Kagamine Twins
10 Manhã
Notas iniciais
Meiko estava certa. Como sempre, aliás. Porque as pessoas mais velhas tem essa mania estúpida de estarem sempre certas?
Ontem quando cheguei em casa fui direto para cama. Não quis jantar. Olhando o teto, lembrei-me do que tinha conversado com a Meiko depois que a Rin saiu da sala com o Kaito.
Meiko: Len-chan...
Len: Meiko, você não entende. Nunca vai entender.
Meiko: Quem não entende é você. Tem tanto medo de perder a Rin-chan que acha que colocando-a numa redoma de vidro vai protegê-la mas a unica coisa que você esta fazendo é impedindo-a de viver e se fortalecer e nessa tentativa fraca e egoísta você se cega para tudo, até para o que a própria Rin quer ou tem a dizer.
Len: Ela é outra que não entende nada do que eu sinto.
Meiko: O que ela não entende? A dor de achar que vai poder viver como uma pessoa normal e de uma hora para outra ter tudo isso tirado de você? A solidão de esperar alguém que nunca vem? A tristeza de chorar sozinho durante a noite? Ela entende, Len. Melhor até do que você.
Não tinha como revidar. Ela estava certa e eu só estava sendo egoísta.
Len: Eu sei que estou sendo egoísta e até mimado ao querê-la só para mim, mas o que eu posso fazer?O meu coração fica apertado quando não estou com ela e o meu pensamento está nela a todo momento, seja na aula ou onde quer que eu esteja...
Meiko: Eu entendo que você se preocupe com ela mas a Rin-chan não é um pássaro. Você não pode mantê-la numa gaiola. Se quiser vê-la bem, tem que deixá-la livre para aprender, para ver e experimentar o mundo com os próprios olhos.
Assenti com a cabeça.
Len: Talvez eu só não esteja sabendo como lidar com isso tudo. O que fazer para que ela não vá embora de novo...
Meiko: Ela só precisa que você esteja perto dela, para ensinar a ela o que ela não sabe e ajudá-la no que tem dificuldade.
Len: Tem certeza de que isto basta?
Meiko: Como posso ter certeza de alguma coisa? Eu não sou a Rin-chan e nem tenho como prever pelo quê vocês irmão passar. Mas penso que este pode ser o melhor jeito. E a cima de tudo, Len-chan, não se esqueça de que ela é sua irmã.
Len: É claro que eu sei disso e é por isso mesmo que me preocupo com ela.
Meiko sorriu.
Meiko: Que bom. Agora vamos comer esse bolo que eu e a Rin-chan fizemos.
Tomamos o lanche em silêncio. Depois fui para o quarto do Kaito buscar a Rin. Nós dois voltamos em silêncio para casa. Não consegui nem ao menos segurar a mão dela. Acho, sinceramente, que nem conseguirei encará-la enquanto não pedir desculpas pelo meu comportamento.
Na manhã do dia seguinte minha mãe bateu na porta do meu quarto.
Reina: Len-chan. Poderia chamar a Rin e vir para sala. por favor? Estamos esperando.
Estamos? Ela e o papai? Shiii... Aí vem coisa. Para eles nos chamarem assim, de manhã, para conversar, boa coisa não deve ser.
Levantei e troquei de roupa. Fui até a porta do quarto da Rin e bati. Gozado, não tinha notado que na porta do quarto dela tinha uma bananinha com o nome dela. Que fofo. Isso parece combinar muito com ela.
Len: Rin, estamos sendo chamados na sala;
Sem resposta. Será que eu deveria entrar? Bater na porta mais forte poderia assustá-la... Decidi entrar.
Rin estava toda enroscada nas cobertas, usando um pijama comprido,amarelo. Dormia abraçada numa banana de pelúcia. Essa minha irmã é mesmo uma gracinha. Meu coração pareceu se esquentar, enchendo-se de ternura por ela.
Me aproximei e passei a mão pelo seu rosto. Tirei o cabelo de perto de sua orelha, me aproximei e sussurrei.
Len: É hora de levantar, sua dorminhoca.
Ela se mexeu na cama, se espreguiçou, respirou fundo e só então abriu os olhos.
Len: Bom dia. — Sorri para ela.
Rin: Len-nii, bom dia..- Ela sorriu para mim com sua carinha de sono.
Len: Nossos pais nos esperam lá embaixo. Parece que tem algo a dizer. Troque-se e vamos lá. Estou te esperando no corredor.
Saí do quarto dela e fui para o corredor. Enquanto esperava, me lembrei do rostinho dela dormindo.Eu tinha agora mais uma boa lembrança só minha. Ao pensar nela, meu coração ficava apertado. Eu gosto muito dela. Como irmã...né?
Rin: Len-nii, você não pode entrar no quarto de uma menina enquanto ela dorme. — Rin tinha saído do quarto. Estava usando uma calça e uma camisa. Ambas pareciam largas de mais.
