou uma vez… núcleos de dragão costumam reagir com mais força à intenção. Não só magia ativa, mas quando há algo… instável.

Kahrir não respondeu de imediato. Apenas sentiu o pulso leve da varinha contra a palma como um aviso silencioso. Algo naquela sala não estava inteiramente certo.

Mantendo a postura calma, quase impassível, Kahrir deslizou a mão para dentro do bolso da veste e tirou a varinha com um movimento discreto. Segurou-a sob a mesa, repousada contra as pernas, enquanto a outra mão continuava movendo a pena de coruja-parda sobre o pergaminho, anotando o que o professor dizia.

Por fora, tudo parecia normal. Sob a mesa, a varinha estava quente. Não caótica nem descontrolada, mas claramente ativa, pulsando de leve contra a palma como se vigiasse. Quando seus dedos se fecharam completamente ao redor do cabo de faia, o calor pareceu se estabilizar, como se o contato direto ajudasse a acalmá-la. Ainda assim, a sensação não desapareceu.

Adrian percebeu o movimento pelo canto dos olhos. Não falou em voz alta, apenas murmurou quase sem mover os lábios:

— Melhor assim.

À frente da sala, Professor Quirrell continuou a explicação, mas Kahrir agora o observava com mais cuidado. Pequenos detalhes começaram a se destacar: o modo como evitava chegar perto demais da gaiola, como a voz falhava em certos momentos, os gestos levemente erráticos. A criatura dentro da gaiola voltou a se mover, mais rápido dessa vez. No mesmo instante, a varinha reagiu com um pulso mais forte de calor na mão de Kahrir.

Adrian inclinou levemente a cabeça.

— Foi isso, não foi?

A aula continuou normalmente para o restante da turma. Para Kahrir, no entanto, deixara de ser uma aula comum.

Ela ergueu a mão.

Um silêncio se espalhou pela sala quase imediatamente. Vários alunos viraram a cabeça, surpresos. Interromper no primeiro dia não era comum.

— Professor… desculpe interromper, mas gostaria de fazer duas perguntas — disse ela, a voz clara e educada. — Primeiro: o senhor está bem? Parece nervoso. Segundo: que criatura é essa na gaiola, e por que ela está tão agitada?

Adrian ficou completamente imóvel ao lado dela.

— …certo — murmurou, quase inaudível. — Isso foi direto.

Quirrell parou por completo. Por um segundo, pareceu pego de surpresa. Seus olhos se fixaram em Kahrir.

— Eu… eu… estou perfeitamente bem, sim… perfeitamente… — A voz dele falhou no meio da frase, e ele ajustou as vestes com um gesto rápido demais. — Apenas… um pouco… sensível a certas criaturas… sim…

Virou-se para a gaiola como se quase tivesse esquecido que precisava responder à segunda pergunta.

— Isto… isto é um… jovem Guincho-de-Nute… Eles são… reativos… a emoções fortes… e a… presença mágica intensa… Nada perigoso… completamente seguro… completamente…

Enquanto falava, a criatura soltou um silvo agudo, e as barras da gaiola tremeram levemente. A varinha de Kahrir aqueceu de novo, o pulso mais forte que antes.

Adrian observava tudo com atenção renovada.

Quirrell tentou recuperar o fio da aula.

— Vamos… continuar… com a teoria…

Mas a atmosfera da sala havia mudado. Alguns alunos agora pareciam desconfortáveis. O professor continuou a aula, mas com esforço visível.

Kahrir inclinou-se levemente na direção de Adrian, sussurrando baixo o bastante para apenas ele ouvir.

— Tem algo muito estranho… eu não sei o que fazer. Minha varinha está reagindo demais.

Adrian não respondeu imediatamente. Olhou primeiro para a criatura, depois para o professor e finalmente de volta para ela. Sua expressão perdera a leveza.

— Certo… então não é só impressão — murmurou. — Dragão não reage assim por nada. Não faça nada brusco. Mantenha a varinha sob controle. Se isso for alguma coisa… é melhor observar primeiro. E, se piorar, a gente sai da sala. Sem escândalo.

Kahrir assentiu discretamente. A lógica era fria e prática — muito Sonserina. Ela manteve a varinha firme na mão e voltou a atenção tanto para o professor quanto para a criatura.

Quanto mais observava, mais detalhes apareciam. Quirrell evitava sustentar o olhar de qualquer pessoa por tempo demais, falava mais rápido quando questionado e mantinha distância da gaiola sempre que possível. A criatura, por sua vez, se movia em explosões repentinas: momentos calmos seguidos de movimentos bruscos, especialmente quando o professor se aproximava. Quase no mesmo ritmo, a varinha de Kahrir pulsava.

Adrian murmurou:

— Não é aleatório. Está acompanhando ele.

Quando a parte teórica da aula terminou, Quirrell anunciou, em voz apressada:

— Isso… isso será suficiente por hoje…

Os alunos começaram a se levantar, aliviados. A maioria saiu rapidamente. Kahrir e Adrian permaneceram por mais um instante. Enquanto o professor organizava os materiais, Kahrir caminhou alguns passos firmes e parou diante dele.

— Professor — disse ela, educada, mas direta. — Se a criatura só reage à magia, por que reagiu quando o senhor se aproximou? O senhor está carregando algum objeto mágico, ou estava fazendo magia durante a aula? Fiquei curiosa.

Adrian ficou meio passo atrás dela, tenso.

