Kagamine Twins
1 Kagamine
Quantas pessoas existem no mundo? Durante a nossa vida conhecemos várias. Pessoas vêm e vão. Algumas ficam um pouco. Outras, muito. Sendo assim, qual a chance de nos apaixonarmos por alguém que fique para sempre? Ou pelo menos bastante... Mas quanto é bastante?
Cada vez que um coração é partido, dói. Mesmo que a pessoa diga que não, a verdade é que bem lá no fundo uma ferida foi criada. Agimos com intuito de proteger nosso coração, buscando sempre situações que não ofereçam riscos aos nossos sentimentos. Mas o que nos faz tão tolos a ponto de confiar nosso bem mais precioso a alguém que a qualquer momento pode partir e ferir nosso coração?
Acontece que os seres humanos não escolhem por quem se apaixonam. Simplesmente acontece. De repente o nosso objeto de afeição começa a se apossar dos nossos pensamentos a ponto de não se passar um dia sem que nos lembremos ou nos preocupemos com ele. E sem perceber acabamos querendo estar com essa pessoa o maior espaço de tempo possível, dividir experiências, conhecimento, situações... Carinho.
A psicologia, sob uma abordagem cognitiva quanto à construção da personalidade, nos diz que o amor nada mais é do que (falando a grosso modo) uma reação a algo que nos é positivo e vantajoso. Ou seja: queremos ficar com uma pessoa pois obtemos mais benefícios com ela do que com outras. Mas que vantagem um amor que vai contra as regras da sociedade e recriminado por todos pode trazer?
Era inverno quando aconteceu. Um dia extremamente feliz para a família Kagamine. Finalmente, após longa espera, a bolsa havia se rompido, anunciando a chegada dos mais novos integrantes da pequena família.
Nenhum dos dois tinha família: Nem ela e nem ele. E justamente por isso o nascimento dos gêmeos era aguardado com tanta expectativa e felicidade. Estavam formando uma família. Podia ser pequena, mas com o passar dos anos ela com certeza iria crescer. Os Kagamine se certificaram de juntar certa quantia para que a base dessa família fosse forte e perdurasse. Além disso, é claro, iriam passar os valores e crenças que tinham para essas duas crianças.
Os nove meses de planos e sonhos tinha chegado ao fim. A espera tinha terminado. E a emoção que eles sentiram quando a bolsa se rompeu multiplicou-se ainda mais quando o choro da pequena menina invadiu a sala e parto e escorreu para dentro dos ouvidos dos pais de primeira viagem que sentiram seus corações cheios de amor e ansiedade.
Passado algum tempo a jovem mãe notou que as contrações pararam, mas ela ainda tinha mais um bebê em seu ventre. O pânico se instalou em seu coração. Não queria ter que abrir mão de um de seus tesouros. Ela sonhou com aquilo por nove longos meses. Não queria ver os planos e expectativas que tinha criado para aquela criança indo por água abaixo. Não queria, não queria... E foi o seu querer e a injeção de hormônios que a enfermeira aplicou que fizeram com que as contrações voltassem. O bebê nasceu, mas com um sério problema devido ao tempo a mais que ficou dentro da barriga da mãe. Mas isso só se descobriria mais tarde.
Os bebês foram levados para outra ala do hospital, onde seriam limpos para depois voltarem para os braços cansados de sua mãe. Os primeiros momentos do nascimento dos gêmeos foram os mais felizes. Mais do que o casal jamais havia imaginado. Um sentimento quente que apertava o coração. Já se imaginavam fazendo atividades em família e outras coisas. Era um momento de sonho; Um sonho que durou pouco mais de uma hora. Ao fazer os exames de rotina, constataram que com a menina estava tudo bem, mas com o menino... O garoto nasceu com os rins mal formados e por isso não funcionariam adequadamente.
Pânico. O pai dos bebês, que foi quem recebeu a notícia já que sua esposa descansava do exaustivo parto, ficou branco. Depois de tudo que passaram o menino iria morrer?
– Existe alguma solução, doutor?
– Existe... – Disse o médico, após refletir um pouco. – Podemos fazer um transplante de rim. É de conhecimento geral que seres humanos podem viver bem com apenas um rim. Um procedimento comum em adultos e crianças, mas...
– Mas? – Perguntou o pai, aflito.
– Nunca foi feito em bebês...
– Quanto custa? Se for para o meu filho ter uma chance de viver eu pago o que for!!
– Não é uma questão de dinheiro e sim de conseguir um doador. Não se esqueça de que falamos de um bebê. E se conseguir órgãos para pacientes adultos já é difícil, para recém-nascidos então... A menos que... – Considerou o médico.
– “A menos que...” O que doutor? Pelo amor de Deus, cada minuto que perdemos aqui o meu filho fica mais perto da morte!!
– Bem... Poderíamos retirar um rim da sua filha e implanta-lo no menino. E pelos dois terem quase a mesma carga genética o risco de uma rejeição seria mínimo. – Explicou o médico.
– E os dois viveriam?
– Como eles são muito novos a chance deles sobreviverem é menor do que em pacientes mais velhos. O senhor quer arriscar mesmo assim?
O pai pensou um pouco. Pensou em sua filha, sua mulher e então em seu menininho... Resolveu entregar nas mãos de Deus.
– Faça a cirurgia, doutor. Quanto antes melhor...
– O senhor terá de assinar um termo de responsabilidade, afirmando que está ciente de que este tipo de operação é de alto risco.
– Eu assino.
O médico acompanhou o jovem pai até junto a uma enfermeira e passou as instruções para a mesma para depois ir em busca de uma equipe de pediatras, cirurgiões e uma sala para que fosse feita a cirurgia. O médico não podia negar que estava ansioso. Se a cirurgia desse certo entraria para história como o primeiro médico a realizar um transplante de rim em recém-nascidos.
O pai pegou a prancheta que a enfermeira lhe estendia. Ali estava o papel que dizia que ele estava ciente que poderia perder ambos os filhos. Ele assinou, entregou o termo para a enfermeira, sentou no banco da sala de espera, colocou as mãos no rosto apoiando os cotovelos nos joelhos e rezou. O resto, era tudo escuro.
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