Kagamine Twins
22 Plano
Notas iniciais
Eu nem sei explicar direito o que aconteceu depois. Kaito e eu saímos correndo de dentro da sala, indo para os fundos do colégio. Por favor, que nada de ruim tenha acontecido. Eu sentia o meu coração apertado e tinha urgência em achar a Rin.
Quando estávamos chegando ao local eu não agüentei mais e gritei, chamando por ela. Se tudo estivesse bem ela me responderia. Mas o silêncio que se seguiu só serviu para me deixar mais e mais assustado.
Rin estava deitada no chão, com a cabeça no colo de uma garota que eu não conhecia. Eu já estava pronto para gritar e tirar a tal garota dali quando notei que ela estava chorando, chamando pela Rin e dizendo para ela agüentar firme.
Estava ficando sem ar. Achei que fosse desmaiar. Kaito me segurou pelo braço e me manteve de pé.
– Se acalme e analise direito a situação. – Kaito disse.
Piko estava com ele e olhava horrorizado o que tinha acontecido com a minha irmã.
– Me desculpe Rin-chan. A culpa é minha. Por favor, me perdoe. – A garota repetia várias e várias vezes, enquanto chorava copiosamente.
Nos aproximamos deles e eu me ajoelhei perto da Rin.
– Len-kun... – A loira me chamou. – Me perdoe. A culpa é minha! – Ela começou a chorar mais.
Não disse nada. Não queria falar com ninguém. Fiz um movimento para pegar a Rin, mas Kaito me impediu.
– Eu entendo o que você está sentindo, Len, mas é arriscado levantar a Rin agora. A gente não sabe o que aconteceu e até que ela acorde não podemos saber o que fizeram com ela...
– Rin-chan... Me desculpe... – Piko tinha se ajoelhado ao lado da loira e chorava junto com ela.
Aos poucos, Rin abriu os olhos. Quando seus olhos encontraram meu rosto ela sorriu.
– Len-nii... – Ela sorriu.
Ela mesma começou a se levantar. Parou um pouco e pareceu sentir dor no lado do corpo.
– Precisamos levar ela para a enfermaria. – A loira disse.
– Eu posso... – Piko começou a dizer, mas eu o interrompi.
– Eu vou carregar ela.
Minha voz saiu mais fria do que eu pretendia. Mas eu não podia evitar. Estava com muita raiva naquele momento.
Piko abaixou a cabeça e concordou.
– Desculpe.
– Rin, agüente um pouco, ok? Já, já estaremos na enfermaria e a dor vai passar.
– Len-nii... O meu cabelo... — Ela disse.
Notei então o que tinham feito. Cortaram o cabelo dela. Aquele cabelo longo que ela cuidava com tanto afinco. Estava curto. Um pouco mais comprido que o meu, talvez, mas ainda assim curto. E todo torto. A tesoura tinha ficado no chão, por baixo de algumas mechas do cabelo que tinha sido cortado.
– O importante é que você está bem... – Disse.
– Tudo bem se eu acompanhar vocês? – A garota loira perguntou.
– Não interessa se você quer nos acompanhar ou não. Até que você explique tudo o que viu, você não vai sair de perto da gente. – Kaito disse.
Poucas vezes eu tinha visto o Kaito tão bravo como ele estava naquela hora. Ele não estava gritando, nem esbravejando. Ele estava calmo e frio. E isso era também assustador.
– Piko, você também tem explicações pra dar. Não se atreva a dar um passo para longe de nós. – Kaito ameaçou.
O garoto de cabelos prateados só fez que sim com a cabeça.
Com todo o cuidado do mundo, tirei a Rin do chão. Ela fez uma expressão de dor, mas depois sorriu.
– Agüente só mais um pouco, ok?
– Ok... – Ela respondeu. – Len-nii... Não foram eles.
Fiquei em duvida sobre o que a Rin queria dizer. Mas era mais importante levá-la logo para a enfermaria.
...
Quando chegamos à enfermaria, Kaito foi explicar a situação para Merli-sensei, a enfermeira da escola. Enquanto isso, eu deitava Rin numa das camas.
Merli-sensei se aproximou.