Len: Eu bati na porta mais você dorme tão profundo que nem me escutou. Aliás, acho que essa roupa é minha...- Disse, reconhecendo a calça.
Rin: Ah, desculpa. Isso estava no meio das minhas coisas então achei que fosse meu.
Len: Que seja, Dona Pedra. Agora vamos que nossos pais estão nos esperando.
Rin: Ah! Porque Dona Pedra?
Len: Porque você dorme que é uma rocha! — Sorri e disparei escada abaixo.
Rin: Não durmo não!! — Ela correu atrás de mim.
Por estar usando roupas muito largas acabou tropeçando na barra da calça, no meio da escada. A sorte dela (e minha também) foi que eu ouvi quando ela tropeçou e me virei para segurá-la.
Len: Não corre nas escadas. Mas que coisa...
Rn: Desculpe.
Nós dois descemos e fomos para sala. Chegando la encontramos nossos pais sentados em um dos sofás. Olhei para Rin e percebi no seu olhar a pergunta: O que está acontecendo? Só pude olhá-la com cara de: Sei lá...
Soichiro: Bom dia, crianças. Dormiram bem?
Len: Crianças? Pai, você sabe que já fizemos 15 anos né?
Reina: Isso mesmo,Soichi. Eles não são crianças. — E se dirigindo a nós. — Agora,sei que é repentino mas seu pai e eu sairemos em viagem daqui a dois dias.
Rin: Viagem?
Soichiro: Isso. Nós estamos planejando essa viagem há bastante tempo. Mas gostaríamos de saber o que vocês acham...
Len: Acho que vocês não devem viajar agora. Pronto, falei.
Reina: Por quê?
Len: E se acontecer alguma coisa com a Rin, como é que fica?
Reina: É só por uma semana e caso aconteça alguma coisa você só precisa ligar para o hospital.
Len: Então para vocês é fácil assim abandonar alguém doente?
Rin: Um momento, Len-nii. Você pode até não querer que eles viagem mas não me use como justificativa. E mais, eu não sou doente. Eu estive, por um longo tempo, doente. Mas agora não estou mais. Estou melhorando dia após dia e essa sua super proteção está me dando nos nervos. Porque você não consegue me enxergar como uma pessoa normal?!
Todos olhamos atônitos para Rin. Até o momento ela nunca tinha explodido como fez agora.
Soichiro: Então... Você não se importa, Rin-chan?
Rin: Claro que não. Não quero que vocês se privem de coisas que gostariam de fazer por minha causa. Eu vou ficar bem.
Reina: Bem, então agora só falta...
Todos olharam para mim, como que cobrando uma resposta. Como que eu virei o vilão da história? Eu só estava pensando no bem dela,mal agradecida.
Len: Tá, que seja... Podem ir.
Reina: Oba! — Ela e meu pai se abraçaram.
Rin: E para onde vocês vão?
Soichiro: Havaí.
Rin: Waaa! Que legal!
Não quis continuar ouvindo aquilo. Fui para cozinha tomar café.
Fiquei no meu quarto de tarde, jogando. Ouvi uma fraca batida na porta, era a Rin.
Rin: Eu...queria conversar um pouco.
Len: Hm...tá...
Que situação desconfortável. Sentei na cama e ela sentou do meu lado.
Len: Antes d...você começar eu queria pedir desculpas. Tanto por hoje de manhã quanto por ontem a tarde.
Rin: Tudo bem... Eu entendo que você se preocupe comigo e isso até me deixa muito, muito feliz. Masas vezes isso se manifesta de forma exagerada... Eu tenho capacidade, eu posso fazer as coisas... Acredita um pouco mais em mim, por favor.
Len: É que eu tenho muito medo de te perder. — Não conseguia desviar meu olhar do dela. Acariciei seu rosto e coloquei uma mexa de cabelo dela para trás da orelha. — Eu, hoje, não saberia como ficar sem você.
Rin: Não vai ficar. Eu estou sempre com você, Len-nii. Sempre. Mesmo que não seja de corpo presente, o meu pensamento está sempre em você. Uma parte minha está aqui dentro para sempre. — Ela tocou meu peito. — Acredita em mim.
Aquele tom de suplica dela dilacerava o meu coração. Tomei-a em meus braços, abraçando-a como se ela pudesse se desmanchar ali, na minha frente.Ela me abraçou também, colocando o rosto no meu pescoço. Ficamos assim por algum tempo.
Len: Só... Me dá um tempinho pra que eu me acostume com tudo isso.
Rin: O tempo que você precisar. — Ela se afastou um pouco dos meus braços para me olhar e sorriu.
E eu só consegui sorrir de volta. Aliás, depois que ela saiu do quarto, sorrir foi só o que eu consegui fazer, como um bobo.Talvez essa viagem não fosse tão ruim assim afinal ficaríamos sozinhos por uma semana.
Uma semana...
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