Notas iniciais
Rin está em apuros! Corra Len! Vá logo salvá-la!

Naquela manhã, Len me pareceu meio distante. Culpa minha, eu sei. Mas do que ia adiantar falar alguma coisa para ele? O que ele poderia fazer? Contar a situação só o deixaria preocupado. Até mesmo os professores disseram que não tem o que fazer porque ninguém sabe quem é o culpado ou os culpados, e acusar alguém sem provas poderia trazer problemas para a escola.

Suspirei e continuei a comer meu café da manhã. Len se levantou e eu olhei para ele:

– Estou indo na frente hoje.

Depois que ele saiu, meu pai (que era o único que estava na cozinha além de mim) perguntou:

– Vocês brigaram?

– Não... Mais ou menos...

Em resposta, meu pai ergueu uma das sobrancelhas. Eu já sabia que esse gesto era equivalente a um “fale-me mais sobre isso”. Suspirei.

– Len insiste que eu tenho que contar meus problemas para ele. Mas eu sinceramente não vejo no que isso poderia ajudar. Vai ser só mais uma pessoa preocupada com algo que não pode ser resolvido.

– Sabe Rin... Às vezes uma pessoa que está de fora da situação consegue ver uma solução que nós até então não vimos. Não acho que será de todo ruim conversar com alguém a respeito. Inclusive com seu pai aqui! – Ele sorriu e eu sorri de volta.

– Valeu pai.

Terminei o café, dei um beijo na bochecha dele e fui pra aula.

Chegando lá, Kaito veio falar comigo.

“Tenho certeza que isso é obra do Len.” Pensei.

– Rin-chan, se importa em dar uma volta comigo?

– É que eu queria falar com o Len primeiro. Ele veio para cá antes de mim e...

– É importante, Rin-chan. Por favor. — Kaito segurou minha mão e olhou no fundo dos meus olhos. – Por favor.

Senti minha face ficar vermelha concordei com a cabeça, dizendo que iria com ele. Kaito me levou até o telhado do prédio da escola.

La em cima, o vento era um pouco mais forte e a vista, agradável.

– Não exatamente aqui, mas a primeira vez que eu e o seu irmão nos vimos foi em cima de um telhado. – Kaito começou.

“Foi no final fundamental. Era a primeira vez que a Meiko-nee tinha ido viajar e eu estava me sentindo muito sozinho. Não tinha nenhum amigo, nada. É verdade que, pelo fato de eu ter ficado sozinho, meus colegas vinham falar comigo coisas do tipo ‘Nossa, deve ser muito legar morar sozinho. Queria mais é que os meus pais sumissem de casa’ ou ‘Como você tem sorte, Kaito... ’. As pessoas me cercavam e mesmo assim eu me sentia sozinho.

Então subi para o telhado. Toda aquela atenção me sufocava. Eles não queriam saber se eu estava bem ou como estava me sentindo. Só queriam reforçar que estavam com inveja do fato de eu ter ficado completamente sozinho. Mas sabe... Só quem realmente fica sozinho sabe como é ruim. Não ter a quem recorrer. Não sentir que alguém realmente precisa de você... Ficar sozinho é algo que eu não desejo para ninguém, Rin.

Foi quando seu irmão apareceu. Em poucas palavras, ele foi um raio de sol na escuridão que estava a minha vida. No inicio era meio incomodo. Ele me seguia pra todos os lugares, ficava me perguntando várias coisas... Imagine... Até “se convidar” pra dormir na minha casa ele se convidava. Nesses dias, pedíamos pizza e jogávamos videogame. Aos poucos ele foi se tornando mais e mais importante para mim.

O que eu podia fazer? Me apaixonei, oras... Ele era tão importante, tão essencial que eu sentia que se não estivesse com ele meu mundo inteiro poderia desabar. Ele era o meu anjo da salvação. Estar com ele era sempre maravilhoso e eu sempre queria mais e mais.

Foi quando começou a acontecer... Começou com pequenas coisas: Esbarrões nos corredores, tropeços que faziam minhas coisas caírem no chão, o sumiço dos meus sapatos de andar na escola... Depois, lixo no meu armário, pequenos animais mortos em cima da minha mesa. Então, uma carta foi deixada no meu armário dizendo que, se eu não me afastasse do Len, coisas piores poderiam me acontecer.

Eu contei tudo para o Len. E nós nos afastamos por um tempo. O amor que eu tinha, virou uma amizade fraternal, respeito e carinho. As agressões pararam. E tudo voltou ao normal, na medida do possível.”

– Kaito... Você sabe quem estava fazendo essas coisas com você?

– Eu desconfiava, mas nunca pude provar nada.

Olhei para o chão e suspirei. Hora de me abrir com alguém sobre o que estava acontecendo. Ao final, lágrimas banhavam o meu rosto e meu nariz estava tão entupido que eu mal conseguia respirar.

Kaito me abraçou forte e eu agarrei o uniforme dele, chorando copiosamente. Eu não agüentava mais! Aquele rato na minha mesa tinha sido a gota d’água.