Quirrell congelou. Seus olhos se fixaram nela por tempo demais, e o ar entre eles pareceu engrossar.

— Eu… não… — começou, a voz mais baixa. — Você… observa… bastante… Isso… isso é bom… sim… muito bom… para uma estudante…

Tentou sorrir, mas o resultado foi forçado.

— A criatura… pode… reagir a muitas coisas… não apenas magia direta… emoções… proximidade… nervosismo… E eu… eu não estava usando magia… não…

A varinha pulsou com força na mão de Kahrir — um aviso claro. Quirrell pareceu notar algo nela e desviou o olhar primeiro.

— Se… se não há mais perguntas… você pode… pode ir…

Kahrir não insistiu.

— Adrian, vamos.

Ela se virou, mas antes de sair lançou um último olhar ao professor. Ele já não olhava para ela. Estava imóvel, encarando a gaiola com tensão visível.

Assim que atravessaram a entrada, o corredor os recebeu com o barulho familiar de alunos, passos e conversas. Kahrir virou-se imediatamente para Adrian, ainda sentindo uma leve descarga de adrenalina sob a pele.

— Você viu aquilo, não viu? Ele é muito estranho… está escondendo alguma coisa.

Adrian caminhou alguns passos antes de responder, certificando-se de que ninguém estava perto o bastante para ouvir.

— Eu vi — disse diretamente. — Aquilo não era só nervosismo. Ele ficou na defensiva. E a resposta foi vaga demais.

Baixou a voz enquanto organizava os pensamentos.

— A criatura reage à magia. Reage mais quando ele chega perto. Sua varinha também reage. E ele não explicou nada disso direito. Não encaixa.

Kahrir ainda sentia a varinha mais calma agora, mas não completamente neutra.

Adrian continuou:

— Não podemos sair por aí acusando um professor no primeiro dia. Mas também não podemos ignorar. Então… investigamos ou só observamos de longe por enquanto?

Kahrir cruzou os braços levemente enquanto caminhavam.

— Mas como investigaríamos? Acho que tudo o que podemos fazer é observar… acabamos de chegar.

Adrian assentiu.

— Concordo. Não temos acesso a nada ainda. Nem conhecemos direito o castelo. Então, por enquanto, informação: observar o comportamento dele, ver se acontece de novo, perceber padrões. Especialmente você — acrescentou, com um leve sorriso. — Sua varinha claramente percebe as coisas antes da gente.

A atmosfera entre eles mudou da tensão imediata para algo mais controlado. Kahrir ajustou o cachecol naturalmente, retornando a um tom mais leve.

— Bem… então vamos ser alunos normais. Quer ir para o pátio? Podemos ficar sentados por lá… talvez seu irmão apareça também. Você quer vê-lo, não quer?

Adrian abriu um meio sorriso, claramente aliviado pela mudança de assunto.

— Quero. E o pátio parece uma excelente ideia depois… disso tudo.

Eles seguiram pelo corredor em direção ao pátio, enquanto o castelo retomava seu ritmo habitual ao redor deles. Mas, no fundo da mente de Kahrir, a sensação de que nem tudo ali era tão simples quanto parecia não desapareceu.

Atravessaram os corredores largos até emergirem do lado de fora outra vez. O pátio se abriu diante deles, amplo e cercado pelas altas paredes cinzentas de Hogwarts. Bancos escuros de madeira estavam espalhados aqui e ali, alguns ocupados por pequenos grupos de alunos conversando baixo ou lendo pergaminhos abertos sobre o colo. A luz do dia, embora filtrada por nuvens densas, caía suavemente sobre as pedras, dando ao espaço uma atmosfera calma, quase acolhedora depois da intensidade da manhã.

Kahrir e Adrian encontraram um banco vazio perto de um arco coberto de hera. Ao se sentarem, o ritmo do dia finalmente pareceu diminuir. O ar fresco tocou o rosto de Kahrir, trazendo o leve cheiro de grama molhada e terra dos jardins próximos. O som distante de vozes e passos ecoava entre as paredes, mas ali parecia suavizado, como se o pátio oferecesse um pequeno refúgio.

Adrian apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando ao redor com um suspiro satisfeito.

— Certo… isso realmente parece uma pausa decente.

Observou os alunos passando por um momento, então se voltou para Kahrir em um tom mais leve.

— E você? Tirando professores suspeitos e criaturas estranhas… está gostando do primeiro dia?

Kahrir sentiu o vento levantar levemente a ponta do cachecol verde-esmeralda antes de responder com sinceridade tranquila.

— Na verdade, está sendo bem legal. Confesso que achei que talvez me sentisse deslocada nos primeiros dias. Fico feliz que você tenha entrado na minha cabine… teria sido estranho sem você.

Adrian ficou em silêncio por um segundo, como se não esperasse uma resposta tão direta. Então um meio sorriso sincero surgiu em seu rosto.

— É… eu também. Provavelmente teria passado um tempão andando de cabine em cabine fingindo que sabia o que estava fazendo.

Fez um gesto leve, o tom casual, mas honesto.

— Então acho que deu certo para nós dois. E, sinceramente, você não parece alguém que ficaria deslocada por muito tempo. Você observa, entende rápido… e aparentemente até as plantas gostam de você. Isso ajuda.

O momento se alongou de forma confortável, sem pressa. O vento passava de vez em quando, trazendo o murmúrio distante das conversas e o suave farfalhar das folhas. Então uma voz chamou de longe.

