Kadamon, A Travessia
17 Canto 17
Mais minutos se passaram antes da pequenina mudar de posição, ameaçando partir, agitando o mendeva do confortável torpor contemplativo em que mergulhara.
“Para onde vai?”
“Para a biblioteca de Nokto”
“Mas vai perder o isso aqui?” o mendeva não compreendia.
“Ao contrário, quero olhar mais, mas estou farta de ficar de pé. Na biblioteca há um anexo todo envidraçado, com deliciosos divãs. Elas vão ainda passar por algumas horas, não se preocupe. Vamos acompanhar de lá. A propósito, amanhã será o primeiro dia do inverno.”
Kyrion sorria, pois entendera perfeitamente o que a pequena dissera mais cedo sobre fenômenos difíceis de ignorar. O sinal fora bastante perceptível. Quase histérico.
Ao final da ponte, uma agitação mínima nos longos cabelos do mendeva, soltos que estavam por ter saído às pressas, o fez parar. Olhando de lado, viu uma borboleta, admiravelmente minúscula pousada nos fios. Esta passou facilmente para seu dedo estendido, e lá ficou, indecisa sobre voar de novo.
“Ora, essa pequenina deve ser inexperiente. Provavelmente é seu primeiro voo, por isso esbarrou em você.” Aciru mirava com carinho a pequena partícula viva de luz branca. “Ou então você é particularmente interessante para ela.”
Kyrion ignorava o motivo da visita, mas isso lhe fez pensar sobre o que era agir contra a corrente. Simplesmente parar. Parar em uma torre por algum tempo, antes de seguir seu caminho. Não era isso o que ele estava fazendo?
Quando a pequenina alçou voo, e se perdeu em meio à multidão de suas companheiras, o mendeva pensou no momento em que, também ele, haveria de partir.
***
A biblioteca de Nokto dificilmente ficava em absoluto silêncio, mesmo que poucas palavras fossem ouvidas; o virar de páginas, passos abafados na madeira, o ranger suave de uma janela abrindo, o baque surdo de um livro pesado sendo depositado sobre a mesa. Toda uma miríade de sons habitava o local simplesmente porque ele nunca ficava vazio, em nenhuma hora do dia ou da noite.
Mas aquele dia era uma exceção. Todos deviam ter saído para apreciar melhor a passagem das borboletas, uma vez que nenhuma janela se voltava na direção que elas tomavam. Livros abertos em várias mesas confirmavam essa hipótese.
Aciru entrou calmamente, seguida por um Kyrion incomodado pelo silêncio opressor. A biblioteca parecia ainda mais imponente e formal que o usual, quase sagrada.
A pequena adiantou-se para o local onde ficava a escrivaninha de Nokto. Atrás dela, uma pequena parede que sempre portava um quadro: o último presente que o senhor Arborie oferecera ao bibliotecário. Ao redor da tela, prateleiras com livros, que só eram interrompidas pelas portas que levavam a outras salas de leitura.
Aciru contornou a escrivaninha e começou a ler rapidamente as lombadas dos volumes à direita do quadro.
“O que quer encontrar? Talvez eu possa ajudar.” Kyrion inclinou-se para ver os livros mais próximos. Notou pela primeira vez que, diferentemente de todos os demais da biblioteca, impecavelmente organizados por título, tema ou mesmo autor, estes pareciam guardados sem qualquer critério que os relacionasse: Canções de primavera, Poesia e contos de Avellik, Obras de pintores da Torre de Orion, cinco volumes com o título Grandes mestres da Música em Kadamon, Admo e Circe: um romance, Jardinagem para Pequenos Espaços, Deftons: um olhar amoroso...
“Você não poderá me ajudar. Não lembro bem o título do livro... acho que era pequeno, vermelho...” Aciru continuava concentrada em sua busca.
“O que são ‘Deftons’?” Kyrion perguntou.
“São grandes, ah... deftons? Onde viu esse livro?”
“Bem aqui.”