O toque do Kaito nos meus cabelos era tão gentil. Ele sabia exatamente o que eu estava sentindo. Tinha sentido na pele a reação raivosa das pessoas. Passado por tanto quanto eu.

Ele me abraçou até que eu me acalmasse. Depois, beijou minha testa com delicadeza, olhou nos meus olhos, segurando meus ombros e sorriu.

– Tudo vai ficar bem, Rin-chan. Você tem a mim, ao Len e tenho certeza que aquele seu amigo, Piko, também faria de tudo pra te ajudar.

Sorri de volta para ele. Kaito passou os dedos pelo meu rosto, limpando minhas lágrimas.

– Agora, vá ao banheiro limpar esse rosto. Daqui a pouco você vai ficar com os olhos inchados e o Len vai querer saber o que diabos eu fiz com você.

Nós dois descemos em silêncio. Kaito me acompanhou até a entrada do banheiro e depois foi para sua sala. Enquanto lavava o rosto, eu pensava no que ele tinha me dito.

Era engraçado. Kaito parecia tão bobo e despreocupado. É difícil imaginar que o coração dele já tenha sido tão machucado. Talvez, quanto mais uma pessoa for ferida, mais gentil ela fica. Por que ela passa a entender a dor que alguém sente quando é ferido. Kaito, na realidade, é muito, muito gentil.

Entrei na sala e estranhei que Piko ainda não estava lá. Geralmente ele chega antes de mim. Foi quando notei que outra coisa não estava lá: Minha classe.

“De novo?” Pensei, enquanto ia ao lado de fora para trazer a classe para dentro. Mas, para minha surpresa, a mesa não estava no corredor.

– Procurando alguma coisa? – Ouvi alguém dentro da sala dizer.

Era uma voz feminina. Claro, só podia ser uma menina...

Suspirei e voltei para classe. Estava quase perdendo as estribeiras quando Piko-kun chegou, acompanhado de uma pessoa que eu não conhecia e do Leon-sensei.

– Certo, todos sentados para começar a aula... Kagamine-kun, sente-se por favor. – Leon-sensei disse.

– Isso vai ser impossível, sensei. Parece que a minha classe foi dar uma volta e ainda não voltou. – Respondi.

– Como assim?

– Sumiram com a sua mesa de novo, Rin? – Piko perguntou.

Leon-sensei suspirou.

– Ei, ei... Esse é o tipo de primeira impressão que querem passar para a professora nova?

A mulher que acompanhava Piko e Leon-sensei deu um passo à frente e sorriu.

– Muito prazer, sou Miriam. Serei a nova professora de língua japonesa de vocês. Quer dizer então que uma classe sumiu?

– Ela não sumiu. Ela pensou que fosse um pássaro e resolveu voar. Olha ela espatifada La embaixo!

Luo foi a primeira que viu a mesa. Todos foram até a janela olhar o triste fim da minha mesa. La embaixo, toda espatifada, tampo para um lado, pernas para outro...

– Quem fez isso? – Leon-sensei perguntou.

– Ninguém viu, sensei. Quando chegamos a mesa já não estava mais aí. Até demos pela falta, mas como não é a primeira vez que isso acontece...

– Vocês não são mais crianças do ginásio. Está na hora de começarem e se comportar como tal. Se um culpado não aparecer, toda a classe será punida. E com isso, eu quero dizer: Nada de viagem escolar.

Todos gemeram que não era justo e não sei mais o que. Eu estava mais preocupada com o fato da minha mesa ter sido atirada do segundo andar e ninguém ter visto nada.

– Kagamine-kun, me acompanhe, por favor. – Disse o Leon-sensei.

– Sim...

– Sensei! Se for para pegar uma mesa nova, a Rin não pode. Ela não pode fazer força. Deixe que eu vou. – Piko, muito solicito, se ofereceu.

– Não era bem isso, mas tudo bem. Kagamine-kun, no final das aulas vá à sala dos professores.

Fiz que sim com a cabeça.

– Por enquanto, sente na minha mesa, Rin, enquanto eu busco uma nova para você. – Piko sorriu e saiu.

– Muito bem, vamos começar a aula. Quem é o encarregado do dia? Preciso que, na hora do almoço, busque alguns materiais para a aula da tarde... – Disse a nova professora, Miriam-sensei.

Eu era a encarregada do dia e, depois que voltou da tarefa de pegar uma nova mesa para mim, Piko-kun se ofereceu para me ajudar com as tarefas.

Fomos até a sala dos professores para pegar o material e levá-lo até a sala, dividir as cópias e distribuir para os colegas.

No meio do caminho, um garoto veio falar conosco.

– Você é a Kagamine-kun, do 1° ano, certo? – Ele perguntou.

– Sim, sou eu.

– Bem que disseram que seria fácil reconhecer você. Loira, cabelo bem comprido, baixinha... Uma garota do 3° ano perguntou se você poderia ir conversar com ela. Parece que tinha a ver com o seu irmão.

– O Len-kun? Hm... Precisa ser agora? Estou no meio das tarefas.

