Kagamine Twins
23 Culpa
Notas iniciais
Dizem que a noite é sempre mais escura antes de amanhecer. Então, quanto falta para o sol raiar?
Não consegui dormir direito. Cada vez que eu pegava no sono, mãos sem dono me agarravam e eu revivia o momento em que meu cabelo foi decepado. E então eu acordava, abafando o grito com o travesseiro. Ofegante, assustada. Assustada e sozinha. E novamente as lágrimas.
Eu não sei exatamente quando, mas braços carinhosos e trêmulos enlaçaram meus ombros e me puxaram, deixando-me sentada. Minha cabeça encostou em um peito onde o coração batia descompassado e ali eu me senti a vontade para chorar. E eu finalmente chorei a dor do que passei naquela tarde, soluçando tal qual uma criança. Aquele choro que vem lá do fundo, que dá um nó na garganta e que parece que seu coração está se rasgando.
Len esperou pacientemente que eu me acalmasse. Não sei quanto tempo ficamos ali. Quando finalmente as lágrimas secaram e eu só fiquei soluçando, Len levantou meu rosto e cobriu-o de beijos. Beijou meus olhos, minhas bochechas e enfim minha boca. Lentamente, num selinho terno. Abri meus olhos para encará-lo. Foi difícil de ver só com a iluminação da lua entrando pelas frestas da janela. Ele estava chorando.
– Len...
– A culpa de tudo isso é minha. – Ele me disse. Sua voz estava tão sofrida e seus olhos tão cansados que eu imaginei que ele também não tinha dormido ainda.
Fiz que não com a cabeça. A culpa não era de ninguém.
– É sim. De tudo. Toda a sua dor, todo o seu sofrimento, é tudo minha culpa.
De repente me dei conta que talvez ele não estivesse falando só do que tinha acontecido naquela tarde. Algo no fundo da minha alma me disse que era outra coisa que estava atormentando ele. Guardei a minha dor dentro do coração e voltei-me para os problemas do meu irmão. Eu já tinha chorado nos braços dele e isso tinha amenizado o meu sofrimento. Agora era minha vez de cuidar um pouco dele.
– Len... Do que você... – Mas eu não consegui terminar a frase.
Len me segurou pelos ombros e olhou no fundo dos meus olhos. O que eu vi foi uma angustia sem fim.
– Porque ninguém nunca me disse nada?? Porque me deixaram no escuro durante 15 anos? 15 anos!!
Eu confesso que fiquei um pouco assustada. Respirei fundo e pedi calmamente.
– Len, eu não estou entendendo. Me explica melhor do quê você está falando.
– Hoje a tarde, no hospital, aquela enfermeira me contou...
– O que?
– O motivo de você ter ficado todo esse tempo no hospital. Foi por minha causa.
Então, eu entendi do que ele estava falando. Aquela angústia, aquela dor, era o reflexo de ter sido mantido no escuro durante 15 anos sobre algo tão importante. Eu sempre achei que o Len tinha o direito de saber das circunstâncias do nosso nascimento. Não achava justo que escondessem algo tão importante dele.
– Rin, por minha culpa você passou a vida toda no hospital. Não bastasse isso, eu te abandonei. Simplesmente te larguei lá e preferia fingir que você não existia. E agora você está sendo maltratada no colégio por minha culpa! Me diz, com que direito eu digo que te amo?? Eu, o causador de todas as mazelas da sua vida! O meu nascimento te deixou presa numa cama de hospital por 15 anos! O meu amor por você despertou a ira de pessoas que nem te conheciam e que te agrediram sem te dar chance de defesa. É tudo, tudo porque eu existo...
A medida que Len foi falando as lágrimas começaram a correr em profusão. Ele segurava os meus ombros com força e a intensidade com que me olhava deixava claro o sofrimento pelo qual ele estava passando. Os braços dele tremiam.
Eu tinha que dar um jeito de acalmá-lo, mesmo com a minha própria mágoa e angustia ainda tão latente. Se eu não dissesse a coisa certa agora, Len poderia passar a vida inteira se culpando por algo que ele absolutamente não tinha culpa.
– Eu agradeço todos os dia que você existe, Len. – Encarando os olhos dele, eu falei o mais calmamente que eu consegui. – Você não tem culpa do que aconteceu e eu me sinto a pessoa mais sortuda do mundo por ter podido te doar um rim. Se não fosse por isso você teria morrido e eu estaria sozinha.
– Mas você ficou sozinha por 15 anos! – Ele me disse, exasperado.
– Mas valeu a pena. Agora estamos os dois aqui. E de certa forma, eu sempre estive com você. Aqui. – Encostei no corpo dele onde eu imaginava fica o rim.
– Rin... Aí é o estômago. – Ele sorriu um pouco.
Eu ri.
– Seu bobo, você entendeu o que eu quis dizer.
– Eu sinto muito pelo seu cabelo. – Len passou uma das mãos pelas mechas mal cortadas.
– Não sinta. Era só cabelo. Mas é uma pena... Agora eu não pareço mais uma princesa...
– Como assim?
– Então você não se lembra?
– Do que? – Len me perguntou desconfiado.
– Bem, quando nós éramos beeem crianças uma vez você me disse que gostava de meninas de cabelo comprido porque elas pareciam princesas. Então eu disse que deixaria o meu cabelo beeeem comprido e você me prometeu que quando isso acontecesse você viria me buscar montado em um cavalo para irmos embora do hospital.
Len ficou vermelho e baixou a cabeça, escondendo os olhos sob a franja.
– Eu nunca diria uma coisa dessas...
Eu só sorri. Então bocejei.
– Acho que é melhor eu voltar pro meu quarto...