“Ah, os benditos deftons...” Aciru esticou o braço e alcançou o livro, puxando-o para si. Atrás dele havia uma pequena esfera de madeira presa ao fundo da estante. “Por favor, primeiro puxe-a para si, depois gire. Tenho que me esticar demais.”
“Você diz a esfera?”
“Esfera? Ah, sim. É, a maçaneta, o que mais seria?” Aciru devia estar mesmo distraída, pois deixara passar a oportunidade de ser irônica.
Kyrion fez como instruído, primeiro puxando a esfera com a mão, sentindo-a deslizar suavemente em um eixo, e então a girou, provocando um discreto estalo. No mesmo instante, uma sessão de prateleiras ficou macia em seus trilhos, e Aciru empurrou-a para trás, para dentro da suposta parede. Depois de deslizar alguns centímetros, a lateral esquerda encaixou-se em dobradiças, tornado toda aquela sessão uma espessa e alta porta, repleta de livros.
Por um momento o mendeva imaginou um caminho escuro e secreto, possivelmente uma escada que descesse em vários lances para confins obscuros, mas era justo o contrário. Uma agradável claridade atingiu-os, provindo de muitas lamparinas de vidros coloridos, e o caminho era uma singela escada de madeira clara para cima.
Poucos degraus depois, desembocaram em uma ampla e bela sala.
***
A sala tinha três paredes totalmente revestidas em madeira cor de mel; a da porta por onde passaram e as duas laterais, que traziam também duas imensas tapeçarias. À esquerda, uma árvore belíssima, centenas de galhos e milhares de folhas retratadas em seus incontáveis matizes, contra um céu azul pontilhado de nuvens e a silhueta de pássaros. À direita, outra tapeçaria igualmente marcante e infinitamente trabalhosa: as borboletas brancas passando na frente de pequenas torres, um número quase impossível de imaginar, todas em tamanho real. Essas duas obras teriam facilmente levado alguns anos na vida de alguém, ou o labor diário de muitas mãos. Em Kadamon, no entanto, não era tão difícil conceber um habitante que tivesse tal tempo disponível, entre tantos que cruzam os séculos.
Talvez ainda mais bela que as tapeçarias fosse a última parede, estendendo-se bem à frente de Kyrion e Aciru. Esta era totalmente de vidro, dividida em vários quadrados em finas molduras da mesma madeira cor de mel. Em frente a esta parede, dois largos sofás, posicionados para a contemplação.
Através das grandes vidraças, viam-se as milhares de borboletas, as reais, que de tão suaves, belas e cintilantes, deixavam um pouco mais opaca sua representação em linha e lã.
“Demoraram um pouco, mas previ essa possibilidade.” Nokto estava sentado num dos sofás, olhando as borboletas, com uma xícara nas mãos. “Imaginei que Kyrion a procuraria, Aciru, e que você levaria alguns minutos explicando a história das borboletas migratórias. Depois, viriam para cá, e perderiam mais alguns instantes enquanto procuravam pelo livro certo, que você sempre esquece.” O meio sorriso parecia claro ao Kyrion, mesmo com o amigo de costas.
Aciru bufou, atravessando a sala e sentando-se no mesmo sofá que Nokto. “Você vive mudando o livro que cobre a maçaneta.”
“Mas já é o mesmo livro nos últimos três anos. Além do mais, a maçaneta não muda de lugar. É só lembrar onde ela fica.”
A pequena abanou a mão, num gesto de desdém pelos detalhes insignificantes, seus dedos dizendo ‘Mas estamos aqui, não é mesmo?’
Enquanto isso, Kyrion ainda estava no meio da sala, seus olhos passeando em três direções distintas, contemplando as obras feitas por pessoas e o espetáculo da própria natureza.
Pensou primeiro como uma sala daquele tamanho poderia ficar escondida, despercebida dos demais. Mas ela não estava de fato escondida, apenas sua entrada estava. Ele mesmo já vira parte daquela imensa vidraça, mas nem cogitara que havia qualquer comunicação com a biblioteca. De fato, talvez nem tivesse reparado que ambas ficavam próximas.
