Kagamine Twins
27 Choque
O que foi que aconteceu aqui? Como as coisas chegaram nesse ponto? Antes que eu pudesse perceber, já tinha estourado com o Len. Quem ele pensa que é? Acha que pode regular as pessoas com quem eu ando...
– Desculpe por isso... – Foi só o que eu consegui dizer ao Kamui-senpai.
Ele gentilmente passou a mão pelos meus cabelos, com um sorriso melancólico e um olhar que misturava tristeza e preocupação.
– Não se preocupe com isso. – Foi só o que ele me disse antes de seguir sozinho pelo corredor.
Fui recorrer à Lily. Nos últimos dias tínhamos ficado amigas e nos víamos quase todos os dias.
– Lily!!! – corri para ela sentindo lágrimas brotarem em meus olhos.
Ela prontamente abriu os braços e me abraçou.
– Agora, aprenda uma lição: Nesta escola as fofocas correm rápido então eu já sei o que aconteceu.
– Ugh... O que eu faço?
– Bem, considere isso o seu grito de independência. – Ela me afastou, me segurando pelos ombros, e sorriu. – Rin, eu sei que você é capaz de muitas coisas, mas parece que o Len está sempre querendo restringir o seu mundo. Dizendo o que você pode e o que não pode fazer, com quem você pode andar... Você pode fazer o que você quiser. Tem capacidade de tudo. Quem dá o limite do que consegue ou não é você e o seu corpo, e não o seu irmão! É hora de você se libertar, Rin, e mostrar para todo mundo quem você realmente é. Eu sei que aí dentro tem um garota cheia de energia e louca de vontade de viver então, se para botar ela para fora você precisa se afastar do seu irmão, é isso mesmo que você deve fazer. Viva a sua vida Rin-chan! Saia, se divirta, conheça outras pessoas e construa o seu próprio mundo independente do Len.
Aquela história toda de me afastar do Len me pegou de surpresa. Está certo que nós mesmos combinamos de nos afastarmos um pouco na escola para tentar fazer com que parassem de me agredir, mas... Isso é um pouco... Eu não sei como me expressar. Len faz parte do meu mundo. Ou melhor... De certa forma, ele É o meu mundo.
Quanto mais tempo eu fico deitada na cama, remoendo as palavras a Lily-chan, mais eu percebo que o teto não vai me dar nenhuma resposta... Talvez ela esteja mesmo certa e a proteção do Len-nii esteja na realidade restringindo do meu mundo e me impedindo de desenvolver as minhas capacidades plenamente. Por outro lado, Len é sempre tão amoroso comigo. Eu não posso acreditar que ele queira me impedir de viver.
De repente, uma musica ao longe começou a tocar... Hm... O que poderia ser isso? Ah! O celular! O celular está tocando! Onde ele estáááá???
Achei! Dentro da mochila da escola. Tenho que me acostumar a tirá-lo da mochila... Numero desconhecido... Quem será?
– Sim?
– Rin-chan? É Kamui Gakupo. Espero que você não se importe mas eu pedi para a Masuda-san me passar o seu numero.
– Ah, tudo bem Kamui-senpai. Como eu posso te ajudar?
– Sabe, eu ganhei alguns ingressos para o parque de diversões amanhã. Eu sei que é inapropriado fazer esse tipo de convite por telefone mas eu gostaria muito que você me acompanhasse...
–... Hm...
– Desculpe, eu estou sendo inconveniente?
– Não... não é isso...
Eu tinha planejado me desculpar com o Len amanhã... Mas... A verdade é que eu não estou me sentindo bem para olhar para ele. Ainda mais depois de tudo que a Lily-chan me fez pensar. Talvez conversar com outra pessoa me ajude a por as ideias no lugar.
– Tudo bem, Kamui-senpai. Onde nos encontramos?
– Pode ser às 09:30 na frente da estação?
– Claro.
– Ótimo, te vejo lá. E me chame de Gaku. Meus amigos me chamam assim.
– Até amanhã... Gaku...
Waaa... Eu realmente fiz isso. Mas... Eu nunca fui a um parque de diversões antes. O que vestir? O que fazer? Como me comportar?
Bem, para horas como essa eu sempre posso usar os livros de referencias que a Mayu-senpai me emprestou!
No outro dia, vesti uma roupa fofa (Pelo menos eu acho que era fofa... Saia de babado preto com rendas amarelas nas pontas, loose socks pretas com botas brancas, blusa branca com detalhes em preto e um laço amarelo e para completar, meu laço branco na cabeça. É proibido sair de casa sem ele!) e cheguei 5 minutos atrasada. Tudo conforme o livro.