– Bom, meninos, agora deixem comigo. Eu vou dar uma olhada na Rin. Mas isso não quer dizer que ela não deva passar num hospital assim que possível. Len, você pode ligar para os seus pais?
– Claro Merli-sensei.
Fomos todos para fora. Era hora das explicações.
– Ok, primeiro você. Quem é você? O que estava fazendo com a Rin? Como chegou antes de todo mundo? – Despejei as perguntas uma atrás das outra.
– Meu nome é Lily. Sou aluna do 3° ano. Eu que pedi para Rin me encontrar atrás da escola porque queria conversar com ela. Quando cheguei, três meninas de mascaras pretas passaram correndo por mim e quando eu cheguei vi a Rin caída no chão. Eu já sabia que a Rin estava sofrendo bullying... Aliás, toda escola comenta sobre isso. Eu queria dizer pra ela que ela podia ter em mim uma amiga e que qualquer coisa que ela precisasse, podia contar comigo.
– Sua vez Piko. Conte a sua história. – Kaito se dirigiu a ele.
– Bem, estávamos no inicio da hora do almoço e Rin e eu estávamos levando o material que Miriam-sensei tinha solicitado quando um garoto veio nos dizer que tinha uma menina do 3° ano que queria falar com a Rin. Como a Rin estava ocupada com as tarefas e parecia ser importante, disse para ela que eu terminaria sozinho e que ela podia ir.
Levei os materiais até a sala quando vi pela janela três meninas no pátio indo para os fundos da escola e colocando mascaras. Não consegui ver quem eram, desculpe. Mas o cabelo de uma delas era preto. Enfim, devido aos últimos acontecimentos eu logo liguei os fatos e percebi que aquilo era uma armadilha, provavelmente para a Rin. Então, saí a procura de vocês dois, mas não os encontrei em lugar nenhum. Foi quando ouvi vozes de dentro da sala de kendo, que deveria estar desativada. Primeiro, pensei que fosse algum casal dando uma escapada, mas depois consegui perceber que as vozes eram de vocês dois. O resto, vocês já sabem...
Coloquei a cabeça entre as mãos e fechei os olhos.
– Eu estou realmente preocupada com a Rin-chan. Len será que você poderia me passar o seu n° de celular para que eu possa ter noticias dela mais tarde? – Lily disse.
– Hã? Ah, claro... Tudo bem. – Passei o numero para ela e ela foi para aula.
Assim que Lily se afastou de nós, Piko fez uma expressão muito sombria.
– Depois me contem como ela está, ok? Vou para aula. – Piko deu as costas mas logo se virou de novo. – Kaito-senpai, se importa de ir falar comigo na saída? Sozinho?
Kaito me olhou e depois olhou de volta para Piko.
– Tudo bem, eu vou.
– Eu vou buscar as coisas dela na sala. Já volto. – O garoto foi se afastando até que sumiu.
– Suspeito... – Eu disse.
– Muito. – Kaito retrucou.
Merli-sensei nos chamou de volta para dentro da enfermaria.
– Está tudo bem com ela, alguns hematomas nos pulsos, costas e na lateral do corpo mas não tem nada quebrado. Ela só parece bem cansada. Deve ter passado maus bocados.
– Eu não sei... Não estava com ela...
– Bom... Leve ela num hospital para fazer um exame mais completo. Vou escrever uma dispensa das aulas para você e para ela.
– Bom, eu vou ficar pra ver o que acontece em seguida. – Kaito disse.
Assenti com a cabeça e murmurei um agradecimento por ele ter me acompanhado.
Rin reapareceu, sorrindo levemente. O cabelo mal cortado caia desparelho acima dos ombros e nos pulsos já começavam a aparecer marcas roxas. O uniforme estava todo amassado e sujo de grama e terra. Aquela imagem cortou meu coração. Não era culpa do Piko que tinha deixado ela ir e nem da Lily que tinha se atrasado. A culpa era minha. Por amar ela tanto que não consigo ficar longe. Me perdoe, Rin.
Piko voltou com as coisas da Rin. Quando ele olhou o estado em que ela estava um misto de raiva e culpa passou pelos olhos dele e deixou seu semblante carregado.