O refúgio – pois não podia imaginar outro nome para aquele espaço – era perfeitamente adequado para seu dono. Elegante, grave com seu pouco mobiliário, um tanto solene, mas confortável. E ainda mais silencioso e ameno que a biblioteca. Para quem trabalha o tempo todo, a biblioteca não parecia mesmo um local de repouso, como parecia a todos os visitantes. Aquele sim era o espaço ideal para um retiro.
“Por favor, Kyrion, sirva-se de chá, e traga uma xícara para Aciru. Está sobre a mesinha, próximo à tapeçaria da grande árvore” A voz de Nokto cortou-lhe os pensamentos.
“Mas aí haverá pouco para você.” Respondeu o mendeva.
“Há muitos anos já faço chá para duas pessoas. Pela primeira vez, fiz para três.”
***
“Qual o critério para a arrumação dos livros que ficam atrás de sua escrivaninha?” “Então acredita mesmo que estão organizados?”
“Tenho certeza. Eu o conheço bem o bastante para saber que não deixaria nada desorganizado, muito menos em seu ambiente de trabalho.”
“Ora, fico duplamente lisonjeado. Sou grato pelo elogio à minha eficiência, e por ser considerado digno de sua observação tão atenta. Sim, você está certo. Há um critério.”
“E qual é?”
“São todos os livros que mais leio. Não necessariamente todos os que considero como os melhores, mas sim aqueles que, por uma razão ou outra, ou mesmo por comodidade, recorro com maior frequência para fazer uma consulta ou para me distrair um pouco. Seria improdutivo mantê-los mais longe, veja bem, pois perderia o tempo de me mover até eles.”
“Então todos aqueles livros são os seus livros ‘mais frequentes’?”
“Sim. Um motivo para selecioná-los é que eu já os tenha lido inteiros mais de uma vez, e consultado ao menos outras duas vezes.”
“Eu notei que havia uma história em quadrinhos.”
“Sim. Qual chamou sua atenção?”
“Então há mais de uma?”
“Sim. Há trinta e duas. Mas diga, qual chamou sua atenção?”
“Ah... foi ‘As brumas que vestem os anjos’”
“Uma história formidável sobre mortais que são orientados por seres celestes enquanto travam uma magnífica jornada. O original foi feito à mão em nanquim ao longo de quinze anos, e é um livro com algumas centenas de anos agora.”
“Sua cópia tem também bastante idade...”
“Tenho quatro cópias na biblioteca. O que viu em minha estante é o original.”
“...”
“Quer mais chá?”
“Você nunca vai parar de me assombrar.”
“Espero que não, pois isso me faria desinteressante. Mas lhe assombra que eu tenha algumas preciosidades na biblioteca?”
“E que leia quadrinhos. Centenários. Mas quadrinhos.”
“Não seja preconceituoso. Unem literatura e arte visual, caracterizando dramaticamente o estilo único de seu autor.”
“Nokto, não tente estragar minha surpresa. Deixe que eu saboreie o fato que você lê quadrinhos.”
“Pois bem. Veja, Aciru dormiu.”
“Posso perguntar outra coisa?”
“Quantas quiser.”
“O que são deftons?”
“Seres não sencientes, cobertos por pelos sedosos e com uma cauda longa, pequenas orelhas triangulares, mais ou menos da altura de meus joelhos. São onívoros, simpáticos, higiênicos e silenciosos, criados e mantidos como companhia doméstica.”
“Animais de estimação?”
“Não uso o termo porque muitos o consideram pejorativo.”
“Bom, eu sou peludo, com uma cauda longa e não me sinto ofendido.”
“Nem todos são tão compreensivos, Kyrion.”
“E quer ter um defton?”
“Já pensei muito na hipótese, mas sempre me desmotivo antes de pedir a alguém que traga um para mim. Eles vêm de um mundo somente. Mas temo não ter tempo para lhe dar a devida atenção.”
“Compreendo.”
“Há também outro motivo.”
“E qual é?”
“Se não devidamente adestrados, podem desenvolver o perigoso hábito de comer papel.”
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