— Adrian!

Um aluno mais velho se aproximava com passos firmes. Era alto, de postura reta e uniforme impecável. Os cabelos escuros, levemente ondulados, estavam penteados para trás com cuidado, e o olhar era calmo e analítico, do tipo que parecia medir o ambiente antes de reagir. O brasão da Sonserina no peito parecia ter sido feito para ele.

Adrian ergueu uma das mãos em cumprimento.

— É ele.

Quando o garoto se aproximou, Adrian acrescentou rapidamente:

— Ah, certo. Kahrir, este é meu irmão… Lucien Voss.

Lucien inclinou a cabeça em um cumprimento formal, mas sem exagero, e seus olhos repousaram em Kahrir por um momento, avaliando-a com calma.

— Primeiro ano — observou, a voz controlada e firme.

Adrian cruzou os braços, mais relaxado perto do irmão.

— Sobrevivemos até agora.

Lucien fez um “hm” quase imperceptível e olhou para o cachecol verde-esmeralda de Kahrir e sua postura composta.

— Sobreviver ao primeiro dia não é difícil. O problema é o resto do ano.

Olhou para Adrian.

— E então?

Adrian resumiu rapidamente as aulas, mencionando Defesa por último. Lucien ergueu uma sobrancelha.

— Defesa no primeiro dia?

Seu olhar voltou para Kahrir, agora com mais interesse.

— E como foi?

Kahrir respondeu naturalmente, mas sem hesitar.

— Foi estranho… minha varinha não parava de reagir ao Professor Quirrell. A criatura na gaiola também não. Como era mesmo o nome, Adrian?

— Guincho-de-Nute… alguma coisa assim — forneceu Adrian.

Lucien não reagiu de imediato. Seu olhar mudou sutilmente, ficando mais afiado. Estudou Kahrir com atenção renovada antes de perguntar, a voz mais baixa:

— Sua varinha reagiu… como?

Adrian rapidamente explicou o calor, os pulsos e o modo como aquilo parecia se alinhar à criatura. Lucien ouviu em silêncio, depois olhou ao redor do pátio para garantir que ninguém estivesse perto demais. Quando falou, o tom estava mais baixo e mais sério.

— Primeiro: vocês não discutem isso em volume normal. Não com qualquer pessoa.

Olhou diretamente para Kahrir.

— Segundo: uma varinha com núcleo de dragão não reage assim sem motivo. Especialmente faia.

Uma breve pausa.

— Terceiro: Quirrell não é… simples.

Adrian franziu a testa.

— Você sabe de alguma coisa?

Lucien não respondeu diretamente. Em vez disso, ofereceu um aviso prático.

— Por enquanto, façam exatamente o que já estavam fazendo. Observem. Não confrontem ele. Não falem sobre isso com qualquer um. E não subestimem.

Deu um passo para trás, quase sorrindo. Quase.

— E vocês dois… estão indo bem demais para o primeiro dia. Isso costuma atrair atenção.

Antes de ir embora, olhou mais uma vez para Kahrir.

— E Kahrir… continue ouvindo sua varinha.

Quando Lucien desapareceu entre os arcos de pedra, o pátio voltou ao seu ritmo tranquilo. Kahrir permaneceu sentada por um momento, sentindo o vento frio passar outra vez, carregando o cheiro de terra úmida dos jardins. Virou-se para Adrian, que passava a mão pelos cabelos castanho-escuros, claramente ainda processando a conversa.

— Você e seu irmão nem se parecem muito… achei engraçado.

Adrian soltou uma risada baixa pelo nariz.

— Isso acontece bastante. Nós realmente não nos parecemos muito. Ele puxou o lado sério da família. Eu não tenho certeza de quem eu puxei.

Deu de ombros, o olhar voltando para ela com curiosidade genuína.

— Mas isso ajuda às vezes. Ninguém espera que eu seja como ele.

O vento levantou outra vez o cachecol de Kahrir, roçando o tecido macio contra sua pele. Adrian continuou, mais baixo:

— E você? Sua família inteira também foi da Sonserina?

Kahrir respondeu com uma risada leve, quase como se tentasse suavizar o peso da resposta.

— Sim… mas não tenho muita gente para comparar, tenho?

Adrian ouviu com atenção, sem pressionar. Então mencionou o tio de quem ela havia falado no trem. Kahrir explicou, a voz calma e pensativa.

— Ele foi, sim… mas admito que me acostumei a perder pessoas. Não quero dizer isso como “ah, não, todo mundo vai embora”. Quero dizer que as coisas são como precisam ser… e nós escolhemos como reagimos a elas.

Adrian absorveu as palavras em silêncio. O vento trazia o som distante de risadas e o cheiro fresco das estufas. Quando falou, sua voz estava mais baixa e respeitosa.

— Esse não é um jeito comum de pensar. Mas faz sentido.

Hesitou por um momento antes de perguntar:

— Foi seu tio que te ensinou isso… ou você chegou aí sozinha?

Kahrir ajustou uma mecha de cabelo castanho-claro e ondulado que o vento havia tirado do lugar e olhou diretamente para ele.

— Eu diria que aprendi sozinha. Consequência, eu acho.

Então, com curiosidade sincera, continuou:

— Você não fala muito da sua família, fala? Mencionou seu irmão… mas e o resto?

Adrian levou um momento para responder, os olhos acompanhando uma folha que o vento arrastava pelo chão de pedra. Quando falou, o tom era calmo, não defensivo.