– Pode deixar que eu termino aqui. Vá lá. Pode ser importante. – Piko me disse.

– Okay, obrigada. Fico te devendo essa. – Sorri para ele.

– Ela pediu que você a encontrasse atrás da escola.

– Hm... Ta. Obrigada.

O garoto deu as costas e foi embora.

Entreguei as cópias para o Piko-kun e fui onde tinham me chamado. No caminho, fiquei me perguntando quem poderia querer falar comigo sobre o Len. Eu não conhecia ninguém do 3° ano... AH! E se fosse uma menina querendo saber se ele tem namorada??? Grr... Não gostei disso.

Quando cheguei ao local, não tinha ninguém. Será que a garota tinha desistido?

Então, uma dor aguda nas costas. Cai de joelhos, apoiando o corpo no chão com as mãos. Olhei para cima. Três garotas (reconheci pelo uniforme) usando mascaras pretas me cercavam. Uma mão gelada agarrou meu coração com a súbita compreensão do que estava acontecendo. Muito provavelmente eram elas as culpadas pelos últimos dias de sofrimento e humilhação que eu passei.

– Então, vieram mostrar as caras sujas... O que foi? Cansaram de me atacar no anonimato??

Pra que, meu Deus, eu fui abrir a minha boca? Uma delas me chutou as costas e eu fiquei deitada no chão.

– Calada, vadia. Cachorras não falam, só latem!

– Gostou do que aconteceu com a sua mesa? Quem sabe da próxima vez a gente não joga você – As três riram.

– Nós vamos te ensinar que nesse colégio não é qualquer vira-lata que chega perto do nosso príncipe. – Uma disse.

– Do que vocês estão falando?? – Tentei me levantar, mas novamente fui chutada ao chão e a criatura ainda ficou com o pé em cima de mim.

Elas deram uma gargalhada. Ugh... Estava começando a me sentir mal.

– Quem você pensa que é para viver grudada no príncipe do 2° ano, Len-sama?

– A IRMÃ DELES SUAS RETARDADAS! – Gritei com toda a força que tinha.

– Não nos interessa se é irmã. Aliás, eu duvido que você seja mesmo irmã dele. – Outra falou.

– E não tem ninguém aqui falando com você, desgraçada.

Chutaram-me do lado do corpo. Malditas! Escondendo o rosto, sempre agindo nas sombras, usando de subterfúgios...

– O que nós vamos fazer com você? Alguma idéia, meninas?

– Que cabelo comprido e bem cuidado. Seria uma pena se alguma coisa acontecesse com ele, pra começar.

As três riram.

– Sabe, eu acho que nem as hienas riem tanto quanto vocês... – Tive a audácia de dizer.

Era inútil, eu tentava ganhar tempo mantendo uma conversa com elas, mas no fundo eu sabia que ninguém viria. Eu não tinha como escapar. Não tinha força para enfrentá-las. Não tinha fôlego para sair correndo.

– Não adianta gritar. Acha mesmo que alguém vai te ouvir? Ninguém entende cachorrês!

– Ninguém quer incomodação. Ninguém vai vir te ajudar. Você está sozinha!

Duas delas me seguraram pelos pulsos e me prenderam contra a parede.

– Ah, e ficar se mexendo muito pode não ser uma boa idéia. Eu posso acabar cortado a sua orelha.

Não tinha mais escapatória. Eu não conseguiria fugir delas. Estava com tanta dor. E agora, medo! Medo do que estava para acontecer.

– Len... – Eu chamava baixinho.

– Não adianta chamar. – Uma das que estava segurando meu pulso disse. – Ele não vai vir. Ele nem ao menos gosta de você. Ninguém gosta de você. Você não passa de um estorvo que deveria sumir da face da Terra. Porque você não morre de uma vez?

E então, as lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto enquanto via as mechas do meu cabelo cobrindo o chão. Era verdade. Ninguém tinha vindo. Eu tinha sido pega numa emboscada. Nem Piko, nem Kaito, nem Len, nem ninguém.

...

– RIN!!!

Eu ouvi a voz do Len me chamando. As três pararam o que estavam fazendo e olharam para onde eu achava que tinha ouvido a voz me chamar.

– Tsc, alguém está vindo.

– Vamos embora!

As três me soltaram e saíram correndo para o lado contrário de onde a voz estava vindo. Eu, exausta de chorar, só deixei-me cair no chão. As lágrimas ardiam em meus olhos.

– Rin-chan!

Uma voz de mulher que eu não conhecia. Quem era? Meus olhos estavam embaçados e eu me sentia fraca demais.

Notas finais
Gente! Desde que eu comecei essa fic eu sonhava com essa cena! Aqui a Rin começa a ter aquela aparência que estamos acostumados. No próximo capítulo: Len bola um plano para desmascarar os culpados. Uma verdade a muito tempo escondida vem a tona. Como Len vai lidar com essa descoberta? Não percam no próximo capítulo, Quarta dia 02 de Abril às 09h! Capítulo 22 - Plano