– Fica aqui. – Puxei ele pelo pijama.
– Tá...
Conversamos mais algumas coisas antes de dormir. Até que o sono foi mais forte.
Ainda bem que nossos pais não voltaram para casa naquela noite. Nós dois nos ajeitamos na minha cama e dormimos abraçados. E durante todo o resto da noite eu não tive mais nenhum pesadelo.
Fui sozinha para aula no dia seguinte. Len achou que eu deveria ficar em casa, mas isso seria uma atitude derrotista e eu não estava derrotada.
Chegando na escola uma garota alta, loira e com cabelo muito compridos veio falar comigo.
– Rin-chan! Que bom que você está bem! Graças a Deus...
– Desculpe... E deveria conhecê-la?
Ela pareceu ficar meio desconfortável.
– Que grosseria a minha... Meu nome é Masuda Lily. Mas pode me chamar só de Lily. Eu que pedi que você me encontrasse ontem. Eu sinto muito pelo que aconteceu. Acabei me atrasando para te encontrar e quando cheguei... Bem... O que eu queria te dizer ontem é que se você precisar de qualquer coisa, pode me pedir. Eu imagino o quanto a sua situação deve ser difícil...
– Ah... Obrigada... – Disse por pura educação.
– Se você quiser eu posso ajeitar o seu cabelo antes da aula começar. O que você acha?
Inconscientemente passei a mão no meu cabelo, notando o quão curto estava.
– Não vai ficar muito curto? – Perguntei, olhando para o chão.
– Não, não. Vou só emparelhar ele. Tem algumas partes mais compridas que outras e está estranho.
– Tudo bem então.
– Ótimo, vamos na minha sala então.
Lily segurou a minha mão e me levou até a sala dela. Chegando lá vi que só tinha mais duas pessoas dentro da sala: Uma garota de longos cabelos loiros ondulados e olhos dourados estava sentada em cima da mesa, segurando um coelhinho. O outro era um rapaz de cabelos roxos muito compridos. Ele estava de olhos fechados e encostado na parede próxima de onde a garota estava sentada.
“Mas o que diabos tem de errado com a sala do terceiro ano? Será possível que todos eles são altos e tem cabelos compridos?” Pensei.
– Mayu, Gakupo, essa é a Rin-chan. – Lily sorriu para eles.
A garota (que eu presumi se chamar Mayu porque eu DUVIDO que o cara se chame Mayu) saltou de cima da mesa, correu até mim e me agarrou. Um legitimo abraço de urso.
– Pobre Rin-chaaaaan! Sofrendo com os ataques de pessoas desconhecidas. A pobre mártir do primeiro ano!! Mas fique tranquila! Como presidente do conselho estudantil é meu dever te proteger...Até a formatura.
– Ahn... Uhn... Obrigada... – Respondi meio sem jeito e achando que ela tinha quebrado minhas costelas.
– Hm... Tive uma ideia. Vou anunciar pela rádio da escola que o Conselho Estudantil repudia qualquer tipo de bullying e que quem for pego praticando tal ato será punido pela presidente em pessoa! – A garota sorriu de uma forma maléfica e de repente estava segurando um machado.
– Não acho que matar alguém vá resolver o problema. – O garoto de cabelo roxo disse.
“Uaaaa! Ele parece um modelo.”
– Rin-chan, esse é Kamui Gakupo. Ele era o capitão da equipe de kendo.
Kamui-kun fez uma leve reverência.
– Sabe, eu também não concordo com isso de um grupo de pessoas se juntar para maltratar alguém. Se precisar de alguma coisa, pode vir falar comigo. – Ele sorriu levemente.
Senti meu rosto ficar quente. Ele era muito bonito.
– Bem, Rin-chan, senta aqui nessa mesa pra que a altura fique boa para cortar. – Lily disse.
Enquanto Lily ajeitava meu cabelo, Mayu veio falar comigo.
– Sabe, eu sempre te vi passar por aí com aquele cabelão e me perguntava como você não tropeçava nele.
– Ah, mas o seu cabelo também está bem comprido. – Eu respondi.
– Mas o seu era lindo de se ver. Vai deixar crescer de novo?
– Talvez. Não sei... Demorou para ele ficar daquele jeito...
– Mas você continua muito fofa. Mesmo com o cabelo curto. – Mayu sorriu, mas de uma forma meiga. Será que eu tinha imaginado aquele sorriso sinistro de antes?
– Prontinho. – Lily disse.
– Vamos no banheiro para você ver como ficou – Mayu pegou a minha mão e saiu me arrastando para o banheiro. Lily nos acompanhou.
– Eu espero aqui... – Kamui-kun disse-nos.
No caminho, passei pelo Kaito. Ele estava acompanhado pelo Piko-kun. Não disseram nada quando me viram passar. Admito que fiquei magoada.
O cabelo estava arrumado, como se eu tivesse cortado curto de propósito. Ainda era possível prender...
– Obrigada. – Olhei para Lily e me forcei a sorrir.
Lily me sorriu de volta e me abraçou. Depois, me segurou pelos ombros e sorriu fechando os olhos.
– Você está entre amigos agora. Sempre que precisar pode vir falar comigo ou com a Mayu lá na sala do terceiro ano. Nós vamos cuidar de você.
– Ah! Agora, eu tenho que me apressar e colocar logo a minha ameaça no ar! – Disse a Mayu. – Vá logo pra sua sala, Rin-chan. Não quero te ver correndo pelos corredores!
– Okay.
– Vamos, eu te acompanho.
Lily e eu caminhamos em silêncio em direção à sala do primeiro ano. Confesso que eu estava com um pouco de medo de ver o que me aguardaria por trás daquelas portas.
Fale com o autor