— Falo deles… quando faz sentido. Meu irmão sempre foi mais presente. Meus pais são mais… distantes. Expectativas, regras, direção. Esse tipo de coisa.

Deu um meio sorriso.

— Então acho que também aprendi a me virar sozinho, só de um jeito diferente de você. Menos filosófico.

O silêncio que se seguiu foi confortável, preenchido pelo som suave dos passos e das vozes distantes. Então Adrian perguntou, com interesse real:

— Você ainda pensa muito nisso… ou simplesmente virou parte de quem você é?

Kahrir sorriu de leve ao responder.

— Acho que é parte de mim… e acabei de perceber uma coisa. Somos muito maduros para a nossa idade, não somos? Você deve ter onze anos como eu… Acho que nem adultos têm esse tipo de conversa com tanta honestidade.

Adrian riu baixinho, o som espontâneo.

— Onze, sim. E você não está errada. A maioria das pessoas da nossa idade estaria discutindo quem voa melhor ou quem comeu mais doces no trem. A gente começou o dia falando de uma varinha reagindo a um professor estranho e terminou discutindo como lidar com perdas.

Ele olhou para ela com mais clareza.

— Não sei se isso é maturidade ou se só pulamos algumas etapas. Mas, sinceramente… prefiro assim. Conversas honestas economizam tempo.

O momento ficou mais leve de novo, embora ainda carregasse algo mais profundo por baixo. Adrian inclinou a cabeça, provocando:

— E isso também explica por que sua varinha não estava realmente entediada. Ela só estava esperando algo mais interessante do que levantar uma pena.

Kahrir inclinou-se um pouco para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Quer fazer alguma coisa ou ir a algum lugar? Ainda temos algum tempo livre.

Adrian pensou por um momento, olhando ao redor do pátio.

— Temos algumas opções… a biblioteca, se você quiser pesquisar mais magia. Pode ser útil depois de hoje. Ou podemos andar pelo castelo e aprender os caminhos antes de nos perdermos oficialmente amanhã. Também poderíamos ir perto do lago… dizem que a vista é boa. Ou podemos simplesmente ficar aqui e não fazer absolutamente nada produtivo.

Kahrir se levantou naturalmente, ajustando a veste enquanto o cachecol voltava ao lugar.

— Vamos explorar… se dermos sorte, talvez consigamos fazer tudo isso hoje.

Adrian se levantou também, sorrindo divertido.

— Ambiciosa… gostei.

Eles deixaram o pátio para trás e voltaram para dentro do castelo. A mudança foi imediata: o ar ficou mais frio e fechado, carregando o cheiro sutil de pergaminho antigo, madeira polida e pedra úmida. Corredores se ramificavam em todas as direções, alguns iluminados por janelas altas, outros mais estreitos, onde tochas lançavam uma luz quente e tremeluzente contra as paredes.

Passaram por tapeçarias antigas cujas figuras se moviam devagar, retratos que cochichavam entre si e uma armadura que parecia acompanhá-los com o olhar. Adrian comentou, rindo baixo:

— Certo… oficialmente impossível fazer “tudo hoje”. Este lugar não quer ser entendido por completo.

Subiram uma escada que, dessa vez, não se moveu, e o som de seus passos ecoou com mais clareza em um corredor mais silencioso. Ao final, uma grande janela arqueada oferecia uma ampla vista do Lago Negro. Sua superfície escura refletia o céu nublado como um espelho irregular, interrompido por ondas lentas. O vento entrava por uma fresta estreita, trazendo o cheiro úmido da água e um frio mais cortante.

Adrian se aproximou da janela.

— Certo… isso valeu a caminhada.

Kahrir observou a água por mais um momento, sentindo novamente a presença discreta da varinha — curiosa, mas não alarmada.

— Depois do professor… acho que atingimos nossa cota. Vamos continuar andando.

Afastaram-se da janela e continuaram explorando. O corredor ficou mais silencioso, mais antigo. Tapeçarias envelhecidas pendiam das paredes, e o ar carregava o cheiro fechado de tecido antigo e poeira mágica. Viraram por uma passagem estreita, e então algo chamou a atenção dos dois: uma porta de madeira escura, mais antiga que as outras, com entalhes quase apagados pelo tempo. Não havia placa, nem sinal. Apenas a porta, discreta e convidativa em sua simplicidade misteriosa.

Adrian parou, inclinando a cabeça.

— Certo… isso não parece parte do passeio oficial. Você acha que é só… uma sala qualquer?

Kahrir sentiu o frio leve do chão de pedra através dos sapatos quando deu um passo à frente. A maçaneta de metal estava gelada ao toque. Ela a girou com calma, e a porta cedeu com um rangido baixo e arrastado, como se reclamasse por ser perturbada.

Um tipo diferente de ar escapou de dentro: mais parado, pesado com o cheiro forte de papel antigo, madeira envelhecida, tinta seca e poeira mágica acumulada por anos. A luz cinzenta que entrava por uma janela estreita revelava prateleiras altas cheias de livros, alguns inclinados, outros perfeitamente alinhados, mesas com pergaminhos parcialmente abertos, penas esquecidas em tinteiros secos e pequenos objetos abandonados no meio de algum trabalho interrompido. Partículas de poeira flutuavam devagar no feixe de luz, dando à sala um ritmo próprio, quase fora do tempo.