Gaku já estava me esperando. Era a primeira vez que eu o via em roupas normas e eu tenho que admitir que ele estava muito bonito. Calça jeans preta com correntes prateadas pendendo delas, camiseta branca com uma estampa abstrata em roxo e uma camisa preta totalmente aberta por cima. Vários brincos e argolas pequenas estavam nas suas orelhas. Eu não sabia que ele tinha as orelhas furadas... Mas acho que ele não os usa na escola por ser contra o regulamento. De qualquer forma, eu fiquei impressionada com o que vi.
– Desculpe o atraso. Esperou muito?
Ele me sorriu.
– Não muito. Você está linda.
Senti meu rosto ficar quente.
– Obrigada. É realmente diferente encontrar com uma pessoa fora da escola. Gaku, você parece até um modelo!
Ele ficou levemente vermelho e aparentemente sem graça com o comentário.
– Quer fazer um lanche antes de irmos ao parque? – Ele perguntou.
– Não precisa. – Sorri para ele.
– Tem certeza? Você vai precisar de energia...
– Se der fome depois a gente come. – Sorri.
Eu não conseguia esconder a minha empolgação. Inicialmente eu tinha ficado meio desconfortável por sair com o Gaku apesar de tudo que estava acontecendo. Mas quanto mais eu pensava em passar o dia fora, arejando as ideias, mais eu me empolgava com a ida ao parque. E quanto mais nós andávamos nos brinquedos, mais e mais animada eu ficava. Era incrível! Uma energia que eu nunca senti antes. Foi quando eu me dei conta de algo que fez o meu coração quase parar.
– Gaku... Nós estamos em um encontro? – Olhei para ele com uma expressão preocupada.
Ele deu risada e passou a mão pelo meu rosto.
– Claro que não. Bom... Não um encontro romântico como as pessoas que estão nos vendo devem estar imaginando... Rin-chan, nós somos amigos e ontem, depois da sua briga com o seu irmão, eu fiquei preocupado com você. Eu pensei que queria que você sorrisse e não que fizesse aquela expressão triste que você fez quando Len foi embora. Então uma pessoa me deu esses ingressos para o parque e eu pensei que isso poderia levar as preocupações para longe da sua cabeça, pelo menos por algumas horas. – Ele deu de ombros e sorriu.
Não foi algo que eu estava preparada para ouvir. Fiquei sem graça e algo embolou na minha garganta. Eu queria falar, responder alguma coisa, mas as coisas que Gaku me disse sinceramente me emocionaram.
Lily tinha razão. Haviam pessoas além do Len que se importavam comigo e eu tinha que me dar a chance de conhecê-los. Enquanto ficasse restrita só ao mundo que o Len me apresentava eu nunca saberia do que sou ou não capaz.
– Eu... – Disse com a voz embargada pela emoção. – Nossa... Eu realmente... – Eu lutava para prosseguir com o que eu queria dizer, mas simplesmente não conseguia.
Eu olhava para o chão, de um lado para o outro, como se de repente as palavras que eu procurava fossem surgir ali. Mas, é claro, nada apareceu.
Gaku notou o meu desconcertamento e segurou minhas mãos.
– Rin-chan... Não só eu mas outras pessoas se importam com você.
Sorri sem graça.
– Agora vamos, já passou da hora do almoço e a senhorita precisa comer alguma coisa.
Gaku segurou a minha mão e me levou até uma lanchonete. Enquanto esperávamos nossos lanches, algo veio a minha mente.
– Gaku... Desculpe estar falando sobre isso, mas eu confesso que fiquei intrigada. Sabe... Len não é do tipo que acusa alguém sem motivos. Aconteceu algo entre vocês no passado?
– Não exatamente entre nós. Isso é algo que durante algum tempo todos falavam na escola. Não é como se isso fosse um segredo, mas...
Eu pude perceber pela sua expressão triste que esse era um assunto muito difícil para ele falar. Eu não pude fazer mais nada além de tocar-lhe as mãos e sorrir.
– Está tudo bem. Um dia, quem sabe, você consiga me contar...
Ele pareceu aliviado e me sorriu.
Nossos lanches chegaram e nós comemos conversando amenidades. E tudo parecia bem. Tudo que eu precisava era uma tarde como aquela para esfriar a cabeça. Tinha me decidido: Quando chegasse em casa eu pediria desculpas ao Len por causa da nossa briga e reforçaria mais uma vez o meu amor por ele. Essa decisão tinha deixado o meu coração leve e feliz, até um pouco ansioso por encontrá-lo.
Mas ao olhar para janela, senti minha animação espatifar-se como um espelho. Algo embolotou em minha garganta e eu não consegui segurar as grossas lágrimas que me saiam dos olhos. Podia sentir uma mão gelada agarrando meu coração.
– Rin-chan, você está bem? – Gaku se levantou e inclinou-se para frente, em minha direção.
Eu estava em choque. Lá fora eu havia visto a pessoa que eu mais amo no mundo e a minha melhor amiga juntos.
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