– Fique melhor, Rin. – Ele abraçou ela e ela o abraçou de volta.
Vi que ela murmurou alguma coisa para ele, mas não ouvi o que.
Minutos depois estávamos em um táxi indo para o hospital. Nossos pais não tinham como sair do trabalho no momento. Até em outra cidade eles estavam. O jeito foi ir de táxi.
Durante todo o caminho até o hospital, Rin ficou calada. Algumas vezes eu tentava conversar com ela, mas ela me respondia com monossílabas e isso meio que inviabilizava a nossa comunicação. Quando estávamos quase chegando ela se virou e finalmente falou direito comigo.
– Len... Por favor. Se perguntarem, diga que eu cai na educação física no meio de um jogo. Por isso os hematomas. Por favor...
Eu não conseguia entender a necessidade da Rin de esconder que tinha sido agredida, mas não era eu quem deveria tomar essa decisão. Por mais que eu achasse que ela estava errada, eu precisava respeitar a decisão dela.
– Tudo bem, eu deixo que você fale.
Ela me sorriu em agradecimento.
Entramos no hospital e logo uma das enfermeiras que estava passando nos reconheceu e veio até nós.
Era uma mulher mais velha, devia ter em torno de uns 50 anos.
– Rin-chan!! Como você está?? Aconteceu alguma coisa?
– Bem, eu tive um pequeno acidente na escola e vim ver se está tudo bem. – Rin respondeu.
– Claro, claro. Acompanhe-me. – A enfermeira sorriu e já ia levando a Rin quando me viu.
– Len-chan! Como você cresceu! Nossa, já é um rapaz feito. Está tão bonito. Veio acompanhar a Rin?
–É... – Respondi meio sem graça.
– Bom, já que está aqui porque não faz um check-up? Eu sei que fazem anos que você foi liberado, mas não custa nada de vez em quando, né?
Liberado? Como assim? Liberado de que? Aquela informação tinha me deixado confuso, mas antes que eu pudesse responder a enfermeira já tinha encaminhado a Rin para ir com outra pessoa enquanto ela me atendia.
– Vamos lá, Len-chan. Ah, como é bom te ver de novo. Sabe, fui eu que cuidei de você enquanto você se recuperava aqui no hospital.
– Ah, entendo...
Me recuperava? A história estava cada vez mais misteriosa.
– Depois que você recebeu alta, eu passei a cuidar da Rin-chan. Ninguém poderia imaginar que ela iria reagir tão mal ao transplante de rim. Sabe, quando vocês nasceram foi como se o destino quisesse que você tivesse nascido com os rins inoperantes. Não que isso seja uma coisa boa, claro. É muito triste pensar num bebezinho deficiente. Mas... Graças a Rin-chan, que te doou um rim, você não só sobreviveu, mas abriu precedente para outros transplantes de rim em recém-nascidos. Se você imaginasse quantos bebês já foram salvos, tudo porque vocês dois nasceram da forma como nasceram... Oh, mas eu estou falando demais. Estenda o braço e feche a mão, por favor.
Enquanto ela fazia a coleta de sangue, os meus pensamentos estavam a mil.
Quer dizer então que quando eu nasci meus rins não funcionavam e a Rin era saudável? Que por ela ter me doado um rim, eu estava vivo e bem? Que na realidade, a culpa de ela ter ficado praticamente a vida toda internada era minha? E que eu, na minha ignorância e ingratidão tinha abandonado ela a própria sorte no hospital só porque achava um saco ter que ir??
Com que direito eu digo a ela que a amo? Eu... eu...Eu arruinei a vida dela... Eu e só eu. Agora, por minha culpa, ela estava sendo vítima de bullying, tudo porque eu amo ela... Isso não é justo...
Porque eu tinha que estar vivo? Tudo que eu faço é desgraçar a vida da pessoa que eu amo... Mas... Se eu sou o causador de tudo isso, eu mesmo tenho que resolver essa situação. E eu já tenho idéia de como fazer isso.
Só resta saber... se a Rin vai aceitar o que eu tenho em mente.
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