Adrian se aproximou, ficando ao lado dela, e murmurou em voz mais baixa:

— …certo. Isso definitivamente não é só uma sala qualquer. Parece… esquecida. Ou escondida de propósito.

O silêncio lá dentro era mais denso, pesado de história acumulada. A varinha de Kahrir, ainda guardada, não deu nenhum aviso forte, apenas uma curiosidade suave, como se reconhecesse o lugar como importante, mas não perigoso.

Kahrir soltou uma risada baixa, quebrando um pouco a tensão silenciosa que pairava no ar.

— Bem… vamos explorar. Se acontecer alguma coisa, a gente corre.

A porta permaneceu aberta atrás deles, permitindo que uma fatia estreita de luz do corredor entrasse na sala, mas, à medida que Kahrir e Adrian davam alguns passos para dentro, a iluminação começou a depender quase inteiramente da janela estreita ao fundo. A luz cinzenta não iluminava totalmente; revelava as coisas aos poucos, como se a própria sala quisesse ser descoberta com paciência. A poeira flutuava preguiçosa pelos feixes de luz, formando rastros tênues que se desfaziam a cada movimento.

Adrian entrou logo atrás dela, a cautela mais visível na postura agora. Não falou de imediato, apenas observou o espaço com o silêncio atento de quem tenta absorver um lugar antes de reagir.

— Certo… — murmurou depois de alguns segundos, mais baixo do que o normal, quase reverente. — Isso definitivamente não foi abandonado por acidente.

Kahrir foi até uma das mesas mais próximas. As tábuas antigas do assoalho rangeram suavemente sob seus pés, um som seco e abafado que pareceu ecoar mais do que deveria no silêncio denso. Sobre a mesa, havia um pergaminho parcialmente desenrolado, escrito com uma caligrafia elegante interrompida no meio de uma frase, como se quem escrevia tivesse sido chamado de repente e nunca mais voltado. Ao lado, uma pena repousava inclinada dentro de um tinteiro seco, a tinta endurecida havia muito tempo.

A varinha, ainda no bolso interno da veste, não emitia calor nem aviso. Em vez disso, Kahrir sentia uma presença sutil, quase um reconhecimento calmo — como se a sala estivesse impregnada de magia antiga, não ativa, mas profundamente enraizada nas paredes, nos livros e no ar parado.

Adrian se aproximou de uma das prateleiras altas, examinando os títulos sem tocar em nada.

— Esses livros… não são de primeiro ano. Nem de segundo. Alguns parecem muito mais antigos.

Mais ao fundo, uma mesa diferente chamava atenção. Era mais limpa que as outras, quase intencionalmente, com um único objeto repousando sobre ela: uma pequena caixa de madeira escura. Entalhes finos cobriam a tampa em um padrão delicado, preciso demais para ser apenas decoração.

Adrian parou, olhando para ela.

— Você está vendo aquilo? Parece importante.

Kahrir se aproximou com passos controlados, sentindo o assoalho antigo ranger de leve sob os sapatos. O ar ali era mais frio, quase imóvel, pesado com o cheiro de papel antigo, madeira envelhecida e o traço fraco de poeira mágica reunida ao longo dos anos. Estendeu a mão e tocou a caixa. A madeira era fria, mas com uma profundidade que ia além da temperatura, como se guardasse algo dentro de si.

A tampa não estava trancada. Quando Kahrir a levantou, o som suave de madeira contra madeira quebrou o silêncio por um instante. Dentro da caixa havia um único objeto: um pingente pequeno e delicado preso a uma corrente fina de metal escuro. A peça central era oval, sua superfície lisa e opaca parecendo absorver a luz cinzenta da janela em vez de refleti-la. No centro, havia um símbolo gravado — linhas curvas e precisas formando um padrão que não era imediatamente reconhecível, mas carregava a sensação inconfundível de algo antigo e intencional.

Kahrir hesitou apenas um segundo antes de pegá-lo. O metal parecia neutro ao toque, nem frio nem quente, como se tivesse uma temperatura própria. Ao erguê-lo, a luz deslizou sobre o símbolo, revelando contornos que pareciam escapar levemente sempre que o olhar tentava se fixar totalmente neles.

Sua varinha respondeu imediatamente — não com o calor de Defesa, mas com uma presença firme e alinhada, como se estivesse em sintonia com o objeto.

Adrian se aproximou um pouco mais, inclinando-se para olhar sem tocar.

— Certo… isso definitivamente não foi deixado aqui por acaso. Você reconhece?

Kahrir girou o pingente devagar entre os dedos. O metal não fez som algum, mesmo com o movimento. Procurou na memória — runas, símbolos de livros que havia folheado na Floreios e Borrões —, mas nada se encaixava.

— Eu… não sei — murmurou, mais para si mesma do que para ele.

Ainda assim, não era uma sensação vazia. Havia algo ali — não agressivo, não ameaçador, mas carregado de significado, como uma palavra que ela ainda não aprendera, mas já sabia que era importante.

Adrian cruzou lentamente os braços.

— Isso não parece coisa de aluno. Nem algo esquecido.

Kahrir se endireitou e, com a outra mão, tirou a varinha do bolso. Com cuidado, aproximou a ponta de faia do pingente. A luz cinzenta tocou os dois objetos ao mesmo tempo, destacando o contraste entre a madeira clara com veios dourados e o metal escuro e opaco.

— É engraçado a varinha reagir ao pingente…

No instante em que a distância entre os dois diminuiu, a sensação se tornou mais clara. A varinha não aqueceu, mas pulsou com uma vibração interna controlada — um reconhecimento silencioso. O símbolo no pingente pareceu ganhar uma leve profundidade por um segundo, como se respondesse à proximidade. Não era força. Era alinhamento.

Adrian observou de perto.

— Isso não é uma reação normal. Parece… compatibilidade.

Kahrir manteve os dois objetos próximos por mais alguns segundos, sentindo aquela conexão silenciosa. Então, sem soltar o pingente, olhou de volta para a mesa. Ao lado da caixa, parcialmente escondido sob um livro fechado, havia um pergaminho dobrado. Ela o puxou com cuidado. A tinta era antiga, mas ainda legível — anotações curtas, escritas às pressas:

ressonância

núcleo responde à estrutura, não à força

não poder bruto — compatibilidade

símbolo de ancoragem

Adrian leu por cima do ombro dela e murmurou:

— Compatibilidade… isso explica sua varinha.

Kahrir conseguia sentir com clareza: quando segurava o pingente, a varinha não ficava mais forte. Ficava mais precisa. Menos dispersa. Como se o espaço entre intenção e execução tivesse sido limpo.

Ela guardou a varinha por um momento e olhou para Adrian.

— Mas essa é a questão… usado para quê? O que isso causa? O que essa compatibilidade faz? O que é um símbolo de ancoragem?

Adrian pensou antes de responder, sua voz baixa ecoando suavemente na sala silenciosa.

— Se as anotações estiverem certas, não é um objeto que “faz” algo sozinho. Parece mais um intermediário. Algo que organiza a magia que você já tem. Ressonância… compatibilidade… ancoragem. Talvez ajude a controlar magia mais avançada com mais precisão, sem tanto esforço ou erro.

Ele olhou para o pingente na mão dela.

— Não aumenta poder. Organiza intenção.

Kahrir testou. Apontou a varinha para o pergaminho sobre a mesa, segurando o pingente na outra mão.

— Leviosa.

O feitiço saiu limpo, sem o leve tremor inicial. O pergaminho se ergueu com precisão incomum, permanecendo perfeitamente estável no ar, sem balançar, sem exigir correção constante. Não era mais forte. Era mais correto. Menos esforço, mais controle.

Adrian soltou um “hm” contido, impressionado.

— Isso foi diferente. Não mais forte… apenas mais certo.

Kahrir manteve o pergaminho suspenso por alguns segundos, sentindo como o pingente participava silenciosamente daquela estabilidade. Então deixou o feitiço se desfazer suavemente. O pergaminho pousou de volta sobre a mesa sem cair.

Ela olhou novamente para o objeto em sua mão.

— Mas eu realmente preciso disso?

Adrian não respondeu imediatamente. Permitiu que a pergunta permanecesse no ar frio da sala.

— Precisar? Não. Você já foi bem sem ele. Isso não te dá uma nova habilidade… apenas melhora o que você já tem. A questão é o que isso muda para você.

Ele olhou ao redor da sala silenciosa.

— Se você deixar aqui, alguém pode voltar para buscar. Ou ele pode continuar esquecido. Se levar… você assume o que vier com isso.

Kahrir sentiu o peso leve do pingente entre os dedos. A decisão já não era apenas curiosidade. Era uma escolha.

— Bem… vou levar. Vamos ver o que acontece.

Ela colocou o pingente com cuidado no bolso interno da veste, ao lado da varinha. No instante em que deixou o contato direto com a pele, a conexão não desapareceu completamente. Tornou-se mais sutil, presente, mas quieta, como algo que agora fazia parte dela, mesmo sem ser sentido o tempo todo.

Adrian observou o gesto e assentiu.

— Certo. Então isso é oficialmente… uma escolha.

Eles arrumaram rapidamente a mesa, fechando a caixa vazia e deixando o pergaminho como estava, sem rastros óbvios. A sala voltou quase ao estado anterior — silenciosa, pesada, observando.

Quando saíram, Kahrir fechou a porta com um clique suave. O corredor os recebeu novamente com o fluxo vivo do castelo: vozes distantes, passos ecoando, o cheiro familiar de pedra antiga e madeira polida.

Enquanto caminhavam em direção a uma ampla escadaria, ela perguntou:

— Bem, e agora? Ainda temos tempo.

Adrian desceu alguns degraus ao lado dela, a mão deslizando pelo corrimão frio.

— Ainda temos uma boa parte da tarde antes do jantar. Podemos continuar explorando… talvez em áreas menos escondidas. Ou andar sem plano e ver onde isso nos leva. O castelo parece gostar desse tipo de decisão.

Kahrir inclinou levemente a cabeça, sentindo o pingente repousar discretamente contra o tecido da veste.

— Vamos ver a biblioteca?

— Boa ideia — respondeu Adrian, com um leve sorriso. — Se existe algum lugar que possa ter respostas, é lá.

Eles seguiram por um corredor mais movimentado até chegar às portas altas da biblioteca. Quando atravessaram a entrada, o mundo mudou outra vez. O cheiro de pergaminho antigo, tinta seca e couro envelhecido os envolveu de imediato, denso e estranhamente acolhedor. A luz era suave, vindo de janelas altas e lâmpadas discretas entre as enormes prateleiras, criando corredores longos e silenciosos. O som ali era controlado: páginas sendo viradas, penas raspando pergaminho, passos leves sobre as tábuas de madeira.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Adrian baixou automaticamente a voz.

— Certo… isto é outro mundo.

Enquanto caminhavam entre as prateleiras altas, Kahrir sentiu algo sutil, tão fraco que quase não era nada. O pingente em seu bolso não reagia como antes, mas havia uma presença discreta, como se reconhecesse o conhecimento reunido ao redor.

Adrian percebeu quando ela reduziu o passo por um momento.

— Sentiu alguma coisa? Ou é só impressão?

A biblioteca permaneceu silenciosa, esperando.

Kahrir desacelerou ainda mais entre as prateleiras, como se seu corpo tivesse notado a mudança antes de a mente compreendê-la totalmente. A biblioteca os envolvia em seu silêncio particular — não vazio, mas cheio de pequenas presenças constantes: o virar suave de páginas, o arrastar leve de uma cadeira, o risco regular de penas sobre pergaminho. O cheiro de papel antigo e couro envelhecido era mais forte na seção mais profunda, onde os livros pareciam menos tocados pelo tempo.

Ela se inclinou levemente em direção a Adrian, perto o suficiente para que a voz não viajasse além do espaço entre eles.

— O pingente está reagindo a alguma coisa.

O sussurro se dissolveu quase imediatamente, absorvido pela quietude. Adrian não respondeu de imediato. Seu olhar perdeu a leveza do pátio e ficou mais afiado, mais focado. Não olhou diretamente para ela nem para o bolso da veste; apenas estudou o espaço ao redor, como se tentasse localizar a origem da sensação.

— Onde? — perguntou, quase sem mover os lábios.

Kahrir continuou caminhando devagar entre as prateleiras, deixando o corpo guiá-la mais que a razão. O chão de madeira era mais silencioso ali, absorvendo o som dos passos, e havia menos alunos à medida que se afastavam da entrada principal. A luz das janelas altas caía em faixas suaves entre as estantes, deixando o resto em meia-sombra. Partículas de poeira se moviam preguiçosamente pelos feixes.

O pingente não pulsava com força. Era mais sutil que isso, direcional — uma leve inclinação interna, como se algo por perto compartilhasse a mesma frequência.

À frente, uma seção se destacou naturalmente: livros mais antigos, encadernações mais escuras, lombadas marcadas com símbolos discretos. A iluminação ali era mais indireta, e poucos alunos estavam por perto, como se aquela área fosse evitada por quem não soubesse exatamente o que procurava.

Kahrir sentiu a sensação ficar mais clara.

— Acho que é aqui… mas qual dos mil livros ele está reagindo? Vamos ter que testar.

Com cuidado, estendeu a mão e deixou as pontas dos dedos roçarem as lombadas uma por uma. O couro variava sob seu toque — alguns secos e rígidos pela idade, outros mais macios e marcados pelo uso. O cheiro de papel antigo se intensificou, denso e quase reconfortante. A luz filtrada projetava sombras delicadas entre os volumes, e o silêncio da biblioteca parecia ainda mais profundo, como se todo o lugar observasse o gesto dela.

Adrian a acompanhou sem interromper, apenas ajustando o ritmo ao dela.

— Se começar a brilhar ou fazer barulho — murmurou baixo —, saberemos que você encontrou.

Kahrir continuou deslizando os dedos sobre livro após livro, sem pressa. No início, a sensação permaneceu difusa. Então, ao tocar uma lombada estreita de couro escuro, quase sem título visível, algo mudou. Não foi um choque. Não foi calor. Foi um ajuste silencioso, como se algo tivesse se encaixado.

Sua mão parou.

Adrian percebeu imediatamente.

— Esse?

A lombada não tinha um título claro, apenas um símbolo discreto prensado no couro — linhas cruzadas em um padrão orgânico, semelhante ao do pingente, embora não idêntico. O ar ao redor parecia mais quieto, ou talvez a atenção de Kahrir simplesmente tivesse se aguçado.

— Bem, vamos ler, não vamos? — disse ela baixinho.

Ela deslizou o livro para fora com cuidado. A fricção do couro contra os outros volumes produziu um som baixo e seco, rapidamente engolido pelo silêncio. O livro era mais pesado do que parecia, como se suas páginas carregassem uma densidade própria.

Eles não escolheram uma das mesas centrais. Kahrir escolheu uma mais isolada, perto da própria estante, onde a luz chegava de forma indireta, criando um pequeno espaço quase apartado. Quando abriu o livro, o cheiro de páginas antigas subiu com mais força — folhas amareladas de bordas irregulares, algumas com anotações acrescentadas nas margens ao longo do tempo.

A primeira frase chamou sua atenção de imediato.

A magia não falha por falta de poder, mas pela dispersão da intenção.

Kahrir sentiu um alinhamento sutil entre aquelas palavras e o que havia experimentado antes. Adrian inclinou-se para ler com ela.

Viraram as páginas devagar. O livro não seguia uma estrutura rígida; misturava explicações, diagramas e anotações pessoais. Um trecho se destacou.

Objetos de ancoragem não amplificam magia. Eles a estabilizam, reduzindo a perda entre concepção e execução.

Mais adiante, outra página dizia:

Compatibilidade não é universal. Um artefato de ancoragem responde apenas a estruturas mágicas específicas. Quando devidamente alinhado, o fluxo se torna contínuo — sem resistência, sem excesso.

Então veio uma linha que fez Kahrir parar.

Faia — madeira responsiva à intenção estruturada. Alta compatibilidade com ancoragem.

Coração de dragão — alta potência, tendência à dispersão sem controle refinado. Ancoragem recomendada para precisão.

Adrian soltou um pequeno suspiro pelo nariz.

— Isso não é só compatível. Foi praticamente feito para você.

Kahrir virou mais algumas páginas, absorvendo os avisos sobre uso prolongado e dependência. Por fim, fechou parcialmente o livro, os dedos ainda repousando sobre a capa.

— Merda… isso é loucura. E é só o primeiro dia de aula.

Adrian soltou uma risada baixa e se recostou na cadeira.

— Exatamente. A maioria das pessoas passa o primeiro dia tentando não se perder no castelo. Nós encontramos um artefato escondido, uma sala fora do mapa e um livro que basicamente explica por que sua varinha reage diferente. E ainda tem um professor suspeito no meio disso tudo.

Ele olhou para o livro uma última vez.

— Se todo dia for assim… nem sei o que esperar do resto do ano.

Kahrir deslizou os dedos pela borda da página e virou mais algumas, lendo com calma. Encontrou trechos sobre o uso consciente da ancoragem e a ideia de que a verdadeira maestria surge quando o ancorador deixa de ser necessário. Adrian leu ao lado dela em silêncio.

— Bem… não pretendo usar isso o tempo todo — disse por fim, a voz baixa e firme. — Só quando for realmente necessário. Caso contrário… não me importo de errar um feitiço, ou algo assim.

Adrian assentiu, compreendendo.

— Faz sentido. Se você usar sempre, então deixa de ser você acertando. E você parece alguém que prefere entender o que está fazendo a simplesmente fazer funcionar.

Eles continuaram virando páginas por mais alguns minutos, mas Kahrir sentia que já havia absorvido o mais importante. Fechou o livro com cuidado, o som seco da capa ecoando suavemente.

— Acho que isso basta, não é? Não acho que vamos encontrar muito mais… e talvez seja melhor não encontrarmos. Ainda não.

Adrian concordou.

— Concordo. Já fomos muito acima da média hoje.

Kahrir devolveu o livro à estante com precisão, alinhando-o como se nunca tivesse sido tocado. À medida que se afastavam, a biblioteca retomava seu ritmo habitual — páginas virando, penas riscando, silêncio disciplinado.

Quando atravessaram as portas altas, o corredor os recebeu com mais vida: vozes mais soltas, passos ecoando, a luz mudando de tom enquanto a tarde caminhava para a noite. O contraste foi imediato e bem-vindo.

— Definitivamente… vamos para o salão? — sugeriu ela.

— Boa ideia — respondeu Adrian. — Depois de hoje, comida é prioridade.

Seguiram pelas escadas e corredores, o castelo se reorganizando ao redor deles. Quando entraram no Salão Principal, a atmosfera mudou por completo. O teto encantado refletia um céu já escuro, com nuvens densas e tons profundos de azul e cinza. Velas flutuantes espalhavam uma luz dourada e quente pelas longas mesas, iluminando rostos e pratos que surgiam magicamente. O cheiro de pão fresco, carne temperada, ervas e algo doce ao fundo preenchia o ar, misturando-se ao burburinho animado de vozes e talheres.

Sentaram-se à mesa da Sonserina. Kahrir se serviu com calma, sentindo o calor do banco de madeira e o contraste agradável com o frio que ainda grudava nos corredores.

— Definitivamente — respondeu ela quando Adrian comentou sobre o dia.

Ele riu baixo, pegando um pedaço de pão.

— Eu diria que foi acima da média. E nem precisamos explodir nada em Poções.

O salão vibrava com uma energia contida — vozes cruzando, risadas baixas, o som constante de uma sala cheia de alunos ainda processando o primeiro dia. O teto encantado continuava mudando devagar, como se acompanhasse o ritmo da noite que se aproximava.

Kahrir sentiu o pingente no bolso. Ele já não reagia. Estava simplesmente presente — silencioso, integrado, como uma peça que agora pertencia ao dia que chegava ao fim.

Quando terminaram de comer, levantaram-se com os outros alunos. O ar fora do salão era mais frio e silencioso. Tochas ao longo das paredes lançavam uma luz quente e instável, criando sombras longas nos corredores. O som dos passos ficou mais perceptível, e as conversas se apagavam à medida que os alunos seguiam para seus salões comunais.

Quando chegaram à entrada do salão comunal da Sonserina, a atmosfera mudou novamente. O ar úmido e mais frio das masmorras os envolveu, junto daquela luz esverdeada suave refletida nas paredes de pedra. O salão comunal estava calmo — alguns alunos conversavam baixo, outros organizavam os materiais para o dia seguinte. O fogo na lareira crepitava suavemente, lançando um brilho acolhedor sobre os móveis verdes e prateados.

Adrian parou por um momento na entrada.

— Certo… encerrando oficialmente o primeiro dia.

Olhou para Kahrir com um meio sorriso.

— Sobrevivemos.

Kahrir entrou no salão comunal sentindo o peso leve do dia se acomodar ao redor dela. Tinha a varinha, as primeiras aulas, um aliado em quem confiava e um mistério que mal começara a tomar forma — junto de um objeto que claramente não havia aparecido por acaso.

A noite se estendia à frente, silenciosa e profunda. O castelo parecia respirar mais devagar, como se concedesse descanso antes do que quer que viesse a seguir.

O primeiro dia de Kahrir em Hogwarts terminou não com simplicidade, mas com a sensação clara de que algo muito maior havia começado.